{"id":24937,"date":"2020-02-20T01:28:55","date_gmt":"2020-02-20T04:28:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24937"},"modified":"2020-02-20T01:28:55","modified_gmt":"2020-02-20T04:28:55","slug":"o-terrorismo-e-a-mae-de-todas-as-mentiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24937","title":{"rendered":"O terrorismo e a m\u00e3e de todas as mentiras"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/bemblogado.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/trump-soleimani.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->A 3 de Janeiro de 2020, em Bagd\u00e1, Iraque, o general Qassem Soleimani, comandante da Guarda Revolucion\u00e1ria do Ir\u00e3 e o maior inimigo operacional do Daesh (dito Estado Isl\u00e2mico) e da Al-Qaeda, foi assassinado durante um ataque ordenado por Donald Trump, presidente dos EUA Cr\u00e9ditos \/ AP Photo\/ Evan Vucci\/Office of the Iranian Supreme Leader<\/p>\n<p>ABRIL ABRIL<\/p>\n<p>Por Jos\u00e9 Goul\u00e3o<\/p>\n<p>Uma mentira esteve na base da recente escalada de viol\u00eancia no M\u00e9dio Oriente que culminou com o assassinato do general iraniano Qasem Soleimani. Suspeitava-se de que assim era, mas a apura\u00e7\u00e3o mais pormenorizada de fatos e circunst\u00e2ncias confirmam. O mainstream global evita abordar os acontecimentos segundo este novo \u00e2ngulo \u2013 apesar de o New York Times o ter feito \u2013 porque seria obrigado a substituir toda a conveniente narrativa montada. Por\u00e9m, o que na realidade aconteceu foi: os terroristas do Estado Isl\u00e2mico realizaram a opera\u00e7\u00e3o que serviu de pretexto a Trump e ao Pent\u00e1gono para assassinarem o maior inimigo do Estado Isl\u00e2mico \u2013 e da al-Qaeda.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma mentira fundadora da torrente de falsidades que acompanhou a escalada desencadeada pelos Estados Unidos contra o Ir\u00e3 e o Iraque no in\u00edcio do ano. Servi\u00e7os militares iraquianos, entre eles o setor de intelig\u00eancia, explicam que era imposs\u00edvel um grupo armado xiita como o Khataeb Hezbollah, qualificado como \u00abpr\u00f3-iraniano\u00bb, ter sido o autor do ataque de 27 de dezembro contra a base norte-americana K-1 na prov\u00edncia iraquiana de Kirkuk.<\/p>\n<p>Citado pelo New York Times, o brigadeiro general iraquiano Ahmed Adnan afirma que \u00abtodas as indica\u00e7\u00f5es v\u00e3o no sentido de ter sido o Daesh\u00bb, ou Isis, ou Estado Isl\u00e2mico, a realizar a opera\u00e7\u00e3o. \u00abN\u00f3s pr\u00f3prios, como for\u00e7as iraquianas, n\u00e3o podemos sequer entrar na \u00e1rea de onde foi feito o ataque a n\u00e3o ser com for\u00e7as de envergadura, porque n\u00e3o \u00e9 seguro\u00bb, acrescenta. \u00abComo poderia um grupo xiita, que n\u00e3o conhece a zona, chegar ao local, tomar posi\u00e7\u00f5es e desencadear o ataque\u00bb?<\/p>\n<p>Os pressupostos da confirma\u00e7\u00e3o do militar iraquiano s\u00e3o simples, elementares mesmo. A zona de onde foi lan\u00e7ado o ataque com rockets contra a base K-1 situa-se numa regi\u00e3o de popula\u00e7\u00e3o sunita controlada pelo Estado Isl\u00e2mico. N\u00e3o h\u00e1 conhecimento de qualquer presen\u00e7a de grupos armados xiitas na \u00e1rea desde 2004. Os militares iraquianos tinham, entretanto, informado as tropas norte-americanas de ocupa\u00e7\u00e3o de que havia um recrudescimento das atividades do Estado Isl\u00e2mico durante as semanas que antecederam o ataque. Al\u00e9m disso, a viatura pickup de onde foram lan\u00e7ados os rockets foi encontrada a 300 metros de um local onde membros deste grupo procedem a execu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Todas as circunst\u00e2ncias apontam no mesmo sentido: s\u00f3 poderia ter sido o Estado Isl\u00e2mico a atacar a base norte-americana.<\/p>\n<p>Enxurrada de mentiras<br \/>\nDesse ataque, segundo as fontes oficiais de Washington, ter\u00e1 resultado a morte de um civil norte-americano de uma empresa contratada pelo Pent\u00e1gono, possivelmente um mercen\u00e1rio; e quatro militares teriam ficado feridos. Na realidade, nem estas informa\u00e7\u00f5es podem ser dadas como adquiridas, porque as identifica\u00e7\u00f5es da v\u00edtima mortal e dos feridos nunca foram divulgadas.<\/p>\n<p>Segundo a vers\u00e3o oficial do Pent\u00e1gono, dada a conhecer imediatamente ap\u00f3s o ataque, a opera\u00e7\u00e3o foi realizada por for\u00e7as paramilitares xiitas do grupo \u00abpr\u00f3-iraniano\u00bb Khataeb Hezbollah, organiza\u00e7\u00e3o que integra as For\u00e7as Populares de Mobiliza\u00e7\u00e3o, todas elas associadas \u00e0 maioria parlamentar que apoia o governo do Iraque.<\/p>\n<p>No dia 28 de dezembro, como \u00abresposta\u00bb \u00e0 a\u00e7\u00e3o, os Estados Unidos realizaram ataques a\u00e9reos contra bases do Khataeb Hezbollah na S\u00edria e no Iraque, matando dezenas de pessoas.<\/p>\n<p>As opera\u00e7\u00f5es geraram uma onda de indigna\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias cidades iraquianas, principalmente em Bagd\u00e1, onde os manifestantes escolheram como alvo o edif\u00edcio da Embaixada dos Estados Unidos, a maior e mais protegida do mundo.<\/p>\n<p>E no dia 3 de janeiro registrou-se, nas imedia\u00e7\u00f5es do aeroporto de Bagd\u00e1, o assassinato do general iraniano Qasem Soleimani e de Abul Mahdi al-Muhandis, vice-presidente das For\u00e7as Populares de Mobiliza\u00e7\u00e3o. A ordem para matar foi dada pessoalmente por Donald Trump e a opera\u00e7\u00e3o significou a realiza\u00e7\u00e3o de atos de guerra contra os governos do Ir\u00e3 e do Iraque.<\/p>\n<p>O presidente dos Estados Unidos declarou publicamente que mandou matar Soleimani \u00abpor ser o respons\u00e1vel pelo ataque de 27 de dezembro\u00bb contra a base de Kirkuk e por estar \u00abpreparando ataques iminentes contra embaixadas norte-americanas\u00bb.<\/p>\n<p>Quanto ao ser \u00abrespons\u00e1vel pelo ataque\u00bb de dia 27, j\u00e1 se percebeu tratar-se de uma redonda mentira. Ao inv\u00e9s, o chefe do regime de Washington assassinou o principal inimigo operacional de grupos terroristas como o Estado Isl\u00e2mico e a al-Qaeda, usando como pretexto um ataque cometido pelo Estado Isl\u00e2mico e cujas supostas v\u00edtimas permanecem an\u00f4nimas.<\/p>\n<p>Acresce que o presidente norte-americano n\u00e3o apresentou, at\u00e9 hoje, uma \u00fanica prova de que estariam em prepara\u00e7\u00e3o \u00abataques iminentes\u00bb contra embaixadas dos Estados Unidos, apesar de ter sido instado a faz\u00ea-lo por jornalistas e membros do Congresso.<\/p>\n<p>Mais recentemente, no discurso sobre o estado da Uni\u00e3o proferido h\u00e1 uma semana, Donald Trump ufanou-se de ter \u00abdestru\u00eddo o Estado Isl\u00e2mico a cem por cento\u00bb \u2013 uma declara\u00e7\u00e3o desmentida pelas realidades que continuam a se viver na S\u00edria, no Iraque, no Afeganist\u00e3o e mesmo na L\u00edbia.<\/p>\n<p>Se um dos objetivos desta patranha estapaf\u00fardia foi o de dar a entender que, uma vez \u00abdestru\u00eddo\u00bb, o Estado Isl\u00e2mico n\u00e3o poderia ter sido o autor do ataque contra a base em Kirkuk, o presidente norte-americano passou da mentira \u00e0 falta de senso do rid\u00edculo \u2013 no que \u00e9 acompanhado pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o que continuam a lhe dar cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>Terrorismo, o fulcro da quest\u00e3o<br \/>\nConhece-se o ep\u00edlogo desta escalada b\u00e9lica do in\u00edcio do ano, o que n\u00e3o significa o fim das mentiras que a marcaram.<\/p>\n<p>O Ir\u00e3 respondeu ao assassinato de Soleimani atacando duas bases norte-americanas ocupadas no Iraque; e no rescaldo da opera\u00e7\u00e3o a antia\u00e9rea iraniana abateu \u00abpor engano\u00bb um avi\u00e3o civil ucraniano. Uma a\u00e7\u00e3o que, apesar das admiss\u00f5es de Teer\u00e3, n\u00e3o est\u00e1 isenta de d\u00favidas e suspeitas sobre a eventual exist\u00eancia de pirataria inform\u00e1tica externa na manipula\u00e7\u00e3o dos sistemas de defesa iranianos.<\/p>\n<p>O que resultou da crise, com efeitos no presente e no futuro, foram novas san\u00e7\u00f5es impostas contra o Ir\u00e3, o fim do acordo internacional sobre o sistema nuclear civil iraniano \u2013 uma vez que as pot\u00eancias europeias se renderam, uma vez mais, \u00e0s chantagens de Washington \u2013 e o aprofundamento da crise social e pol\u00edtica no Iraque.<\/p>\n<p>Este aspecto \u00e9 de grande import\u00e2ncia para todo o Oriente M\u00e9dio, se for lido \u00e0 luz das den\u00fancias feitas no Parlamento de Bagd\u00e1 pelo ex-primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi. Na ocasi\u00e3o, citou conversas que manteve com Trump nas quais o presidente dos Estados Unidos lhe comunicou que a agita\u00e7\u00e3o social interna iria continuar, com incentivos de Washington, e que as tropas norte-americanas permanecer\u00e3o se o governo iraquiano n\u00e3o cancelar o recente acordo com a China sobre a reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Chega-se assim a uma das quest\u00f5es centrais relacionadas com os mais recentes desenvolvimentos no M\u00e9dio Oriente. Os Estados Unidos, atrav\u00e9s do seu aparelho militar \u2013 e o da OTAN \u2013 prop\u00f5em-se fazer tudo para travar a crescente influ\u00eancia da China e da R\u00fassia na regi\u00e3o, designadamente na S\u00edria, no Iraque, no Ir\u00e3, inclusive na Ar\u00e1bia Saudita \u2013 o maior fornecedor de petr\u00f3leo de Pequim.<\/p>\n<p>Fazer tudo significa manter latente e ativo, como bra\u00e7o armado, o terrorismo dito isl\u00e2mico, que n\u00e3o \u00e9 mais do que um ex\u00e9rcito mercen\u00e1rio informal em mobilidade atrav\u00e9s da regi\u00e3o, coberto sob uma mir\u00edade de bandeiras que se resumem a duas \u2013 Estado Isl\u00e2mico e al-Qaeda \u2013, cumprindo objetivos de guerra e desestabiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Iraque existe um claro recrudescimento do Estado Isl\u00e2mico no quadro da pol\u00edtica de \u00abconten\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia iraniana\u00bb; na L\u00edbia atuam milhares de mercen\u00e1rios que j\u00e1 estiveram na S\u00edria e foram transferidos sob a \u00e9gide da Turquia para travar quaisquer esfor\u00e7os de solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica da guerra civil.<\/p>\n<p>E na S\u00edria voltam a estar muito em evid\u00eancia as conex\u00f5es entre o terrorismo e a OTAN atrav\u00e9s dos esfor\u00e7os que est\u00e3o sendo desenvolvidos militarmente pela Turquia para impedir que as tropas regulares s\u00edrias libertem Idlib, o derradeiro basti\u00e3o da al-Qaida no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por isso, todas as mentiras que Trump e o Pent\u00e1gono despejam em enxurrada de crise em crise, de epis\u00f3dio em epis\u00f3dio, convergem na m\u00e3e de todas as mentiras: a chamada \u00abguerra global contra o terrorismo\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 guerra dos Estados Unidos e da OTAN contra o terrorismo; h\u00e1 uma guerra feita de v\u00e1rias guerras regionais travada de bra\u00e7o dado com o \u00abterrorismo isl\u00e2mico\u00bb, essa mezinha m\u00e1gica da domina\u00e7\u00e3o imperial que come\u00e7ou a ser aplicada nos anos setenta e oitenta do s\u00e9culo passado no Afeganist\u00e3o e continua a ser usada contra os governos que se recusam a seguir a b\u00fassola de Washington. A NATO serviu-se do terrorismo para assassinar Khaddafi na L\u00edbia e destro\u00e7ar o pa\u00eds, da mesma maneira que a Turquia acode agora \u00e0 al-Qaida na S\u00edria interpretando os anseios da alian\u00e7a, como Trump mandou matar o mais capacitado operacional do aut\u00eantico combate ao terrorismo servindo-se de uma opera\u00e7\u00e3o montada com a colabora\u00e7\u00e3o dos terroristas do Estado Isl\u00e2mico.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 capaz de mentir sobre o flagelo do terror que acossa centenas de milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o hesitar\u00e1 em mentir sobre todo o resto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24937\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[234],"class_list":["post-24937","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6ud","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24937","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24937"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24937\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24937"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24937"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24937"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}