{"id":24876,"date":"2020-02-12T09:18:34","date_gmt":"2020-02-12T12:18:34","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24876"},"modified":"2020-02-15T02:43:56","modified_gmt":"2020-02-15T05:43:56","slug":"sao-gentis-porque-sao-ricos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24876","title":{"rendered":"&#8216;S\u00e3o gentis porque s\u00e3o ricos&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartamaior.com.br\/arquivosCartaMaior\/FOTO\/242\/5100397FB68FA26197628C184EB337D4D042D62AD593A05160122EB4BFB36EAE.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Subjetividade de classe e realismo em Parasita e Bacurau<\/p>\n<p>F\u00eah Sung*<\/p>\n<p>A vilaniza\u00e7\u00e3o das classes dominantes em filmes e na grande m\u00eddia de entretenimento deixou de ser algo chocante faz bastante tempo. Das patricinhas manipuladoras ao capitalista do mal que vai destruir o meio ambiente cego por dinheiro, n\u00e3o faltam exemplos de produtos culturais de massa que associam riqueza e maldade. Um dos aspectos perigosos dessa associa\u00e7\u00e3o \u00e9 dinheiro = maldade e dinheiro = poder, logo, poder = maldade. Mas gostaria de chamar aten\u00e7\u00e3o para outro aspecto.<\/p>\n<p>A subjetividade burguesa tem um fasc\u00ednio em representar a vida como sociedade das apar\u00eancias, &#8220;o teatro da vida&#8221;, as coisas nunca s\u00e3o o que aparentam, se apresentam sempre como seu oposto.<\/p>\n<p>Parte fundamental da personagem da patricinha do mal \u00e9 que, \u00e0 primeira vista, ela parece ser uma boa menina, que por detr\u00e1s da sua apar\u00eancia perfeita e angelical existe uma pessoa capaz de fazer e pensar maldades de forma fria e calculada. Qualquer filme ou s\u00e9rie adolescente aqui serve de exemplo. Assim como o grande empres\u00e1rio que \u00e0 primeira vista parece estar agindo pela melhor das inten\u00e7\u00f5es, mas ao longo da hist\u00f3ria sua m\u00e1scara cai, seus verdadeiros interesses malignos s\u00e3o expostos.<\/p>\n<p>Para pegar um exemplo concreto \u00e9 s\u00f3 imaginar o Lex Luthor, arqui-inimigo do Super Homem, cujo personagem \u00e9 baseado na apar\u00eancia de ele ser um bilion\u00e1rio filantropo, cientista inovador pelo avan\u00e7o da humanidade, figura p\u00fablica carism\u00e1tica, mas secretamente \u00e9 um corrupto, megaloman\u00edaco com planos malignos de domina\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Na subjetividade capitalista reina a mais completa desconfian\u00e7a de todos contra todos e nenhuma boa inten\u00e7\u00e3o sincera que envolva a obten\u00e7\u00e3o de poder pode ser verdadeira. \u201cQual o interesse por tr\u00e1s?\u201d, \u201co que ele est\u00e1 ganhando com isso?\u201d , s\u00e3o as perguntas que faz quem, para sobreviver , deve sempre buscar primeiramente o benef\u00edcio pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>O importante de notar aqui \u00e9 que, apesar da cr\u00edtica aos ricos e capitalistas, estamos dentro da subjetividade da pr\u00f3pria burguesia. A vis\u00e3o do mundo como um espet\u00e1culo de apar\u00eancias falsas \u00e9 autorreflexo da pr\u00f3pria sociedade capitalista e o apontar de dedos dessa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ser apenas: &#8220;as coisas s\u00e3o realmente dessa forma, que pena\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO teatro da vida\u201d, onde cada um s\u00f3 est\u00e1 interpretando um papel para impressionar, n\u00e3o se trata de uma lei universal para todas as sociedades. A cr\u00edtica fundada nessa perspectiva, portanto, n\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica de fora, mas uma autocr\u00edtica, um recalque, uma vergonha pessoal burguesa, como que admitisse seu lado feio.<\/p>\n<p>Seria f\u00e1cil imaginar uma vers\u00e3o burguesa de Parasita: o por\u00e3o da casa esconderia o segredo sujo da rica fam\u00edlia aparentemente perfeita que mora ali. Onde o filme se diferencia \u00e9 justamente de se basear no oposto: a fam\u00edlia n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o tem nenhum segredo maligno, como \u00e9 totalmente ignorante acerca do que ocorre sob seus pr\u00f3prios p\u00e9s.<\/p>\n<p>O casal burgu\u00eas de Parasita \u00e9 interessant\u00edssimo nesse aspecto: n\u00e3o foi necess\u00e1rio apresentar que a empresa do patriarca da fam\u00edlia \u00e9 uma megacorpora\u00e7\u00e3o do mal para perdermos a simpatia por ele. Em nenhum momento eles agem de forma maliciosa ou demonstram qualquer tipo de prazer em sua posi\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o gentis porque s\u00e3o ricos\u201d, essa fala genial explicita a subjetividade de classe do filme. Os capitalistas de Parasita n\u00e3o causam sofrimento porque est\u00e3o envolvidos em algum plano de domina\u00e7\u00e3o global, mas simplesmente porque existem. Seu modo de vida sincero, movido pelas melhores das inten\u00e7\u00f5es, completamente adequado a sua condi\u00e7\u00e3o, \u00e9 mostrado como um completo absurdo.<\/p>\n<p>A esposa n\u00e3o \u00e9 a rica madame fofoqueira e arrogante dos bairros nobres que aparece nos filmes de Hollywood. Toda cadeia de a\u00e7\u00f5es do filme s\u00f3 existe porque ela age sempre na melhor das inten\u00e7\u00f5es buscando o bem-estar de sua fam\u00edlia e seus filhos. Ainda assim, no decorrer do filme, s\u00f3 de observar sua vida achamos justamente sua gentileza mais sincera algo um tanto de podre.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia daquela fam\u00edlia naquela casa em si aparece como um ultraje, n\u00e3o importa sua inoc\u00eancia. O filme perderia toda sua for\u00e7a cr\u00edtica se por exemplo a enchente no bairro pobre tivesse uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito com as a\u00e7\u00f5es da empresa do pai da fam\u00edlia, pois poderia o espectador respirar aliviado: &#8220;ali o culpado!&#8221;. Esse gostinho nunca nos \u00e9 dado, pois o problema n\u00e3o \u00e9 o car\u00e1ter deste ou aquele indiv\u00edduo, mas a estrutura social em sua normalidade que \u00e9 posta como perversa.<br \/>\nA gra\u00e7a consiste justamente em a hist\u00f3ria n\u00e3o nos dar nenhum nexo entre a mis\u00e9ria de uns e a fortuna de outros e quanto mais se esfor\u00e7a nisso mais essa conex\u00e3o \u00e9 feita.<\/p>\n<p>Os coment\u00e1rios sobre o cheiro dos empregados s\u00e3o mais pr\u00f3ximos de observa\u00e7\u00f5es de quem olha animais no zool\u00f3gico &#8211; \u201cque curioso e bizarro s\u00e3o esses seres estranhos\u201d &#8211; do que feitos por pura maldade e mal\u00edcia. Bastante diferente, por exemplo, do racismo consciente em Bacurau.<\/p>\n<p>Para efeitos de compara\u00e7\u00e3o falemos mais de Bacurau, outro \u00f3timo filme feito a partir de uma perspectiva das classes oprimidas. Em Bacurau claramente estamos numa situa\u00e7\u00e3o de classe contra classe: os oprimidos est\u00e3o unidos em causa comum de resist\u00eancia contra a classe dominante associada.<\/p>\n<p>Apesar das motiva\u00e7\u00f5es diversas, as inten\u00e7\u00f5es e objetivos dos vil\u00f5es do filme s\u00e3o bem expl\u00edcitas: matar por prazer. Os assassinatos s\u00e3o passados na televis\u00e3o como uma forma de entretenimento.<\/p>\n<p>O filme nunca pretende enganar o espectador de que o prefeito Tony Jr. ou os motociclistas s\u00e3o boas pessoas que mais adiante se revelariam do lado dos vil\u00f5es. No andamento do filme ambos os lados ficam perfeitamente cientes do que est\u00e1 acontecendo, afinal se trata de uma guerra, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para inoc\u00eancias.<\/p>\n<p>A rica fam\u00edlia de Parasita nesse universo seriam os telespectadores do programa de matan\u00e7a, jamais fariam eles mesmos aquilo, enxergam apenas como um programa divertido sendo totalmente ignorantes das reais consequ\u00eancias do que est\u00e3o assistindo. No melhor dos casos achariam de mau gosto, mudariam de canal e seguiriam suas vidas.<\/p>\n<p>Os conflitos em Parasita n\u00e3o s\u00e3o diretamente de classe contra classe, o conflito maior de classes aparece sempre mediado pelos conflitos entre os interesses imediatos dos trabalhadores. Inclusive nos encontramos com personagens que, apesar do alto n\u00edvel de humilha\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es desumanas em que vivem, ainda assim admiram e respeitam a classe dominante.<\/p>\n<p>Oportuno lembrar do personagem do Samuel L. Jackson em Django do Quentin Tarantino, o negro da casa grande racista e aristocrata que fica do lado escravocrata. Parasita nos apresenta um personagem parecido, mas \u00e9 mais complexo. Em Django a contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 berrante, o escravizado defendendo seu escravizador direto, j\u00e1 o marido do por\u00e3o n\u00e3o tem v\u00ednculo real com o patriarca da casa.<\/p>\n<p>Novamente a ignor\u00e2ncia deixa a situa\u00e7\u00e3o mais sinistra; n\u00e3o se trata do vil\u00e3o da Disney que tem em torno de si uma figura pat\u00e9tica que se afirma na sua adora\u00e7\u00e3o submissa ao chefe, mas \u00e9 correspondido por algum xingamento. O capitalista de Parasita sequer sonha com a exist\u00eancia do seu admirador, cuja total exist\u00eancia depende dele.<\/p>\n<p>Nada mais apropriado como paralelo das atuais rela\u00e7\u00f5es de trabalho, onde as subcontrata\u00e7\u00f5es, terceiriza\u00e7\u00f5es, pejoutiza\u00e7\u00f5es e afins fazem o capitalista nem enxergar sua contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 massa dos trabalhadores, n\u00e3o \u00e9 diretamente respons\u00e1vel de nada. Esse mesmo cen\u00e1rio torna poss\u00edvel que os donos da empresa Uber podem chamar um Uber sem o motorista sonhar que ele est\u00e1 dirigindo para seu patr\u00e3o, \u00e9 a igualdade formal burguesa realizada. Somem as classes, todos viram colaboradores.<\/p>\n<p>Em Bacurau, por outro lado, n\u00e3o existe nenhuma possibilidade para traidores entre o povo oprimido, a constru\u00e7\u00e3o do filme impossibilita que qualquer personagem da cidade tenha ilus\u00f5es sobre o local que ocupa naquele universo. Estamos diante de uma situa\u00e7\u00e3o extrema, crua, um conflito fant\u00e1stico de vida e morte no qual a no\u00e7\u00e3o de cotidiano \u00e9 totalmente destru\u00edda, tudo \u00e9 excepcional. As crises morais e conflitos se d\u00e3o entre os antagonistas, refor\u00e7ando a solidez da justeza da causa do povo.<\/p>\n<p>Os conflitos iniciais entre os habitantes da cidade no cl\u00edmax do filme se tornam irrelevantes, em Parasita o oposto acontece: os dramas do cotidiano, a depend\u00eancia de viver como parasitas tomam uma forma monstruosa. Bacurau \u00e9 um filme sobre uma situa\u00e7\u00e3o \u00e9pica que invade a vida cotidiana, j\u00e1 Parasita \u00e9 um filme sobre a vida cotidiana que toma propor\u00e7\u00f5es \u00e9picas e por conta disso ele mais facilmente convence o telespectador na sua cr\u00edtica, pois parte de elementos comuns do seu dia a dia.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo na sua ambienta\u00e7\u00e3o, Bacurau \u00e9 muito mais localista, particular, o que facilita aparecer de forma fant\u00e1stica e fetichizada para um cidad\u00e3o m\u00e9dio de uma grande cidade. Observa\u00e7\u00e3o: isso n\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica negativa, \u00e9 apenas uma constata\u00e7\u00e3o. Parasita \u00e9 altamente universal, como disse seu diretor: \u201cvivemos todos num mesmo pa\u00eds chamado capitalismo\u201d, no qual se somam os elementos regionais. Tamb\u00e9m em completo oposto a Bacurau, aqui \u00e9 a coopera\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias entre si contra a classe dominante que aparece como imposs\u00edvel. Apesar da situa\u00e7\u00e3o altamente dram\u00e1tica, todas as leis da normalidade continuam em vigor, n\u00e3o h\u00e1 estado de exce\u00e7\u00e3o, mas o conflito de classes tem que ser resolvido mesmo assim.<\/p>\n<p>Ambos os filmes, para mim, est\u00e3o dentro do ponto de vista da subjetividade do oprimido &#8211; em vez das hist\u00f3rias sess\u00e3o da tarde fundamentadas na culpa burguesa, mas \u00e9 not\u00e1vel que nas inevit\u00e1veis compara\u00e7\u00f5es, Parasita conta com vantagem cosmopolita. Parasita \u00e9 muito mais pr\u00f3ximo da nossa realidade vivida, enquanto Bacurau \u00e9 das nossas fantasias (com o adendo que s\u00e3o fantasias inconfundivelmente brasileiras e isso tem seu valor).<\/p>\n<p>Em contraponto podemos dizer tamb\u00e9m que Bacurau \u00e9 a realidade burguesa nua e crua, sem ilus\u00f5es, a guerra aberta entre classes, enquanto Parasita \u00e9 ela vestida com suas melhores roupas e ainda assim continua feia.<\/p>\n<p>*Militante da C\u00e9lula Sindical e Popular do Partido Comunista Brasileiro em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.<br \/>\nDiretora de Universidades P\u00fablicas da UNE.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24876\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[358],"tags":[223],"class_list":["post-24876","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-coreia-do-sul","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6te","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24876","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24876"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24876\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24876"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24876"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24876"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}