{"id":24917,"date":"2020-02-17T00:15:34","date_gmt":"2020-02-17T03:15:34","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24917"},"modified":"2020-02-17T00:15:34","modified_gmt":"2020-02-17T03:15:34","slug":"pacote-anticrime-e-a-classe-trabalhadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24917","title":{"rendered":"Pacote anticrime e a classe trabalhadora"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sindmetalsjc.org.br\/arquivo\/thumb\/noticias\/b431abee09e27a7f065b_990x500_0_0_1_1.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Ellen Sanchez<\/p>\n<p>O pacote anticrime (LEI N\u00ba 13.964\/19), desde seu planejamento at\u00e9 a sua<br \/>\naprova\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o, \u00e0s v\u00e9speras do natal de 2019, mostrou seu car\u00e1ter<br \/>\nantidemocr\u00e1tico. Aos favor\u00e1veis \u00e0 medida, as altera\u00e7\u00f5es no C\u00f3digo Penal e no C\u00f3digo de Processo Penal trazem um novo modelo de sistema penal, ao qual se dirigem como impec\u00e1vel. Aos cr\u00edticos do pacote, recaem os mesmos estigmas de \u201cdefensores de bandidos\u201d e favor\u00e1veis ao crime, j\u00e1 que o pr\u00f3prio nome da lei leva ao senso comum a<br \/>\nfantasia de que ser contra o pacote \u00e9, ent\u00e3o, nada mais que ser favor\u00e1vel ao que o nome representa.<\/p>\n<p>Do Art. 25 do C\u00f3digo Penal, extrai-se o seguinte: \u201cEntende-se como legitima<br \/>\ndefesa quem, usando moderadamente dos meios necess\u00e1rios, repele injusta agress\u00e3o, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem\u201d (BRASIL, 1984). O Pacote Anticrime acrescentou um par\u00e1grafo \u00fanico ao referido artigo, que deixa claro o desejo em evidenciar e especificar a excludente de ilicitude j\u00e1 existente no ordenamento jur\u00eddico, mas agora exclusivamente aos agentes de seguran\u00e7a p\u00fablica. Veja: \u201cObservados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se tamb\u00e9m em leg\u00edtima defesa o agente de seguran\u00e7a p\u00fablica que repele agress\u00e3o ou risco de agress\u00e3o a v\u00edtima mantida ref\u00e9m durante a pr\u00e1tica de crimes\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 manifesto que o Estado utiliza de suas for\u00e7as coercivas como m\u00e9todo de<br \/>\ncontrole social, ora atrav\u00e9s do medo causado, ora atrav\u00e9s da viol\u00eancia. Para provar que o Estado legitima a viol\u00eancia policial como forma punitiva, o mestre em Ci\u00eancias Penais, Orlando Zaccone, buscou 308 autos de ocorr\u00eancias envolvendo a pol\u00edcia, entre 2003 e<br \/>\n2009. Na an\u00e1lise, descobriu que todos os casos foram arquivados a pedido do Minist\u00e9rio P\u00fablico e que, em apenas um caso, uma viatura policial havia sido atingida por disparos de arma. Do total, 99% dos casos foram arquivados em menos de 3 anos.<\/p>\n<p>\u201cAo analisar o perfil das v\u00edtimas, Zaccone observou que 75,6% dos autos de resist\u00eancia aconteceram dentro de favelas. A maior parte das v\u00edtimas (78%) era negra ou parda. Em 60,7% dos<br \/>\nprocessos nos quais os mortos eram maiores de idade, foi anexado ao processo a folha de antecedentes criminais da v\u00edtima\u201d.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da viol\u00eancia, o alto \u00edndice de letalidade policial tamb\u00e9m \u00e9 alarmante.<br \/>\nEm uma breve an\u00e1lise, referente ao estado do Rio de Janeiro, nota-se um resultado temeroso e, evidentemente, seletivo. Os casos pintam o retrato da impunidade e da aquiesc\u00eancia do Poder Judici\u00e1rio, entregue aos agentes de seguran\u00e7a. Em 2010, H\u00e9lio Ribeiro foi morto por um policial do BOPE, que confundiu sua furadeira com uma arma,<br \/>\nenquanto estava no terra\u00e7o de sua casa. Em outubro de 2015, Jorge Lucas, de 17 anos,carregava um macaco hidr\u00e1ulico quando foi morto.Segundo o policial, ele teria confundido o equipamento com um fuzil. Uma semana depois, um jovem de 16 anos teve seu skate confundido com uma arma e foi atingido por disparos no bra\u00e7o direito. Em 2018, um guarda-chuva foi causa da morte de Rodrigo Alexandre, de 26 anos. Os autores dos disparos teriam confundido seu guarda-chuva com um fuzil.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma semelhan\u00e7a entre todos os casos de viol\u00eancia policial supracitados: a classe social \u00e0 qual todas as v\u00edtimas pertencem. Todas elas pobres e em sua maioria negras. O alvo de tais medidas moldadas em um projeto de interesse da burguesia \u00e9, nitidamente, a classe trabalhadora. N\u00e3o bastassem o desemprego, as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, o desmonte da educa\u00e7\u00e3o e da previd\u00eancia social, o ataque aos direitos e \u00e0 vida dos trabalhadores, embora sejam quest\u00f5es estruturais, v\u00eam sendo aprofundados pelo governo Bolsonaro, de forma inteiramente institucional.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 not\u00e1vel que o fortalecimento da excludente de ilicitude em favor dos<br \/>\nagentes de seguran\u00e7a trazido pelo pacote vem para materializar e legitimar ainda mais a viol\u00eancia policial como m\u00e9todo punitivo contra a classe trabalhadora. Manter a ordem,<br \/>\no sistema e as rela\u00e7\u00f5es como s\u00e3o e desenvolver o estado penal intensificando e endurecendo suas penas, para responder \u00e0s desordens advindas, sobretudo de uma crise sist\u00eamica, em virtude da desregulariza\u00e7\u00e3o da economia, precariedade do trabalho assalariado e escassez de condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de vida da popula\u00e7\u00e3o, equivale apenas \u00e0 materializa\u00e7\u00e3o de uma verdadeira sele\u00e7\u00e3o estatal, uma \u201cDitadura sobre os pobres\u201d, nas palavras do soci\u00f3logo Loic Wacquant.<\/p>\n<p>Ellen Cristini Sanchez, militante do PCB.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24917\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[15],"tags":[224],"class_list":["post-24917","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s18-sindical","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6tT","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24917","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24917"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24917\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24917"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24917"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24917"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}