{"id":24838,"date":"2020-02-05T23:02:08","date_gmt":"2020-02-06T02:02:08","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24838"},"modified":"2020-02-05T23:02:08","modified_gmt":"2020-02-06T02:02:08","slug":"a-marcha-da-historia-foi-interrompida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24838","title":{"rendered":"A marcha da Hist\u00f3ria foi interrompida?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2020\/01\/blog-ilustra-guerra-outubro-1.jpg?w=620&amp;h=620\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Detalhe da capa do livro Guerra e revolu\u00e7\u00e3o: o mundo um s\u00e9culo depois de Outubro de 2017, de Domenico Losurdo.<\/p>\n<p>Por Diogo Fagundes<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 possibilidade de que um mundo novo surja sem que no meio da cat\u00e1strofe (as guerras e conflitos est\u00e3o cada vez mais frequentes) ocorra um novo Outubro de 1917? O que nos faz pensar que o capitalismo oferecer\u00e1 alternativas sem que haja contra ele um movimento comunista forte e polarizador?&#8221;<\/p>\n<p>Houve um per\u00edodo no s\u00e9culo passado em que parecia que a marcha da Hist\u00f3ria, de fato, progredia rumo a um mundo mais igualit\u00e1rio e menos perigoso.<\/p>\n<p>Foi o per\u00edodo que vai de 1945 at\u00e9 a rea\u00e7\u00e3o neoliberal dos anos 80. Apesar da Guerra Fria e suas decorr\u00eancias, havia quatro tend\u00eancias progressivas, nitidamente vis\u00edveis para qualquer observador, apontando para um futuro melhor.<\/p>\n<p>Esse per\u00edodo foi gerado por dois momentos decisivos protagonizados pelo movimento comunista: a revolu\u00e7\u00e3o russa de 1917 e a vit\u00f3ria da URSS contra o nazismo. A exist\u00eancia de um campo socialista forte, chegando a cobrir um 1\/3 da humanidade, obrigou o capitalismo a ser menos arrogante e menos selvagem, a fim de concorrer e brecar o avan\u00e7o do socialismo. Esse equil\u00edbrio era baseado em dois consensos: (i) o liberalismo absoluto gerava trag\u00e9dias sociais, portanto era necess\u00e1rio adotar pol\u00edticas redistributivas comandadas pelo Estado, o qual detinha grande poder de planejamento sobre suas economias; (ii) o colonialismo da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental constru\u00eddo ao longo da modernidade deveria ser destru\u00eddo para que os povos vivessem em fraternidade.<\/p>\n<p>Quais eram estas quatro tend\u00eancias?<\/p>\n<p>O socialismo real, a social-democracia nos pa\u00edses desenvolvidos e, na periferia, o nacionalismo revolucion\u00e1rio e o nacional-reformismo \u2013 este \u00faltimo recebeu nomes variados, como \u201cpopulismo\u201d, \u201cdesenvolvimentismo\u201d, etc.<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o era um mar de rosas e havia problemas de todo tipo, assim como os reacion\u00e1rios nunca deixaram de existir, mas de modo geral dava para ser otimista com o futuro da nossa esp\u00e9cie sem parecer um ing\u00eanuo.<\/p>\n<p>O evento decisivo para a revers\u00e3o destas quatro tend\u00eancias foi a derrota da URSS na Guerra Fria. Essa trag\u00e9dia determinou o avan\u00e7o das desigualdades (tanto das classes dentro dos pa\u00edses, quanto entre as na\u00e7\u00f5es), o avan\u00e7o da riqueza parasit\u00e1ria mais infame, a volta de guerras neocoloniais cada vez mais devastadoras (Iugosl\u00e1via, Iraque, L\u00edbia, S\u00edria, I\u00eamen, etc.), o avan\u00e7o da velha divis\u00e3o internacional do trabalho entre industrializados e prim\u00e1rio-exportadores.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que cada uma dessas tend\u00eancias pol\u00edticas possu\u00eda suas pr\u00f3prias for\u00e7as e limita\u00e7\u00f5es, mas elas s\u00f3 podiam existir devido \u00e0 for\u00e7a da URSS e a amea\u00e7a que ela representava para o capitalismo desenfreado. Sendo bem esquem\u00e1tico, estas tend\u00eancias eram as seguintes:<\/p>\n<p>1. O socialismo real, apesar de ter acabado com v\u00e1rios problemas do capitalismo (falta de moradia, desemprego, etc.) e ter constru\u00eddo uma estrutura de bem-estar social importante, se ossificou e perdeu dinamismo econ\u00f4mico e capacidade de criar uma democracia de massas verdadeira.<\/p>\n<p>2. A social-democracia gerou avan\u00e7os sociais consider\u00e1veis para os pa\u00edses do capitalismo desenvolvido, mas manteve o pendor colonial e euroc\u00eantrico \u2013 veja sua atua\u00e7\u00e3o deplor\u00e1vel na guerra de liberta\u00e7\u00e3o da Arg\u00e9lia contra a Fran\u00e7a, por exemplo \u2013, sendo linha auxiliar da direita contra o socialismo em diversos momentos da Guerra Fria, assim como perdeu a capacidade de compatibilizar, nos per\u00edodos de crise \u2013 a partir dos anos 70 \u2013, uma economia baseada no lucro e na propriedade privada com a manuten\u00e7\u00e3o e avan\u00e7o de uma estrutura de bem-estar p\u00fablico.<\/p>\n<p>3. O nacionalismo revolucion\u00e1rio, muitas vezes amalgamado com o socialismo (China, Vietn\u00e3 e Cuba s\u00e3o s\u00f3 os exemplos mais famosos) gerou um mundo no qual n\u00e3o havia mais espa\u00e7o para os antigos imp\u00e9rios coloniais, por\u00e9m, com raras exce\u00e7\u00f5es, n\u00e3o conseguiu fazer estes pa\u00edses sa\u00edrem da condi\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia econ\u00f4mica, pol\u00edtica e tecnol\u00f3gica, bem como gerou, em alguns casos, cria\u00e7\u00e3o de novas elites opressivas, desta vez de car\u00e1ter aut\u00f3ctone.<\/p>\n<p>4. O reformismo da periferia, que visava diminuir a dist\u00e2ncia dela em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses avan\u00e7ados, criou Estados nacionais de fato onde antes s\u00f3 existia uma federa\u00e7\u00e3o de oligarquias (o caso do trabalhismo brasileiro, peronismo argentino e o nasserismo eg\u00edpcio), industrializou pa\u00edses antes apenas prim\u00e1rio-exportadores, incorporou classes subalternas na pol\u00edtica, mas se deparou tamb\u00e9m com limita\u00e7\u00f5es e problemas graves, que v\u00e3o desde o personalismo exacerbado e autorit\u00e1rio at\u00e9 as crises cambiais decorrentes dos d\u00e9ficits no balan\u00e7o de pagamentos e a consequente infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pintei este quadro geral para que tenhamos no\u00e7\u00e3o que durante um per\u00edodo a humanidade teve um projeto, um horizonte comum, que s\u00f3 foi poss\u00edvel pela for\u00e7a do movimento comunista. De modo geral, quanto mais forte foi o movimento comunista (por exemplo, logo ap\u00f3s a vit\u00f3ria contra o nazismo) mais avan\u00e7os sociais e igualit\u00e1rios existiram, inclusive no centro do capitalismo avan\u00e7ado \u2013 lembremos do papel dos partidos comunistas italiano e franc\u00eas na consolida\u00e7\u00e3o de suas novas rep\u00fablicas, ap\u00f3s a lideran\u00e7a nas guerras de resist\u00eancia contra o nazismo.<\/p>\n<p>Este mundo tomado por revolu\u00e7\u00f5es vitoriosas, derrotas de ex\u00e9rcitos coloniais arrogantes por pa\u00edses pobres, reformas sociais e pol\u00edticas vigorosas, foi derrotado pelo fim do \u201cmundo socialista\u201d \u2013 facilitado por suas pr\u00f3prias fraquezas \u2013, que permitia que at\u00e9 mesmo no capitalismo avan\u00e7ado houvesse mais concess\u00f5es sociais e direitos. No lugar tivemos o n\u00e3o projeto, a aus\u00eancia de perspectiva. O individualismo hedonista, a competitividade ego\u00edsta, a separa\u00e7\u00e3o entre winners e losers, o retorno a guerras de agress\u00e3o coloniais, e outras tend\u00eancias t\u00edpicas da civiliza\u00e7\u00e3o liberal pr\u00e9-1914 retomaram o protagonismo.<\/p>\n<p>Tal conjuntura global s\u00f3 p\u00f4de existir porque antes dele tivemos 30 anos de cat\u00e1strofes, um dos per\u00edodos mais conturbados da hist\u00f3ria do capitalismo: duas guerras mundiais, o colapso liberal de 1929, o avan\u00e7o do fascismo e uma revolu\u00e7\u00e3o comunista vitoriosa.<\/p>\n<p>Isto nos obriga a pensar: h\u00e1 possibilidade de que um mundo novo surja sem que no meio da cat\u00e1strofe (as guerras e conflitos est\u00e3o cada vez mais frequentes) ocorra um novo Outubro de 1917? O que nos faz pensar que o capitalismo oferecer\u00e1 alternativas sem que haja contra ele um movimento comunista forte e polarizador? Veja como os \u201cgovernos progressistas\u201d da Am\u00e9rica Latina, at\u00e9 os s\u00f3lidos, como a Bol\u00edvia de Evo Morales, ca\u00edram f\u00e1cil, f\u00e1cil, por golpes e contrarrevolu\u00e7\u00f5es ou como a esquerda no centro do capitalismo \u00e9 bloqueada e tratada como uma anomalia inaceit\u00e1vel para as elites (ex: Jeremy Corbyn) \u2013 apenas o pensamento \u00fanico, o \u201cthere is no alternative\u201d da Thatcher \u00e9 aceitado como possibilidade.<\/p>\n<p>At\u00e9 para que haja reformismo sustent\u00e1vel a longo prazo, \u00e9 necess\u00e1rio que mais uma vez a hip\u00f3tese comunista seja defendida e experimentada, absorvendo e superando todas as li\u00e7\u00f5es apreendidas pelos \u00eaxitos e derrotas destas quatro tend\u00eancias citadas. Sem novos Outubros de 1917 n\u00e3o creio que haver\u00e1 algo a bloquear a tend\u00eancia inerentemente concentradora, desigual e destruidora do capitalismo. Este \u00e9 um dos desafios de nossa gera\u00e7\u00e3o: fazer com que ideias como \u201ccomunismo\u2019 e \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d voltem a fazer parte do l\u00e9xico pol\u00edtico corrente.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Diogo Fagundes \u00e9 estudante de Direito da USP<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2020\/01\/31\/a-marcha-da-historia-foi-interrompida\/\">A marcha da Hist\u00f3ria foi&nbsp;interrompida?<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24838\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[224],"class_list":["post-24838","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6sC","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24838","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24838"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24838\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24838"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24838"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24838"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}