{"id":24892,"date":"2020-02-12T23:35:48","date_gmt":"2020-02-13T02:35:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24892"},"modified":"2020-02-12T23:35:48","modified_gmt":"2020-02-13T02:35:48","slug":"o-negro-no-mundo-intelectual-do-branco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24892","title":{"rendered":"O negro no mundo (intelectual) do branco"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2020\/02\/jones-manoel_negro-mundo-intelectual-branco_hor.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Imagem a partir de arte de Emory Douglas para o Patrido dos Panteras Negras.<\/p>\n<p>Breve nota sociol\u00f3gica O intelectual negro tende a sentir um profundo isolamento nos ambientes universit\u00e1rios e nos espa\u00e7os intelectualizados porque n\u00e3o se reconhece nos seus pares, nos temas de pesquisa dispon\u00edveis nem na simbologia desses locais. \u00c9 como se a din\u00e2mica em funcionamento gritasse todos os dias que \u201ceste n\u00e3o \u00e9 o seu lugar\u201d.<\/p>\n<p>Por Jones Manoel<\/p>\n<p>Blog da Boitempo<\/p>\n<p>\u201cEles querem que algu\u00e9m<br \/>\nQue vem de onde n\u00f3s vem<br \/>\nSeja mais humilde, baixe a cabe\u00e7a<br \/>\nNunca revide, finja que esqueceu a coisa toda<br \/>\nEu quero \u00e9 que eles se foda!\u201d<br \/>\n\u2013 EMICIDA, \u201cMANDUME\u201d<\/p>\n<p>Quando o assunto \u00e9 racismo, \u00e9 uma tend\u00eancia de muito apelo midi\u00e1tico e pol\u00edtico tratar da dimens\u00e3o de inferioriza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, est\u00e9tica e cultural do\/a negro\/a e da cultura afro e afro-brasileira. Muitas vezes (qui\u00e7\u00e1 na maioria delas) o complexo integrado \u00e0 domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-econ\u00f4mico-ideol\u00f3gica compreendido como racismo \u00e9 reduzido a esse determinante do fen\u00f4meno, como se o combate \u00e0 cultura racista a partir do \u201cempoderamento do negro\u201d fosse suficiente ou central no enfrentamento ao racismo. Na realidade, essa compreens\u00e3o culturalista do racismo e do seu enfrentamento, secundarizando ou ignorando as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e as estruturas de poder, constitui um dos grandes problemas e fragilidades do combate antirracista na atualidade na medida em que reduz o potencial revolucion\u00e1rio da luta e tende a torn\u00e1-la mais f\u00e1cil de ser assimilada pela ordem dominante.<\/p>\n<p>De toda forma, a compreens\u00e3o dos limites do culturalismo (enquanto entendimento te\u00f3rico e pr\u00e1tico de a\u00e7\u00e3o) n\u00e3o deve fazer ningu\u00e9m menosprezar o papel que cumpre a ideologia na reprodu\u00e7\u00e3o do complexo integrado \u00e0 domina\u00e7\u00e3o e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o chamado de racismo. Se olharmos de um ponto de vista formal e sem concretude hist\u00f3rica, podemos argumentar que todo sistema de domina\u00e7\u00e3o \u2013 seja ele de casta, classe, ra\u00e7a, g\u00eanero, nacionalidade ou de qualquer outra categoria \u2013 tem como pressuposto criar uma cultura onde o dominante \u00e9 apresentado como superior, belo, inteligente, merecedor de sua posi\u00e7\u00e3o social e o \u00fanico capacitado para exercer o seu lugar social, ao passo que o dominado aparece como ant\u00edtese de tudo isso.<\/p>\n<p>Quando abordamos especificamente o racismo no Brasil, percebemos que esses elementos de inferioriza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e cultural do negro e de qualquer coisa associada a ele se fazem presentes com uma for\u00e7a incr\u00edvel. No pa\u00eds do mito da democracia racial \u00e9 bastante dif\u00edcil perceber o n\u00edvel do apartheid \u00e9tnico-racial-classista que separa brancos e negros no Brasil em todos os espa\u00e7os e ambientes da sociedade burguesa.<\/p>\n<p>Dito isso, o objetivo deste pequeno escrito \u00e9 fazer apontamentos sociol\u00f3gicos sobre a exist\u00eancia do intelectual negro em espa\u00e7os socialmente constru\u00eddos para brancos das camadas m\u00e9dias e da classe dominante. Digo apontamentos pois n\u00e3o me proponho a fazer uma reflex\u00e3o mais sistem\u00e1tica que incorpore refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas, dados, pesquisas existentes etc. Estas linhas t\u00eam como fundamento, basicamente, a minha experi\u00eancia como negro e militante com perfil de propagandista (propagandista no sentido leninista do termo) e intelectual, refletindo as experi\u00eancias cotidianas a partir do arsenal te\u00f3rico que, acredito, est\u00e1 sob meu dom\u00ednio.<\/p>\n<p>A imagem do intelectual brasileiro: forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e subjetiva\u00e7\u00e3o<br \/>\nA partir da segunda metade do s\u00e9culo XIX, setores da classe dominante brasileira compreenderam que o fim da escravid\u00e3o era uma quest\u00e3o de tempo \u2013 tend\u00eancia em curso no mundo dada a press\u00e3o da Inglaterra capitalista e das lutas de resist\u00eancia dos negros e negras escravizados \u2013, e prepararam a cria\u00e7\u00e3o de um proletariado branco por meio da pol\u00edtica imigra\u00e7\u00e3o. O processo de transi\u00e7\u00e3o ao capitalismo iniciado com a independ\u00eancia nacional, a aboli\u00e7\u00e3o e primeira constitui\u00e7\u00e3o republicana e consolidado com a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 relegou \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra o papel de ex\u00e9rcito industrial de reserva, ou popula\u00e7\u00e3o sobrante. Grande parte do povo negro teve que se virar por meio de estrat\u00e9gias alternativas de sobreviv\u00eancia fora do mercado formal ou, quando no mercado de trabalho capitalista, assumindo as fun\u00e7\u00f5es mais degradantes, socialmente inferiorizadas e prec\u00e1rias.<\/p>\n<p>O caso t\u00edpico desse processo \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o primordial da mulher negra no Brasil em desenvolvimento capitalista das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Essa mulher negra tinha como uma das principais fun\u00e7\u00f5es empregat\u00edcias o papel de empregada dom\u00e9stica, passadeira, cozinheira e bab\u00e1, desempenhando, basicamente, as mesmas fun\u00e7\u00f5es que as escravas dom\u00e9sticas na \u00e9poca da escravid\u00e3o \u2013 conservando, inclusive, v\u00e1rios elementos daquele sistema, como os castigos f\u00edsicos, os abusos sexuais onipresentes realizados pelo patr\u00e3o e a arquitetura do \u201cquartinho da empregada\u201d. Nesse sentido, no desenvolvimento capitalista brasileiro, o processo de amplia\u00e7\u00e3o da camada m\u00e9dia e de uma burocracia estatal e privada excluiu, no geral, a popula\u00e7\u00e3o negra, criando um quadro de estagna\u00e7\u00e3o da mobilidade social: a popula\u00e7\u00e3o negra, no Brasil, pertence quase que exclusivamente aos setores prolet\u00e1rios, n\u00e3o existindo uma classe m\u00e9dia ou burguesia negra muito expressiva em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica do capitalismo dependente criou um processo cultural de subjetiva\u00e7\u00e3o no qual o negro nunca \u00e9 visto no papel de advogado, m\u00e9dico, juiz, engenheiro, professor universit\u00e1rio ou burocrata de remunera\u00e7\u00e3o mais elevada, por exemplo. O negro sempre foi pedreiro, lixeiro, porteiro, mendigo, lavador de carros, seguran\u00e7a e por a\u00ed vai. Essa estratifica\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial na divis\u00e3o social do trabalho reproduz uma s\u00e9rie de espa\u00e7os sociais com seus respectivos imagin\u00e1rios, onde nunca o negro ser\u00e1 encaixado. Um desses espa\u00e7os \u00e9, sem d\u00favida, a universidade e, com ela, um conjunto de rela\u00e7\u00f5es associadas ao papel de intelectual.<\/p>\n<p>A imagem t\u00edpica do intelectual n\u00e3o \u00e9 a de um negro. Quando imaginamos algu\u00e9m \u201cinteligente\u201d, um grande professor, um pensador de renome, o estere\u00f3tipo b\u00e1sico \u00e9 de um homem branco (de classe m\u00e9dia ou oriundo da burguesia), \u201cbem vestido\u201d, acima dos quarenta anos e com ares aristocr\u00e1ticos. N\u00e3o deixa de ser expressivo que, segundo a vers\u00e3o mais aceita na hist\u00f3ria do pensamento social brasileiro, os pais fundadores da nossa moderna compreens\u00e3o do Brasil s\u00e3o Gilberto Freyre, S\u00e9rgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. Guardadas todas as diferen\u00e7as pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas entre eles, os tr\u00eas t\u00eam em comum o fato de serem homens brancos de origens aristocr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Assim, o conjunto de rela\u00e7\u00f5es sociais nas quais um intelectual est\u00e1 envolvido pressup\u00f5e, como parte indissoci\u00e1vel, uma subjetividade e um imagin\u00e1rio branco dos sujeitos participantes desses espa\u00e7os. O branco \u00e9 o professor, o pesquisador e o membro da burocracia universit\u00e1ria de maior n\u00edvel \u2013 diretores, pr\u00f3-reitores, reitores etc. \u2013 e o negro pertence ao corpo de trabalhadores da manuten\u00e7\u00e3o, limpeza, seguran\u00e7a e da baixa burocracia.<\/p>\n<p>Dois exemplos da minha trajet\u00f3ria pessoal<br \/>\nDou dois exemplos expressivos para tratar dessa gest\u00e3o. At\u00e9 meus dezessete anos de idade, meu \u201csonho profissional\u201d era em primeiro lugar arrumar um emprego com \u201ccarteira assinada\u201d (comecei a trabalhar com quatorze anos vendendo jornal no sinal) e conseguir ser porteiro em um pr\u00e9dio \u2013 para mim, era um trabalho tranquilo porque \u201cn\u00e3o carregava peso\u201d e recebia \u201cbem\u201d. Nunca me passou pela cabe\u00e7a fazer um curso superior; n\u00e3o fazia ideia de quantas faculdades p\u00fablicas existiam em Pernambuco, o que era o vestibular (sabia apenas que \u201cera uma prova dif\u00edcil\u201d), como entrar na universidade, as op\u00e7\u00f5es de curso ou o sentido social de ter curso superior.<\/p>\n<p>A partir de uma reviravolta que n\u00e3o vale a pena detalhar aqui (a hist\u00f3ria \u00e9 longa), acabei prestando o vestibular com vinte anos de idade e consegui passar. Eu e meus amigos (J\u00falio e Filipe) fomos os primeiros da Favela da Borborema (lugar onde eu nasci e cresci) a entrar em universidades federais. Pois bem, depois dessa aprova\u00e7\u00e3o eu e J\u00falio abrimos um pr\u00e9-vestibular na comunidade, chamado \u201cNovo Caminho\u201d, para ajudar os jovens da nossa favela a tamb\u00e9m entrar na universidade p\u00fablica. Pass\u00e1vamos de porta em porta convidando outros jovens a participarem e logo percebemos um fato interessante: na maior parte do tempo fal\u00e1vamos menos do projeto em si do cursinho popular, do que explicando de fato o que afinal era a universidade, como se fazia para entrar nela, que n\u00e3o era pago, que n\u00e3o era imposs\u00edvel passar no vestibular, que fazer faculdade era importante etc (o projeto foi mantido por dois anos e, por conta dele, v\u00e1rios jovens da nossa comunidade conseguiram tamb\u00e9m chegar ao ensino superior).<\/p>\n<p>O segundo exemplo \u00e9 que, quando cheguei na universidade, percebi logo no primeiro ano duas coisas importantes: primeiro, a imensa maioria do corpo docente era branco (s\u00f3 tive um professor negro em toda minha gradua\u00e7\u00e3o e nenhum no meu mestrado) e, segundo, estavam exclu\u00eddos do conjunto de reflex\u00f5es e estudos da sala de aula os meus problemas cotidianos \u2013 viol\u00eancia policial, exterm\u00ednio da juventude negra, aus\u00eancia de saneamento b\u00e1sico, precariedade dos servi\u00e7os p\u00fablicos, gravidez na adolesc\u00eancia, a cultura das periferias, abandono paterno etc. etc. etc.<\/p>\n<p>Na condi\u00e7\u00e3o de estudante universit\u00e1rio e, posteriormente, militante de uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (a Uni\u00e3o da Juventude Comunista \u2013 UJC), comecei a exercitar uma habilidade que desde cedo se manifestou, a saber: a capacidade de me comunicar facilmente. Percebi que gostava de falar em p\u00fablico e que, aparentemente, falava bem. Em 2013 tive a oportunidade de apresentar minha primeira confer\u00eancia em um semin\u00e1rio sobre a Escola de Frankfurt. Meu tema foi a teoria do fascismo na obra de Theodor W. Adorno. Depois da minha apresenta\u00e7\u00e3o, v\u00e1rias pessoas vieram me cumprimentar e parabenizar pela mesa e uma das palavras que mais ouvi foi \u201csurpresa\u201d.<\/p>\n<p>A maioria das pessoas come\u00e7ava os elogios dizendo: \u201cnossa, fiquei surpreso com a\u2026\u201d e se seguia. Na \u00e9poca pensei que isso era derivado da minha juventude (23 anos) e talvez do meu perfil f\u00edsico e jeito de vestir (bem longe do estere\u00f3tipo de intelectual). De 2013 em diante, seja em espa\u00e7os acad\u00eamicos ou na milit\u00e2ncia pol\u00edtica, tornou-se algo comum participar de mesas, confer\u00eancias, espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e falas em espa\u00e7os p\u00fablicos. Quando existia uma concord\u00e2ncia entre o ouvinte e as ideias que estava expondo, quase sempre o elogio vinha acompanhando de alguma palavra que denotava surpresa sobre o qu\u00e3o boa havia sido a palestra ou a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. J\u00e1 quando havia discord\u00e2ncia, a maioria das cr\u00edticas e questionamentos incidia n\u00e3o nos meus argumentos, dados e fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, mas na capacidade em si de eu saber do tema que havia escolhido abordar. Em suma, um questionamento acerca da minha capacidade de ser um vetor de propaga\u00e7\u00e3o do conhecimento (tipo quando hoje tentam me desqualificar usando termos como \u201cyoutuber\u201d ou \u201cblogueiro\u201d).<\/p>\n<p>Demorou um certo tempo, mas eventualmente percebi que nada daquilo tinha a ver com a minha idade ou apar\u00eancia f\u00edsica. A raz\u00e3o \u00e9 bem mais complexa que isso. Como dito acima, a configura\u00e7\u00e3o do apartheid \u00e9tnico-racial-classista no Brasil forjou um ambiente universit\u00e1rio, e de maneira mais lata um \u201ccampo intelectual\u201d, totalmente branco. A din\u00e2mica desses espa\u00e7os subjetiva e cria imagin\u00e1rios interpelando todos os sujeitos nele presentes com um certo tipo de normalidade. A normalidade \u00e9 a n\u00e3o exist\u00eancia de intelectuais negros nesses espa\u00e7os; a presen\u00e7a de negros e negras representa uma quebra do normal e do padr\u00e3o institu\u00eddo. Como consequ\u00eancia, enquanto rea\u00e7\u00e3o principalmente do campo do inconsciente, o sujeito confrontado com esse desvio de padr\u00e3o assume como m\u00e9dia as duas posturas bin\u00e1rias descritas acima: demonstra surpresa pela capacidade nunca esperada do intelectual negro ou, incapaz de aceitar essa figura social, centra o questionamento na sua capacidade de ser intelectual.<\/p>\n<p>O intelectual negro em ambiente universit\u00e1rio e espa\u00e7os intelectualizados tende a sofrer um profundo sentimento de isolamento e solid\u00e3o porque n\u00e3o se reconhece nos seus pares, nos temas de pesquisa dispon\u00edveis nem na simbologia desses locais. Mesmo quando o sujeito n\u00e3o \u00e9 militante e n\u00e3o tem qualquer n\u00edvel de debate cr\u00edtico, ele inevitavelmente sente isso como um mal-estar difuso. \u00c9 como se a din\u00e2mica em funcionamento gritasse todos os dias que \u201ceste n\u00e3o \u00e9 o seu lugar&#8221;.<\/p>\n<p>Duas posturas, duas rea\u00e7\u00f5es<br \/>\nEsse conjunto de rela\u00e7\u00f5es estruturantes da vida do intelectual (ou aspirante a intelectual) negro tende a forjar duas rea\u00e7\u00f5es-padr\u00e3o com desdobramentos diferentes. A primeira \u00e9 o processo de expuls\u00e3o gradual da universidade e desist\u00eancia de seguir qualquer carreira como intelectual. Quando terminam o curso, tendem a se afastar da universidade e de seus circuitos correlatos e a seguir suas vidas profissionais, muitas vezes n\u00e3o exercendo o of\u00edcio para o qual se formaram (fen\u00f4meno, evidentemente, composto de uma s\u00e9rie de outras rela\u00e7\u00f5es sociais). Em pessoas com milit\u00e2ncia pol\u00edtica esse sentimento normalmente \u00e9 expresso como um puro e simples rep\u00fadio ao car\u00e1ter elitista, aristocr\u00e1tico e autocentrado da universidade e dos espa\u00e7os intelectualizados, sendo pouco ponderada a dose de sofrimento ps\u00edquico que estar nesse espa\u00e7o causava ao sujeito.<\/p>\n<p>A segunda postura assume a forma de uma resist\u00eancia \u201cativa\u201d \u2013 ainda que por vezes n\u00e3o racionalizada \u2013, optando-se por seguir a carreira como intelectual ou acad\u00eamico. Essa via se desdobra em outros dois padr\u00f5es b\u00e1sicos de comportamento. No primeiro, o intelectual negro busca assumir uma postura recatada, discreta. Ele evita se colocar em posi\u00e7\u00f5es de destaque, se envolver em grandes disputas e assumir protagonismo nos espa\u00e7os nos quais est\u00e1 inserido. Apresenta um tipo de \u201chumildade\u201d que o faz nunca exaltar seus m\u00e9ritos e a\u00e7\u00f5es, como se evitasse reduzir o grau de hostilidade dos espa\u00e7os em que est\u00e1 inserido. A segunda tend\u00eancia \u00e9 assumir uma postura agressiva de extrema autoconfian\u00e7a e busca de protagonismo em todas as a\u00e7\u00f5es. O intelectual negro desse tipo parece sempre estar afrontando tudo e todos, debochando do que est\u00e1 estabelecido e exibindo sempre uma postura altiva; via de regra, essas caracter\u00edsticas se misturam com \u201carrog\u00e2ncia\u201d e \u00e1cida ironia.<\/p>\n<p>Esses dois padr\u00f5es b\u00e1sicos de comportamento, embora d\u00edspares na apar\u00eancia, mant\u00eam em comum uma sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a constante. O intelectual negro nesse mundo branco, em seu n\u00e3o-lugar, se sente o tempo todo testado, pressionado, posto em xeque. A postura de recato ou a da afronta s\u00e3o formas diferentes de tentar manejar essa inseguran\u00e7a em ambiente sempre hostil. As consequ\u00eancias dessas rela\u00e7\u00f5es, na produ\u00e7\u00e3o do intelectual, podem variar entre, de um polo, criar uma caricatura de si mesmo quando se busca criticar tudo e todos antes de ter assumido plenamente a capacidade intelectual para tanto, ou, no outro polo, acabar se conformando a um lugar secund\u00e1rio, ou pior, por nunca ousar em sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro tipo de rea\u00e7\u00e3o (e que mais me interessa aqui) \u00e9 diariamente refor\u00e7ado ao perceber que os \u201cformadores de opini\u00e3o\u201d e \u201cespecialistas\u201d da m\u00eddia (incluindo TV, portais de internet, programas de entrevista, grandes jornais etc.) tamb\u00e9m s\u00e3o essencialmente brancos. E que mesmo quando um negro \u00e9 convidado a qualquer desses espa\u00e7os, essa participa\u00e7\u00e3o normalmente vem condicionada \u00e0 perspectiva monotem\u00e1tica: negro fala de racismo. Ali\u00e1s, nada mais refor\u00e7ador de todos os estere\u00f3tipos e imagin\u00e1rios constru\u00eddos pelo racismo que s\u00f3 termos negros e negras convidados para palestras, confer\u00eancias e forma\u00e7\u00f5es em datas como o anivers\u00e1rio da aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o e o dia da consci\u00eancia negra, ou para discutir exclusivamente temas relacionados \u00e0 quest\u00e3o racial \u2013 \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cheresia\u201d permitida pela ordem.<\/p>\n<p>Todas as dificuldades pr\u00f3prias de ser um intelectual no Brasil (extrema depend\u00eancia da universidade que, hoje, \u00e9 uma \u00f3tima institui\u00e7\u00e3o para formar acad\u00eamicos, mas muito ruim para formar intelectuais; pobreza do mercado editorial brasileiro, baixa valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho intelectual nos partidos, sindicatos e movimentos populares; for\u00e7a do colonialismo cultural, irracionalismo e neoconservadorismo etc.) s\u00e3o ampliadas e potencializadas quando se trata do ser negro. Objetiva e subjetivamente esse efetivamente \u201cn\u00e3o \u00e9 o nosso lugar\u201d.<\/p>\n<p>Quebrando estruturas: o intelectual negro e a revolu\u00e7\u00e3o brasileira<br \/>\nPara concluir, finalizo minha reflex\u00e3o com uma quest\u00e3o importante. A quebra dessa forma de ser da universidade e dos espa\u00e7os intelectualizados no Brasil n\u00e3o acontece desligada de um processo pol\u00edtico revolucion\u00e1rio de transforma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, da educa\u00e7\u00e3o e da universidade. Pol\u00edticas p\u00fablicas como cotas criam, no m\u00e1ximo, um maior tensionamento nas estruturas estabelecidas. Embora esse tensionamento seja importante, ele atua como uma esp\u00e9cie de moderniza\u00e7\u00e3o sem mudan\u00e7a: a universidade e o \u201ccampo intelectual\u201d mudam para que tudo continue na mesma.<\/p>\n<p>Essa compreens\u00e3o, contudo, n\u00e3o deve servir de desculpa para deixar para um long\u00ednquo amanh\u00e3 a constru\u00e7\u00e3o desde j\u00e1 de novas pr\u00e1ticas sociais. Nos partidos pol\u00edticos, nos movimentos populares e nos sindicatos trabalhistas, por exemplo, percebe-se como \u00e9 raro termos lideran\u00e7as pol\u00edticas e intelectuais negros e negras. Percebe-se como nesses espa\u00e7os a quest\u00e3o racial e o racismo s\u00e3o sempre abordados como temas \u00e0 parte, quase entificados: rendem discuss\u00f5es tem\u00e1ticas espec\u00edficas, mas nunca s\u00e3o tematizadas como determinantes gen\u00e9ticos e estruturadores do capitalismo brasileiro e de todas as express\u00f5es da quest\u00e3o social. Nesse sentido, vale tamb\u00e9m mencionar a tend\u00eancia a se valorizar a figura do\/a intelectual negro\/a apenas em efem\u00e9rides comemorativas. Um esfor\u00e7o para, nos espa\u00e7os de milit\u00e2ncia, mudar desde j\u00e1 essas pr\u00e1ticas \u00e9 necess\u00e1rio, indispens\u00e1vel e deve estar conectado com o projeto de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista que construa a universidade e a educa\u00e7\u00e3o populares.<\/p>\n<p>\u00c9 evidentemente imposs\u00edvel que essa mudan\u00e7a ocorra enquanto a quest\u00e3o racial for considerada algo identit\u00e1rio e menor, ou afirmando-se uma centralidade abstrata de classe, descolada das condi\u00e7\u00f5es concretas de forma\u00e7\u00e3o, hist\u00f3ria, vida e exist\u00eancia do povo trabalhador. Recentemente, uma professora integrante de uma tend\u00eancia do PSOL afirmou em uma live na internet, entre xingamentos e outras cobras e lagartos (como me chamar de youtuber para negar a condi\u00e7\u00e3o de intelectual ou interlocutor s\u00e9rio), que \u00e9 ser identit\u00e1rio defender que a quest\u00e3o racial tem centralidade na luta de classes no Brasil. Ao que parece, vivemos na Noruega e eu n\u00e3o fui informado.<\/p>\n<p>Quanto ao segundo tipo de rea\u00e7\u00e3o assinalado acima (este mais ligado ao ambiente da academia e dos espa\u00e7os intelectualizados para al\u00e9m da universidade), embora tenha impress\u00f5es sobre como criar novas pr\u00e1ticas para combater as estruturas postas, quero deixar para desenvolver melhor em outro escrito.<\/p>\n<p>Os Racionais MCs dizem na m\u00fasica \u201cA vida \u00e9 desafio\u201d que \u201cpor voc\u00ea ser preto tem que ser duas vezes melhor\u201d. Mas \u201ccomo fazer duas vezes melhor, se voc\u00ea t\u00e1 pelo menos cem vezes atrasado pela escravid\u00e3o, pela hist\u00f3ria, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses\u2026 por tudo que aconteceu? Duas vezes melhor como?\u201d. Essa reflex\u00e3o \u00e9 totalmente justa para pensar a situa\u00e7\u00e3o dos negros que se aventuram a cumprir a fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-social de ser um intelectual. Os traumas, as psicoses, o preconceito, o mundo branco atuam todos os dias para nos derrubar.<\/p>\n<p>Essa tentativa de derrubada pode assumir muitas formas \u2013 como, por exemplo, nunca fazer uma cr\u00edtica s\u00e9ria ao interlocutor e simplesmente tach\u00e1-lo de alguma coisa, buscando, assim, forjar uma barreira moral e um estigma com forma quase de v\u00edrus contagioso.<\/p>\n<p>Para fechar, diria que se \u00e0s vezes parece que estamos sempre armados, na defensiva, \u00e9 porque nossa vida \u00e9 uma guerra. E na guerra morre quem n\u00e3o atira. E, como falaram os Racionais MCs, eu n\u00e3o tenho dom para v\u00edtima.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Jones Manoel \u00e9 pernambucano, filho da Dona Elza e comunista de carteirinha. Come\u00e7ou sua milit\u00e2ncia na favela onde nasceu e cresceu, a comunidade da Borborema, construindo um cursinho popular, o Novo Caminho, junto com seu amigo Julio Santos (ele, Julio e outro amigo, Felipe Bezerra, foram os primeiros jovens da hist\u00f3ria de Borborema a entrar em uma universidade p\u00fablica). Depois de dois anos com o cursinho popular, passou a militar no movimento estudantil em paralelo ao seu curso de hist\u00f3ria na UFPE. Pouco tempo depois, ingressou nas fileiras da UJC (a juventude do PCB). Ativo no movimento estudantil at\u00e9 2016, hoje atua no movimento sindical e na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o popular. Mestre em servi\u00e7o social, atualmente \u00e9 professor de hist\u00f3ria, mant\u00e9m um canal no YouTube e participa do podcast Revolushow. Segue militante do PCB. Escreve para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2020\/02\/11\/o-negro-no-mundo-intelectual-do-branco-breve-nota-sociologica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2020\/02\/11\/<wbr \/>o-negro-no-mundo-intelectual-do-branco-breve-nota-sociologica\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24892\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[219],"class_list":["post-24892","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6tu","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24892","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24892"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24892\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24892"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24892"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24892"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}