{"id":2492,"date":"2012-03-05T22:07:08","date_gmt":"2012-03-05T22:07:08","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2492"},"modified":"2012-03-05T22:07:08","modified_gmt":"2012-03-05T22:07:08","slug":"la-tristeza-dos-gregos-mistura-se-com-a-revoltar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2492","title":{"rendered":"\u00abA tristeza dos gregos mistura-se com a revolta\u00bb"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Jornal Avante<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Na passada semana, dias 23 e 24, Jo\u00e3o Ferreira esteve na Gr\u00e9cia integrado numa delega\u00e7\u00e3o do Grupo da Esquerda Unit\u00e1ria Europeia\/Esquerda Verde N\u00f3rdica (GUE\/NGL), a convite do Partido Comunista da Gr\u00e9cia (KKE). Ao Avante!, o deputado d\u00e1 conta da situa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds e do esp\u00edrito de indigna\u00e7\u00e3o e revolta das massas populares.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Avante! \u2013 Que impress\u00f5es trazes desse pa\u00eds mergulhado numa profunda crise econ\u00f3mica e social?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Ferreira<\/strong> \u2013 A Gr\u00e9cia e o seu povo foram empurrados por um caminho desgra\u00e7ado, at\u00e9 \u00e0 situa\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel em que\u00a0hoje\u00a0se encontram. Ningu\u00e9m o ignora. Apesar disso, com uma viol\u00eancia inaudita, a classe dominante grega e as pot\u00eancias da Uni\u00e3o Europeia insistem na imposi\u00e7\u00e3o, a todo o custo, desse mesmo caminho.<\/p>\n<p>Entre o povo grego, a tristeza mistura-se com a revolta.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A devasta\u00e7\u00e3o social percebe-se nas ruas. Nos amontoados de gente \u00e0 porta dos centros de emprego; nas ruas de com\u00e9rcio, outrora repletas,\u00a0hoje\u00a0quase desertas; no n\u00famero crescente daqueles que fazem das ruas de Atenas a casa que perderam.<\/p>\n<p>A dureza das estat\u00edsticas confirma-o: mais de um milh\u00e3o e meio de desempregados; entre os mais jovens, o desemprego supera j\u00e1 os 50%.<\/p>\n<p>O sistema pol\u00edtico mergulhou num profundo descr\u00e9dito. Os partidos que t\u00eam gerido o sistema est\u00e3o profundamente desacreditados.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ascenso not\u00f3rio do movimento e da luta populares, indissoci\u00e1veis do refor\u00e7o do KKE. O movimento sindical de classe refor\u00e7a a sua influ\u00eancia junto dos trabalhadores e a sua capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em largos sectores e camadas da popula\u00e7\u00e3o, prevalece, todavia, um sentimento de profunda descren\u00e7a \u2013 campo f\u00e9rtil para a manipula\u00e7\u00e3o dos sentimentos de genu\u00edna revolta das massas populares, orientando-os por vias inconsequentes ou profundamente reaccion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Os desenvolvimentos pr\u00f3ximos est\u00e3o em aberto. A persist\u00eancia neste caminho faz adivinhar inevit\u00e1veis rupturas. As potencialidades da luta s\u00e3o reais, mas n\u00e3o apagam os perigos, tamb\u00e9m eles reais, de evolu\u00e7\u00f5es muito negativas.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Como v\u00ea o KKE a situa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds e que caminhos alternativos aponta ao povo grego, que, em Abril, ser\u00e1 chamado \u00e0s urnas?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Antes de mais, n\u00e3o \u00e9 seguro que em Abril se realize elei\u00e7\u00f5es. Tal vai depender, em grande medida, do resultado dos esfor\u00e7os que a classe dominante vem desenvolvendo para reorganizar um sistema pol\u00edtico profundamente desacreditado, a partir das for\u00e7as que historicamente t\u00eam defendido os seus interesses: a direita e a social-democracia.<\/p>\n<p>O KKE tem tido a preocupa\u00e7\u00e3o de inserir a situa\u00e7\u00e3o vivida pelo povo grego no contexto do aprofundamento da crise do capitalismo, do agravamento das contradi\u00e7\u00f5es do sistema, da agudiza\u00e7\u00e3o do confronto de classes e das rivalidades inter-imperialistas. Recusando vis\u00f5es redutoras, que se centrem unicamente em express\u00f5es parciais da crise (a chamada \u00abcrise da d\u00edvida\u00bb, por exemplo), o KKE considera que sem questionar o poder do capital, a luta n\u00e3o\u00a0ter\u00e1 perspectiva nem resultados. Por isso apela ao derrube do sistema capitalista, \u00e0 tomada do poder pelos trabalhadores e ao controlo dos meios de produ\u00e7\u00e3o, em benef\u00edcio do povo. Os camaradas entendem que a situa\u00e7\u00e3o imp\u00f5e, no imediato, a luta pelo socialismo como a alternativa necess\u00e1ria. A recusa total do pagamento da d\u00edvida e a sa\u00edda da Gr\u00e9cia da Uni\u00e3o Europeia s\u00e3o, consideram, parte integrante deste caminho.<\/p>\n<p><strong>\u2013 A maioria das imagens que as televis\u00f5es nos mostram incide sobre cenas de viol\u00eancia, de constantes confrontos com a pol\u00edcia. \u00c9 verdade que os protestos populares descambam invariavelmente em viol\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o. \u00c9 muito importante esclarecer esta quest\u00e3o, desmentindo essa imagem que, incessantemente, a comunica\u00e7\u00e3o social dominante procura difundir. A esmagadora maioria dos protestos \u2013 que se sucedem a um ritmo praticamente di\u00e1rio \u2013 n\u00e3o desembocou em cenas de viol\u00eancia, como as que nos entram casa dentro pela televis\u00e3o. \u00c9 evidente que, nalgumas situa\u00e7\u00f5es, os protestos adquiriram uma express\u00e3o violenta. Mas importa dizer \u2013 e foram v\u00e1rias as den\u00fancias que ouvimos nesse sentido \u2013 que essas situa\u00e7\u00f5es se associam, muitas vezes, \u00e0 ac\u00e7\u00e3o de agentes provocadores infiltrados entre os manifestantes e \u00e0 ac\u00e7\u00e3o de grupos de marginais. A simultaneidade dos focos de dist\u00farbios; os alvos espec\u00edficos, seleccionados em partes distintas da cidade; as den\u00fancias de coniv\u00eancia das for\u00e7as policiais \u2013 s\u00e3o alguns dos aspectos que denotam, de acordo com as acusa\u00e7\u00f5es que ouvimos, uma ac\u00e7\u00e3o organizada, com o objectivo de denegrir e enfraquecer os protestos, minar a confian\u00e7a do povo na luta e quebrar a unidade popular.<\/p>\n<p><strong>\u2013 No programa da visita constava um encontro com os oper\u00e1rios de uma metal\u00fargica que est\u00e3o em greve h\u00e1 mais de 100 dias, em protesto contra despedimentos abusivos e o corte de sal\u00e1rios. Qual \u00e9 o estado de esp\u00edrito dessas centenas de oper\u00e1rios e como fazem para resistir num combate t\u00e3o desigual? <\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Visit\u00e1mos os oper\u00e1rios ao 116.\u00ba dia consecutivo de greve. Esta \u00e9, por variad\u00edssimas raz\u00f5es, uma luta her\u00f3ica, um exemplo da for\u00e7a e da unidade dos trabalhadores. E um exemplo de como o sindicalismo de classe ganha ra\u00edzes, mesmo em sectores outrora dominados por sindicatos reformistas. Vencendo as tentativas, por parte do patronato, com a coniv\u00eancia do governo, de quebrar a sua resist\u00eancia, de os dividir, os trabalhadores mantiveram-se firmes e determinados na recusa de trabalhar mais por menos dinheiro e na exig\u00eancia de reintegra\u00e7\u00e3o dos seus camaradas despedidos. A sua luta corajosa acabou por ganhar uma projec\u00e7\u00e3o internacional. A solidariedade tem sido determinante. A come\u00e7ar na das popula\u00e7\u00f5es locais, as primeiras a apoiarem as fam\u00edlias dos oper\u00e1rios em greve. Camponeses locais come\u00e7aram a levar alimentos aos oper\u00e1rios. Os professores organizaram-se para dar gratuitamente aulas aos filhos dos oper\u00e1rios. S\u00e3o alguns exemplos. A que se soma, agora, a solidariedade internacional, que lhes chega de v\u00e1rias partes do mundo.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Essa firmeza e determina\u00e7\u00e3o existem noutros sectores da classe oper\u00e1ria e dos trabalhadores em geral?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Pelo que pudemos perceber nesta curta visita, existem diversas outras lutas sectoriais com dimens\u00e3o relevante. A luta dos trabalhadores confirma-se como o principal motor da resist\u00eancia \u00e0 agress\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 fundamental percebermos que tudo isto se passa num contexto de uma intensa ofensiva ideol\u00f3gica. Os camaradas do KKE n\u00e3o hesitam em referir-se a uma \u00abcampanha ao estilo de Goebbels\u00bb. Uma campanha com dimens\u00f5es diferentes \u2013 seja semeando a descren\u00e7a e o conformismo, seja promovendo solu\u00e7\u00f5es que possam funcionar como v\u00e1lvulas de escape do descontentamento social \u2013 que se articulam entre si com um objectivo \u00fanico: travar o desenvolvimento consequente da luta, capaz de p\u00f4r em causa o sistema.<\/p>\n<p><strong>\u2013 No nosso Pa\u00eds, os governantes insistem diariamente em que Portugal n\u00e3o \u00e9 a Gr\u00e9cia, que est\u00e1 a cumprir os compromissos da troika, e que por isso ir\u00e1 superar as actuais dificuldades. Ser\u00e1 verdade que os governos gregos n\u00e3o t\u00eam cumprido os compromissos que assinaram, ou, pelo contr\u00e1rio, a situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica da economia e a consequente convuls\u00e3o social decorrem precisamente do estrito cumprimento do programa draconiano de empobrecimento do povo?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Recorde-se que essa preocupa\u00e7\u00e3o em estabelecer a diferen\u00e7a entre Portugal e a Gr\u00e9cia vem j\u00e1 do tempo do primeiro programa FMI-UE aplicado \u00e0 Gr\u00e9cia. Lembremo-nos das juras de S\u00f3crates que jamais o mesmo sucederia em Portugal. Agora \u00e9 Passos Coelho no Governo a jurar que Portugal n\u00e3o \u00e9 a Gr\u00e9cia. Ao mesmo tempo que, conhecendo como conhecem o que ser\u00e3o as consequ\u00eancias do s\u00f3rdido pacto de agress\u00e3o que est\u00e3o a impor ao povo portugu\u00eas, v\u00e3o abrindo caminho para o prolongamento da agress\u00e3o, para l\u00e1 de 2013.<\/p>\n<p>Evidentemente que a aplica\u00e7\u00e3o de um programa com as caracter\u00edsticas do pacto de agress\u00e3o, seja na Gr\u00e9cia ou em Portugal, n\u00e3o \u00e9 linear. A luta dos trabalhadores, l\u00e1 como c\u00e1, acaba por for\u00e7ar alguns recuos e criar dificuldades \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de determinadas medidas. Mas l\u00e1 como c\u00e1, o contexto geral tem sido de avan\u00e7o das medidas do pacto \u2013 o que determina a situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica vivida na Gr\u00e9cia e o afundamento do pa\u00eds, que se vem registando tamb\u00e9m em Portugal.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 que sublinhar que estas pol\u00edticas n\u00e3o s\u00e3o novas. Elas foram as mesmas que estiveram na origem da situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil a que quer Portugal quer a Gr\u00e9cia chegaram, antes dos respectivos pactos de agress\u00e3o FMI-UE. As classes dominantes est\u00e3o, agora, a aproveitar a crise que criaram como um pretexto para levarem mais longe estas pol\u00edticas, para exercerem chantagem sobre os povos e aprofundarem a explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Nesse caso, Portugal poder\u00e1 estar em situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 Gr\u00e9cia dentro de um ano?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 A prosseguir a aplica\u00e7\u00e3o do pacto de agress\u00e3o, assim ser\u00e1. Mas a Hist\u00f3ria est\u00e1 por escrever e os trabalhadores e os povos t\u00eam aqui o papel determinante. Uma coisa s\u00e3o as inten\u00e7\u00f5es dos agressores \u2013 nacionais e estrangeiros \u2013 e outra, diversa, \u00e9 o balan\u00e7o final do confronto de classes, que se agudiza a cada dia. A luta dos trabalhadores e do povo portugu\u00eas, de que a pr\u00f3xima greve geral volta a ser uma express\u00e3o superior, ser\u00e1 um factor decisivo na determina\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o que viveremos dentro de um ano<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: KKE\n\n\n\n\n\n\n\n\nEntrevista com Jo\u00e3o Ferreira, deputado do PCP ao Parlamento \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2492\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-2492","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c42-comunistas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Ec","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2492","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2492"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2492\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2492"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2492"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2492"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}