{"id":24842,"date":"2020-02-05T23:09:12","date_gmt":"2020-02-06T02:09:12","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24842"},"modified":"2020-02-08T01:40:22","modified_gmt":"2020-02-08T04:40:22","slug":"dois-metodos-e-uma-decisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24842","title":{"rendered":"Dois m\u00e9todos e uma decis\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2020\/02\/mauro-iasi_lenin.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->L\u00eanin em G\u00f3rki, entre agosto e setembro de 1922. Fotografia retirada do caderno de imagens do livro Reconstruindo L\u00eanin: uma biografia intelectual, de Tam\u00e1s Krausz<\/p>\n<p>A poesia do futuro ou os fantasmas do passado?<\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 \u00e9 tempo de renunciar \u00e0 ideia de que esse manual<br \/>\ntinha previsto todas as formas de desenvolvimento futuro<br \/>\nda hist\u00f3ria mundial. J\u00e1 \u00e9 tempo de declarar aqueles que<br \/>\npensam desse modo como simples imbecis.\u201d<\/p>\n<p>Vladimir L\u00eanin, sobre o Manual de Kautsky, em janeiro de 1923.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo pol\u00edtico de L\u00eanin, pleno de todas as contradi\u00e7\u00f5es entre o velho e o novo, aponta para a poesia do futuro, ao passo que o stalinismo, enquanto m\u00e9todo pol\u00edtico, \u00e9 a conjura\u00e7\u00e3o de um passado mal superado.<\/p>\n<p>Uma das principais diferen\u00e7as entre as revolu\u00e7\u00f5es no geral e a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria \u00e9 o papel representado pelos chamados fatores subjetivos, isto \u00e9, o papel dos seres humanos que conscientemente querem transformar o mundo.<\/p>\n<p>Sabemos que toda revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o de determina\u00e7\u00f5es objetivas e subjetivas. No entanto, no caso da revolu\u00e7\u00e3o burguesa presenciamos um longo processo hist\u00f3rico no qual as condi\u00e7\u00f5es de seu dom\u00ednio econ\u00f4mico antecederam os movimentos pol\u00edticos que a levaram ao poder. J\u00e1 no caso da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, ainda que a materialidade aponte para a base sobre qual ser\u00e1 poss\u00edvel desenvolver novas rela\u00e7\u00f5es sociais, vemos uma dura e persistente luta em condi\u00e7\u00f5es materiais nas quais os trabalhadores n\u00e3o podem exercer ainda sua predomin\u00e2ncia econ\u00f4mica, uma vez que isso exige mudan\u00e7as significativas nas formas de propriedade e nas rela\u00e7\u00f5es sociais, o que por sua vez pressup\u00f5e a derrota pol\u00edtica da atual classe dominante.<\/p>\n<p>Isso implica em uma dimens\u00e3o muito mais acentuada do fator consciente e um verdadeiro problema para quem quer mudar o mundo. Marx intui esse fato de forma bem precisa em seu O 18 de brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte, quando afirma que a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria n\u00e3o pode tirar sua poesia a n\u00e3o ser do futuro. Nas suas palavras: \u201cela n\u00e3o pode come\u00e7ar a dedicar-se a si mesma antes de ter despido toda a supersti\u00e7\u00e3o que a prende ao passado (p. 28).<\/p>\n<p>Ocorre que os seres humanos enfrentam os problemas que se imp\u00f5em com as armas e os meios dos quais disp\u00f5em no momento \u2013 n\u00e3o podem ir busc\u00e1-las no futuro, como dizia Brecht, sendo assim obrigados a comer a nova carne com velhos garfos. Quando n\u00f3s, os velhos seres humanos da ordem do capital, travamos nossa luta contra essa ordem e buscamos construir o futuro, corremos o risco de recriar o passado em nova forma. Mas como reconhecer o que \u00e9 velho e deve ser superado e o que \u00e9 novo em nossa constru\u00e7\u00e3o do futuro?<\/p>\n<p>Estamos convencidos que essa tarefa exige um caminho e ferramentas precisos, isto \u00e9, requer um m\u00e9todo adequado que nos foi legado por Marx, Engels e aqueles que os seguiram nessa estrada. N\u00e3o somos idealistas e, portanto, n\u00e3o acreditamos que um m\u00e9todo filos\u00f3fico pode mudar mundo, mas alimentamos a certeza, duramente aprendida nos ensinamentos da hist\u00f3ria, de que sem um m\u00e9todo adequado estamos condenados a cair em armadilhas do passado que se reapresenta.<\/p>\n<p>L\u00eanin, sem d\u00favida, foi um dos revolucion\u00e1rios em que as duas dimens\u00f5es da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria se encontram de maneira mais precisa, tanto a clara compreens\u00e3o da teoria revolucion\u00e1ria como da dimens\u00e3o pr\u00e1tica e suas armadilhas. No entanto, diferente das vis\u00f5es mistificadas e ideol\u00f3gicas, L\u00eanin n\u00e3o nasceu com essa capacidade te\u00f3rico\/pr\u00e1tica, era, como todos, filho do seu tempo e o trazia marcado em sua subjetividade.<\/p>\n<p>Ele mesmo nos descreve em seus estudos filos\u00f3ficos o quanto o estudo da dial\u00e9tica hegeliana foi essencial para a compreens\u00e3o precisa do m\u00e9todo e as implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas que pode gerar. Podemos medir o impacto da apreens\u00e3o correta da dial\u00e9tica em L\u00eanin em momentos marcantes como as Teses de Abril, ou na afirma\u00e7\u00e3o, posterior \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o ao falar com jovens comunistas, que o verdadeiro marxista deveria formar uma esp\u00e9cie de clube de amigos materialistas da dial\u00e9tica hegeliana.<\/p>\n<p>Em outra passagem, de forma ainda mais incisiva, L\u00eanin dizia que \u201c\u00e9 imposs\u00edvel compreender completamente O Capital, de Marx, sobretudo o capitulo 1, sem ter estudado a fundo e sem ter compreendido toda a L\u00f3gica de Hegel. Como consequ\u00eancia, meio s\u00e9culo depois, nenhum marxista compreendeu Marx!\u201d (Cadernos filos\u00f3ficos, p. 191).<\/p>\n<p>O que nos interessa diretamente aqui n\u00e3o \u00e9 a exig\u00eancia incontorn\u00e1vel da dial\u00e9tica no m\u00e9todo de conhecimento da realidade, mas sua implica\u00e7\u00e3o na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Podemos ver esse fator de forma clara na pol\u00eamica sobre o Estado e a participa\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o no governo provis\u00f3rio, ou na defini\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter desse governo, ou ainda na avalia\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de alian\u00e7as com os camponeses e na defini\u00e7\u00e3o do momento da insurrei\u00e7\u00e3o. Escolheremos como objeto de nossa reflex\u00e3o aquilo que denominamos \u201cm\u00e9todo pol\u00edtico\u201d \u2013 isto \u00e9, L\u00eanin como dirigente bolchevique no terreno duro e \u00e1rido de momentos revolucion\u00e1rios decisivos, seja no caminho do poder, seja na constru\u00e7\u00e3o do socialismo.<\/p>\n<p>Uma leitura atenta de seus cadernos filos\u00f3ficos permite compreender que L\u00eanin via como um dos fundamentos mais essenciais \u00e0 compreens\u00e3o da dial\u00e9tica a unidade e a identidade dos contr\u00e1rios. Como a contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 o fundamento do pr\u00f3prio movimento, ela se apresenta como absoluta, mas \u00e9 acompanhada de seu oposto, a unidade e identidade dos contr\u00e1rios (sempre relativa, tempor\u00e1ria transit\u00f3ria, etc.). O subjetivismo, o dogmatismo, a sof\u00edstica e outras formas n\u00e3o dial\u00e9ticas dela se distinguem segundo o autor pelo fato que na dial\u00e9tica a diferen\u00e7a entre o relativo e o absoluto \u00e9 ela mesma relativa, isto \u00e9, no relativo h\u00e1 o absoluto e no absoluto h\u00e1 o relativo, enquanto que para o subjetivismo s\u00f3 h\u00e1 o relativo e para o dogmatismo s\u00f3 h\u00e1 o absoluto.<\/p>\n<p>Quando observamos tal fundamento na pr\u00e1tica pol\u00edtica, vemos um dirigente que, ainda que extremamente duro e implac\u00e1vel na defesa de suas posi\u00e7\u00f5es e na pol\u00eamica com seus advers\u00e1rios, compreendia as diferentes posi\u00e7\u00f5es apresentadas como aspectos diversos da realidade que constitu\u00edam as for\u00e7as em luta num jogo de contradi\u00e7\u00f5es que encontrava, sua unidade numa s\u00edntese que deveria apontar o caminho a seguir.<\/p>\n<p>Assim, por exemplo, defende a necessidade da insurrei\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria tomar o poder na janela de oportunidade que se abria depois das jornadas de junho, e nisso polemizava com Tr\u00f3tski, que apresentava a necessidade de faz\u00ea-lo com o apoio dos sovietes, que naquele momento insistiam na defesa do governo provis\u00f3rio. Podemos ver duas posi\u00e7\u00f5es que se excluem mutuamente, ou ver, como L\u00eanin, uma contradi\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas entre elas.<\/p>\n<p>A s\u00edntese n\u00e3o \u00e9 uma mera combina\u00e7\u00e3o entre duas posi\u00e7\u00f5es. A urg\u00eancia da tomada do poder imp\u00f5e a a\u00e7\u00e3o militar e sua din\u00e2mica pr\u00f3pria e, portanto, a busca do apoio pol\u00edtico dos sovietes tem que se dar no tempo da insurrei\u00e7\u00e3o, mas deve ser buscada como uma condi\u00e7\u00e3o importante para a consolida\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o militar.<\/p>\n<p>Em outro exemplo, podemos ver a intensa pol\u00eamica sobre a forma de gest\u00e3o das f\u00e1bricas, debate no qual se chocam as posi\u00e7\u00f5es de Tr\u00f3tski, Kollontai e L\u00eanin. Podemos entender a contraposi\u00e7\u00e3o da militariza\u00e7\u00e3o dos sindicatos \u00e0 tese do controle oper\u00e1rio defendida pela oposi\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, como um contraponto de duas posi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas. A posi\u00e7\u00e3o de L\u00eanin, que implicava na defesa da gest\u00e3o de um homem s\u00f3 (que a meu ver estava equivocada e traria efeitos muito negativos no seu desenvolvimento1), n\u00e3o \u00e9 um mero acordo entre as duas posturas, mas a tentativa de uma s\u00edntese que implica nos elementos essenciais apresentados, ainda que sempre h\u00e1 de predominar um aspecto sobre o outro (neste caso a determina\u00e7\u00e3o do \u201ccontrole oper\u00e1rio\u201d e n\u00e3o do \u201cpoder oper\u00e1rio\u201d).<\/p>\n<p>O importante a ser ressaltado naquilo que estamos chamando de m\u00e9todo pol\u00edtico \u00e9 que, ao final da pol\u00eamica os interlocutores continuam vivos, mais que isso, assumem tarefas no sentido dos aspectos que apontavam como necess\u00e1rios, como a busca do apoio pol\u00edtico dos sovietes por Tr\u00f3tski e do fortalecimento das comiss\u00f5es de f\u00e1bricas e sindicatos por Kollontai.<\/p>\n<p>Agora imaginemos um m\u00e9todo diferente. Imaginemos uma pol\u00eamica na qual um determinado dirigente n\u00e3o exp\u00f5e suas posi\u00e7\u00f5es, manobra e navega utilizando as contradi\u00e7\u00f5es dos envolvidos, mais para desacredit\u00e1-los do que para apontar problemas em suas formula\u00e7\u00f5es, para ao final, uma vez derrotados seus opositores, assumir na ess\u00eancia a proposta dos derrotados como se fosse sua. Um m\u00e9todo que busca se cercar daqueles que pensam de forma igual, que elimina o dissidente, que se utiliza de aliados para depois descart\u00e1-los como inimigos, ainda que para tanto tenha que usar da manipula\u00e7\u00e3o, da falsifica\u00e7\u00e3o e da mentira.<\/p>\n<p>Um m\u00e9todo que precisa esconder seus erros e falhas, transformando-os em geniais e heroicos desfechos, enquanto culpabiliza bodes expiat\u00f3rios descart\u00e1veis. Para tanto \u00e9 essencial a mistifica\u00e7\u00e3o, a personaliza\u00e7\u00e3o do l\u00edder infal\u00edvel, do guia genial. O primeiro m\u00e9todo pol\u00edtico podemos ver claramente em L\u00eanin, o segundo encontra em St\u00e1lin sua precisa personifica\u00e7\u00e3o e no stalinismo todas as nefastas consequ\u00eancias te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Enquanto em L\u00eanin encontramos a dial\u00e9tica viva em sua plena manifesta\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o implica que n\u00e3o haja erros e desvios, em St\u00e1lin presenciamos uma nega\u00e7\u00e3o expressa da dial\u00e9tica, uma positiva\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica, a volta de esquemas, leis gerais, princ\u00edpios imut\u00e1veis. Essa mis\u00e9ria te\u00f3rica se expressa em v\u00e1rias formas. Destacamos aqui apenas duas: a separa\u00e7\u00e3o esquem\u00e1tica e antidial\u00e9tica entre o chamado materialismo hist\u00f3rico e o dial\u00e9tico \u2013 na verdade uma forma de erradicar a filosofia do m\u00e9todo (como apontaram corretamente Korch e Luk\u00e1cs) \u2013, e a cria\u00e7\u00e3o de uma verdade oficial e um par\u00e2metro de julgamento do que seria o \u201cverdadeiro marxismo\u201d na forma do \u201cmarxismo-leninismo\u201d, que tem pouco ou nada a ver nem com Marx nem com L\u00eanin.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o se trata de mero desvio cognitivo derivado de uma ades\u00e3o acr\u00edtica a um m\u00e9todo desfigurado em seus fundamentos, uma vez que, concordando com Jos\u00e9 Paulo Netto, o chamado \u201cmarxismo-leninismo\u201d se converte em uma ideologia. Nas palavras dele:<\/p>\n<p>\u201cO resultado desse processo conduz a um marxismo teoricamente t\u00e3o estreito e vulner\u00e1vel quanto o da Segunda Internacional, mas socialmente mais degradado: agora, ele \u00e9 objeto de uma l\u00f3gica de deforma\u00e7\u00f5es que, facilitada pela via burocr\u00e1tico-administrativa, transita francamente para o arb\u00edtrio e a falsifica\u00e7\u00e3o.\u201d (Jos\u00e9 Paulo Netto, Capitalismo e reifica\u00e7\u00e3o, 2015, p. 44).<\/p>\n<p>Uma ideologia, no sentido preciso de Marx, tem por elementos essenciais a oculta\u00e7\u00e3o, a invers\u00e3o, a naturaliza\u00e7\u00e3o e a legitima\u00e7\u00e3o, de maneira a apresentar o interesse particular como se fosse geral. Nesse sentido, o stalinismo \u00e9 uma ideologia que \u201cconvalida uma determinada estrat\u00e9gia pol\u00edtica (de poder)\u201d.<\/p>\n<p>Era necess\u00e1rio ocultar as contradi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias da transi\u00e7\u00e3o socialista atr\u00e1s do biombo da inexor\u00e1vel marcha da hist\u00f3ria, produzir invers\u00f5es de modo a afirmar que \u00e9 o Estado que conduz a sociedade e n\u00e3o a sociedade que se expressa em formas pol\u00edticas, assim como substituir a classe pelo partido, este pelo seu bureau pol\u00edtico, depois por seu secret\u00e1rio geral, o guia genial e infal\u00edvel. Torna-se fundamental naturalizar todo o processo para legitimar a burocracia e suas fun\u00e7\u00f5es pretensamente essenciais \u00e0 marcha da hist\u00f3ria, ainda que sobre os corpos daqueles que a constru\u00edram2. O sentido mais profundo dessas oculta\u00e7\u00f5es, invers\u00f5es e legitima\u00e7\u00f5es \u00e9 apresentar os interesses particulares da burocracia como se fossem os interesses gerais do proletariado.<\/p>\n<p>Uma vez que rejeitamos as vis\u00f5es psicologizantes que procuram atribuir tal desvio unicamente \u00e0 personalidade de sua principal personifica\u00e7\u00e3o, ainda que tais caracter\u00edsticas tenham contribu\u00eddo para a adequa\u00e7\u00e3o do personagem ao fen\u00f4meno, devemos nos perguntar sobre as determina\u00e7\u00f5es desta deforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 um evidente parentesco entre as formas mais determinantes da sociedade tsarista e as formas pol\u00edticas expressas no stalinismo (o culto \u00e0 personalidade e sua infalibilidade, a excessiva centraliza\u00e7\u00e3o e a onipresente burocracia que assim se exige, o culto da superioridade russa, a prote\u00e7\u00e3o do l\u00edder m\u00edtico e o descarte dos bodes expiat\u00f3rios, entre outros aspectos), da mesma forma as deforma\u00e7\u00f5es positivadas que agora se expressam de forma mais insidiosa j\u00e1 estavam presentes na Segunda Internacional (como o evolucionismo, o etapismo, o economicismo vulgar, etc.). No entanto, todos esses aspectos estavam presentes tamb\u00e9m em L\u00eanin e nos demais bolcheviques. Da mesma forma as condi\u00e7\u00f5es materiais adversas nas quais a transi\u00e7\u00e3o foi obrigada a se realizar joga papel decisivo na forma e no conte\u00fado das deforma\u00e7\u00f5es verificadas.<\/p>\n<p>Ocorre que sobre essa materialidade, herdada do passado e que constitui o campo pr\u00e1tico em que somos obrigados a atuar, os seres humanos agem orientados por sua consci\u00eancia, constitu\u00edda de valores, representa\u00e7\u00f5es e ideias (entre elas a teoria que escolhem como sua), e essa representa\u00e7\u00e3o ideal n\u00e3o apenas corresponde \u00e0 materialidade da qual derivam, como tamb\u00e9m das contradi\u00e7\u00f5es que indicam os caminhos poss\u00edveis do devir.<\/p>\n<p>\u00c9 neste ponto em que uma vis\u00e3o dial\u00e9tica pode ser um diferencial importante, nos permitindo ver na contraditoriedade do real os caminhos de sua supera\u00e7\u00e3o, identificando as armadilhas de um passado reapresentado como se fosse o novo. O m\u00e9todo pol\u00edtico de L\u00eanin, pleno de todas as contradi\u00e7\u00f5es entre o velho e o novo, aponta para a poesia do futuro, enquanto o stalinismo enquanto m\u00e9todo pol\u00edtico \u00e9 a conjura\u00e7\u00e3o de um passado mal superado. N\u00e3o se trata do passado tsarista mas do passado em geral, das mazelas da pr\u00e9-hist\u00f3ria da sociedade, da divis\u00e3o antag\u00f4nica da sociedade em interesses opostos de classe, do fetichismo e da aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A vantagem de se abordar nesta perspectiva \u00e9 que assim compreendido o stalinismo pode se desvencilhar de sua forma imediata e ser identificado, em sua subst\u00e2ncia, em manifesta\u00e7\u00f5es insuspeitas de pr\u00e1ticas pol\u00edticas nefastas que infestam a luta de classes contempor\u00e2nea, com seus novos cultos a personalidades, seus mitos de l\u00edderes infal\u00edveis cercados de asseclas irrespons\u00e1veis, o apagamento e a falsifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a manipula\u00e7\u00e3o que visa destruir as pessoas e n\u00e3o debater suas ideias, as taras burocr\u00e1ticas que querem abolir a contraditoriedade do real a golpes de vota\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o de maiorias.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o importante para n\u00f3s que queremos mudar o mundo \u00e9 qual m\u00e9todo escolheremos com todas as dimens\u00f5es pr\u00e1ticas, pol\u00edticas e \u00e9ticas que tal decis\u00e3o envolve. N\u00e3o se trata, portanto, de reabilitar ou demonizar uma figura hist\u00f3rica, buscando infantilmente os lados bons ou obscuros do personagem, mas de uma autocr\u00edtica necess\u00e1ria e urgente que possa mudar nossa forma de ser no presente e na dire\u00e7\u00e3o que constru\u00edmos nosso futuro.<\/p>\n<p>Neste sentido n\u00e3o h\u00e1 e n\u00e3o pode haver concilia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel com o stalinismo, em suas velhas ou novas formas, que n\u00e3o escorregue inevitavelmente no p\u00e2ntano da justificativa e da legitima\u00e7\u00e3o de erros e crimes que n\u00e3o podem ser esquecidos.<\/p>\n<p>Dizem haver uma pol\u00eamica sobre Alexandre o Grande, se ele foi um civilizador que levou a cultura hel\u00eanica para o mundo conhecido ou um b\u00e1rbaro e brutal conquistador, implac\u00e1vel e sanguin\u00e1rio. Todos sabem, no entanto, que uma coisa \u00e9 certa: todos aqueles que ele matou continuam mortos.<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>1 Ver, a este respeito, meu artigo \u201cLa Revoluci\u00f3n rusa e los pr\u00f3ximos cien a\u00f1os\u201c, em: 100 a\u00f1os de revoluciones y golpes \u2013 Simp\u00f3sio Internacional, diciembre de 2017, (Assunci\u00f3n: Germinal, 2018), pp. 13-44.<br \/>\n2 \u201cNas farsas judici\u00e1rias montadas, os \u201cProcessos de Moscou\u201d, foram condenados como traidores comunistas sinceros e abnegados como Zinoviev, Kamenev, Piatakov, Radek, Rakoviski, Bukharin e Ricov [\u2026] Uma ilustra\u00e7\u00e3o: 70% do Comit\u00ea central eleito no XVII Congresso, de janeiro-fevereiro de 1934, foram presos\u201d. Jos\u00e9 Paulo Netto, 1981, p. 42.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Indica\u00e7\u00f5es bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p>Karl Marx, O 18 de brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte, trad. N\u00e9lio Schneider, S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2011<br \/>\nMauro Iasi, \u201cLa Revoluci\u00f3n rusa e los pr\u00f3ximos cien a\u00f1os\u201d, em: 100 a\u00f1os de revoluciones y golpes \u2013 Simp\u00f3sio Internacional, diciembre de 2017, Assunci\u00f3n: Germinal, 2018, pp.. 13-44<br \/>\nJos\u00e9 Paulo Netto, O que \u00e9 stalinismo?, S\u00e3o Paulo, Brasiliense, 1981.<br \/>\n_________. Capitalismo e reifica\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo, Express\u00e3o Popular, 2015.<br \/>\nVlad\u00edmir L\u00eanin, Cadernos filos\u00f3ficos, trad. Jos\u00e9 Paulo Netto e Edi\u00e7\u00f5es Avante!, S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2018.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24842\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[233,219],"class_list":["post-24842","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-6a","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6sG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24842","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24842"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24842\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24842"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24842"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24842"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}