{"id":24847,"date":"2020-02-07T07:59:31","date_gmt":"2020-02-07T10:59:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24847"},"modified":"2020-02-07T07:59:31","modified_gmt":"2020-02-07T10:59:31","slug":"de-onde-vem-e-pra-onde-vai-a-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24847","title":{"rendered":"De onde vem e pra onde vai a esquerda?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cdn.fararu.com\/files\/fa\/news\/1398\/4\/5\/517100_515.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Foto de mulheres curdas em Rojava, defendendo seus corpos e a democracia<\/p>\n<p>\u201cNa primeira noite eles se aproximam<br \/>\ne roubam uma flor<br \/>\ndo nosso jardim.<br \/>\nE n\u00e3o dizemos nada.<br \/>\nNa segunda noite, j\u00e1 n\u00e3o se escondem:<br \/>\npisam as flores,<br \/>\nmatam nosso c\u00e3o,<br \/>\ne n\u00e3o dizemos nada.<br \/>\nAt\u00e9 que um dia,<br \/>\no mais fr\u00e1gil deles<br \/>\nentra sozinho em nossa casa,<br \/>\nrouba-nos a luz, e,<br \/>\nconhecendo nosso medo,<br \/>\narranca-nos a voz da garganta.<br \/>\nE j\u00e1 n\u00e3o podemos dizer nada.\u201d<br \/>\n(Eduardo Alves da Costa)<\/p>\n<p>Tal\u00edria Petrone &#8211; Deputada Federal do PSOL &#8211; RJ<\/p>\n<p>Sou negra, feminista interseccional, educadora popular, de esquerda e socialista. Tenho trajet\u00f3ria constru\u00edda a partir da atua\u00e7\u00e3o junto aos movimentos sociais, \u00e0s mulheres negras, ao povo da favela, \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBT, \u00e0 escola p\u00fablica, \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es e comunidades que lutam contra o desmonte das pautas socioambientais. Para n\u00f3s, \u00e9 sempre um orgulho dizer de que lado estamos e ressaltar a nossa op\u00e7\u00e3o por lutar em defesa de um povo que historicamente teve seus direitos negados.<\/p>\n<p>Vivemos um momento da hist\u00f3ria que precisamos, mais do que nunca, reafirmar o nosso desafio pela constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade, livre do racismo, do sexismo, da divis\u00e3o de classes e de todas as opress\u00f5es. Momento tamb\u00e9m de sermos enf\u00e1ticos em defender as liberdades democr\u00e1ticas, j\u00e1 t\u00e3o fr\u00e1geis e negadas para a maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na nossa caminhada, aprendemos que existe uma caracter\u00edstica na hist\u00f3ria da humanidade, em todos os tempos: os explorados e os oprimidos, mais cedo ou mais tarde, se levantam contra os que exploram e oprimem. Na maior parte das vezes a for\u00e7a dos poderosos os esmagam, os desanimam, os cooptam e a Hist\u00f3ria Oficial os esquece.<br \/>\nNuma conjuntura marcada pelo avan\u00e7o do fascismo e da aniquila\u00e7\u00e3o do pouco de direitos conquistados e pela busca de derrotar aquelas e aqueles que resistem, pergunto: a quem interessa suprimir a mem\u00f3ria das revoltas e revolu\u00e7\u00f5es populares? Ou julgar processos de s\u00e9culos atr\u00e1s com as lentes do presente, cometendo anacronismo? Essas revolu\u00e7\u00f5es e revoltas populares devem ser entendidas considerando o contexto das sociedades contra \u00e0s quais se insurgiram, nos respectivos momentos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Uma esquerda, para que assim possa ser chamada, deve estar comprometida com a \u201chist\u00f3ria dos de baixo\u201d. As revoltas brasileiras, desde a Col\u00f4nia ou as que tomam as ruas e incendeiam \u00f4nibus quando a pol\u00edcia mata negros e pobres na favela, devem ser julgadas, em primeiro lugar, pelo grito de justi\u00e7a e liberdade que representam.<br \/>\nPodemos, como exerc\u00edcio, fazer a seguinte reflex\u00e3o: se estiv\u00e9ssemos na R\u00fassia de 1917, estar\u00edamos ao lado do Czar e da Duma, do Governo Provis\u00f3rio de Kerensky, que mantinha a guerra, ou com L\u00eanin e os Soviets, que propunham paz, p\u00e3o e terra? Ou ainda: na \u00c1frica do Sul, estar\u00edamos do lado do Mandela na luta armada, ou ao lado do Apartheid? Com o povo do Vietn\u00e3, que matou 50 mil soldados estadunidenses, ou com as tropas dos EUA?<\/p>\n<p>As revolu\u00e7\u00f5es burguesas, como a Francesa, n\u00e3o foram um passeio no parque em tarde ensolarada. N\u00e3o esque\u00e7amos o Per\u00edodo do Terror implantado por Robespierre na Fran\u00e7a, nem tampouco as milhares de mortes provocadas pelo colonialismo contra os povos origin\u00e1rios das Am\u00e9ricas, da \u00c1frica e do Oriente. O capitalismo, para se impor, vem produzindo, ao longo dos s\u00e9culos, in\u00fameros per\u00edodos de terror e viol\u00eancia. Basta olharmos para as mais de 1800 pessoas mortas pela pol\u00edcia do Rio de Janeiro no ano passado para entender que, por meio do Estado, o capital criminaliza a pobreza, institucionaliza o racismo e produz desigualdades. Portanto, ser de esquerda, para n\u00f3s, \u00e9 entender a diferen\u00e7a entre processos revolucion\u00e1rios voltados para emancipar o povo e garantir-lhe uma vida digna e aquelas a\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do poder nas m\u00e3os da mesma elite de sempre.<\/p>\n<p>\u00c0 esquerda permanecemos com o horizonte ecossocialista. Todos os movimentos, todas as revolu\u00e7\u00f5es cometem erros, \u00e0s vezes graves, indefens\u00e1veis. Outras s\u00e3o tra\u00eddas ou degeneram. As que se tornam vitoriosas, mesmo que por pequenos per\u00edodos, mergulham em um mar de contradi\u00e7\u00f5es na luta por sua sobreviv\u00eancia, atacadas de todos os lados pela ordem dominante. Se, por isso, as invalidamos como experi\u00eancia hist\u00f3rica, como s\u00edmbolo de que as pessoas e os povos se revoltam e lutam, nos somamos ao coro dos contentes e \u00e0 hist\u00f3ria contada pelos vencedores. Valorizar apenas as resist\u00eancias derrotadas e jogar na lata do lixo as que tiveram que lidar com as contradi\u00e7\u00f5es da vit\u00f3ria, nos tornaria uma esquerda que n\u00e3o pode e n\u00e3o quer vencer. Utopistas e n\u00e3o revolucion\u00e1rios. Isso n\u00e3o nos compromete no presente com os equ\u00edvocos do passado. Nosso projeto de mundo atual se ampara na resist\u00eancia dos explorados e oprimidos do passado, mas busca superar seus erros \u00e0 luz das quest\u00f5es e das lutas atuais.<\/p>\n<p>Transformar o projeto de esquerda em realidade, vai muito al\u00e9m da tentativa de agradar uma suposta \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d ou uma audi\u00eancia eleitoral. \u00c9 preciso fazer a liga\u00e7\u00e3o entre a utopia e a a\u00e7\u00e3o efetiva. Elaborar uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica concreta que mobilize as pessoas para lutar \u00e9 o primeiro grande desafio, se queremos chegar mais longe do que \u00e0 auto satisfa\u00e7\u00e3o da defesa de valores e princ\u00edpios puros, belos, mas irrealiz\u00e1veis. Partir da indigna\u00e7\u00e3o que domina a exist\u00eancia dos oprimidos e explorados, das cidadanias de segunda categoria, daqueles que, com fome, servem os banquetes dos abastados; construir uma compreens\u00e3o ampla e difundi-la pedagogicamente sobre as causas dessas mazelas, da cat\u00e1strofe cotidiana que \u00e9 o capitalismo, da sua hist\u00f3ria brutal de coloniza\u00e7\u00e3o, imperialismo e morte; agir em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 uma estrat\u00e9gia emancipadora, que usurpe o poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico das classes dominantes e os distribua, democratizando-os; e que, por fim, saiba resistir aos ataques que vir\u00e3o tanto no \u00e2mbito militar como no ideol\u00f3gico, buscando derrotar e desmoralizar a transforma\u00e7\u00e3o. S\u00e3o passos mais ou menos inevit\u00e1veis de quem quer levar adiante uma transforma\u00e7\u00e3o anticapitalista s\u00e9ria.<\/p>\n<p>No momento em que a mentira impera, os fascistas se tornam cada vez mais poderosos e as m\u00e1quinas profissionais de comunica\u00e7\u00e3o dominam as narrativas nas redes sociais, como agir? N\u00e3o viemos parar nessa situa\u00e7\u00e3o porque mantivemos as bandeiras levantadas e seguimos reivindicando a mem\u00f3ria das revoltas e revolu\u00e7\u00f5es. Foi justamente o contr\u00e1rio. As esquerdas majorit\u00e1rias no mundo e no Brasil venderam o sonho de que moderando o discurso, abrindo m\u00e3o de s\u00edmbolos e princ\u00edpios hist\u00f3ricos, conciliando com o liberalismo e com a burguesia e praticando a inclus\u00e3o social atrav\u00e9s do mercado, alcan\u00e7ar\u00edamos um mundo mais justo. O resultado foi outro. Cada passo dado atr\u00e1s ou n\u00e3o dado adiante foi acompanhado por um passo \u00e0 frente das classes dominantes e, infelizmente, da extrema-direita. E o pior \u00e9 que, de todo modo, mesmo a esquerda mais r\u00f3sea foi taxada de comunista radical e assassina. Abrir m\u00e3o dos s\u00edmbolos, das propostas e da mem\u00f3ria da esquerda radical, ao inv\u00e9s de significar \u201csair da bolha\u201d, pode significar o apagamento, a desmoraliza\u00e7\u00e3o e a derrota completa.<\/p>\n<p>S\u00f3 sabe pra onde vai quem sabe de onde veio. A esquerda anticapitalista n\u00e3o deve se envergonhar de sua hist\u00f3ria. Deve saber tirar delas as li\u00e7\u00f5es para construir as revolu\u00e7\u00f5es do nosso tempo, dos nossos povos e dos nossos territ\u00f3rios. Deve encarar de frente o fascismo e revelar a todos como ele \u00e9 grotesco e assassino. Deve revelar a hipocrisia dos liberais que \u201cfazem a eg\u00edpcia\u201d diante da barb\u00e1rie. E deve ter a coragem de dizer que os privil\u00e9gios pol\u00edticos e econ\u00f4micos dos de cima devem acabar se quisermos p\u00f4r fim aos sofrimentos dos de baixo.<\/p>\n<p>Nossa revolu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 preta, feminista, ecol\u00f3gica e fruto das lutas de todas as pessoas exploradas e oprimidas de todos os tempos, ou n\u00e3o ser\u00e1!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24847\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[217],"tags":[222],"class_list":["post-24847","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-siria","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6sL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24847","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24847"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24847\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24847"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24847"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24847"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}