{"id":25005,"date":"2020-02-29T02:43:13","date_gmt":"2020-02-29T05:43:13","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25005"},"modified":"2020-03-05T01:41:11","modified_gmt":"2020-03-05T04:41:11","slug":"a-fascistizacao-da-educacao-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25005","title":{"rendered":"A fascistiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/natrincheiradasideias.files.wordpress.com\/2020\/02\/militarizac3a7c3a3o.jpeg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Cr\u00e9dito: Marcelo Camargo\/EBC<\/p>\n<p>As Escolas C\u00edvico-Militares do Governo Bolsonaro e o projeto de fascistiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica<\/p>\n<p>Rodrigo Lima<\/p>\n<p>No dia 05 de setembro de 2019, o Presidente da Rep\u00fablica Jair Bolsonaro (sem partido) assinou o Decreto n\u00ba 10.004 que instituiu o Programa Nacional das Escolas C\u00edvico-Militares (Pecim), que prev\u00ea a implementa\u00e7\u00e3o do modelo de gest\u00e3o militar em 216 unidades escolares nos pr\u00f3ximos quatro anos, sendo 54 escolas por ano.<\/p>\n<p>O Pecim \u00e9 voltado para escolas p\u00fablicas dos ensinos fundamental e m\u00e9dio e ser\u00e1 realizado em colabora\u00e7\u00e3o com as redes estaduais e municipais, sob coordena\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o contando com o apoio do Minist\u00e9rio da Defesa.<\/p>\n<p>A militariza\u00e7\u00e3o das escolas de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica faz parte do projeto de educa\u00e7\u00e3o do governo bolsonarista. Jair Bolsonaro, quando candidato, apresentava tal proposta no sentido de cumprir dois objetivos: combater nas escolas o que ele define como \u201cdoutrina\u00e7\u00e3o\u201d ideol\u00f3gica e disciplinar crian\u00e7as e adolescentes, sob a alega\u00e7\u00e3o de evitar a viol\u00eancia contra os professores no ambiente escolar.\u00b9<\/p>\n<p>Logo no in\u00edcio do seu governo, no dia 02 de janeiro de 2019, uma das primeiras medidas tomadas foi a cria\u00e7\u00e3o da Subsecretaria de Fomento \u00e0s Escolas C\u00edvico-Militares (Secim), atrav\u00e9s do Decreto n\u00ba 9.665.<\/p>\n<p>Contudo, o Pecim do Governo Bolsonaro n\u00e3o criou um modelo novo de educa\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria e militarizada, pois o projeto de escolas c\u00edvico-militares faz parte de um processo mais amplo, que j\u00e1 vem sendo constru\u00eddo e implementado por redes estaduais e municipais de educa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds desde o final da d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p>O atual modelo de militariza\u00e7\u00e3o das escolas teve no Estado de Goi\u00e1s um dos seus primeiros laborat\u00f3rios, durante o primeiro mandato do tucano Marconi Perillo (PSDB) como Governador (1999-2002), quando iniciou-se a transfer\u00eancia da gest\u00e3o de unidades escolares da rede p\u00fablica estadual para a Pol\u00edcia Militar do Estado de Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>Durante a d\u00e9cada de 2010 o modelo ampliou-se significativamente no contexto goiano e expandiu-se para outros estados. Segundo reportagem da Revista \u00c9poca\u00b2, entre 2013 e 2018, o n\u00famero de unidades escolares estaduais com gest\u00e3o da Pol\u00edcia Militar avan\u00e7ou para 14 estados da Federa\u00e7\u00e3o, saltando de 39 para 122 escolas, um aumento de 212%.<\/p>\n<p>Importante ressaltar que o modelo vem sendo implementado por governos de diferentes partidos pol\u00edticos, n\u00e3o ficando restrito apenas a governos considerados conservadores. Legendas situadas no chamado \u201ccampo progressista\u201d tamb\u00e9m t\u00eam aderido \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o como forma de organiza\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o educacional. Se em Goi\u00e1s as escolas militarizadas foram implementadas por governos do PSDB, na Bahia o modelo foi implementado pelo Governador Rui Costa do Partido dos Trabalhadores (PT), sob o nome de \u201cVetor Disciplinar\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do controle militar, outra caracter\u00edstica em comum ao modelo que vem sendo implementado em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds \u00e9 a de que a maioria das escolas selecionadas encontram-se na periferia de centros urbanos, direcionadas para estudantes e comunidades que vivem em bairros pobres.<\/p>\n<p>Sob o Governo Bolsonaro o projeto de escolas militarizadas avan\u00e7a de um cen\u00e1rio de experi\u00eancias regionalizadas, coordenadas por iniciativas estaduais e municipais, para uma pol\u00edtica nacional que conta com uma orienta\u00e7\u00e3o geral, com diretrizes unificadoras, com metas a serem atingidas e com a disponibilidade de recursos financeiros da Uni\u00e3o destinado aos sistemas escolares, para que a implementa\u00e7\u00e3o do Pecim seja realizada.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a assinatura do Decreto n\u00ba 10.004\/2019, 15 estados (Goi\u00e1s, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Cear\u00e1, Acre, Amap\u00e1, Amazonas, Par\u00e1, Rond\u00f4nia, Roraima, Tocantins, Minas Gerais, Paran\u00e1, Rio Grande do Sul e Santa Catarina) e o Distrito Federal\u00b3 aderiram ao modelo de escola c\u00edvico-militar, a ser iniciado no ano de 2020.<\/p>\n<p>A ades\u00e3o foi feita por estados governados pelos seguintes partidos pol\u00edticos: PSL, PT, PDT, Novo, PSDB, DEM, PHS, PP, MDB, PDT, PSC e PSD, siglas que aparentemente apresentam-se como antag\u00f4nicos no espectro pol\u00edtico-ideol\u00f3gico, mas que est\u00e3o em acordo com o projeto de militariza\u00e7\u00e3o das escolas que foi elaborado e organizado pelo governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>Antes de avan\u00e7armos na an\u00e1lise do Pecim e suas implica\u00e7\u00f5es na educa\u00e7\u00e3o brasileira, \u00e9 importante, a t\u00edtulo de esclarecimento, diferenciarmos as escolas c\u00edvico-militares dos tradicionais col\u00e9gios militares existentes no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os col\u00e9gios militares tiveram sua origem em 1889, nos \u00faltimos meses de exist\u00eancia do Imp\u00e9rio, com a cria\u00e7\u00e3o do Imperial Col\u00e9gio Militar que foi instalado na cidade do Rio de Janeiro em mar\u00e7o daquele ano, atendendo uma demanda dos militares por uma institui\u00e7\u00e3o escolar que preparasse os filhos dos integrantes do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Atualmente, existem 14 col\u00e9gios militares no pa\u00eds, localizados nas cidades do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Fortaleza, Manaus, Bras\u00edlia, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, Juiz de Fora, Campo Grande, Santa Maria, Bel\u00e9m e S\u00e3o Paulo (este em fase de constru\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Eles est\u00e3o diretamente ligados ao Sistema Col\u00e9gio Militar do Brasil, que \u00e9 subordinado ao Ex\u00e9rcito Brasileiro e ao Minist\u00e9rio da Defesa. O ingresso nestas institui\u00e7\u00f5es, que ofertam ensino fundamental e m\u00e9dio, se d\u00e1 por meio de concursos p\u00fablicos ou amparo regulamentar que \u00e9 uma forma de ingresso que atende as demandas educacionais de dependentes dos militares. S\u00e3o escolas frequentadas por um seleto grupo de estudantes, com perfil de renda familiar muito alta. O custo de um aluno dos col\u00e9gios militares chega a ser tr\u00eas vezes maior do que o de quem estuda em escolas da rede p\u00fablica.\u2074<\/p>\n<p>S\u00e3o escolas que sustentam seus planos pedag\u00f3gicos em um modelo autorit\u00e1rio, baseado na disciplina e hierarquia:<\/p>\n<p>\u00c9 neste cen\u00e1rio que se inserem os Col\u00e9gios Militares, educand\u00e1rios fortemente ancorados nos valores \u00e9ticos e morais, nos costumes e nas tradi\u00e7\u00f5es cultuados pelo Ex\u00e9rcito Brasileiro. \u00c9 deste somat\u00f3rio que emerge a identidade do Sistema, o diferencial capaz de gerar v\u00ednculo, apego e sentimento de perten\u00e7a aos Col\u00e9gios. Como estabelecimentos de ensino filiados aos c\u00f3digos do Ex\u00e9rcito, os Col\u00e9gios Militares sustentam-se sobre os mesmos pilares: a hierarquia e a disciplina. Esta peculiaridade, que os distinguem no todo maior da educa\u00e7\u00e3o nacional, refor\u00e7a a imagem que os Col\u00e9gios Militares vieram lapidando ao longo de mais de cento e vinte anos: sua marca particular .\u2075<br \/>\nAl\u00e9m dos col\u00e9gios ligados ao Ex\u00e9rcito, tamb\u00e9m existem col\u00e9gios mantidos pela Marinha, pela For\u00e7a A\u00e9rea, pelo Corpo de Bombeiros e pelas Pol\u00edcias Militares estaduais, que organizam escolas pr\u00f3prias, geridas diretamente por estas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ainda que preze pela organiza\u00e7\u00e3o a partir de uma doutrina militar, o modelo de escolas c\u00edvico-militares proposto pelo Governo Bolsonaro difere substancialmente dos col\u00e9gios militares. Se estes servem para preparar uma pequena elite de estudantes, tendo como um dos principais objetivos a manuten\u00e7\u00e3o do ciclo de privil\u00e9gios das fam\u00edlias dos militares, o primeiro atender\u00e1 uma ampla massa de estudantes pobres e carentes, com o objetivo de disciplinar e militarizar o ensino, como um mecanismo de controle social da pobreza e dos movimentos sociais ligados \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de servir como uma base de difus\u00e3o do nacionalismo de direita e contempla\u00e7\u00e3o de bases sociais ligadas ao bolsonarismo, como \u00e9 o caso dos militares da reserva que poder\u00e3o atuar nessas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O modelo autorit\u00e1rio e disciplinador proposta pela pol\u00edtica educacional do Governo Bolsonaro fica expl\u00edcito no documento\u2076 criado pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o para as Ecim. O \u201cManual das Escolas C\u00edvico-Militares\u201d, divulgado no m\u00eas de fevereiro de 2020, apresenta a concep\u00e7\u00e3o do modelo educacional e aborda v\u00e1rios aspectos sobre a forma de organiza\u00e7\u00e3o escolar.<\/p>\n<p>O documento de 342 p\u00e1ginas \u00e9 subdividido nos seguintes t\u00f3picos: Regulamento das Ecim; Projeto Pol\u00edtico-Pedag\u00f3gico; Projeto Valores; Normas de Apoio Pedag\u00f3gico; Normas de Avalia\u00e7\u00e3o Educacional; Normas de Psicopedagogia Escolar; Normas de Supervis\u00e3o Escolar; Normas de Gest\u00e3o Administrativa; Normas de Conduta e Atitudes; Normas de Uso de Uniformes e de Apresenta\u00e7\u00e3o Pessoal dos Alunos e Cartilha para os Respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica de funcionamento de um quartel permeia toda a organiza\u00e7\u00e3o escolar. A dire\u00e7\u00e3o escolar ser\u00e1 composta por diretor e vice-diretor civis, escolhidos conforme crit\u00e9rios estabelecidos por cada secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o, que ser\u00e3o assessorados por um Oficial de Gest\u00e3o Escolar, um militar que ter\u00e1 entre outras atribui\u00e7\u00f5es a de atuar na supervis\u00e3o \u00e0s atividades da gest\u00e3o educacional, did\u00e1tico-pedag\u00f3gica e administrativa, agindo como uma esp\u00e9cie de tutor dos diretores. Ele ser\u00e1 o elo de liga\u00e7\u00e3o da escola com o Minist\u00e9rio da Defesa.<\/p>\n<p>Subordinados diretamente ao Oficial encontram-se os \u201cmonitores\u201d, um corpo de militares que atuar\u00e1 diretamente com os\/as alunos\/as. A estrutura organizacional da escola toma ares de quartel, pois todos os setores da escola, da secretaria \u00e0 biblioteca, contar\u00e3o com a figura de \u201cChefes\u201d, que realizar\u00e3o a supervis\u00e3o das atividades, e \u201cDivis\u00f5es\u201d como nova forma de denomina\u00e7\u00e3o dos departamentos. A militariza\u00e7\u00e3o e o controle estar\u00e3o presentes em todo o ambiente escolar.<\/p>\n<p>As entidades de representa\u00e7\u00e3o estudantil estar\u00e3o totalmente subordinadas \u00e0 dire\u00e7\u00e3o escolar, perdendo sua autonomia e liberdade de organiza\u00e7\u00e3o, o que fere frontalmente a Lei do Gr\u00eamio Livre (Lei n\u00b0 7398\/1985). Segundo o Regimento das Ecim, os\/as estudantes s\u00f3 poder\u00e3o participar das organiza\u00e7\u00f5es associativas se forem autorizados pela dire\u00e7\u00e3o da escola e supervisionados por um orientador civil ou militar.<\/p>\n<p>Os\/as estudantes tampouco poder\u00e3o estabelecer rela\u00e7\u00f5es com organiza\u00e7\u00f5es e\/ou entidades \u201cestranhas\u201d \u00e0 escola sem o conhecimento do Diretor. Tais regras, al\u00e9m de serem inconstitucionais, revelam a preocupa\u00e7\u00e3o do controle total sobre os\/as estudantes e suas organiza\u00e7\u00f5es, uma forma de cerceamento das mobiliza\u00e7\u00f5es, o que consiste numa resposta conservadora e autorit\u00e1ria a movimentos estudantis recentes, como as ocupa\u00e7\u00f5es de escolas.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o aos trabalhadores em educa\u00e7\u00e3o das escolas c\u00edvico-militares, ainda que o Manual n\u00e3o toque diretamente em temas relativos \u00e0 sindicaliza\u00e7\u00e3o, reuni\u00f5es sindicais na escola, participa\u00e7\u00e3o em mobiliza\u00e7\u00f5es, lutas e greves da categoria, \u00e9 poss\u00edvel supor que um ambiente militarizado, controlado e organizado por militares da reserva impactar\u00e1 negativamente na organiza\u00e7\u00e3o dos\/as trabalhadores\/as em educa\u00e7\u00e3o, com restri\u00e7\u00f5es e persegui\u00e7\u00f5es de todo tipo.<\/p>\n<p>O sistema disciplinar das Ecim baseia-se em normas de condutas e atitudes que estabelecem recompensas e puni\u00e7\u00f5es, criando um sistema de pontos para avaliar o comportamento dos\/as estudantes, assim como um regime de imposi\u00e7\u00f5es e castigos, apontando para uma forma\u00e7\u00e3o educacional autorit\u00e1ria, na qual os\/as estudantes se comportam com receio de poss\u00edveis puni\u00e7\u00f5es. Um ambiente escolar pautado pelo medo.<\/p>\n<p>A militariza\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente em todos os aspectos da vida escolar. Os alunos ter\u00e3o de realizar o hasteamento di\u00e1rio da bandeira nacional, permanecer em ordem unida, e as turmas ter\u00e3o de se deslocar no ambiente escolar em forma e em passo ordin\u00e1rio. O manual prev\u00ea rondas dos monitores militares no interior da escola com o objetivo de controle das a\u00e7\u00f5es dos\/as alunos\/as.<\/p>\n<p>O uso do uniforme e apresenta\u00e7\u00e3o dos\/as estudantes tamb\u00e9m implica numa s\u00e9rie de imposi\u00e7\u00f5es, como o tamanho das saias para as meninas (na altura dos joelhos), um modelo \u00fanico de corte de cabelo para os meninos e a restri\u00e7\u00e3o do uso de acess\u00f3rios.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da militariza\u00e7\u00e3o das escolas, o modelo das escolas c\u00edvico-militares cumpre um papel pol\u00edtico fundamental para o Governo Bolsonaro, ao contemplar amplamente os militares inativos das For\u00e7as Armadas, das pol\u00edcias militares e do corpo de bombeiros militares. Eles atuar\u00e3o nas escolas como prestadores de tarefa por tempo certo (PTTC), que \u00e9 definida enquanto a execu\u00e7\u00e3o de atividades de natureza militar por militares inativos, em qualquer \u00e1rea da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Nesta modalidade, os militares recebem 30% de remunera\u00e7\u00e3o sobre o valor dos seus vencimentos, al\u00e9m de serem contemplados com aux\u00edlios transporte e alimenta\u00e7\u00e3o, para o exerc\u00edcio da atividade.<\/p>\n<p>No caso das Ecim a primeira contrata\u00e7\u00e3o dos militares no regime de PTTC valer\u00e1 inicialmente por 12 meses, podendo ser renovada de forma sucessiva, tendo como limite inicial o per\u00edodo de 10 anos, que tamb\u00e9m poder\u00e1 ser renovado. A partir deste regime de contrata\u00e7\u00e3o, os militares da reserva receber\u00e3o um aumento consider\u00e1vel em suas remunera\u00e7\u00f5es, para um tipo de v\u00ednculo que pode se estender para toda a vida.<\/p>\n<p>Grande parte da verba anual dos R$ 54 milh\u00f5es previstos pelo MEC para a implementa\u00e7\u00e3o das Ecim, ser\u00e1 destinada para o pagamento dos sal\u00e1rios dos militares que atuar\u00e3o nas escolas.\u2077 O Pecim prev\u00ea a necessidade de um quantitativo de 18 militares para uma escola com mil alunos matriculados. Desta forma, Bolsonaro conseguir\u00e1 atender uma base social consider\u00e1vel, mantendo os militares da reserva coesos como um dos pilares de sustenta\u00e7\u00e3o do bolsonarismo.<\/p>\n<p>\u00c0 guisa de conclus\u00e3o cabe analisar o quanto as escolas c\u00edvico-militares cumprem o papel de forma\u00e7\u00e3o de segmentos importantes da popula\u00e7\u00e3o nos marcos da doutrina\u00e7\u00e3o militar e da ideologia autorit\u00e1ria de extrema-direita propalada pelo Governo Bolsonaro. Em sua guerra ideol\u00f3gica e cultural contra o movimento estudantil e suas entidades, professores e seus sindicatos e contra as universidades p\u00fablicas e os institutos federais, sob a falsa bandeira de combate ao \u201cmarxismo cultural\u201d, o l\u00edder da extrema direita brasileira aposta na expans\u00e3o das escolas c\u00edvico-militares enquanto um referencial do seu projeto educacional.<\/p>\n<p>O Pecim, portanto, consiste em um projeto de fascistiza\u00e7\u00e3o das escolas de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica brasileiras. Nacionalismo, militarismo, autoritarismo, controle e disciplinamento s\u00e3o bases do movimento pol\u00edtico e social conservador que orientam as pol\u00edticas educacionais do Governo Bolsonaro. A t\u00edtulo de compara\u00e7\u00e3o, o modelo de massifica\u00e7\u00e3o das escolas c\u00edvico-militares encaixa-se perfeitamente nos moldes do pensamento educacional do fascismo italiano. Em 1935, Cesare Maria De Vecchi, ministro da educa\u00e7\u00e3o nomeado por Benito Mussolini, deu o seguinte depoimento sobre o modelo de militariza\u00e7\u00e3o das escolas implementado na It\u00e1lia Fascista:<\/p>\n<p>elimina-se toda separa\u00e7\u00e3o entre vida civil e vida militar; s\u00e3o demolidas as barreiras existentes entre as institui\u00e7\u00f5es civis e as institui\u00e7\u00f5es militares; opera-se uma \u00edntima fus\u00e3o entre as benem\u00e9ritas Organiza\u00e7\u00f5es juvenis, as gloriosas For\u00e7as Armadas e a Escola; a educa\u00e7\u00e3o militar, assumindo um alt\u00edssimo valor moral, torna-se um elemento substancial da educa\u00e7\u00e3o geral; e \u00e0 Escola, principalmente, cabe a honrosa e lisonjeira miss\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o do italiano novo, do Cidad\u00e3o Soldado.\u2078<br \/>\nQualquer semelhan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia!<\/p>\n<p>As escolas c\u00edvico-militares do Governo Bolsonaro tamb\u00e9m retomam princ\u00edpios do modelo educacional autorit\u00e1rio vigente durante a ditadura empresarial-militar, que durou entre 1964 e 1985, no qual disciplinas como Educa\u00e7\u00e3o Moral e C\u00edvica e Organiza\u00e7\u00e3o Social da Pol\u00edtica Brasileira serviam para legitimar o regime e seus valores e que tinham no autoritarismo na organiza\u00e7\u00e3o do cotidiano escolar um de seus pilares. Atrav\u00e9s da hierarquia, do disciplinamento e do medo, os militares cercearam qualquer possibilidade de pensamento cr\u00edtico e aut\u00f4nomo das crian\u00e7as e adolescentes da \u00e9poca. O Governo Bolsonaro toma essa inspira\u00e7\u00e3o e vai al\u00e9m, ao inserir militares da reserva na gest\u00e3o direta de escolas p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. A ditadura empresarial-militar n\u00e3o foi t\u00e3o ousada!<\/p>\n<p>Plano de Governo de Jair Bolsonaro: \u201cO CAMINHO DA PROSPERIDADE Proposta de Plano de Governo\u201d (slide 46). Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/static.cdn.pleno.news\/2018\/08\/Jair-Bolsonaro-proposta_PSC.pdf&gt; Acesso em 10 fev. 2020.<br \/>\nCAMPOREZ, Patrick. N\u00famero de escolas p\u00fablicas militarizadas no pa\u00eds cresce sob o pretexto de enquadrar os alunos. Revista \u00c9poca, 2018. Dispon\u00edvel em &lt;https:\/\/epoca.globo.com\/numero-de-escolas-publicas-militarizadas-no-pais-cresce-sob-pretexto-de-enquadrar-os-alunos-22904768&gt; Acesso em 10 fev 2020.<br \/>\nTOKARNIA, Mariana. Quinze estados e DF aderem ao Programa das Escolas C\u00edvico-Militares. Ag\u00eancia Brasil, 2019. Dispon\u00edvel em &lt;http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2019-10\/quinze-estados-e-df-aderem-ao-programa-das-escolas-civico-militares&gt; Acesso em 12 fev 2020.<br \/>\nCAFARDO, Renata. Estudante de Col\u00e9gio Militar custa tr\u00eas vezes mais que o de escola p\u00fablica. Portal Uol, 2018. Dispon\u00edvel em &lt;https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/eleicoes\/2018\/noticias\/agencia-estado\/2018\/08\/26\/estudante-de-colegio-militar-custa-tres-vezes-mais-que-o-de-escola-publica.htm&gt; Acesso em 12 fev 2020.<br \/>\nSISTEMA COL\u00c9GIO MILITAR DO BRASIL.Diretoria de educa\u00e7\u00e3o preparat\u00f3ria e assistencial, Minist\u00e9rio da Defesa, 2020. Dispon\u00edvel em &lt;http:\/\/www.depa.eb.mil.br\/sistema-colegio-militar-do-brasil&gt; Acesso em 12 fev 2020.<br \/>\nBRASIL. Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica. Subsecretaria de fomento \u00c0s escolas c\u00edvico-militares. Manual das escolas c\u00edvico-militares. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.consultaesic.cgu.gov.br\/busca\/dados\/Lists\/Pedido\/Attachments\/837270\/RESPOSTA_PEDIDO_ECIM_Final.pdf&gt; Acesso em 12 fev 2020.<br \/>\nO GLOBO. Verba do Mec para escolas c\u00edvico-militares vai pagar sal\u00e1rio de oficiais da reserva. Globo, 2019. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/verba-do-mec-para-escolas-civico-militares-vai-pagar-salario-de-oficiais-da-reserva-23986061&gt; Acesso em 12 fev 2020.<br \/>\nDE VECCHI, Cesare apud HORTA, Jos\u00e9 Silv\u00e9rio Baia. A educa\u00e7\u00e3o na It\u00e1lia fascista (1922-1945). Revista Brasileira de Hist\u00f3ria da Educa\u00e7\u00e3o, n\u00b0 19, p. 47-89, jan.\/abr. 2009. (pg. 73)<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>ANPEPP \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Pesquisas e P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia. Escolas c\u00edvico-militares: seriam uma boa alternativa para a educa\u00e7\u00e3o em valores sociais e morais? 2019. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.fe.unicamp.br\/pf-fe\/noticia\/5912\/carta-pesquisadores-psicologia-educacional-escolas-militares.pdf.&gt; Acesso em 12 fev. 2020.<\/p>\n<p>EDUCA\u00c7\u00c3O B\u00c1SICA. Mem\u00f3rias da Ditadura, 2020. Dispon\u00edvel em &lt;http:\/\/memoriasdaditadura.org.br\/educacao-basica\/&gt; Acesso em 12 fev. 2020.<\/p>\n<p>HORTA, Jos\u00e9 Silv\u00e9rio Baia. A educa\u00e7\u00e3o na It\u00e1lia fascista (1922-1945). Revista Brasileira de Hist\u00f3ria da Educa\u00e7\u00e3o, n\u00b0 19, p. 47-89, jan.\/abr. 2009.<\/p>\n<p>KONDER, Leandro. Introdu\u00e7\u00e3o ao Fascismo. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1979.<\/p>\n<p>ROSA, Cristina Souza da. Pequenos soldados do fascismo: a educa\u00e7\u00e3o militar durante o governo Mussolini. Revista Ant\u00edteses, Londrina, vol. 2, n. 4, jul.-dez. de 2009, pp. 621-648.<\/p>\n<p>VELOSO, Ellen Ribeiro; OLIVEIRA, Nath\u00e1lia Pereira de. N\u00f3s perdemos a consci\u00eancia? apontamentos sobre a militariza\u00e7\u00e3o de escolas p\u00fablicas estaduais de ensino m\u00e9dio no estado de Goi\u00e1s. In: OLIVEIRA, Ian Caetano de; SILVA, Victor Hugo Viegas de Freitas (org.). Estado de exce\u00e7\u00e3o escolar: uma avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica das escolas militarizadas. Aparecida de Goi\u00e2nia: Escultura, 2016. p. 71-84.<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/natrincheiradasideias.wordpress.com\/2020\/02\/26\/as-escolas-civico-militares-do-governo-bolsonaro-e-o-projeto-de-fascistizacao-da-educacao-publica-no-brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25005\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[60],"tags":[225,247],"class_list":["post-25005","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c71-educacao","tag-4a","tag-jd"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6vj","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25005","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25005"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25005\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25005"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25005"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25005"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}