{"id":25011,"date":"2020-03-01T21:28:02","date_gmt":"2020-03-02T00:28:02","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25011"},"modified":"2020-03-01T21:28:02","modified_gmt":"2020-03-02T00:28:02","slug":"coletes-amarelos-as-feridas-invisiveis-da-repressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25011","title":{"rendered":"Coletes Amarelos: as feridas invis\u00edveis da repress\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/franca\/imagens\/manif_paris_11jan20.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->\u2013 A revolta na Fran\u00e7a que os meios de comunica\u00e7\u00e3o corporativos silenciam<\/p>\n<p>por Elsa Gambin, L\u00e9o Tixador, Nicolas Mayart [*]<\/p>\n<p>Pris\u00f5es, milhares de feridos e centenas de pessoas traumatizadas entre os manifestantes: a viol\u00eancia da repress\u00e3o policial afeta os corpos e as mentes. Aqueles que n\u00e3o s\u00e3o afetados nos seus corpos tamb\u00e9m sofrem, paralisados pelo medo, vendo a sua exist\u00eancia perturbada por pesadelos ou paranoia.<\/p>\n<p>&#8220;O medo, quando nos apercebemos dele, \u00e9 o fim. \u00c9 a caixa de Pandora&#8221;, resume Valk, uma fot\u00f3grafa de Nantes. No \u00faltimo ano, esta veterana de lutas, sempre r\u00e1pida a tirar fotos, n\u00e3o conseguiu entender o que se passava. A princ\u00edpio, sentiu medo, lancinante, mas ainda um pouco confuso, &#8220;de uma forma que eu costumava controlar&#8221;. Numa segunda vez, ela recorda-se de o ter sentido pela frente: um p\u00e2nico no meio de uma espessa n\u00e9voa de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, incapaz de se mover. &#8220;Fiquei paralisada. Um ativista, vestido de preto, colocou a m\u00e3o no meu ombro. Apenas disse: &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 bem?&#8221; Isso trouxe-me de volta \u00e0 realidade. Este simples gesto, cauteloso e atencioso, tirou-me do meu torpor.&#8221;<\/p>\n<p>Da \u00faltima vez, o medo paralisou-a. Impediu-a, fez com que fosse imposs\u00edvel sair do seu apartamento para fazer a cobertura da manifesta\u00e7\u00e3o. &#8220;Foi depois de uma semana de pris\u00f5es brutais na cidade. Eu disse a mim mesma: &#8220;Eles v\u00eam aterrorizar-nos mesmo onde moramos&#8221;. &#8220;Eu n\u00e3o podia mais voltar ao terreno. O relacionamento com a cidade mudou. N\u00e3o confiava mais&#8221;. Valk compreendeu a import\u00e2ncia de conversar depois das manifesta\u00e7\u00f5es. A necessidade de falar, de n\u00e3o repetir sozinhos o que t\u00ednhamos visto ou experimentado. O sentimento de culpa tamb\u00e9m interfere, \u00e0s vezes: &#8220;Quando se tem medo, \u00e9-se for\u00e7ado a encarar quem n\u00f3s somos. Dizemos para n\u00f3s pr\u00f3prios: &#8220;O que estou a fazer para sobreviver?&#8221; N\u00e3o \u00e9 bom nem mau. \u00c9 apenas sobreviv\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Os policiais, agora eu os odeio&#8221;<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m o instinto de sobreviv\u00eancia que levou J\u00e9r\u00e9my, 24 anos, que caiu no Loire, em 21 de junho passado, em Nantes, &#8220;por causa do g\u00e1s lacrimog\u00eaneo&#8221;, a manter a cabe\u00e7a acima da \u00e1gua &#8220;entre 15 a 25 minutos, dif\u00edcil de saber&#8221;. Na noite da morte de Steve Maia Cani\u00e7o, durante o festival de m\u00fasica, ap\u00f3s uma violenta carga policial. J\u00e9r\u00e9my ajudou uma outra pessoa, que tamb\u00e9m havia ca\u00eddo, com o ombro deslocado ao cair. G\u00e1s lacrimog\u00eaneo, c\u00e3es, gritos, \u00e1gua fria e medo, mas ele n\u00e3o dir\u00e1 nada aos trabalhadores que depois limpam o cais e ignoram tudo sobre o drama que ocorreu.<\/p>\n<p>J\u00e9r\u00e9my volta para casa depois do hospital, a vida retoma seu curso, ele apresenta queixa. Passou horas no cais, durante todo o ver\u00e3o na onda de calor. Ningu\u00e9m para lhe prestar apoio psicol\u00f3gico. &#8220;Falar sobre isso na m\u00eddia ajudou-me a exteriorizar o problema, a tomar um pouco de distanciamento&#8221;. Um m\u00eas depois dessa noite de pesadelo, o jovem quebra. Desfaz-se em l\u00e1grimas. &#8220;Estava pensando que deveria ter sido eu quem deveria ter desaparecido no lugar de Steve. N\u00e3o sentia ser leg\u00edtimo estar vivo&#8221;. A s\u00edndrome de sobrevivente que J\u00e9r\u00e9my tenta controlar sozinho. Ele n\u00e3o se lembra de ter pesadelos e diz que \u00e9 demasiado orgulhoso para se decidir &#8220;ir ver algu\u00e9m. Eu sabia que iria reencontrar o meu gosto pela vida novamente&#8221;. Mas ele passa v\u00e1rios meses a fumar e a consumir demasiado \u00e1lcool. &#8220;Senti bastante o choque emocional e o trauma. E a minha culpa&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;O imagin\u00e1rio da luta \u00e9 um ambiente viril e b\u00e9lico. Como podemos ent\u00e3o dizer que precisamos de espa\u00e7o para descansar, para nos recompormos? Quando militamos, enfrentamos voluntariamente a viol\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p>Ele agora est\u00e1 melhor, &#8220;gra\u00e7as a um encontro&#8221; que o levou a ultrapassar os problemas, mas as reminisc\u00eancias desse epis\u00f3dio s\u00e3o sentidas diariamente. &#8220;Assim que ou\u00e7o falar sobre Steve, ou sobre a viol\u00eancia policial, tenho uma bola no est\u00f4mago e uma l\u00e1grima no olho&#8221;. J\u00e9r\u00e9my n\u00e3o confia mais na pol\u00edcia. &#8220;Os policiais, agora eu os odeio. Claramente. Tamb\u00e9m tenho medo. Medo quando os encontro. Mesmo se eu tivesse escolhido n\u00e3o esconder o que aconteceu comigo&#8221;. O jovem n\u00e3o entende como pudemos chegar a isto. Uma fam\u00edlia desolada e um trauma tenaz em dezenas de jovens. Evoca uma futura tatuagem em homenagem a Steve. Com a data. Para n\u00e3o esquecer? &#8220;N\u00e3o podemos esquecer de qualquer maneira. Est\u00e1 fixado.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Pensei que est\u00e1vamos em guerra&#8221;<\/p>\n<p>Durante o G7, no campo dos oponentes, havia um &#8220;espa\u00e7o de assist\u00eancia e apoio&#8221; chamado Chez Thelma. Zazou, do coletivo, percebeu que a quest\u00e3o do trauma era pouco pensada na Fran\u00e7a. Muitos recursos v\u00eam do exterior, Inglaterra, Alemanha, Canad\u00e1.<\/p>\n<p>&#8220;Chez Thelma, iniciou-se numa contra-cimeira. Ainda \u00e9 dif\u00edcil esses espa\u00e7os existirem. O imagin\u00e1rio da luta \u00e9 um ambiente viril e b\u00e9lico. Como dizer que se precisa de espa\u00e7o para descansar e recarregar baterias? Quando fazemos campanha, enfrentamos voluntariamente a viol\u00eancia. At\u00e9 nos superexpomos, sem estarmos preparados para as consequ\u00eancias&#8221;, explica o ativista. No G7, muitas pessoas foram at\u00e9 Chez Thelma, para descansar ou ap\u00f3s um ataque de ansiedade. O resultado foi positivo. &#8220;Precisamos fazer com que essa palavra exista no coletivo para poder falar com todos sobre os riscos traum\u00e1ticos. Comece-se por estar atento aos outros. O medo deve ser ouvido! Temos que cuidar dessa quest\u00e3o coletivamente&#8221;.<\/p>\n<p>Se a quest\u00e3o do trauma estava latente entre os ativistas de longa data, no entanto, irrompeu brutalmente na vida dos Coletes Amarelos que pouco conheciam no campo dos protestos. J\u00falia, 31 anos, n\u00e3o tinha ainda se manifestado antes de colocar o colete fluorescente. A jovem voltou a sair &#8220;em choque&#8221; dos seus primeiros s\u00e1bados. &#8220;Est\u00e1vamos diante de pessoas com armaduras bloqueando-nos em todas as ruas. Eu vejo uma mulher, que chorava, ser apalpada na frente de todos. Foi humilhante. Eu disse para mim mesma: &#8220;Essas pessoas n\u00e3o t\u00eam piedade&#8221;. Ela ca\u00edra num cerco policial que a deixaria com marcas duradouras e lembra-se de ter gritado. O cerco, uma t\u00e9cnica anglo-sax\u00f4nica chamada kettling (cord\u00e3o de isolamento), pode ser particularmente traum\u00e1tica.<\/p>\n<p>Um cerco que se fechou sobre J\u00falia no in\u00edcio de janeiro de 2019, perto da Prefeitura de Nantes. &#8220;Pensei que est\u00e1vamos em guerra. Estava escuro, o g\u00e1s n\u00e3o parou. Saltamos por toda parte para evitar os proj\u00e9teis. Eu gritava. As pessoas gritavam. Ent\u00e3o eu disse a mim mesma que eles queriam fazer-nos morrer&#8221;. Refugiada nas traseiras de um restaurante, ela viu pessoas tossindo e vomitando. &#8220;Caos completo. E a estranha sensa\u00e7\u00e3o de dizer &#8220;escapei da morte&#8221;. Uma experi\u00eancia traum\u00e1tica, que acaba por se concluir com a chegada da CRS (policia de choque), a golpes de bast\u00e3o. &#8220;Eu n\u00e3o entendia. Fiquei atordoada.&#8221;<\/p>\n<p>Depois disso, J\u00falia demorou bastante tempo a voltar \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es. Ela consultou um hipnoterapeuta para tentar resolver preocupa\u00e7\u00f5es de hipervigil\u00e2ncia, ansiedade e paranoia. &#8220;Eu saltava ao menor bater da porta. No centro da cidade, eu olhava para toda a parte. Entrei em p\u00e2nico quando ouvi uma sirene. Como se estiv\u00e9ssemos sempre na manifesta\u00e7\u00e3o, como se tivesse que assistir a tudo&#8221;. Uma noite, ela viu-se correndo para o carro com medo de ser seguida pela pol\u00edcia. Por vezes fecha-se em casa. O cora\u00e7\u00e3o bate mais forte quando pensa que um carro a est\u00e1 seguindo. &#8220;O meu pior pesadelo foi que eles batiam \u00e0 porta para me prenderem. Eu imaginava-o e estava a ter pesadelos com isso&#8221;. O medo de ser presa, de repres\u00e1lias. &#8220;Foi paranoia&#8221;. Um inferno di\u00e1rio. Desde essas sess\u00f5es de hipnose, ela sente-se mais calma. Conseguiu voltar \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es. Primeiro, de longe.<\/p>\n<p>Um estado de perplexidade ps\u00edquica<\/p>\n<p>Pesadelos, ansiedades, paranoia, Lauriane Perez, psic\u00f3loga cl\u00ednica, v\u00ea isso todos os dias no seu gabinete. Ela recebe, cada vez mais, manifestantes pobres perante a persist\u00eancia de seus sintomas.<\/p>\n<p>&#8220;Nos traumas, o fator agravante \u00e9 a intencionalidade da viol\u00eancia. Ora, os Coletes Amarelos inicialmente viram a pol\u00edcia como algu\u00e9m do mesmo grupo social, que poderia juntar-se a eles. Antes de se tornar um inimigo, um opressor legitimado pelo discurso do Estado&#8221;.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga verifica os traumas ligados \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da ordem. &#8220;Acontece algo que nos confronta com a realidade da morte, com o perigo de nossa integridade f\u00edsica&#8221;. Tipicamente, cada \u00e1rea de repress\u00e3o policial \u00e9, portanto, um pacote de traumas. A sensa\u00e7\u00e3o de ser asfixiado pelo g\u00e1s, a impossibilidade de fugir, pode causar o medo de morrer. Lauriane Perez escuta ativistas falando sobre o choque psicol\u00f3gico, do qual eles mal tinham consci\u00eancia antes de ir v\u00ea-la.<\/p>\n<p>O choque psicol\u00f3gico \u00e9 semelhante ao epis\u00f3dio relatado pela fot\u00f3grafa Valk. &#8220;\u00c9 um choque ps\u00edquico. Tudo para. A pessoa n\u00e3o tem mais sensa\u00e7\u00f5es, est\u00e1 paralisada&#8221;. Espera que algu\u00e9m a tire dessa quietude emocional antes de um drama em potencial&#8221;. A comunidade, os outros participantes, podem fazer a pessoa entrar novamente no grupo&#8221;. Para Valk, foi aquele ativista que colocou a m\u00e3o no seu ombro. Para Lola, uma &#8220;m\u00e9dica de rua&#8221; [NT] de 23 anos, foi o s\u00edmbolo de um socorrista que a fez recuperar o \u00e2nimo quando estava como que congelada. &#8220;Uma vez eu desliguei da realidade. Vi-me colada contra a parede de um pr\u00e9dio, sob o g\u00e1s, sem pensar em nada. N\u00e3o pude mover-me apesar do meu desconforto respirat\u00f3rio porque n\u00e3o tive tempo de colocar a minha m\u00e1scara&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Um barulho de petardo crispa-me, temo que seja uma granada. O que est\u00e1 mais arraigado na minha mem\u00f3ria \u00e9 o uniforme da pol\u00edcia criminal&#8221;.<\/p>\n<p>Muitas vezes, o choque psicol\u00f3gico passa despercebido, explica Lauriane Perez. A pessoa volta para casa, exausta, sem falar sobre isso. &#8220;N\u00e3o \u00e9 a op\u00e7\u00e3o certa. Tem que se ir tomar um caf\u00e9, conversar, estar rodeado&#8221;. O que notamos, no entanto, s\u00e3o os sintomas do transtorno de stress p\u00f3s-traum\u00e1tico. Recorda\u00e7\u00f5es, pesadelos, problemas de mem\u00f3ria, hipervigil\u00e2ncia, evas\u00e3o, dissocia\u00e7\u00e3o (desapego emocional), hipermn\u00e9sia&#8230; &#8220;Os sentimentos de asfixia costumam voltar \u2013 observa a psic\u00f3loga \u2013 Nos casos mais graves, h\u00e1 dificuldades no trabalho, consequ\u00eancias na vida familiar&#8230; A menor sensa\u00e7\u00e3o pode desencadear o trauma. As pessoas desenvolver\u00e3o fobias de lugar ou de roupas&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Como Lola, depois de &#8220;apenas&#8221; alguns meses nos &#8220;m\u00e9dicos de rua&#8221;. &#8220;Um barulho de fogo de artif\u00edcio provocava-lhe tens\u00e3o, temia que fosse uma granada&#8221;. O que est\u00e1 mais fixado na minha mem\u00f3ria \u00e9 o uniforme da pol\u00edcia criminal. Se encontrar um motociclista com roupas semelhantes, n\u00e3o fico bem, fico na defensiva&#8230; A jovem tem uma sintomatologia de desencadear emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os p\u00e1ssaros que voam fazem-na olhar com medo que um proj\u00e9til caia sobre ela. O fumo de um cigarro electr\u00f4nico mergulha-a em apneia. Ela entra em p\u00e2nico ao som de sirenes, aliviada quando s\u00e3o os bombeiros. Lola viveu refugiada mais de duas horas num pequeno beco sem sa\u00edda, cercada pela pol\u00edcia e pelo g\u00e1s lacrimog\u00eaneo. Sujeita a controles e confisco de material. O confinamento desencadeou um grande ataque de ansiedade. Com raiva, no final da rusga, ela grita com um &#8220;membro da pol\u00edcia criminal que encostar\u00e1 a sua cabe\u00e7a \u00e0 minha de forma agressiva&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 tempo de reconhecer a natureza traum\u00e1tica da viol\u00eancia durante as manifesta\u00e7\u00f5es&#8221;<\/p>\n<p>Para Lauriane Perez, aqueles que voltam \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es &#8220;reativam o trauma, sob risco de esgotamento. Eles sentem-se culpados por n\u00e3o poderem voltar. Eles n\u00e3o se escutam imediatamente. Ou\u00e7o muitas vezes &#8220;pensei que era guerra&#8221;. O barulho e as detona\u00e7\u00f5es simbolizam algo assassino na nossa imagina\u00e7\u00e3o&#8221;. Essas pessoas j\u00e1 fr\u00e1geis colocar-se-\u00e3o num estado de vulnerabilidade ps\u00edquica&#8221;, mas o trauma acabar\u00e1 por tomar o seu lugar. \u00c9 hora de reconhecer a natureza potencialmente traum\u00e1tica da viol\u00eancia durante as manifesta\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>A profissional observa a dificuldade dos ativistas assumirem &#8220;uma forma de vulnerabilidade enquanto est\u00e3o num contexto de luta&#8221;. A quest\u00e3o do sofrimento mental insuficientemente pensado, portanto, corre o risco de n\u00e3o servir os movimentos sociais, enfraquecendo a natureza coletiva da contesta\u00e7\u00e3o, isolando os indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>Lauriane Perez apela \u00e0 espontaneidade e solidariedade, tornando-se manifestantes num dia e militantes para sempre, que podem criar &#8220;pequenas c\u00e9lulas p\u00f3s-manifesta\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia psicol\u00f3gica [&#8230;] O que falta \u00e9 esse momento em que, em grupo, nos rehumanizamos&#8221;. E os homens n\u00e3o devem ficar de fora, enfatiza, pois recebe mais mulheres do que homens para falarem sobre esses traumas. Aqueles que sofrem de sintomas de transtorno p\u00f3s-traum\u00e1tico, devem procurar um profissional, insiste a psic\u00f3loga. As pessoas n\u00e3o ficam bem milagrosamente. Al\u00e9m disso, pode haver efeitos a longo prazo no c\u00e9rebro&#8221;.<\/p>\n<p>Lola, a &#8220;m\u00e9dica de rua&#8221;, escolheu continuar, apesar dos sinais, dos quais ela est\u00e1 ciente. &#8220;Os uniformes desencadeiam uma forma de agress\u00e3o em mim. Tudo isso deixa marcas loucas, especialmente ao ver feridas de guerra. Quando a adrenalina diminui, tudo bate em n\u00f3s, sentimo-nos fracos&#8221;. A jovem, filha de um policial, n\u00e3o se v\u00ea sendo presa. &#8220;Eu quero continuar. Eu n\u00e3o concebo n\u00e3o ser mais &#8220;m\u00e9dica de rua&#8221;. Ela lembra-se de cada detalhe. Da primeira granada de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo que rebenta ao seu lado \u2013 &#8220;fiquei em choque&#8221; \u2013 do som da cabe\u00e7a de um homem batendo no asfalto enquanto um pol\u00edcia o segurava.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia verbal &#8220;tamb\u00e9m deixa marcas&#8221;. Como quando gritou para um policial: &#8220;De quantos mortos est\u00e1 \u00e0 espera que haja&#8221;. A jovem cuidadora levanta outro problema, que tende a ocupar a mente dos ativistas: o impacto na privacidade e nas pessoas \u00e0 sua volta. O medo da busca, da filia\u00e7\u00e3o, da perda do seu anonimato para uma parte da pol\u00edcia. Uma situa\u00e7\u00e3o que pode afetar o moral&#8221;. Voc\u00ea perde a sua inoc\u00eancia. Sua vida torna-se muito menos simples. Eu n\u00e3o sou mais a mesma. Tudo isso bate forte e \u00e9 preciso aprender a administr\u00e1-lo. Isso muda uma vida&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas est\u00e3o ainda mais revoltadas&#8221;<\/p>\n<p>A vida de Swann, ativista de 23 anos, tamb\u00e9m foi virada do avesso ap\u00f3s uma ac\u00e7\u00e3o policial no in\u00edcio do ano. Refugiada numa loja em que tamb\u00e9m entrava g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, subiu as escadas de um pr\u00e9dio para escapar \u00e0s matracas da CDI [companhia de interven\u00e7\u00e3o]. Podiam ouvir-se os golpes, os gritos. Os berros: &#8220;Todos no ch\u00e3o, cale a boca!&#8221;. A jovem, juntamente com outras pessoas, terminar\u00e1 num p\u00e1tio, sob escolta policial. Ela v\u00ea os manifestantes deitados no ch\u00e3o, com as m\u00e3os na cabe\u00e7a. Sentada num canto, cercada por pol\u00edcias encapuzados, ela v\u00ea uma amiga a ser revistada. &#8220;Um policial passa um bast\u00e3o sobre os meus ombros dizendo &#8220;abra a sua gola&#8221;. Depois outro p\u00f4s-me \u00e0 parte, atr\u00e1s de um carro&#8221;.<\/p>\n<p>A jovem ativista teve de colocar as m\u00e3os na parede. &#8220;Ele apalpou-me. As coxas, tudo. Nesse momento, digo a mim mesmo: &#8220;\u00c9 ilegal, n\u00e3o \u00e9 um homem que deve fazer isso&#8221;. Mas n\u00e3o pude dizer-lhe. Swann lembra-se &#8220;de se ter dissociado da a\u00e7\u00e3o. Eu senti-me como se tivesse visto a cena do lado de fora, n\u00e3o no meu corpo&#8221;. Apresentar\u00e1 uma queixa por agress\u00e3o sexual. Desde ent\u00e3o, ela interpreta a cena v\u00e1rias vezes, temendo que a procurem no trabalho, temendo que seja seguida pela pol\u00edcia. &#8220;N\u00e3o dormi mais, tive pesadelos. Quando entro num bar, verifico se h\u00e1 uma sa\u00edda de emerg\u00eancia&#8221;. Foi para um grupo de discuss\u00e3o, liderado por um psic\u00f3logo &#8220;que n\u00e3o criticava&#8221;. Mas n\u00e3o pode mais mover-se em cortejo: a ang\u00fastia \u00e9 demasiado forte. &#8220;O que eles [a pol\u00edcia] fazem n\u00e3o muda nada em termos de lutas. As pessoas est\u00e3o pelo contr\u00e1rio ainda mais revoltadas&#8221;.<\/p>\n<p>Estas feridas psicol\u00f3gicas \u00e0s vezes ficam fixadas no sono. Salom\u00e9 fez uma conta no Twitter, &#8220;Pav\u00e9 de subconscient&#8221;, na qual partilha os pesadelos dos manifestantes. &#8220;Vi duas pessoas com a garganta esmagada&#8230; desde ent\u00e3o, vejo a cena repetidas vezes&#8221;, disse ela. &#8220;Nos meus sonhos, vejo corpos a cair, como algu\u00e9m tirando uma foto&#8221;.<\/p>\n<p>Colete Amarelo desde a terceira manifesta\u00e7\u00e3o, Salom\u00e9 explica que come\u00e7ou a ter pesadelos a partir de dezembro. &#8220;\u00c9 sempre a mesma coisa, a pol\u00edcia est\u00e1 me perseguindo e geralmente estou procurando uma sa\u00edda. Todos esses homens t\u00eam o rosto mascarado e encapuzado&#8221;. Antes de ir para [o programa] Erasmus na It\u00e1lia, esse tipo de pesadelo voltava regularmente. A partida permitiu-lhe reencontrar noites mais calmas. &#8220;Agora acontece-me apenas uma vez por semana.&#8221; Mesmo a bastantes quil\u00f4metros da Fran\u00e7a e da sua agita\u00e7\u00e3o, Salom\u00e9 continua a aumentar a sua conta no Twiter &#8220;porque o primeiro impacto psicol\u00f3gico que podemos detectar s\u00e3o os sonhos. Temos que falar sobre essa viol\u00eancia que permanece duradoura&#8221;.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia policial \u2013 incluindo a exposi\u00e7\u00e3o aos LBD \u2013 aumenta o risco de depress\u00e3o<\/p>\n<p>Para Jais Adam-Tro\u00efan, doutor em psicologia social, que se tem manifestado contra [a legisla\u00e7\u00e3o] do Direito do Trabalho de 2016, tamb\u00e9m existe &#8220;um v\u00ednculo muito claro entre a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia policial e os sintomas de stress e depress\u00e3o p\u00f3s-traum\u00e1ticos&#8221;. Com outros dois colegas, Elif Celebi (professor de psicologia cl\u00ednica da Universidade Sehir, em Istambul) e Yara Mahfud (professora da Universidade Paris Descartes), ele acabou de concluir um estudo, ainda na fase de revis\u00e3o, dedicado ao impacto da viol\u00eancia policial \u2013 incluindo a exposi\u00e7\u00e3o ao g\u00e1s \u2013 na sa\u00fade mental dos Coletes Amarelos.<\/p>\n<p>A pesquisa \u00e9 baseada num question\u00e1rio em que participaram quase 523 ativistas do \u00faltimo ver\u00e3o (meados de julho a final de agosto). &#8220;A nossa amostra n\u00e3o \u00e9 representativa dos Coletes Amarelos&#8221;, alerta. &#8220;Estes s\u00e3o Coletes Amarelos que participaram numa m\u00e9dia de 18 eventos, mostrando-se muito motivados a responder \u00e0 pesquisa, tendo um sal\u00e1rio m\u00e9dio igual ou inferior ao sal\u00e1rio m\u00ednimo. Estamos lidando com uma amostra de Coletes Amarelos em situa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais muito prec\u00e1rias, que, portanto, t\u00eam uma preval\u00eancia muito maior de dist\u00farbios psicol\u00f3gicos que a popula\u00e7\u00e3o em geral&#8221;.<\/p>\n<p>Este estudo, no entanto, reflete uma realidade assustadora: a viol\u00eancia policial \u2013 incluindo a exposi\u00e7\u00e3o ao g\u00e1s \u2013 &#8220;parece aumentar em dois ter\u00e7os o risco de s\u00edndrome p\u00f3s-traum\u00e1tica e quase o triplo (mais 184%) do risco de depress\u00e3o nas pessoas feridas&#8221;. Para ir al\u00e9m e provar a causalidade, seria necess\u00e1rio &#8220;realizar mais estudos observacionais&#8221;, seguindo os Coletes Amarelos a longo prazo. &#8220;Mas atualmente n\u00e3o temos meios para conduzir esse estudo&#8221;, admite Jais Adam-Tro\u00efan. Entretanto, essa investiga\u00e7\u00e3o seria a primeira a abordar as consequ\u00eancias psicopatol\u00f3gicas da exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia policial.<\/p>\n<p>Por sua parte, Swann, a jovem ativista, aguarda um resultado positivo para a sua queixa. Uma resposta, um apoio do sistema de justi\u00e7a face ao seu trauma, face \u00e0 les\u00e3o que a deixou sem sentidos. Sem d\u00favida, n\u00e3o tem nada a esperar em rela\u00e7\u00e3o aos seus pesadelos e ins\u00f4nia. Deve ocupar-se de control\u00e1-los, a abaf\u00e1-los. A viver com essa cena, escrita a ferro quente no seu subconsciente. As feridas &#8220;invis\u00edveis&#8221; s\u00e3o o impens\u00e1vel \u2013 e o impensado \u2013 das consequ\u00eancias das a\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia. &#8220;Isso vai deixar-me com consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas, talvez f\u00edsicas&#8221;, disse Lola, a jovem &#8220;m\u00e9dica de rua&#8221;. Mas estou pronta para isso&#8221;.<br \/>\n[NT] M\u00e9dicos de rua, (street medics) ou m\u00e9dicos de ac\u00e7\u00e3o, s\u00e3o volunt\u00e1rios com diversos graus de treino m\u00e9dico que participam nos protestos e manifesta\u00e7\u00f5es para prestar cuidados m\u00e9dicos e primeiros socorros.<\/p>\n<p>O original encontra-se em www.lemediatv.fr\/articles\/enquetes\/&#8230;<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em https:\/\/resistir.info\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25011\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[109],"tags":[234],"class_list":["post-25011","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c122-franca","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6vp","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25011","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25011"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25011\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25011"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25011"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25011"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}