{"id":2479,"date":"2012-03-02T20:18:03","date_gmt":"2012-03-02T20:18:03","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2479"},"modified":"2012-03-02T20:18:03","modified_gmt":"2012-03-02T20:18:03","slug":"a-caminho-dos-altares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2479","title":{"rendered":"A caminho dos altares*"},"content":{"rendered":"\n<p><span>A ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica hegem\u00f3nica (ou seja, a dos EUA) h\u00e1 muito participa activamente do esfor\u00e7o de reescrita e de falsifica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Agora \u00e9 a vez da sr\u00aa Thatcher. O recente filme \u00e9 um aut\u00eantico passo para a beatifica\u00e7\u00e3o laica da senhora, para a sua condu\u00e7\u00e3o a imagin\u00e1rios altares. Pelo que parece necess\u00e1rio revisitar a verdade hist\u00f3rica. E vacinarmo-nos assim contra o v\u00edrus da selvajaria neoliberal que ele de facto transporta e que pretende, novamente, glorificar.<\/span><\/p>\n<p>1. N\u00e3o recordo, nem isso \u00e9 que mais importa, quem h\u00e1 dias, falando na TV, com raz\u00e3o ou sem ela nomeou as tr\u00eas figuras da vida p\u00fablica internacional que mais decisivamente contribu\u00edram para a derrota da URSS. L\u00e1 estava, no lugar de honra que sem d\u00favida merece, Jo\u00e3o Paulo II, o papa que sucedeu \u00e0 morte inesperada e sem d\u00favida providencial de Jo\u00e3o Paulo I. Uma outra figura do apontado triunvirato seria, se a mem\u00f3ria n\u00e3o me engana, o presidente Reagan, esse santo homem que decerto est\u00e1 agora sentado \u00e0 m\u00e3o direita de quem lhe ter\u00e1 inspirado as decis\u00f5es, provavelmente partilhando a mesma nuvem com o pont\u00edfice polaco. A terceira personalidade desse triunvirato ter\u00e1 sido Margaret Thatcher. A invoca\u00e7\u00e3o desta sant\u00edssima trindade foi feita a prop\u00f3sito do filme brit\u00e2nico \u00abA Dama de Ferro\u00bb, agora tamb\u00e9m nos ecr\u00e3s portugueses, muito moderadamente aplaudido pela cr\u00edtica cinematogr\u00e1fica, que obviamente \u00e9 quem sabe de tais coisas, mas j\u00e1 candidato pelo menos a um \u00d3scar de Hollywood, o que desde j\u00e1 lhe confere algum estatuto de excepcionalidade e a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. A partir dele e do seu j\u00e1 conseguido \u00eaxito medi\u00e1tico, decorre um movimento de reeditada admira\u00e7\u00e3o pela Thatcher e, inevitavelmente, pelo thatcherismo, isto \u00e9, pela brutalidade pol\u00edtica a que a antiga primeira-ministra se aplicou e de que se tornou s\u00edmbolo. \u00c9, mais uma vez, a utiliza\u00e7\u00e3o do cinema para propagandear junto de largu\u00edssimas massas uma ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica verdadeiramente sinistra cujas consequ\u00eancias, quer interna quer externamente, est\u00e3o longe de se terem dissipado. S\u00f3 por ingenuidade extrema, t\u00e3o extrema que pode ser confundida com um grau zero da perspic\u00e1cia, \u00e9 que se pode crer que a produ\u00e7\u00e3o deste filme n\u00e3o teve nada a ver com o objectivo de recuperar um pouco o prest\u00edgio do neoliberalismo puro e duro de que o chamado thatcherismo foi afinal um pseud\u00f3nimo. E \u00e9 muito claro que a promo\u00e7\u00e3o do filme na TV ou fora dele resulta em segundo grau na promo\u00e7\u00e3o do capitalismo na forma que a Thatcher lhe conferiu e que t\u00e3o maus frutos produziu n\u00e3o apenas para a Gr\u00e3-Bretanha mas tamb\u00e9m para o mundo inteiro.<\/p>\n<p>2. \u00c9 sabido por quem o queira saber que a obra da Thatcher teve como suposto t\u00edtulo de maior gl\u00f3ria a apregoada derrota dos sindicatos brit\u00e2nicos e o refor\u00e7o dr\u00e1stico do poder do capitalismo brit\u00e2nico. Passados vinte anos, a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e financeira do reino \u00e9 uma desgra\u00e7a, embora n\u00e3o uma desgra\u00e7a que a todos toque por igual, bem longe disso. Os s\u00fabditos mais pobres de Sua Graciosa Majestade est\u00e3o mais pobres que nunca, com destaque nesta infeliz mat\u00e9ria para os milh\u00f5es de imigrantes de primeira ou seguintes gera\u00e7\u00f5es sobretudo origin\u00e1rios dos territ\u00f3rios que em tempos integraram o Imp\u00e9rio, m\u00e3o-de-obra barata, desprotegida e discriminada, mas sem que a sobreexplora\u00e7\u00e3o thatcheriana se limite a eles. A d\u00edvida externa brit\u00e2nica \u00e9 enorme e o d\u00e9fice da balan\u00e7a comercial \u00e9 uma calamidade sem rem\u00e9dio \u00e0 vista. Em dado momento, aparentemente para criar um factor de divers\u00e3o que afastasse as aten\u00e7\u00f5es da sua gest\u00e3o in\u00edqua e desastrosa, a criatura, isto \u00e9, a Thatcher, decidiu apostar na ressurrei\u00e7\u00e3o de anacr\u00f3nicos orgulhos imperiais e provocou a chamada Guerra das Malvinas, uma pequena tragicom\u00e9dia colonialista de todo impr\u00f3pria do tempo em que j\u00e1 se vivia. Na verdade, seria \u00fatil e muito adequado que, aproveitando esta notoriedade suscitada pelo filme, os media se aplicassem a fazer o arrolamento de todas actividades nefastas praticadas pela Thatcher, e repare-se na delicadeza com que me refiro aos seus crimes. Entretanto, como \u00e9 de regra ocorrer aos que t\u00eam ideias estreitas e poderes largos, Margaret era teimosa e n\u00e3o raramente agressiva, o que lhe valeu o cognome de \u00abdama de ferro\u00bb, apodo que deliciou os seus apoiantes por sugerir uma qualifica\u00e7\u00e3o de firmeza, como se a firmeza na pr\u00e1tica de maldades pudesse ser uma virtude. O facto \u00e9 que o seu desgra\u00e7ado exemplo e a sua ostensiva alian\u00e7a com o inomin\u00e1vel Reagan correram mundo, mascararam-se de m\u00e9rito e tiveram a ver com a crise que ainda hoje perdura e desgra\u00e7ou milh\u00f5es um pouco por todo o planeta. Chega agora o filme como um passo para a beatifica\u00e7\u00e3o laica da senhora, para a sua condu\u00e7\u00e3o a imagin\u00e1rios altares. Pelo que parece necess\u00e1rio revisitarmos a verdade hist\u00f3rica. E vacinarmo-nos assim contra o v\u00edrus que ele de facto transporta.<\/p>\n<p>*Publicado em Alentejo Popular, 18 de Fevereiro de 2012<\/p>\n<blockquote data-secret=\"xOKOn87H6U\" class=\"wp-embedded-content\"><p><a href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2394\">Dilma no Haiti: mais uma visita das aves de rapina<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2394\/embed#?secret=xOKOn87H6U\" data-secret=\"xOKOn87H6U\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Dilma no Haiti: mais uma visita das aves de rapina&#8221; &#8212; PCB - Partido Comunista Brasileiro\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nCorreia da Fonseca\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2479\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-2479","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-DZ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2479","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2479"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2479\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2479"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2479"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2479"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}