{"id":24745,"date":"2020-01-22T23:20:56","date_gmt":"2020-01-23T02:20:56","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24745"},"modified":"2020-01-22T23:20:56","modified_gmt":"2020-01-23T02:20:56","slug":"o-mundo-dos-sonhos-e-o-sangue-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24745","title":{"rendered":"O mundo dos sonhos e o sangue negro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/i.imgur.com\/8NzHNbQ.png\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Jones Manoel, militante do PCB de Pernambuco<\/p>\n<p>Uma carta aberta para Tatiana Dias e Rafael Moro Martins<\/p>\n<p>Dois jornalistas, no The Intercept Brasil, me criticaram em um escrito chamado &#8220;Elogiar ditadores \u00e9 a melhor maneira de a esquerda continuar perdendo&#8221;. No escrito, criticam, tomando como mote principal uma postagem da deputada do PSOL Tal\u00edria Petrone em homenagem a L\u00eanin, a &#8220;esquerda que homenageia ditadores&#8221;.<\/p>\n<p>Eu sou citado (com nome errado) nesse trecho: &#8220;O historiador e influenciador marxista Jones Manuel n\u00e3o corou em falar publicamente que matar pessoas em uma revolu\u00e7\u00e3o &#8216;\u00e9 uma conting\u00eancia que acontece'&#8221;. Em seguida, os dois jornalistas, com uma t\u00edpica ironia liberal, dizem: &#8220;Fuzilar uma fam\u00edlia aqui, matar outros tantos milh\u00f5es de fome ali, torturar e assassinar indiscriminadamente e promover o terror entre os dissidentes. Assim mesmo. \u00c9 normal, efeito colateral.&#8221;<\/p>\n<p>Muitas coisas podem ser comentadas a partir desse escrito. Vamos come\u00e7ar com o b\u00e1sico: em um escrito sobre n\u00e3o homenagear ditadores n\u00e3o existe, em nenhum momento, um debate ainda que m\u00ednimo sobre o conceito de ditadura e democracia. Bem ao gosto do jornalismo apressado, raso e superficial, no lugar do debate conceitual sobre o que se est\u00e1 chamando de democracia, temos um vazio. Por\u00e9m, na pol\u00edtica e no universo, n\u00e3o existe de verdade um espa\u00e7o vazio. Esse espa\u00e7o \u00e9 preenchido pelo senso comum liberal que brota sobre todos os poros do artigo.<\/p>\n<p>A prova disso \u00e9 que, ao citar uma ditadura, o exemplo buscado \u00e9 o da Venezuela. Pouco importa se a Col\u00f4mbia, crivada de bases militares dos Estados Unidos, bate recordes seguidos no assassinato de jornalistas, defensores dos direitos humanos, sindicalistas, camponeses, militantes e comunistas. Os comunistas, inclusive, nunca podem ser vistos como v\u00edtimas. Apenas como vil\u00f5es em potencial sempre prontos a aplicar o totalitarismo e matar a democracia.<\/p>\n<p>Os dois jornalistas, com a profundidade de um pires quebrado, citam um referencial te\u00f3rico: o livro &#8220;Como as Democracias Morrem&#8221;. Bem, esse panfleto divulgado no Brasil com o benepl\u00e1cito de FHC afirma, dentre outros absurdos, que Hugo Ch\u00e1vez era um ditador e chega a insinuar uma compara\u00e7\u00e3o do l\u00edder bolivariano com Hitler. No fant\u00e1stico mundo do liberalismo, Hugo Ch\u00e1vez \u00e9 um ditador do mal, mas um sujeito como Bush respons\u00e1vel por declarar uma guerra ilegal contra o Iraque baseado em uma mentira (quem sabe as armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa n\u00e3o est\u00e3o na casa de FHC) ou Obama, respons\u00e1vel pela destrui\u00e7\u00e3o da L\u00edbia, o pa\u00eds at\u00e9 ent\u00e3o com maior IDH da \u00c1frica, n\u00e3o s\u00e3o ditadores; ao contr\u00e1rio: belos democratas que sabem que a democracia n\u00e3o se aplica aos b\u00e1rbaros n\u00e3o brancos da periferia do sistema.<\/p>\n<p>Tatiana e Rafael devem ser dois pacifistas. Talvez descendentes diretos de Mahatma Gandhi. Eles se escandalizam porque eu afirmo que numa revolu\u00e7\u00e3o, pessoas morrem. Essas belas almas, consci\u00eancias t\u00edpicas da Esquerda Ita\u00fa no estilo Tabata Amaral, conseguem, por\u00e9m, todo dia dormir tranquilos com mais de 60 mil assassinados todos os anos e o maior sistema carcer\u00e1rio do mundo em termos relativos. Todo santo dia, as for\u00e7as do Estado est\u00e3o matando, &#8220;atirando na cabecinha&#8221;, prendendo de forma ilegal. S\u00e3o mais de 260 mil presos sem ao menos passar por um julgamento no sistema carcer\u00e1rio brasileiro. Sem falar dos que morrem de fome ou nas filas dos hospitais, as que definham mais r\u00e1pido por uma vida cheia de priva\u00e7\u00f5es e trabalhos horr\u00edveis, os assassinados no campo. Todo ano, no Brasil, juntando todas as mazelas, quase 100 mil pessoas est\u00e3o indo para vala: quase todos pobres, quase todos negros, quase todos jovens, quase todos favelados.<\/p>\n<p>A despeito desse mortic\u00ednio e alguns detalhes como, volta e meia, um grande monop\u00f3lio tirar do mapa uma cidade (lembra de Brumadinho?), temos um belo Estado de Direito, democracia, Constitui\u00e7\u00e3o, institui\u00e7\u00f5es. Eu, o stalinista do mal, quero, veja s\u00f3, introduzir a viol\u00eancia na pol\u00edtica. Eu quero negar o di\u00e1logo intersubjetivo constitutivo &#8211; e ontol\u00f3gico? &#8211; da bela pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n<p>Tatiana e Rafael devem ser grandes admiradores de Hannah Arendt. A filosofa famosa pelo seu livro &#8220;As origens do totalitarismo&#8221;, ao celebrar a liberdade e a revolu\u00e7\u00e3o americana, &#8220;esqueceu&#8221; um pequeno detalhe: a escravid\u00e3o e o regime de segrega\u00e7\u00e3o racial Jim Crow. Um belo dia, por\u00e9m, os negros dos EUA decidiram lembrar que viviam na p\u00e1tria da liberdade um &#8220;racismo totalit\u00e1rio&#8221; (conceito de Fanon, autor pouco lido no Instituto FHC!) e protestar. Alguns desses negros, esses malditos negros n\u00e3o liberais, decidiram usar a viol\u00eancia na sua luta. Hannah Arendt afirmava que a viol\u00eancia \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e criticou os &#8220;radicais&#8221; do movimento negro dos EUA. Mas calma! Se a viol\u00eancia \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, isso significa que nos Estados Unidos da escravid\u00e3o e do Jim Crow nunca existiu pol\u00edtica, dado que esses regimes s\u00e3o baseados na viol\u00eancia? \u00c9 claro que n\u00e3o! Para Hannah Arendt isso \u00e9 apenas defeito pequeno, conting\u00eancia, detalhe. A viol\u00eancia come\u00e7a com Malcolm X &#8211; maldito radical!<\/p>\n<p>No fant\u00e1stico mundo de Tatiana e Rafael eu n\u00e3o posso falar que as pessoas morrem em uma revolu\u00e7\u00e3o. Sou como um c\u00e2ncer em met\u00e1stase na esquerda. Mas as pessoas, tipo a menina \u00c1gatha F\u00e9lix ou o menino Eduardo, podem morrer no hoje, no agora, que isso n\u00e3o macula em nada o car\u00e1ter democr\u00e1tico de nossa democracia.<\/p>\n<p>Casos como o do pedreiro Amarildo ou Carandiru? Simples falhas que um dia, com a gra\u00e7a de Deus, v\u00e3o ser corrigidos. N\u00e3o sabemos quando, talvez no dia que Bush descobrir as armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa no Iraque ou o continente africano seja restitu\u00eddo por s\u00e9culos de colonialismo. Enquanto isso o sangue derrama, derramar\u00e1 mais, e o &#8220;tiro na cabecinha&#8221; continua. E viva o liberalismo.<\/p>\n<p>Nesse meio tempo, por\u00e9m, \u00e9 dever de todos os cidad\u00e3os de bem devotos de Jonh Locke (pai do liberalismo pol\u00edtico e defensor da escravid\u00e3o) excomungar os stalinistas, os radicais, os violentos. E se um dia aparecer um Malcolm X em terras brasileiras, estaremos todos juntos, com Wilson Witzel, Jo\u00e3o D\u00f3ria e o bras\u00e3o da Pol\u00edcia Militar, gritando viva a democracia e sem viol\u00eancia!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24745\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[4],"tags":[224],"class_list":["post-24745","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s6-movimentos","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6r7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24745","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24745"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24745\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24745"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24745"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24745"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}