{"id":24919,"date":"2020-02-17T00:17:50","date_gmt":"2020-02-17T03:17:50","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24919"},"modified":"2020-02-17T00:17:50","modified_gmt":"2020-02-17T03:17:50","slug":"hegemonia-da-forca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24919","title":{"rendered":"Hegemonia da for\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ansalatina.com\/webimages\/al_news_476x\/2019\/1\/4\/39d2e837fb71e4c17299f1275db03311.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Cr\u00e9ditos da imagem: Joedson Alves \/ EPA<\/p>\n<p>Por Kim Taiuara[1]<\/p>\n<p>Pode parecer inadequado e incoerente falar de uma hegemonia da for\u00e7a, como se for\u00e7a e hegemonia fossem momentos mutuamente excludentes da supremacia de alguma classe. Por\u00e9m, em verdade, n\u00e3o o \u00e9. A dire\u00e7\u00e3o intelectual e moral em momento algum dispensa por completo o uso da coer\u00e7\u00e3o; a hegemonia jamais se desembara\u00e7a plenamente da ditadura. Tampouco \u00e9 poss\u00edvel falar de dire\u00e7\u00e3o baseada exclusivamente na for\u00e7a, na coer\u00e7\u00e3o, na ditadura. Ocorre, no entanto, que a rela\u00e7\u00e3o entre for\u00e7a e consenso se d\u00e1 de maneira variada ao longo das conjunturas e da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>H\u00e1 momentos em que o exerc\u00edcio da hegemonia n\u00e3o tem como expediente preferencial o uso da for\u00e7a, mas, pelo contr\u00e1rio, predomina o consenso, ainda que sem abrir m\u00e3o de doses coercitivas, inclusive, muitas vezes nem t\u00e3o evidentes como a sua presen\u00e7a indica. Em outros, o emprego da for\u00e7a para a garantia de certa dire\u00e7\u00e3o se exacerba sensivelmente, agiganta-se a olhos vistos, suplanta os mecanismos que articulam o consenso. Dominam a dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas Gramsci chama a aten\u00e7\u00e3o para algo importante: a for\u00e7a n\u00e3o pode predominar em muito sobre o consenso. Ela deve parecer apoiada nele e por ele ser legitimada. Isto \u00e9, deve ser for\u00e7a tornada consenso.<\/p>\n<p>O que estamos a acompanhar na conjuntura presente \u00e9 exatamente isso: o uso destacado das fun\u00e7\u00f5es de dom\u00ednio para o exerc\u00edcio da dire\u00e7\u00e3o, no entanto, numa curiosa opera\u00e7\u00e3o em que a for\u00e7a das ideias \u00e9 a ideia da for\u00e7a, em que a coer\u00e7\u00e3o comp\u00f5e o consenso.<\/p>\n<p>Vejamos. Cotidianamente temos nos deparado com declara\u00e7\u00f5es das mais diversas e vindas de distintos cantos que, ao mesmo tempo que acintosas, informam sobre a disposi\u00e7\u00e3o de uso da viol\u00eancia mais aberta como um dos componentes do projeto hegem\u00f4nico, isto \u00e9, da articula\u00e7\u00e3o de um novo consenso, de uma nova dire\u00e7\u00e3o intelectual e moral. Sauda\u00e7\u00f5es \u00e0 ditadura, amea\u00e7as \u00e0 imprensa, desprezo pelas institui\u00e7\u00f5es, men\u00e7\u00f5es ao nazismo etc. s\u00e3o feitas corriqueiramente, talvez, como um teste para saber a nota, talvez como uma artimanha para nossa distra\u00e7\u00e3o. Mas, se ao final a nota n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim, se a reprimenda \u00e9 pouca ou nenhuma, os preparativos para se tirar a prova prosseguem em marcha e, dessa forma, o que era intoler\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 mais tanto assim, o que era ataque agora \u00e9 liberdade de express\u00e3o, o que era execu\u00e7\u00e3o agora \u00e9 excludente de ilicitude.<\/p>\n<p>H\u00e1, aparentemente, uma coer\u00e7\u00e3o consensual e um consenso coercitivo.<\/p>\n<p>Por esse caminho a barb\u00e1rie flerta e o seu flerte \u00e9 aceito, convidado, desejado. As amea\u00e7as continuam e o que \u00e9 amea\u00e7ado, na verdade, \u00e9 a possibilidade de nossa democracia se esgar\u00e7ar para nela caber um recuo democr\u00e1tico ou uma esp\u00e9cie de novo AI-5, como disseram.<\/p>\n<p>A democracia mant\u00e9m-se, mas o que se mant\u00e9m \u00e9 um arremedo de nossas ilus\u00f5es que, resistindo num limite de tens\u00e3o, desencobre a t\u00eanue pel\u00edcula sob a qual a ditadura deslizou, nela armando-se &#8211; nem t\u00e3o silenciosamente assim &#8211; e dela se revestindo para dirigir uma vontade coletiva reacion\u00e1ria, para exercer consensualmente seu dom\u00ednio autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nesse quadro, a exce\u00e7\u00e3o passa a compor n\u00e3o s\u00f3 a regra \u2013 n\u00e3o exatamente uma novidade entre n\u00f3s -, mas tamb\u00e9m a estruturar uma dire\u00e7\u00e3o amparada no consenso, no convencimento de sua necessidade como norma e como vontade coletiva. Amplia o seu espa\u00e7o de aceita\u00e7\u00e3o, for\u00e7a as fronteiras da democracia para que no seu terreno ela possa ser n\u00e3o apenas um \u201cestado de exce\u00e7\u00e3o\u201d, mas sim uma exce\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, social e moralmente exercida, constitucional e legalmente adotada. Por essa opera\u00e7\u00e3o at\u00edpica as massas est\u00e3o sendo aos poucos \u2013 e n\u00e3o \u00e9 de hoje &#8211; enredadas num consenso autorit\u00e1rio, dando, gradativamente, bases mais ampliadas a uma dire\u00e7\u00e3o restrita, universalizando &#8211; nem t\u00e3o lentamente &#8211; uma ideologia particular, realizando em for\u00e7a material uma concreta antifilosofia.<\/p>\n<p>Da parte da \u201cesquerda respons\u00e1vel\u201d ouvem-se protestos, gritos e at\u00e9 amea\u00e7as de partir para cima. Mas, voltando a si, ela reconsidera, mant\u00e9m a calma e pede cautela para evitar os excessos, para n\u00e3o dar motivo, os \u201ctiros no p\u00e9\u201d. Assim, combate-se recuando, resiste-se desistindo, exige-se respeitando e rompe-se conciliando. Mais uma vez, revela-se a capacidade hegem\u00f4nica das classes dominantes mesmo ante os seus supostos antagonistas, cuja assimila\u00e7\u00e3o ao campo da luta pol\u00edtica admitida por aquelas indica, por um lado, a estreiteza da atua\u00e7\u00e3o destas e, por outro, a sua fun\u00e7\u00e3o subalterna (auxiliar) no exerc\u00edcio da hegemonia das classes dominantes.<\/p>\n<p>O exerc\u00edcio da for\u00e7a como hegemonia se faz t\u00e3o violenta e insistentemente que aos poucos vai sedimentando-se no consenso, alargando-o para nele se acomodar, pacificando-se para ser sempre \u00fatil, naturalizando-se para nunca mais nos deixar em paz.<\/p>\n<p>A coer\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um elemento exterior, aut\u00f4nomo, nem apenas se relaciona com o consenso de maneira historicamente vari\u00e1vel. Na condi\u00e7\u00e3o em que estamos refletindo aqui ela se apresenta de modo qualitativamente diferente: coer\u00e7\u00e3o \u00e9 consenso. \u00c9 exterior, mas n\u00e3o totalmente. \u00c9 relacionada, mas n\u00e3o s\u00f3. Ela \u00e9 consenso, pois o transpassa, preenchendo-o por dentro, alicer\u00e7ando-o por fora e por ele sendo alicer\u00e7ado. N\u00e3o o \u00e9 em sua inteireza e nem identidade. \u00c9 parte e s\u00edntese de uma dire\u00e7\u00e3o em processo, de um consenso em elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao que resulta o aparente paradoxo do exerc\u00edcio da coer\u00e7\u00e3o pelo consenso, da ditadura pela democracia, da imposi\u00e7\u00e3o pelo di\u00e1logo, da for\u00e7a pela hegemonia. Ou, em outras palavras, da hegemonia da for\u00e7a.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 somente uma dimens\u00e3o do nosso problema, mas que me parece fundamental.<\/p>\n<p>[1] Assistente social, militante da UJC e do PCB.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24919\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[219],"class_list":["post-24919","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6tV","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24919","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24919"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24919\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24919"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24919"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24919"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}