{"id":24868,"date":"2020-02-09T23:03:48","date_gmt":"2020-02-10T02:03:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24868"},"modified":"2020-02-09T23:03:48","modified_gmt":"2020-02-10T02:03:48","slug":"e-o-brasil-caramba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24868","title":{"rendered":"E o Brasil!? Caramba!"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.institutomillenium.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/20140720-dinheirama-brasil-crise-iloveimg-resized.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Lu\u00eds Fernandes*<\/p>\n<p>Mais uma semana se passou e at\u00e9 agora me parece que n\u00f3s, for\u00e7as oposicionistas \u00e0 esquerda, ainda n\u00e3o conseguimos compreender e enfrentar consistentemente o fen\u00f4meno bolsonarista que cada vez mais se notabiliza por ser algo mais do que passageiro, mas uma faceta (contradit\u00f3ria) no aprofundamento da via autocr\u00e1tica e dependente do desenvolvimento do capitalismo brasileiro.<\/p>\n<p>Se por um lado lideran\u00e7as de uma esquerda social liberal apostam na t\u00e1tica de coment\u00e1rios p\u00fablicos condenando as falas absurdas de Bolsonaro e seus ministros, ironizando projetos governamentais e assim obtendo \u201clikes\u201d e popularidade entre o eleitorado progressista, por outro, acompanhamos uma significativa estabilidade e at\u00e9 crescimento de popularidade do governo. Desde 2015, ainda sob a pol\u00edtica austera do governo Dilma, a crise parecia aprofundar a situa\u00e7\u00e3o de desemprego, viol\u00eancia urbana, fome e desmonte de pol\u00edticas sociais progressivamente. No entanto, conforme identificou Paulo Nogueira Batista Jr., no final de 2019 o governo adotou algumas pol\u00edticas heterodoxas \u201cenvergonhadas\u201d como o saque do FGTS e o d\u00e9cimo terceiro do bolsa fam\u00edlia que fizeram a situa\u00e7\u00e3o aparentar que, se n\u00e3o melhorou, parou de piorar para significativas parcelas da popula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, a crescente (des) sofistica\u00e7\u00e3o produtiva do pa\u00eds nos servi\u00e7os e na ind\u00fastria e a desregulamenta\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho impulsionaram a quest\u00e3o da uberiza\u00e7\u00e3o e a cria\u00e7\u00e3o de subempregos extremamente precarizados.<\/p>\n<p>A diminui\u00e7\u00e3o nos n\u00fameros absolutos de assassinatos, por mais que os dados e as metodologias de pesquisa devam ser criticados e questionados, tamb\u00e9m revelam uma consequ\u00eancia imediata da \u201cterceiriza\u00e7\u00e3o\u201d da seguran\u00e7a p\u00fablica ao crime organizado e \u00e0s mil\u00edcias. Enquanto isso, uma parte de grupos, lideran\u00e7as e quadros da esquerda brasileira, ainda viciados na l\u00f3gica dos gabinetes, aposta suas fichas na composi\u00e7\u00e3o de palanques para as elei\u00e7\u00f5es municipais e, muitas vezes, se desconecta do Brasil profundo, n\u00e3o oferece alternativas concretas nem valoriza devidamente as lutas sociais em curso.<\/p>\n<p>Prova disso \u00e9 a absoluta desvaloriza\u00e7\u00e3o existente na solidariedade, apoio e divulga\u00e7\u00e3o de importantes greves e paralisa\u00e7\u00f5es em curso. Movimentos, inclusive, que obtiveram vit\u00f3rias parciais contra o governo, como na Dataprev e na Casa da Moeda. A greve dos petroleiros n\u00e3o mereceu nem destaque e centralidade nas \u00faltimas interven\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de Haddad e Marcelo Freixo. A poss\u00edvel greve do funcionalismo p\u00fablico, no dia 18 de mar\u00e7o, mais do que v\u00eddeos e textos, necessita de mais apoio, solidariedade e unidade concreta de todas as for\u00e7as e lideran\u00e7as oposicionistas.<\/p>\n<p>Unidade nas lutas, a formula\u00e7\u00e3o e propaga\u00e7\u00e3o de propostas concretas para o pa\u00eds devem ser a prioridade m\u00e1xima nesse ano de 2020 na luta contra o governo Bolsonaro. Sem menosprezar a luta eleitoral, mas compreendendo que o desafio de reconectar a esquerda brasileira com as lutas sociais e o \u201cBrasil profundo\u201d s\u00e3o as tarefas imediatas para minar o crescimento da base social da extrema direita e de grupos fascistas.<\/p>\n<p>A recente entrevista do ex-presidente do Banco Central, Arm\u00ednio Fraga, e o artigo de Luciano Huck na Folha de S. Paulo ensaiam um consistente projeto de renova\u00e7\u00e3o da direita brasileira, que busca aliar fiscalismo na \u00e1rea econ\u00f4mica, novas pol\u00edticas sociais e pautas identit\u00e1rias. Um projeto que disputa espa\u00e7o globalmente \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, tratando-se de uma novidade n\u00e3o especificamente brasileira. Se nos atentarmos aos \u00faltimos editoriais do \u201cFinancial Times e at\u00e9 mesmo do Blog do FMI, constatamos reflex\u00f5es da direita globalizada sobre os efeitos do neoliberalismo, globaliza\u00e7\u00e3o e o crescimento de uma nova direita fascistizante que tendem a adotar medidas isolacionistas e protecionistas nos EUA e Europa.<\/p>\n<p>No Brasil, Huck e Fraga n\u00e3o falam de desenvolvimento ou da desindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, mas de moderniza\u00e7\u00e3o no combate \u00e0s desigualdades. Ensaiam at\u00e9 um discurso pr\u00f3 reforma tribut\u00e1ria progressiva e o fim de pol\u00edticas de desonera\u00e7\u00e3o ao grande empresariado. Mais do que questionar a sinceridade ou n\u00e3o nessas propostas, nos cabe questionar qual o projeto alternativo que temos debatido para o pa\u00eds?<\/p>\n<p>Tendo em vista o car\u00e1ter associado e dependente da burguesia brasileira, sabemos que o crescente atraso em nosso aparato produtivo e a supremacia financista no aparelho de Estado s\u00e3o apoiados pelos nossos \u201cindustriais\u201d e suas organiza\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, dada a agressividade nas disputas intercapitalistas, nossa economia, desde 2015, passa por um brutal processo de desnacionaliza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de privatiza\u00e7\u00f5es, venda de terras e recursos naturais, expropria\u00e7\u00e3o de reservas ind\u00edgenas e quilombolas e at\u00e9 o fim da prote\u00e7\u00e3o a empresas brasileiras na concorr\u00eancia de licita\u00e7\u00f5es e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os ao Estado.<\/p>\n<p>Quando falamos de propostas concretas, n\u00e3o nos referimos a um mero programa de governo. Mas medidas contra o nosso atraso produtivo, depend\u00eancia e a desigualdade estrutural e que dependem da constru\u00e7\u00e3o de uma nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e de um profundo processo de transforma\u00e7\u00f5es na perspectiva da revolu\u00e7\u00e3o brasileira. Portanto, urge um programa de lutas que reconecte a esquerda organizada \u00e0s lutas sociais e ao Brasil profundo. Quem propor\u00e1 isso?<\/p>\n<p>Acredito que esta tarefa n\u00e3o \u00e9 dos \u201cneoliberais progressistas\u201d, da esquerda social liberal ou de lideran\u00e7as personalistas. Mas sim de for\u00e7as revolucion\u00e1rias consequentes, sem menosprezar importantes contribui\u00e7\u00f5es, mais do que debater pol\u00eamicas sobre uma poss\u00edvel volta do \u201cestalinismo\u201d, \u00e9 hora de priorizarmos e jogarmos nossas for\u00e7as na elabora\u00e7\u00e3o de um projeto para o pa\u00eds e a nossa via revolucion\u00e1ria de transforma\u00e7\u00f5es, a fim de superar nossos problemas concretos.<\/p>\n<p>*Professor de Hist\u00f3ria e membro do Comit\u00ea Central do PCB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24868\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[224],"class_list":["post-24868","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6t6","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24868","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24868"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24868\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24868"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24868"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24868"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}