{"id":25017,"date":"2020-03-01T23:03:17","date_gmt":"2020-03-02T02:03:17","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25017"},"modified":"2020-03-01T23:03:17","modified_gmt":"2020-03-02T02:03:17","slug":"qual-o-folego-do-governo-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25017","title":{"rendered":"Qual o f\u00f4lego do governo Bolsonaro?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/miro.medium.com\/max\/2400\/1*8M6pVJWxegXsbh3xz-ZK6A.png\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>No in\u00edcio do atual desgoverno, por ocasi\u00e3o de uma an\u00e1lise de conjuntura para o ANDES-SN, divergia de meu companheiro Pl\u00ednio de Arruda Sampaio Jr. Enquanto ele apontava para a profundidade da crise e apostava em um esgotamento mais r\u00e1pido do governo, eu defendi que dever\u00edamos guardar a possibilidade do governo se manter e encontrar bases de aceita\u00e7\u00e3o para sua continuidade, mesmo no campo econ\u00f4mico e em segmentos de massas populares.<\/p>\n<p>Passei todo o ano de 2019 acreditando que Plininho estava certo e eu errado. O desgoverno foi aos trancos, a prometida acelera\u00e7\u00e3o da economia patinava, segmentos pareciam conspirar visando uma alternativa sem Bolsonaro. O Brasil ca\u00eda no descr\u00e9dito internacional \u00e0 cada trapalhada do presidente ou de sua trupe. Os trabalhadores, muito mais timidamente do que necess\u00e1rio, resistiam.<\/p>\n<p>Entretanto, entramos em um novo ano, tudo isto continua, inclusive a crise econ\u00f4mica e suas consequ\u00eancias, o governo produz trapalhadas e grosserias num ritmo ainda maior, as denuncias sobre envolvimento com as mil\u00edcias ficam incontorn\u00e1veis e\u2026 o presidente miliciano continua no cargo e pesquisas indicam que ganharia as elei\u00e7\u00f5es contra qualquer candidato.<\/p>\n<p>Nossa pergunta, ent\u00e3o, \u00e9 qual a raz\u00e3o de sua perman\u00eancia? Pl\u00ednio tinha toda raz\u00e3o sobre a capacidade deste governo, ou de qualquer outro, em reverter as determina\u00e7\u00f5es de uma crise muito mais profunda e com isso retomar patamares de crescimento que pudesse gerar algum tipo de euforia para que a burguesia e parte das massas aceitassem o esc\u00e1rnio p\u00fablico de um mandat\u00e1rio grotesco e tosco.<\/p>\n<p>Gostaria, ent\u00e3o, de relembrar alguns pontos que indicava \u00e0 \u00e9poca e acrescentar outros na tentativa de lan\u00e7ar luz ao paradoxo.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar est\u00e1 a aplica\u00e7\u00e3o rigorosa da agenda do capital (reforma trabalhista, reforma da previd\u00eancia, reforma tribut\u00e1ria, desmonte do Estado, acelera\u00e7\u00e3o das privatiza\u00e7\u00f5es e entrega do patrim\u00f4nio, etc.). Este aspecto n\u00e3o pode, entretanto, ser atribu\u00eddo ao governo, uma vez que foi tocado quase que exclusivamente pelo parlamento. Devemos notar que estamos vivendo um sonho de toda a teoria pol\u00edtica burguesa: a separa\u00e7\u00e3o dos poderes. Enquanto o executivo se empenha em suas sandices, o parlamento vai tocando a vida e passando o trator sobre os trabalhadores e seus direitos sob o olhar complacente das centrais sindicais.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, quando olhamos a cat\u00e1strofe econ\u00f4mica, evidenciada no desemprego, no abandono das obras de infraestrutura, no desmonte da capacidade industrial instalada, podemos correr o risco de n\u00e3o notar que tem sempre um segmento do capital lucrando com a trag\u00e9dia de outros. No final de 2019, 13 dos 26 setores da ind\u00fastria registraram crescimento, fato que n\u00e3o ocorria desde mar\u00e7o de 2018, puxados pela ind\u00fastria automobil\u00edstica (4,3%), produtos de metal (3,7%), m\u00f3veis (9,0%), equipamentos de inform\u00e1tica e eletr\u00f4nicos (3,0%), produtos de borracha e pl\u00e1sticos (1,4%). Outros setores ca\u00edram, como m\u00e1quinas e equipamentos (- 2,8%), ind\u00fastria farmac\u00eautica (-4,6%), assim como ind\u00fastrias extrativas (-1,2% ) e o setor de petr\u00f3leo (- 0,8% ) tamb\u00e9m ca\u00edram.<\/p>\n<p>Em um quadro geral a ind\u00fastria teria crescido 1,1%. Destaca-se, nos dados do IBGE, que as grandes categorias apresentaram crescimento em 46 dos 79 grupos e 51,9% nos 805 produtos pesquisados e que os quatro maiores bancos tiveram um aumento de quase 15% em sues lucros atingindo a marca recorde de 59,7 bilh\u00f5es em 2019.<\/p>\n<p>Um economista mais competente, como o Plininho, diria que os n\u00fameros mostram um crescimento p\u00edfio e que a economia est\u00e1 mais para andar de lado do que a esperada retomada, o que me parece verdade. No entanto, o n\u00facleo do grande capital monopolista (industrial, financeiros, comercial, etc.) est\u00e1 conseguindo manter taxas de lucro aceit\u00e1veis nesta economia em crise e acredita que as reformas geram a base para a esperada retomada.<\/p>\n<p>Resta, ent\u00e3o, a dimens\u00e3o pol\u00edtica. Os segmentos pol\u00edticos, institucionais, midi\u00e1ticos, religiosos, judici\u00e1rios, fecharam com a pauta e a est\u00e3o respaldando, alguns alegremente, alguns com retic\u00eancias e, ainda, outros possivelmente com n\u00e1useas. A rede Globo \u00e9 um bom exemplo. Pode gastar quinze minutos em seu jornal para atacar o presidente por suas liga\u00e7\u00f5es com as mil\u00edcias, ironizar sua falta de compostura, pronunciar desagravos contra uma agress\u00e3o contra uma jornalista, para depois aparecer o Sardenberg e explicar como que o governo est\u00e1 aplicando uma pauta liberal na economia e fazendo o dever de casa.<\/p>\n<p>Estou convencido de que existem segmentos que operam a possibilidade de afastamento do miliciano, mas eles recuaram momentaneamente e parecem ter aderido \u00e0 tese do ruim com ele, pior sem ele. Creio que a raz\u00e3o est\u00e1 no ultimo fator: o apoio de parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O governo direitista e reacion\u00e1rio logrou fraturar o pa\u00eds. O miliciano n\u00e3o \u00e9 o presidente de um partido ou um movimento pol\u00edtico (parece que a iniciativa de um partido pol\u00edtico est\u00e1 com dificuldade de vingar com menos de 6% das assinaturas necess\u00e1rias), ele \u00e9 a express\u00e3o pol\u00edtica de um segmento significativo do reacionarismo, do preconceito, do anticomunismo, do fanatismo religioso obscurantista. Os seus bra\u00e7os pol\u00edticos (parte das igrejas evang\u00e9licas, as mil\u00edcias, os aparatos policiais) repercutem em centenas de grupos e indiv\u00edduos que fizeram do combate aos inimigos da Na\u00e7\u00e3o, da fam\u00edlia, da luta contra o globalismo e o marxismo cultural, da defesa da cristandade contra os homossexuais e pervertidos pol\u00edticos, a raz\u00e3o da sua exist\u00eancia e a base de uma for\u00e7a pol\u00edtica que funciona como amea\u00e7a e chantagem no fr\u00e1gil equil\u00edbrio da ordem institucional democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A for\u00e7a desta bolha pol\u00edtica \u00e9 que ela parece ser imune \u00e0 escalada das bobagens, despaut\u00e9rios e sandices do governante, podendo mesmo at\u00e9 se alimentar destes estrumes, assim como teria a incr\u00edvel capacidade irracional de jogar a culpa da cat\u00e1strofe econ\u00f4mica em algum tipo de compl\u00f4 comunista, petista ou envolvendo o Vaticano.<\/p>\n<p>A resultante, infelizmente para o pa\u00eds, \u00e9 que, pelo menos para o momento, o miliciano fica e pode encontrar os meios de continuar, por dentro ou por fora da ordem democr\u00e1tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25017\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[221],"class_list":["post-25017","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6vv","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25017","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25017"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25017\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25017"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25017"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25017"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}