{"id":24908,"date":"2020-02-15T02:08:34","date_gmt":"2020-02-15T05:08:34","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24908"},"modified":"2020-02-15T02:08:34","modified_gmt":"2020-02-15T05:08:34","slug":"o-que-e-marxismo-leninismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24908","title":{"rendered":"O que \u00e9 marxismo-leninismo?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/bloglavrapalavra.files.wordpress.com\/2020\/02\/floresta.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Lavra Palavra<\/p>\n<p>Por Florestan Fernandes via Overquil<\/p>\n<p>O texto a seguir foi retirado da introdu\u00e7\u00e3o do volume \u201cLenin; Pol\u00edtica\u201d, que faz parte da importante (e esgotada!) cole\u00e7\u00e3o Grandes Cientistas Sociais, organizada por Florestan Fernandes e editada pela \u00c1tica no fim dos anos 70.<\/p>\n<p>Desde o inicio de suas atividades intelectuais e pol\u00edticas, L\u00eanin sempre se considerou um marxista \u2013 e, o que \u00e9 mais importante, sempre procurou ser um marxista ortodoxo. Por isso, n\u00e3o se contentou com a rica produ\u00e7\u00e3o socialista que encontrou \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o como jovem: foi diretamente aos textos de Marx e Engels, estudou-os sistematicamente e aos poucos tentou dominar tamb\u00e9m os autores que estavam nas ra\u00edzes da forma\u00e7\u00e3o do marxismo. A sua primeira obra de grande envergadura, O Desenvolvimento do Capitalismo na R\u00fassia, evidencia tr\u00eas coisas: 1) completo dom\u00ednio cr\u00edtico das teorias econ\u00f4micas de Marx e do materialismo hist\u00f3rico; 2) aplica\u00e7\u00e3o exclusiva dessas teorias na descri\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos (isto \u00e9, sem qualquer modalidade erudita de ecletismo); 3) as teorias econ\u00f4micas de Marx forneciam \u201chip\u00f3teses diretrizes\u201d, estando longe de ser a fonte de um dogmatismo est\u00e9ril: o que assegurava a marcha criadora da investiga\u00e7\u00e3o, que se abria para a descoberta tanto do que era geral, quanto para o que era peculiar \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o do capitalismo na R\u00fassia.<\/p>\n<p>Esse estilo de trabalho aparece com igual maestria nos escritos especificamente pol\u00edticos da \u00e9poca, principalmente naqueles em que faz a cr\u00edtica marxista do \u201cpopulismo\u201d e \u201ceconomicismo\u201d no movimento socialista russo. Portanto, as aplica\u00e7\u00f5es do marxismo ao plano pr\u00e1tico revelam o mesmo esp\u00edrito de identifica\u00e7\u00e3o congruente, a um tempo flex\u00edvel mas intransigente, com os princ\u00edpios do socialismo revolucion\u00e1rio. Que Fazer?, como obra de s\u00edntese e de supera\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias pol\u00edticas acumuladas durante o per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o, constitui a face pol\u00edtica das descobertas hist\u00f3ricas e econ\u00f4micas contidas em O Desenvolvimento do Capitalismo na R\u00fassia. Sua total fidelidade ao marxismo n\u00e3o pressupunha a \u201crepeti\u00e7\u00e3o de Marx\u201d ou a ossifica\u00e7\u00e3o da dial\u00e9tica, e sim a busca de caminhos novos, que s\u00f3 o marxismo podia desvendar, desde que aplicado de forma precisa, exigente e imaginativa, como um saber vivo, em intr\u00ednseca conex\u00e3o com a vida.<\/p>\n<p>Na cis\u00e3o de 1903, v\u00e1rios bolcheviques, mais intimamente associados a L\u00eanin e \u00e0 sua lideran\u00e7a pol\u00edtica, foram designados como \u201cleninistas\u201d (palavra que reaparece em outros contextos e mesmo, de passagem, em escritos de L\u00eanin). No entanto, ap\u00f3s a reviravolta de abril e a tomada do poder, o \u201cleninismo\u201d ganhou express\u00e3o pol\u00edtica, que se acentuou gra\u00e7as \u00e0 luta pela sucess\u00e3o de L\u00eanin ap\u00f3s sua morte. O \u201cleninismo\u201d, assim entendido, significa pouca coisa: na primeira acep\u00e7\u00e3o, \u201cseguidor de L\u00eanin\u201d, no sentido de uma oposi\u00e7\u00e3o intransigente ao reformismo e ao oportunismo; na segunda acep\u00e7\u00e3o, algu\u00e9m que fazia profiss\u00e3o de f\u00e9 diante da natureza revolucion\u00e1ria do partido comunista, da ditadura do proletariado e do Estado sovi\u00e9tico (e, implicitamente, no desdobramento das etapas de transi\u00e7\u00e3o para o socialismo e para o comunismo). Ora, se isso fosse tudo, n\u00e3o haveria raz\u00e3o para o uso crescente da express\u00e3o marxismo-leninismo, que finalmente se universalizou e se viu consagrada de modo definitivo. O legado de L\u00eanin transformou o marxismo e \u00e9 essa transforma\u00e7\u00e3o que nos interessa aqui.<\/p>\n<p>Sem subestimar-se a contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de L\u00eanin (crucial em v\u00e1rios pontos para o enriquecimento e o aprofundamento do marxismo: como no estudo da penetra\u00e7\u00e3o do capitalismo na agricultura, das condi\u00e7\u00f5es e efeitos do desenvolvimento desigual ou do imperialismo, na explica\u00e7\u00e3o da guerra e da revolu\u00e7\u00e3o, na sistematiza\u00e7\u00e3o das explica\u00e7\u00f5es marxistas do Estado e da pr\u00f3pria utopia marxista, t\u00e3o mal representada e conhecida antes dele, etc.), \u00e9 no terreno da pr\u00e1tica que se acha o eixo da transmuta\u00e7\u00e3o leninista do marxismo. Isto n\u00e3o quer dizer que esta pr\u00e1tica estivesse desligada da teoria \u2013 pois nunca esteve ou poderia estar, no pensamento dial\u00e9tico-materialista \u2013 nem tampouco que Marx, Engels e seus seguidores tivessem negligenciado, na teoria e na a\u00e7\u00e3o, as v\u00e1rias dimens\u00f5es da pr\u00e1tica (especialmente a pol\u00edtica). Mas significa, isso sim, que L\u00eanin se imp\u00f4s como tarefa de sua vida a adequa\u00e7\u00e3o instrumental, institucional e pol\u00edtica do marxismo \u00e0 concretiza\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. O marxismo, depois de L\u00eanin, n\u00e3o \u00e9 mais a mesma coisa, porque ele incorporou um \u201cmodelo\u201d de como passar da ditadura burguesa \u00e0 ditadura do proletariado.<\/p>\n<p>Esse modelo desloca o \u00e2mago do marxismo para a reflex\u00e3o pol\u00edtica, ou seja, para as condi\u00e7\u00f5es concretas da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e da transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, quando se focaliza dialeticamente as rela\u00e7\u00f5es de classes como rela\u00e7\u00f5es de poder (a luta de classes como um processo que conduz \u00e0 forma\u00e7\u00e3o e ao controle do que destr\u00f3i e instaura a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo). Antes de L\u00eanin, semelhante elemento pol\u00edtico estava inclu\u00eddo no marxismo como uma previs\u00e3o e, tamb\u00e9m, como um momento da vontade pol\u00edtica. Com L\u00eanin, esse elemento converte-se no ponto central da indaga\u00e7\u00e3o marxista e do pr\u00f3prio marxismo como movimento pol\u00edtico. Sob as condi\u00e7\u00f5es mais ou menos paralisadoras da democracia burguesa, como dar ao proletariado \u2013 classe que pode arrastar atr\u00e1s de si a massa n\u00e3o possuidora e constituir-se em n\u00facleo hegem\u00f4nico de uma maioria atuante \u2013 a capacidade de converter seu poder potencial em poder real? Absorveu-se, assim, no problema pol\u00edtico da sociedade de classes; e, como marxista, n\u00e3o apenas para explicar como a minoria pode suplantar a maioria e submet\u00ea-la, mesmo sob o \u201ccapitalismo agonizante\u201d, mas tamb\u00e9m para descobrir como transformar o in\u00f3cuo poder potencial da maioria em poder especificamente pol\u00edtico, concentrado e disciplinado de forma revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Atento \u00e0s estruturas de poder e aos efeitos pol\u00edticos da domina\u00e7\u00e3o de classe, inerentes \u00e0 democracia burgu\u00eas, L\u00eanin chegou rapidamente \u00e0 conclus\u00e3o de que a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria possui um padr\u00e3o hist\u00f3rico pr\u00f3prio. Em contraste com a revolu\u00e7\u00e3o burguesa, ela n\u00e3o pode iniciar-se antes da tomada do poder pelo proletariado e da domina\u00e7\u00e3o pela maioria. Por isso, o problema estrat\u00e9gico de luta pelo poder tinha de ser proposto em termos do uso revolucion\u00e1rio do espa\u00e7o pol\u00edtico que a classe oper\u00e1ria pode conquistar e manejar com relativa autonomia, ilegal e legalmente, no seio da sociedade de classes. Como a domina\u00e7\u00e3o burguesa tamb\u00e9m implica socializa\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e politica do resto da sociedade pela burguesia, tal uso do espa\u00e7o pol\u00edtico impunha, naturalmente, certas condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas: 1) forma\u00e7\u00e3o de uma minoria contestadora fortemente organizada, capaz de atuar legalmente e ilegalmente, sem vacila\u00e7\u00f5es, como vanguarda revolucion\u00e1ria da classe oper\u00e1ria; 2) a ruptura com tosas as formas diretas ou indiretas e vis\u00edveis ou invis\u00edveis de acomoda\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem democr\u00e1tica burguesa; 3) a educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do proletariado e, na medida do poss\u00edvel, das massas pobres e da pequena burguesia, atrav\u00e9s de situa\u00e7\u00f5es e de reivindica\u00e7\u00f5es concretas, do desenvolvimento da consci\u00eancia de classe e da agudiza\u00e7\u00e3o (aos n\u00edveis econ\u00f4mico, s\u00f3cio-cultural e pol\u00edtico) dos conflitos de classe. Isso punha em primeiro plano a quest\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o do partido revolucion\u00e1rio do proletariado e de sua orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. E, de outro lado, exigia uma nova mentalidade e uma nova pr\u00e1tica pol\u00edtica nas rela\u00e7\u00f5es do partido com sua base e com a massa.<\/p>\n<p>Com refer\u00eancia \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do partido, L\u00eanin fixou normas de racionaliza\u00e7\u00e3o que deviam ser iguais ou superiores \u00e0s que t\u00eam vig\u00eancia na grande empresa capitalista, no ex\u00e9rcito moderno ou no Estado democr\u00e1tico burgu\u00eas. Em conseq\u00fc\u00eancia, as tarefas de agita\u00e7\u00e3o e propaganda podiam irradiar-se por toda a sociedade, embora concentrando-se com maior intensidade na classe oper\u00e1ria; e as tarefas pol\u00edticas, imediatas e de largos prazos, podiam ser definidas segundo crit\u00e9rios espec\u00edficos de flexibilidade e de efic\u00e1cia. A ideia b\u00e1sica consistia em que a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o nasce pronta e acabada \u2013 o partido revolucion\u00e1rio do proletariado deveria travar duas batalhas, clandestina ou abertamente, tendo em vista as combina\u00e7\u00f5es que poderiam favorecer, em determinado momento, ou o fortalecimento da democracia burguesa, ou o deslocamento desta no sentido de uma democracia oper\u00e1ria, ou a tomada pura e simples do poder.<\/p>\n<p>Todas essas estrat\u00e9gias foram exploradas, com as t\u00e1ticas correspondentes, e L\u00eanin foi o mestre das principais diretrizes (embora a sua produ\u00e7\u00e3o intelectual e pol\u00edtica, nessa dire\u00e7\u00e3o, aguarde estudo sistem\u00e1tico). Por sua vez, para cumprir essa miss\u00e3o, era indispens\u00e1vel interromper a infiltra\u00e7\u00e3o ou a corrup\u00e7\u00e3o burguesa, impedindo as solu\u00e7\u00f5es de compromisso ou de aparente \u201crevolu\u00e7\u00e3o dentro da ordem\u201d (ambas de exclusivo interesse para a domina\u00e7\u00e3o burguesa e a consolida\u00e7\u00e3o do status quo). Da\u00ed a necessidade impetuosa de combater sem tr\u00e9guas o oportunismo, o reformismo e o ultra-esquerdismo, por v\u00e1rios motivos dissolventes do esp\u00edrito revolucion\u00e1rio, da atua\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria racional e da solidariedade pol\u00edtica do proletariado. Por fim, uma vanguarda revolucion\u00e1ria do proletariado n\u00e3o podia nem devia representar-se e comportar-se como uma elite e segundo valores elitistas. Se ela devia contribuir para a expans\u00e3o da consci\u00eancia de classe do proletariado de \u201cfora para dentro\u201d (isto \u00e9, imprimindo \u00e0s suas tarefas pol\u00edticas um teor pedag\u00f3gico), ela nunca foi concebida por L\u00eanin, em si mesma, como o p\u00f3lo decisivo. Este tinha de ser, naturalmente, o proletariado, como sujeito da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria em escala coletiva, j\u00e1 que de sua impuls\u00e3o dependeria a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria ou da contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Por conseguinte, as rela\u00e7\u00f5es do partido revolucion\u00e1rio do proletariado com sua base e com a massa eram definidas segundo um esquema dial\u00e9tico: para dirigir o processo pol\u00edtico, aquele partido teria de sintonizar-se com a classe oper\u00e1ria e com as massas, acompanhando as evolu\u00e7\u00f5es de sua aprendizagem e de sua socializa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atrav\u00e9s das flutua\u00e7\u00f5es da luta de classes.<\/p>\n<p>Apesar da extrema condensa\u00e7\u00e3o, essas formula\u00e7\u00f5es sugerem como L\u00eanin, a partir do marxismo e dentro do marxismo, quebrou a circularidade pol\u00edtica que pesava sobre a a\u00e7\u00e3o revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Ele ignorou o peso paralisante da exist\u00eancia ou inexist\u00eancia de \u201ccondi\u00e7\u00f5es objetivas\u201d que permitissem a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Fez isso deslocando em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es o aproveitamento revolucion\u00e1rio das condi\u00e7\u00f5es objetivas existentes (na consolida\u00e7\u00e3o da democracia burguesa, na acentua\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia oper\u00e1ria dentro da democracia burguesa ou na cria\u00e7\u00e3o de uma democracia oper\u00e1ria sem a destrui\u00e7\u00e3o do Estado prolet\u00e1rio, etc.), sempre em dire\u00e7\u00f5es que atendessem, a curto e longo prazos, os alvos finais de destrui\u00e7\u00e3o do capitalismo e de transi\u00e7\u00e3o para o socialismo. Doutro lado deu maior \u00eanfase (e mesmo maior peso relativo) ao controle pol\u00edtico das \u201ccondi\u00e7\u00f5es subjetivas\u201d, mais suscet\u00edveis de tratamento pol\u00edtico deliberado, segundo manipula\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas e t\u00e1ticas. Nessa esfera, tanto era poss\u00edvel aproveitar a influ\u00eancia direta da vanguarda revolucion\u00e1ria sobre o proletariado e as massas, quanto os efeitos educativos, seja da inefic\u00e1cia do Estado democr\u00e1tico burgu\u00eas para atender \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es do proletariado, seja de uma vit\u00f3ria eventual da contrarrevolu\u00e7\u00e3o. A vantagem de dispensar maior aten\u00e7\u00e3o \u00e0s \u201ccondi\u00e7\u00f5es subjetivas\u201d procedia de outro resultado previs\u00edvel: a r\u00e1pida transforma\u00e7\u00e3o do proletariado em classe politicamente consciente e apta para proceder \u00e0 reeduca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do resto da maioria. Assim, em \u201ccondi\u00e7\u00f5es objetivas\u201d aparentemente desvantajosas, um pa\u00eds atrasado como a R\u00fassia logrou realizar a primeira revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>As revolu\u00e7\u00f5es de 1905 e de 1917 forneceram a L\u00eanin base pol\u00edtica para a amplia\u00e7\u00e3o e o aperfei\u00e7oamento desse \u201cmodelo\u201d b\u00e1sico. A primeira revolu\u00e7\u00e3o, em particular, submeteu \u00e0 prova a pr\u00f3pria consist\u00eancia do \u201cmodelo\u201d. O comportamento do proletariado e do campesinato pobre demonstrou que ele era correto: a vanguarda revolucion\u00e1ria n\u00e3o ficou sozinha (e por vezes andou atr\u00e1s das massas!). Portanto, dadas as condi\u00e7\u00f5es adequadas de organiza\u00e7\u00e3o e de orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o partido revolucion\u00e1rio do proletariado podia colocar-se \u00e0 frente do movimento pol\u00edtico revolucion\u00e1rio e dirigi-lo. De outro lado, eclodiram e multiplicaram-se greves de massa, econ\u00f4micas e pol\u00edticas, que abriram os olhos de L\u00eanin e dos socialistas europeus para as novas t\u00e9cnicas revolucion\u00e1rias que emergiam, as quais envolviam a contraviol\u00eancia armada. \u00c0 medida que os sovietes se firmam, por sua vez, como o equivalente russo da Comuna, as reflex\u00f5es de L\u00eanin se voltam para os aspectos institucionais e militares da tomada do poder. O soviete oferecia uma solu\u00e7\u00e3o para a press\u00e3o democr\u00e1tico-revolucion\u00e1ria do proletariado, de alguns setores do campesinato ou das massas urbanas. Todavia, ao longo do processo, ficou patente que os sovietes n\u00e3o detinham a for\u00e7a real e que n\u00e3o podiam, por si mesmos, suprimir a domina\u00e7\u00e3o da classe burguesa. Ainda a\u00ed voltava a ser decisivo o \u201cmodelo\u201d central esbo\u00e7ado acima. S\u00f3 que a situa\u00e7\u00e3o compelia a novas defini\u00e7\u00f5es, relacionadas com a natureza e variedade dos meios institucionais de que se deveria valer a ditadura do proletariado para atingir seus objetivos.<\/p>\n<p>Os sovietes permitiam resolver o problema das fontes e da natureza do poder prolet\u00e1rio, que deveria emanar da maioria e exprimi-la o mais democraticamente poss\u00edvel, em sua estrutura interna. As fases iniciais, por\u00e9m, teriam de ser de domina\u00e7\u00e3o exclusiva e plena da maioria (portanto, n\u00e3o de aboli\u00e7\u00e3o imediata das classes, que n\u00e3o iriam desaparecer por um passe de m\u00e1gica, mas de sua destrui\u00e7\u00e3o progressiva). L\u00eanin formula o Estado desse per\u00edodo como um Estado prolet\u00e1rio, fundado no poder real da maioria (isto \u00e9, o poder sovi\u00e9tico), mas submetido \u00e0 necessidade inelut\u00e1vel de construir uma fort\u00edssima maquinaria estatal, instrumentalizada pelo partido revolucion\u00e1rio do proletariado e pelos sovietes. Antes de promover a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo, esse Estado prolet\u00e1rio ou sovi\u00e9tico deveria proceder ao reajustamento das \u201ccondi\u00e7\u00f5es objetivas\u201d, levando a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria a todas as estruturas econ\u00f4micas, sociais, culturais e pol\u00edticas da sociedade russa.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1, em linhas gerias, o \u201cmodelo\u201d ampliado de L\u00eanin, quanto \u00e0 passagem da ditadura burguesa \u00e0 ditadura do proletariado. Para o marxismo, a contribui\u00e7\u00e3o de L\u00eanin representa um acr\u00e9scimo substantivo em duas dire\u00e7\u00f5es. Primeiro, ela rep\u00f4s o marxismo como pol\u00edtica em suas bases revolucion\u00e1rias, avan\u00e7ando do conhecimento da realidade pol\u00edtica da sociedade de classes para o modo de organizar politicamente a sua transforma\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o, como etapa preliminar \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o do socialismo. Segundo, ela traz consigo a primeira descri\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e a primeira formula\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria como processo hist\u00f3rico e vivido. Embora L\u00eanin se preocupasse mais com as condi\u00e7\u00f5es, as t\u00e9cnicas e os processos pol\u00edticos de interven\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria na realidade, limitando as formaliza\u00e7\u00f5es abstratas ao conhecimento te\u00f3rico essencial para atingir tais fins, suas indaga\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es introduzem no marxismo um tratamento mais livre e dial\u00e9tico do pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Sem ignorar que qualquer transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica possui uma base econ\u00f4mica e social concreta, ele desvendou, mais que os outros pensadores marxistas, o grau de autonomia relativa do pol\u00edtico e a intensifica\u00e7\u00e3o dessa autonomia nos momentos de crise e revolu\u00e7\u00e3o. Com ele, o marxismo torna-se politicamente operacional, o que explica porque, depois dele, converte-se em marxismo-leninismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24908\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[221],"class_list":["post-24908","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6tK","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24908","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24908"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24908\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24908"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24908"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24908"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}