{"id":25084,"date":"2020-03-08T01:44:33","date_gmt":"2020-03-08T04:44:33","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25084"},"modified":"2020-03-08T01:44:33","modified_gmt":"2020-03-08T04:44:33","slug":"coronavirus-agronegocio-e-estado-de-excecao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25084","title":{"rendered":"Coronav\u00edrus, agroneg\u00f3cio e estado de exce\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/coronavirus-na-italia-600x273.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->SILVIA RIBEIRO<\/p>\n<p>O DI\u00c1RIO.INFO<\/p>\n<p>Muito se fala sobre o coronav\u00edrus Covid-19, e todavia muito pouco. Existem aspectos fundamentais que permanecem na sombra. Quero citar alguns deles, diferentes mas complementares.<\/p>\n<p>O primeiro refere-se ao perverso mecanismo do capitalismo de ocultar as verdadeiras causas dos problemas, a fim de n\u00e3o fazer nada sobre eles, porque afeta os seus interesses, mas fazer neg\u00f3cio com a aparente cura dos sintomas. Enquanto isso, os Estados gastam enormes recursos p\u00fablicos em medidas de preven\u00e7\u00e3o, conten\u00e7\u00e3o e tratamento, que tamb\u00e9m n\u00e3o agem sobre as causas, de modo que esse modo de lidar com os problemas se torna um neg\u00f3cio exclusivo para as transnacionais, por exemplo, com vacinas e medicamentos.<\/p>\n<p>A refer\u00eancia dominante a v\u00edrus e bact\u00e9rias \u00e9 como se estes fossem organismos exclusivamente nocivos que devem ser eliminados. Prevalece uma abordagem de guerra, como em tantos outros aspectos da rela\u00e7\u00e3o do capitalismo com a natureza. No entanto, devido \u00e0 sua capacidade de saltar entre esp\u00e9cies, v\u00edrus e bact\u00e9rias s\u00e3o parte fundamental da coevolu\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o dos seres vivos, bem como do seu equil\u00edbrio com o meio ambiente e a sa\u00fade, incluindo os seres humanos.<\/p>\n<p>O Covid-19, que agora \u00e9 manchete mundial, \u00e9 uma linhagem da fam\u00edlia dos coronav\u00edrus, que causam doen\u00e7as respirat\u00f3rias geralmente leves, mas que podem ser graves para uma muito pequena percentagem das pessoas afetadas devido \u00e0 sua vulnerabilidade. Outras cepas de coronav\u00edrus causaram s\u00edndrome respirat\u00f3ria aguda severa (SARS na sigla inglesa), considerada epidemia na \u00c1sia em 2003, mas desaparecido desde 2004, e a s\u00edndrome respirat\u00f3ria aguda do M\u00e9dio Oriente (MERS), praticamente desaparecido. Tal como o Covid-19, s\u00e3o v\u00edrus que podem estar presentes em animais e humanos e, como sucede com todos os v\u00edrus, os organismos afetados tendem a desenvolver resist\u00eancia, o que, por sua vez, faz com que o v\u00edrus volte a sofrer muta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Existe um consenso cient\u00edfico de que a origem desse novo v\u00edrus \u2013 tal como todos os que se declararam ou amea\u00e7aram ser declarados como pandemia nos \u00faltimos anos, incluindo a gripe avi\u00e1ria e a gripe su\u00edna origin\u00e1ria do M\u00e9xico &#8211; \u00e9 zoon\u00f4mica. Ou seja, vem de animais e depois sofre muta\u00e7\u00f5es, afetando os seres humanos. No caso de Covid-19 e SARS, presume-se que seja proveniente de morcegos. Embora se culpe o consumo destes em mercados asi\u00e1ticos, na realidade o consumo de animais selvagens de maneira tradicional e local n\u00e3o \u00e9 o problema. O fator fundamental \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o dos habitats das esp\u00e9cies selvagens e a sua invas\u00e3o por assentamentos urbanos e \/ ou expans\u00e3o da agropecu\u00e1ria industrial, o que cria situa\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias para a muta\u00e7\u00e3o acelerada de v\u00edrus.<\/p>\n<p>A verdadeira f\u00e1brica sistem\u00e1tica de novos v\u00edrus e bact\u00e9rias que se transmitem aos seres humanos \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o industrial de animais, principalmente aves, porcos e vacas. Mais de 70% dos antibi\u00f3ticos em escala global s\u00e3o usados \u200b\u200bpara engordar ou prevenir infec\u00e7\u00f5es em animais n\u00e3o doentes, o que causou um problema muito s\u00e9rio de resist\u00eancia a antibi\u00f3ticos, tamb\u00e9m para os humanos. Desde 2017, a OMS pede que as ind\u00fastrias agropecu\u00e1ria, piscicultora e alimentar deixem de usar sistematicamente antibi\u00f3ticos para estimular o crescimento de animais saud\u00e1veis. A esse caldo, grandes empresas agr\u00edcolas e de alimentos adicionam doses regulares de antivirais e pesticidas dentro das mesmas instala\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 mais f\u00e1cil e conveniente apontar alguns morcegos ou civetas &#8211; dos quais foi certamente destru\u00eddo o seu habitat natural &#8211; do que questionar essas f\u00e1bricas de doen\u00e7as humanas e animais.<\/p>\n<p>A amea\u00e7a de pandemia tamb\u00e9m \u00e9 seletiva. Todas as doen\u00e7as que foram consideradas epidemias nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, incluindo Covid-19, produziram muito menos mortes do que doen\u00e7as comuns, como a gripe &#8211; da qual, segundo a OMS, at\u00e9 650 mil pessoas morrem anualmente em todo o mundo. No entanto, essas novas epidemias motivam medidas extremas de vigil\u00e2ncia e controle.<\/p>\n<p>Como afirma o fil\u00f3sofo italiano Giorgio Agamben, afirma-se assim a crescente tend\u00eancia de usar o estado de exce\u00e7\u00e3o como paradigma normal de governo.<\/p>\n<p>Referindo-se ao caso do Covid-19 na It\u00e1lia, Agamben sublinha que \u201co decreto-lei imediatamente aprovado pelo governo, por raz\u00f5es de sa\u00fade e seguran\u00e7a p\u00fablica, d\u00e1 lugar a uma verdadeira militariza\u00e7\u00e3o dos munic\u00edpios e zonas em que a fonte de transmiss\u00e3o \u00e9 desconhecida, f\u00f3rmula t\u00e3o vaga que permite estender o estado de excep\u00e7\u00e3o a todas as regi\u00f5es. A isto, acrescenta Agamben, soma-se o estado de medo que se espalhou nos \u00faltimos anos nas consci\u00eancias dos indiv\u00edduos e que se traduz na necessidade de estados de p\u00e2nico coletivo, aos quais a epidemia oferece novamente o pretexto ideal. Assim, num c\u00edrculo vicioso perverso, a limita\u00e7\u00e3o da liberdade imposta pelos governos \u00e9 aceita em nome de um desejo de seguran\u00e7a que foi induzido pelos mesmos governos que agora interv\u00eam para o satisfazer.<\/p>\n<p>(https:\/\/tinyurl.com\/s5pua93).<\/p>\n<p>* Investigadora do Grupo ETC<\/p>\n<p>O Grupo ETC, criado na Espanha, se dedica \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da diversidade cultural e ecol\u00f3gica e \u00e0 luta pelos direitos humanos.<br \/>\nFonte: https:\/\/www.jornada.com.mx\/2020\/02\/29\/opinion\/019a1eco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25084\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[7],"tags":[234],"class_list":["post-25084","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6wA","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25084","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25084"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25084\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}