{"id":25098,"date":"2020-03-10T00:55:58","date_gmt":"2020-03-10T03:55:58","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25098"},"modified":"2020-03-10T00:55:58","modified_gmt":"2020-03-10T03:55:58","slug":"a-marcha-de-bolsonaro-e-o-altar-dos-tutelados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25098","title":{"rendered":"A marcha de Bolsonaro e o altar dos tutelados"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/pera-7-218x150.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Foto: Alan Santos\/PR<\/p>\n<p>por Pedro Marin | Revista Opera<\/p>\n<p>A convoca\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es para o pr\u00f3ximo dia 15, contra o Supremo Tribunal Federal e o Congresso, surpreendeu muitos.<\/p>\n<p>Primeiro, surpreendeu aqueles que, a despeito do evidente desmanchar do sistema pol\u00edtico e da economia nacional frente a nossos olhos, acreditavam em uma normalidade que por milagre ou feiti\u00e7aria se mantinha inquebrant\u00e1vel. O concreto todo se desmanchava, mas eles gritavam: \u201cTudo est\u00e1 normal!\u201d, \u201cFreios e contrapesos!\u201d, \u201cA Rep\u00fablica se mant\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>Depois, surpreendeu aqueles que imaginavam mil cen\u00e1rios em que os militares, no passado senhores do golpismo, tamb\u00e9m por uma esp\u00e9cie de magia, se transformaram em \u201cdemocratas\u201d, \u201cnacionalistas\u201d e \u201cprofissionais\u201d. Se sobressaltaram por ter sido o general Augusto Heleno quem convocou os atos, logo ap\u00f3s o governo ter sido refor\u00e7ado por uma nova rodada de trocas ministeriais que favoreciam os fardados.<\/p>\n<p>De novo pegos de surpresa e afeitos \u00e0s esperan\u00e7as vazias, como foram em 2016, passaram a procurar um novo representante de sua imagin\u00e1ria tend\u00eancia, depositando imediatamente sua f\u00e9 de J\u00f3 em um Judas: escolheram um pronunciamento de Santos Cruz em seu perfil no Twitter, contra o uso de imagens de generais nas chamadas de manifesta\u00e7\u00e3o, como prova de uma \u201cdisputa\u201d no seio militar, como no passado imaginavam nos tweets de Villas-B\u00f4as n\u00e3o uma express\u00e3o de golpismo mas, ao contr\u00e1rio, de \u201cconten\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d. N\u00e3o se perguntaram quais seriam os interesses centrais da imaginada disputa, nem com quanta for\u00e7a cada um dos lados conta, nem sequer se a disputa por si s\u00f3 seria um truque. \u00c0 profiss\u00e3o de f\u00e9 n\u00e3o interessa motivos, n\u00fameros ou engenhosas artimanhas. Basta repetir o fraseado quantas vezes for necess\u00e1rio para que o esp\u00edrito cat\u00e1rtico se imponha e domine o corpo daquele indisposto \u00e0 luta.<\/p>\n<p>Por fim, surpreendeu tamb\u00e9m aqueles que, como os \u00faltimos, creem em encantos, mas n\u00e3o acreditando que sejam conjurados por acasos, os imaginam como obra de copiosa f\u00e9. Estes no entanto depositavam-na n\u00e3o nos brucutus de coturno, mas nos finos presidentes parlamentares e nos honor\u00e1veis ju\u00edzes. Vibraram com o recatado pronunciamento de Rodrigo Maia como se fosse uma convoca\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra. Comemoraram a chegada da ordem do dia \u201cimpeachment\u201d nas revistas semanais.<\/p>\n<p>A normalidade que imaginam n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a sua capacidade de adapta\u00e7\u00e3o. \u00c0s oito da manh\u00e3 leem o jornal, infartam, preparam as malas e imaginam uma composi\u00e7\u00e3o wagneriana como trilha sonora de sua vida. \u00c0s oito da noite, constatando que o apocalipse ainda n\u00e3o chegou, desfazem as malas e voltam a soprar as sinfonias corriqueiras em seus clarins, para no dia seguinte repetir o roteiro. A eles, a cada novo choque prossegue uma nova esperan\u00e7a. A conformidade se constr\u00f3i dia a dia. A alguns, a cada aproxima\u00e7\u00e3o, outra que a sucede. O poder se conquista a passos pequenos. Aos outros, a cada nova batalha anunciada, uma frustra\u00e7\u00e3o nova que n\u00e3o \u00e9 liberada. A radicaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 feita como cacha\u00e7a, num alambique de \u00f3dio, gota a gota.<\/p>\n<p>A normalidade, como muito conv\u00e9m, dia a dia se torna mais anormal. Agora, percebem que ela n\u00e3o pode ser, como nada \u00e9, obra do acaso. A febre passou, e perdem tamb\u00e9m a f\u00e9 nos seus paladinos \u2013 at\u00e9 que a recuperem no pr\u00f3ximo trote dos cavalos. O general autoriza as manifesta\u00e7\u00f5es. S\u00f3 se incomodara com quest\u00f5es relativas a direitos de imagem. O presidente da C\u00e2mara balbucia contra o presidente e Heleno, tentando compor uma sa\u00edda, mas d\u00e1 um passo atr\u00e1s sobre o motivo das reclama\u00e7\u00f5es do general, negociando os termos do or\u00e7amento impositivo, e nenhum \u00e0 frente quanto \u00e0 estrat\u00e9gia que tra\u00e7ara, a da convoca\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es. Acuado, o Parlamento se deixa tutelar, tentando convocar, por meio das declara\u00e7\u00f5es \u00e0 imprensa, uma for\u00e7a da natureza que tome consci\u00eancia dos \u201cperigos \u00e0 democracia\u201d e interceda contra o presidente, derrotando seu Ex\u00e9rcito. Os santos da antiga f\u00e9 tornam-se agora feiticeiros. \u00c9 a isto que a for\u00e7a parlamentar foi reduzida. O que mais poderia fazer?<\/p>\n<p>Em agosto do ano passado, o presidente do Supremo, Dias Toffoli, revelou por meio da imprensa uma grave crise ocorrida entre abril e maio, que s\u00f3 se teria resolvido depois de dezenas de reuni\u00f5es com militares e autoridades. Em meio a ela, um general pr\u00f3ximo do presidente teria consultado um dos ministros do STF sobre a possibilidade de um golpe de estado. Desde agosto se v\u00e3o agora oito meses, sem que o presidente do Supremo tenha revelado o nome do general golpista, e sem que tenha sido importunado por nenhum dos poderes constitucionais, pelo quarto poder ou pelo poder da oposi\u00e7\u00e3o para que revelasse o arquiteto da anormalidade anticonstitucional. \u00c9 daqueles que receiam a palavra que esperaremos a espada derradeira contra o golpismo?<\/p>\n<p>O Parlamento e o Supremo foram participantes ativos do golpe de 2016. Um aprovou-o, o outro se calou, o autorizando. Foi tamb\u00e9m sob seu dom\u00ednio que foi aprovada, sem protestos em tribunal, a PEC 241, apelidada PEC da Morte, que congela por 20 anos o or\u00e7amento de um pa\u00eds cuja Constitui\u00e7\u00e3o estabelece uma mir\u00edade de direitos sociais, em um espa\u00e7o de terra que deve ter mais 23 milh\u00f5es de habitantes quando a acabar a vig\u00eancia da emenda \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o. Ou seja: o acr\u00e9scimo da PEC \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o haveria de ser uma edi\u00e7\u00e3o corrigida da Constitui\u00e7\u00e3o, a revoga\u00e7\u00e3o completa de seu artigo sexto. Mas n\u00e3o viram ali contradi\u00e7\u00e3o nenhuma os parlamentares que a votaram, nem o Supremo que se calou. Ao contr\u00e1rio, festejaram: se a lei n\u00e3o se imp\u00f5e na realidade, que a realidade se imponha na lei! S\u00e3o desses costureiros da Constitui\u00e7\u00e3o que se espera a sua defesa? Espera-se que os golpistas de ontem hoje se convertam na ponta de lan\u00e7a da defesa da democracia? Que os arquitetos da guerra econ\u00f4mica contra o povo se voltem contra a sua efetiva aplica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Se n\u00e3o por princ\u00edpio, por raz\u00e3o pr\u00e1tica; pergunto novamente: que mais poderiam fazer? Dentro de seu regime constitucional, no m\u00e1ximo derrubar um presidente que \u201cencontra na sua pr\u00f3pria debilidade a sua for\u00e7a, e a sua respeitabilidade no desprezo que inspira\u201d* para colocar em seu lugar um general. E, fora de tal regime, muito mais: se colocariam em disputa com todos aqueles poderes cujos defensores s\u00e3o, de acordo com o regime, os regimentos dos generais. E, portanto, tamb\u00e9m e principalmente com estes \u00faltimos. Se seguem a cartilha contra Bolsonaro, chegam a aos generais. Se a rasgam contra Bolsonaro, topam com eles no caminho, e dificilmente teriam os meios para deix\u00e1-los para tr\u00e1s. Que mais poderiam fazer, al\u00e9m de se deterem im\u00f3veis, com togas e gravatas, no topo do altar dos tutelados?<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe ainda ao certo em qual dos cavalos a burguesia apostaria, se somente em um tivesse de apostar. O que \u00e9 certo \u00e9 que, por ora, \u00e9 o Parlamento quem tem consentido. Tamb\u00e9m \u00e9 certo que Bolsonaro \u00e9 o homem que janta em Mar-a-Lago, que assina acordos militares com os EUA, que presenteia os militares, sendo ainda bem recebido nas ditas federa\u00e7\u00f5es de industriais brasileiras. Enquanto se tenta convencer o presidente, cala-se sobre a redoma verde no governo. Sinal de que \u00e9 no primeiro que se reconhece a autoridade da decis\u00e3o, e nos militares a efetiva decis\u00e3o da autoridade; melhor sequer pronunciar seus nomes para que n\u00e3o sejam convocados a decidir. Os coturnos dos generais afinal s\u00e3o capazes de pisar mais firme sobre um povo em um contexto de crise do que o p\u00falpito e a caneta.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco uma cidade era aterrorizada por policiais. Um senador foi alvejado no peito. 241 pessoas morreram em nove dias. Sil\u00eancio, enquanto as institui\u00e7\u00f5es trabalham. Mas efetivo trabalho, no Cear\u00e1, s\u00f3 foi visto pelo Ex\u00e9rcito, que mais uma vez, pela Garantia da Lei e da Ordem, p\u00f4de ocupar um Estado. Sinal de que at\u00e9 n\u00e3o tendo seus nomes pronunciados acabam por decidir. E as palavras que ecoaram depois do sil\u00eancio foram proferidas pelo Comandante da For\u00e7a Nacional, enviado para combater o motim, em elogio aos policiais amotinados. \u201cOs ratos ficam pelo caminho\u201d, disse, dando aos amotinados o adjetivo de \u201cgigantes\u201d.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o enquanto isso prepara suas pr\u00f3prias marchas. O Dia Internacional da Mulher foi marcado pelo tom de rep\u00fadio ao governo. Haver\u00e1 ainda marchas no dia 14 \u2013 data em que se completam dois anos dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes \u2013 e 18. N\u00e3o se pode ter ilus\u00f5es quanto a elas. Tendo de contar em grande parte com a mobiliza\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es que ansiosamente aguardam pelas elei\u00e7\u00f5es de outubro, \u00e9 dif\u00edcil imaginar que sejam suficientes para impedir a marcha \u2013 n\u00e3o a do dia 15, mas a que por detr\u00e1s dela avan\u00e7a. Se at\u00e9 o gigante Com\u00edcio da Central da Brasil, que mobilizara 200 mil sob a figura de Jango em 1964, foi sucedido por um golpe, o progn\u00f3stico hoje pode n\u00e3o ser dos melhores.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 certo tamb\u00e9m que se a mar\u00e9 que se avoluma n\u00e3o ser\u00e1 impedida por uma pequena demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, menos ainda se far\u00e1 com demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a nenhuma. Incapazes de por si s\u00f3 barrar o presidente e os coturnos, que sirvam como pren\u00fancio da necess\u00e1ria organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o do povo. Que n\u00e3o figuremos tamb\u00e9m no altar dos tutelados!<\/p>\n<p>*Karl Marx em O 18 Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25098\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[223],"class_list":["post-25098","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6wO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25098","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25098"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25098\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25098"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25098"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25098"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}