{"id":24904,"date":"2020-02-15T01:53:56","date_gmt":"2020-02-15T04:53:56","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24904"},"modified":"2020-02-15T01:53:56","modified_gmt":"2020-02-15T04:53:56","slug":"revolucoes-nao-operam-milagres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24904","title":{"rendered":"Revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o operam milagres"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/bloglavrapalavra.files.wordpress.com\/2020\/02\/bolivia-1.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Uma carta aos intelectuais que ridicularizam revolu\u00e7\u00f5es em nome da pureza<\/p>\n<p>Lavra Palavra<\/p>\n<p>Por Roxanne Dunbar-Ortiz, Ana Maldonado, Pilar Troya Fern\u00e1ndez, and Vijay Prashad, via MR Online, traduzido por Guilherme Laranjeira<\/p>\n<p>As revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o acontecem repentinamente, nem imediatamente transformam a sociedade. Uma revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo que se move a diferentes velocidades, cujo ritmo pode mudar rapidamente se o motor da hist\u00f3ria \u00e9 acelerado por um conflito de classes intensificado. Entretanto, na maioria das vezes, a constru\u00e7\u00e3o do \u00edmpeto revolucion\u00e1rio \u00e9 glacial, e a tentativa de transformar o estado e a sociedade pode ser ainda mais lenta.<\/p>\n<p>Leon Trotsky, em seu ex\u00edlio turco em 1930, escreveu o mais not\u00e1vel estudo da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Trinta anos tinham se passado desde que o Imp\u00e9rio czarista havia sido derrubado. Entretanto a revolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava sendo ridicularizada, at\u00e9 mesmo por pessoas de Esquerda. \u201cO capitalismo\u201d, escreveu Trotsky na conclus\u00e3o deste livro, \u201cprecisou de 100 anos para elevar a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica \u00e0s alturas e mergulhar a humanidade no inferno da guerra e da crise. Para o socialismo, seus inimigos permitem apenas quinze anos para criar e prover um para\u00edso terrestre. N\u00e3o assumimos tal obriga\u00e7\u00e3o sobre n\u00f3s mesmos. N\u00f3s nunca definimos estas datas. O processo de vasta transforma\u00e7\u00e3o deve ser medido numa escala adequada.\u201d<\/p>\n<p>Quando Hugo Ch\u00e1vez venceu a elei\u00e7\u00e3o na Venezuela (dezembro de 1998) e quando Evo Morales Ayma venceu a elei\u00e7\u00e3o na Bol\u00edvia (dezembro de 2005), seus cr\u00edticos de esquerda na Am\u00e9rica do Norte e na Europa n\u00e3o deram nenhum tempo aos governos para respirar. Alguns professores com orienta\u00e7\u00e3o esquerdista come\u00e7aram imediatamente a criticar esses governos por suas limita\u00e7\u00f5es, e at\u00e9 suas falhas. Essa atitude era limitada politicamente \u2013 n\u00e3o havia solidariedade dada a esses experimentos; tamb\u00e9m era limitada intelectualmente \u2013 n\u00e3o havia no\u00e7\u00e3o das profundas dificuldades de um experimento socialista nos pa\u00edses de Terceiro Mundo calcificado em hierarquias sociais e esgotado de recursos financeiros.<\/p>\n<p>Ritmo de Revolu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Dois anos ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, Lenin escreveu que a rec\u00e9m-criada URSS n\u00e3o \u00e9 um \u201ctalism\u00e3 que opera milagres\u201d, nem \u201cabre o caminho para o socialismo. Ela d\u00e1 \u00e0queles que antes eram oprimidos a chance de endireitar as costas e, em um grau cada vez maior, tomar todo o governo do pa\u00eds, toda a administra\u00e7\u00e3o da economia, toda a gest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, em suas pr\u00f3prias m\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p>Mas mesmo isso n\u00e3o seria f\u00e1cil. \u00c9, Lenin escreveu, \u201cuma longa, dif\u00edcil e teimosa luta de classes, que, ap\u00f3s a derrubada do dom\u00ednio capitalista, ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o do estado burgu\u00eas\u2026 n\u00e3o desaparece\u2026 mas apenas muda suas formas e, em muitos aspectos, se torna mais feroz\u201d. Esse foi o julgamento de Lenin depois que o estado czarista foi dominado, e depois que o governo socialista come\u00e7ou a consolidar seu poder. Alexandra Kollontai escreveu (como em \u201cAmor das Abelhas Trabalhadoras\u201d) sobre os esfor\u00e7os para construir o socialismo, os conflitos dentro do socialismo para atingir seus objetivos. Nada \u00e9 autom\u00e1tico; tudo \u00e9 uma luta.<\/p>\n<p>Lenin e Kollontai argumentaram que a luta de classes n\u00e3o acaba quando um governo revolucion\u00e1rio toma o estado; ela na verdade se \u201cintensifica\u201d, a oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 intensa porque os riscos s\u00e3o altos, e o momento \u00e9 perigoso porque a oposi\u00e7\u00e3o \u2013 nomeadamente a burguesia e a velha aristocracia \u2013 tinha o imperialismo do seu lado. Winston Churchill disse: \u201cO bolchevismo deve ser estrangulado no seu ber\u00e7o\u201d, e assim os ex\u00e9rcitos ocidentais se juntaram ao Ex\u00e9rcito Branco em um ataque militar quase fatal na Rep\u00fablica Sovi\u00e9tica. Esse ataque durou dos \u00faltimos dias de 1917 at\u00e9 1923 \u2013 seis anos completos de ataque militar prolongado.<\/p>\n<p>Nem na Venezuela, nem na Bol\u00edvia, nem em nenhum dos pa\u00edses que se voltaram para a Esquerda nos \u00faltimos vinte anos, o estado burgu\u00eas foi totalmente transcendido, nem o dom\u00ednio capitalista foi derrubado. Os processos revolucion\u00e1rios nesses pa\u00edses tiveram que criar gradualmente institui\u00e7\u00f5es da e para a classe trabalhadora, juntamente com a continua\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio capitalista. Essas institui\u00e7\u00f5es refletem o surgimento de uma forma de estado \u00fanica, baseada na democracia participativa; express\u00f5es disso s\u00e3o as Misiones Sociales, entre outras. Qualquer tentativa de transcender completamente o capitalismo foi restringida pelo poder da burguesia \u2013 que n\u00e3o foi desfeito por repetidas elei\u00e7\u00f5es e que agora \u00e9 a fonte da contra-revolu\u00e7\u00e3o; e foi constrangido pelo poder do imperialismo \u2013 que conseguiu, por enquanto, um golpe na Bol\u00edvia e que representa uma amea\u00e7a constante de golpe na Venezuela. Ningu\u00e9m, em 1998 ou em 2005, sugeriu que o que aconteceu na Venezuela ou na Bol\u00edvia foi uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d como a Revolu\u00e7\u00e3o Russa; as vit\u00f3rias eleitorais fizeram parte de um processo revolucion\u00e1rio. Como primeiro ato de seu governo, Ch\u00e1vez anunciou um processo constituinte para a re-funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. De maneira similar, Evo afirmou em 2006 que o Movimiento al Socialismo (MAS) havia sido eleito para o governo, mas n\u00e3o havia tomado o poder; mais tarde foi lan\u00e7ado um processo constituinte, que era, ele mesmo, uma longa jornada. A Venezuela entrou em um \u201cprocesso revolucion\u00e1rio\u201d estendido, enquanto a Bol\u00edvia entrou em um \u201cprocesso de mudan\u00e7a\u201d ou \u2013 como eles chamavam \u2013 simplesmente o \u201cprocesso\u201d, que mesmo agora \u2013 ap\u00f3s o golpe \u2013 est\u00e1 em andamento. No entanto, tanto a Venezuela como a Bol\u00edvia experimentaram toda a for\u00e7a de um \u201cguerra h\u00edbrida\u201d \u2013 da sabotagem de infraestrutura f\u00edsica \u00e0 sabotagem da capacidade de captar recursos dos mercados de capitais.<\/p>\n<p>Lenin sugeriu que, depois de capturar o estado e desmantelar a propriedade capitalista, o processo revolucion\u00e1rio na nova rep\u00fablica sovi\u00e9tica era dif\u00edcil, a classe \u201cteimosa\u201d continuou viva e bem; imagine ent\u00e3o quanto mais dif\u00edcil \u00e9 a luta contra essa classe \u201cteimosa\u201d na Venezuela e na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Revolu\u00e7\u00f5es no Reino da Necessidade<\/p>\n<p>Imagine, novamente, como \u00e9 dif\u00edcil construir uma sociedade socialista em um pa\u00eds, no qual \u2013 apesar de sua riqueza de recursos naturais -, tenha grande pobreza e desigualdade. Mais profunda ainda, existe a realidade cultural de humilha\u00e7\u00e3o social que grande parte da popula\u00e7\u00e3o sofreu e lutou contra durante s\u00e9culos. N\u00e3o surpreende que, nesses pa\u00edses, os mais oprimidos trabalhadores agr\u00edcolas, os mineiros e a classe trabalhadora urbana, sejam de comunidades ind\u00edgenas ou de comunidades de descendentes de africanos. A carga esmagadora de indignidade, combinada com a falta de recursos de f\u00e1cil acesso, dificulta ainda mais os processos revolucion\u00e1rios no \u201creino da necessidade\u201d.<\/p>\n<p>Nos seus Manuscritos Econ\u00f4micos e Filos\u00f3ficos (1844), Marx faz uma distin\u00e7\u00e3o entre o \u201creino da liberdade\u201d \u2013 onde \u201co trabalho que \u00e9 determinado pela necessidade e considera\u00e7\u00f5es mundanas cessam\u201d \u2013 e o \u201creino da necessidade\u201d \u2013 onde as necessidades f\u00edsicas n\u00e3o s\u00e3o atendidas. Uma longa hist\u00f3ria de subjuga\u00e7\u00e3o colonial e, em seguida, de roubo imperialista, drenou grande parte das riquezas do planeta e fez com que estas regi\u00f5es \u2013 principalmente na \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica Latina \u2013 permanecessem permanentemente no \u201creino da necessidade\u201d. Quando Ch\u00e1vez venceu sua primeira elei\u00e7\u00e3o na Venezuela, a taxa de pobreza era de 23,4%; na Bol\u00edvia, quando Morales venceu suas primeira elei\u00e7\u00e3o, a taxa de pobreza era de 38,2%. O que esse n\u00fameros mostram n\u00e3o \u00e9 apenas a pobreza absoluta de grandes setores da popula\u00e7\u00e3o, mas carregam consigo hist\u00f3rias de humilha\u00e7\u00e3o social e indignidade que n\u00e3o podem ser transformadas em simples estat\u00edsticas.<\/p>\n<p>As revolu\u00e7\u00f5es e os processos revolucion\u00e1rios aparentemente se enraizaram mais no reino da necessidade \u2013 na R\u00fassia czarista, na China, em Cuba, no Vietn\u00e3 \u2013 do que no reino da liberdade \u2013 na Europa e nos Estados Unidos. Essas revolu\u00e7\u00f5es e esses processos revolucion\u00e1rios \u2013 como na Venezuela e na Bol\u00edvia \u2013 s\u00e3o feitos em lugares que simplesmente n\u00e3o possuem ac\u00famulos de riqueza que possam ser socializados. A burguesia nessas sociedades, ou foge com seu dinheiro no momento da revolu\u00e7\u00e3o ou mudan\u00e7a revolucion\u00e1ria, ou permanece no local, mas mant\u00e9m seu dinheiro em para\u00edsos fiscais ou em lugares como Nova York e Londres. Esse dinheiro, fruto do trabalho do povo, n\u00e3o pode ser acessado pelo novo governo sem incorrer na ira do imperialismo. Veja o qu\u00e3o r\u00e1pido os EUA organizaram para que ouro da Venezuela fosse apreendido pelo Banco de Londres, e para os EUA congelarem as contas banc\u00e1rias dos governos do Ir\u00e3 e da Venezuela, e veja como os investimentos secaram rapidamente quando Venezuela, Equador, Nicar\u00e1gua e a Bol\u00edvia recusaram-se a cumprir os ditames dos mecanismo de aquisi\u00e7\u00f5es por Estado-investidor do Banco Mundial.<\/p>\n<p>Tanto Ch\u00e1vez como Morales tentaram tomar conta dos recursos de seus pa\u00edses, um ato tratado como uma abomina\u00e7\u00e3o pelo imperialismo. Ambos enfrentaram repreens\u00e3o, com a acusa\u00e7\u00e3o de serem \u201cditadores\u201d porque querem renegociar os acordos feitos por governos anteriores para a remo\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas. Eles precisavam desse capital n\u00e3o para engrandecimento pessoal \u2013 ningu\u00e9m pode acus\u00e1-los de corrup\u00e7\u00e3o pessoal -, mas para aumentar a capacidade social, econ\u00f4mica e cultural de seus povos.<\/p>\n<p>Todos os dias permanece uma luta por processos revolucion\u00e1rios no \u201creino da necessidade\u201d. O melhor exemplo disso \u00e9 Cuba, cujo governo revolucion\u00e1rio teve que lutar contra um embargo esmagador e contra amea\u00e7as de assassinatos e golpes desde seu in\u00edcio.<\/p>\n<p>Revolu\u00e7\u00f5es das Mulheres<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 admitido \u2013 porque seria tolice negar \u2013 que as mulheres est\u00e3o no centro dos protestos na Bol\u00edvia contra o golpe e pela restaura\u00e7\u00e3o do governo de Morales; na Venezuela, de forma similar, a maioria das pessoas que tomam as ruas para defender a revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana s\u00e3o mulheres. A maioria dessas mulheres podem n\u00e3o ser MASistas ou Chavistas, mas certamente compreendem que esses processos revolucion\u00e1rios s\u00e3o feministas, socialistas e contra a indignidade com que os ind\u00edgenas e os afrodescendentes est\u00e3o acostumados a conviver.<\/p>\n<p>Pa\u00edses como a Venezuela e a Bol\u00edvia, Equador e Argentina, enfrentaram imensas press\u00f5es do Fundo Monet\u00e1rio Internacional nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990 para fazerem cortes profundos no apoio estatal \u00e0 sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, e assist\u00eancia a idosos. O colapso desses sistemas cruciais de apoio social sobrecarrega a \u201ceconomia do cuidado\u201d, que \u00e9 mantida amplamente \u2013 por raz\u00f5es patriarcais \u2013 pelas mulheres. Se a \u201cm\u00e3o invis\u00edvel\u201d falhou em cuidar das pessoas, o \u201ccora\u00e7\u00e3o invis\u00edvel\u201d precisou faz\u00ea-lo. Foi a experi\u00eancia dos cortes na \u201ceconomia do cuidado\u201d que aprofundou a radicaliza\u00e7\u00e3o das mulheres em nossas sociedades. Seu feminismo emergiu de suas experi\u00eancias de patriarcado e pol\u00edticas de ajustes estruturais; a tend\u00eancia do capitalismo de aproveitar a viol\u00eancia e a priva\u00e7\u00e3o direcionou a luta dos feminismos ind\u00edgenas e da classe trabalhadora diretamente para os projetos socialistas de Ch\u00e1vez e Morales. Enquanto a mar\u00e9 do neoliberalismo continua a inundar o mundo, e ao afogar sociedades em ansiedade e carestia, s\u00e3o as mulheres que t\u00eam sido as mais ativas nas luta por um mundo diferente.<\/p>\n<p>Morales e Ch\u00e1vez s\u00e3o ambos homens, mas no processo revolucion\u00e1rio eles passaram a simbolizar uma realidade diferente para toda a sociedade. Em diferentes graus, seus governos se comprometeram com uma plataforma que aborda tanto as culturas do patriarcado, como as pol\u00edticas dos cortes sociais que sobrecarregam as mulheres com o fardo de manter a sociedade unida. Os processos revolucion\u00e1rios na Am\u00e9rica Latina, portanto, precisam ser entendidos como profundamente cientes da import\u00e2ncia de colocar as mulheres, os ind\u00edgenas e os afrodescendentes no centro da luta. Ningu\u00e9m negaria que existem centenas de erros cometidos pelos governos, erros de julgamento que atrasam a luta contra o patriarcado e o racismo; entretanto, esses s\u00e3o erros que podem ser corrigidos, e n\u00e3o s\u00e3o caracter\u00edsticas estruturais dos processos revolucion\u00e1rios. Isso \u00e9 algo profundamente reconhecido pelas mulheres ind\u00edgenas e afrodescendentes nesses pa\u00edses; a prova desse reconhecimento n\u00e3o est\u00e1 neste ou naquele artigo que elas escreveram, mas por sua presen\u00e7a ativa e en\u00e9rgica nas ruas.<\/p>\n<p>Como parte do processo bolivariano na Venezuela, as mulheres t\u00eam sido essenciais na reconstru\u00e7\u00e3o das estruturas sociais erodidas por d\u00e9cadas de capitalismo de austeridade. Seu papel tem sido central no desenvolvimento do poder popular e na cria\u00e7\u00e3o da democracia participativa. Sessenta e quatro por cento dos porta-vozes das 3.186 comunas s\u00e3o mulheres, assim como a maioria dos l\u00edderes dos 48.160 conselhos comunais; sessenta e cinco por cento dos l\u00edderes dos comit\u00eas locais de suprimento e produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o mulheres. As mulheres n\u00e3o apenas exigem igualdade no local de trabalho, mas exigem igualdade no dom\u00ednio social, cujas comunas constituem os \u00e1tomos do socialismo bolivariano. As mulheres no dom\u00ednio social lutaram para construir a possibilidade de um autogoverno, construindo um poder dual e, portanto, lentamente corroendo a forma do estado liberal. Contra o capitalismo de austeridade, as mulheres mostraram sua criatividade, sua for\u00e7a, e sua solidariedade n\u00e3o apenas contra as pol\u00edticas neoliberais, mas tamb\u00e9m pelo experimento socialista e contra a guerra h\u00edbrida.<\/p>\n<p>Democracia e Socialismo<\/p>\n<p>As correntes intelectuais de esquerda foram gravemente debilitadas ap\u00f3s o per\u00edodo da queda da URSS. O marxismo e o materialismo dial\u00e9tico perderam consider\u00e1vel credibilidade n\u00e3o apenas no Ocidente, mas em grande parte do mundo; o p\u00f3s-colonialismo e os estudos subalternos \u2013 variantes do p\u00f3s-estruturalismo e do p\u00f3s-modernismo \u2013 floresceram nos c\u00edrculos intelectuais e acad\u00eamicos. Um dos principais temas dessa tend\u00eancia de estudos foi argumentar que o \u201cEstado\u201d era obsoleto como ve\u00edculo de transforma\u00e7\u00e3o social, e que a \u201cSociedade Civil\u201d era a salva\u00e7\u00e3o. Uma combina\u00e7\u00e3o da teoria p\u00f3s-marxista e anarquista adotou essa linha de argumenta\u00e7\u00e3o para ridicularizar quaisquer experimentos de constru\u00e7\u00e3o do socialismo atrav\u00e9s do poder do Estado. O Estado era visto meramente como um instrumento do capitalismo, e n\u00e3o um instrumento a favor da luta de classes. Entretanto, se as pessoas se retirarem da disputa do estado, ele servir\u00e1 \u2013 sem desafios \u2013 \u00e0 oligarquia , e aprofundar\u00e1 as desigualdades e a discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Privilegiar a ideia de \u201cmovimentos sociais\u201d acima dos movimentos pol\u00edticos reflete a desilus\u00e3o com o per\u00edodo heroico da liberta\u00e7\u00e3o nacional, incluindo os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas. Tamb\u00e9m descarta a hist\u00f3ria real das organiza\u00e7\u00f5es populares em rela\u00e7\u00e3o aos movimentos pol\u00edticos que conquistaram o poder do estado. Em 1977, ap\u00f3s uma luta consider\u00e1vel, as organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas for\u00e7aram as Na\u00e7\u00f5es Unidas a abrir um projeto para acabar com a discrimina\u00e7\u00e3o contra as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas nas Am\u00e9ricas. O Conselho Ind\u00edgena Sul-Americano (CISA), com sede em La Paz, foi uma dessas organiza\u00e7\u00f5es que trabalhou em estreita colabora\u00e7\u00e3o com o Conselho Mundial da Paz, a Liga Internacional de Mulheres pela Paz e Liberdade, al\u00e9m de v\u00e1rios movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional (Congresso Nacional Africano, Organiza\u00e7\u00e3o do Povo do Sudoeste Africano e Organiza\u00e7\u00e3o de Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina. Foi a partir dessa unidade e dessa luta que a ONU estabeleceu o Grupo de Trabalho sobre Popula\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas em 1981 e declarou 1993 como o Ano Internacional das Na\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas. Esse foi um exemplo muito claro da import\u00e2ncia da unidade e da luta entre os movimentos populares e os estados fraternos \u2013 se n\u00e3o fosse pelas lutas dos movimentos populares de 1977 a 2007, ajudados e incentivados pelos estados fraternos, e se n\u00e3o pelo governo Boliviano, essa Declara\u00e7\u00e3o \u2013 que tem imensa import\u00e2ncia para levar a luta adiante \u2013 n\u00e3o teria sido aprovada.<\/p>\n<p>Intelectuais ind\u00edgenas das Am\u00e9ricas entenderam a complexidade pol\u00edtica para favorecer essa luta \u2013 que a autodetermina\u00e7\u00e3o ind\u00edgena vem de uma luta que atravessa a sociedade e o estado, visando superar o poder burgu\u00eas e colonial-colonizador, al\u00e9m de procurar instrumentos para preparar a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo. Entre esses instrumentos \u2013 como reconhecido por Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui, do Peru, e Nela Mart\u00ednez, do Equador, quase um s\u00e9culo atr\u00e1s \u2013 est\u00e1 a comuna.<\/p>\n<p>As revolu\u00e7\u00f5es na Bol\u00edvia e na Venezuela n\u00e3o apenas afiaram politicamente as rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres, entre comunidades ind\u00edgenas e n\u00e3o ind\u00edgenas, mas tamb\u00e9m desafiaram o entendimento da democracia e do pr\u00f3prio socialismo. Esses processos revolucion\u00e1rios n\u00e3o apenas tiveram que trabalhar dentro das regras da democracia liberal, mas eles, ao mesmo tempo, constru\u00edram uma nova estrutura institucional atrav\u00e9s das comunas e de outras formas. Foi atrav\u00e9s das vit\u00f3rias eleitorais e a tomada das institui\u00e7\u00f5es do estado que a revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana conseguiu direcionar recursos para uma crescente despesa social (na sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia) e atacar diretamente o patriarcado e o racismo. O poder do estado, nas m\u00e3os da esquerda, foi utilizado para construir essas novas estruturas institucionais que estendem o estado e v\u00e3o al\u00e9m dele. A exist\u00eancia dessas duas formas \u2013 institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas liberais e as institui\u00e7\u00f5es socialistas-feministas \u2013 levou ao rompimento do preconceito da fict\u00edcia \u201cigualdade liberal\u201d. A democracia, se reduzida ao ato de votar, for\u00e7a os indiv\u00edduos a acreditar que s\u00e3o cidad\u00e3os com o mesmo poder que outros cidad\u00e3os, independentemente de suas posi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas, pol\u00edticas e culturais. O processo revolucion\u00e1rio desafia esse mito liberal, mas ainda n\u00e3o conseguiu super\u00e1-lo \u2013 como pode ser visto na Bol\u00edvia e na Venezuela. \u00c9 um grande embate criar um novo consenso cultural em torno da democracia socialista, uma democracia que est\u00e1 enraizada n\u00e3o em um \u201cvoto igual\u201d, mas em uma experi\u00eancia tang\u00edvel de construir uma nova sociedade.<\/p>\n<p>Uma das din\u00e2micas do estado sob um governo de esquerda \u00e9 que ele abarca a agenda de diversos movimentos sociais e pol\u00edticos do povo. Ao mesmo tempo, muitos representantes desses movimentos \u2013 bem como de v\u00e1rias ONGs \u2018ingressam no governo, trazendo suas v\u00e1rias habilidades para as institui\u00e7\u00f5es complexas do governo moderno. Isso tem um impacto contradit\u00f3rio: atende \u00e0s demandas das pessoas e, ao mesmo tempo, tende a enfraquecer organiza\u00e7\u00f5es independentes de v\u00e1rios tipos. Esses desenvolvimentos fazem parte do processo de ter um governo de esquerda no poder, seja na \u00c1sia ou na Am\u00e9rica do Sul. Aqueles que querem permanecer independentes do governo lutam para permanecerem relevantes; muitas vezes se tornam cr\u00edticos amargos do governo, e suas cr\u00edticas s\u00e3o frequentemente armadas pelas for\u00e7as imperialistas para fins alheios at\u00e9 aos que fazem tais cr\u00edticas.<\/p>\n<p>O mito liberal procura falar em nome do povo, obscurecer os reais interesses e aspira\u00e7\u00f5es do povo \u2013 em particular das mulheres, das comunidades ind\u00edgenas e dos afro-descendentes. A esquerda dentro das experi\u00eancias da Bol\u00edvia e da Venezuela procurou desenvolver o dom\u00ednio coletivo do povo em uma contenciosa luta de classes. Uma posi\u00e7\u00e3o que ataca a pr\u00f3pria ideia de \u201cestado\u201d como opressor n\u00e3o v\u00ea como o estado da Bol\u00edvia e da Venezuela tenta usar essa autoridade para construir institui\u00e7\u00f5es de poder dual, de maneira a criar uma nova s\u00edntese pol\u00edtica, com as mulheres na frente.<\/p>\n<p>Conselho Revolucion\u00e1rio sem Experi\u00eancia Revolucion\u00e1ria<\/p>\n<p>Revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis de fazer. Elas est\u00e3o cheias de retrocessos e erros, uma vez que s\u00e3o constru\u00eddas por pessoas com falhas e cujos partidos pol\u00edticos devem sempre aprender a aprender. O professor \u00e9 a experi\u00eancia, e s\u00e3o aqueles dentro dos partidos que t\u00eam treinamento e tempo para elaborar suas experi\u00eancias em li\u00e7\u00f5es. Toda revolu\u00e7\u00e3o possui seus pr\u00f3prios mecanismos de se corrigir, suas pr\u00f3prias vozes de dissid\u00eancia. Mas isso n\u00e3o significa que um processo revolucion\u00e1rio deva ser surdo de cr\u00edticas; deve receb\u00ea-las com boas vindas.<\/p>\n<p>As cr\u00edticas s\u00e3o sempre bem-vindas, mas de que forma elas v\u00eam? Essas s\u00e3o duas formas t\u00edpicas do cr\u00edtico da \u201cesquerda\u201d que ridiculariza revolu\u00e7\u00f5es em nome da pureza\u2026<\/p>\n<p>Se a cr\u00edtica vem do ponto de vista da perfei\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o seu padr\u00e3o n\u00e3o apenas \u00e9 alto demais, mas falha em entender a natureza da luta de classes que precisa enfrentar um poder congelado herdado por gera\u00e7\u00f5es.<br \/>\nSe as cr\u00edticas pressup\u00f5em que todos os projetos que contestam o dom\u00ednio eleitoral ir\u00e3o trair a revolu\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o h\u00e1 pouco entendimento da dimens\u00e3o de massa dos projetos eleitorais e dos experimentos de poder dual. O pessimismo revolucion\u00e1rio interrompe a possibilidade de a\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o ir\u00e1 ter sucesso se n\u00e3o se permitir falhar e tentar novamente. Esse ponto de vista da cr\u00edtica fornece apenas desespero.<br \/>\nA \u201cluta da classe teimosa\u201d dentro do processo revolucion\u00e1rio deve proporcionar a algu\u00e9m que n\u00e3o faz parte deste processo revolucion\u00e1rio simpatizar n\u00e3o com essa ou aquela pol\u00edtica de um governo, mas com a dificuldade \u2013 e a necessidade \u2013 do pr\u00f3prio processo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24904\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[44],"tags":[225],"class_list":["post-24904","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c55-bolivia","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6tG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24904","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24904"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24904\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24904"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24904"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24904"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}