{"id":251,"date":"2010-01-16T04:31:00","date_gmt":"2010-01-16T04:31:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=251"},"modified":"2017-08-25T00:54:03","modified_gmt":"2017-08-25T03:54:03","slug":"brasilia-onde-foi-que-se-errou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/251","title":{"rendered":"Bras\u00edlia &#8211; Onde foi que se errou?"},"content":{"rendered":"\n<p>V\u00e1rias das cidades concretizadas encontram-se ao longo do que ent\u00e3o era a Rodovia Transbrasiliana, hoje incorporada \u00e0 denominada Bel\u00e9m-Bras\u00edlia. Seriam cidades do trabalho, da produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria. Goi\u00e2nia e An\u00e1polis por sua vez deveriam constituir um eixo de industrializa\u00e7\u00e3o do ferramental necess\u00e1rio a tais atividades e de beneficiamento da produ\u00e7\u00e3o dessas novas cidades. Encarregado da elabora\u00e7\u00e3o do plano diretor de tal eixo pelo governo Mauro Borges foi o eminente professor Luis Saia, de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Esses projetos, assim como o de At\u00edlio Correia Lima para Goi\u00e2nia, consideravam em muito as teorias das cidades-jardins inglesas. Consideravam a contradi\u00e7\u00e3o cidade\/campo \u00e0 luz da contradi\u00e7\u00e3o habita\u00e7\u00e3o\/trabalho tendo como forma de viabiliza\u00e7\u00e3o o cooperativismo. Considerando fundamentalmente a centralidade do fator trabalho quando do planejamento urbano e territorial e questionando a propriedade do solo e dos im\u00f3veis, foram as <em>garden-cities<\/em> inglesas as principais refer\u00eancias para as realiza\u00e7\u00f5es dos regimes trabalhistas no mundo. Primeiro para a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, depois para pa\u00edses marcados pela reconstru\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a Segunda grande Guerra e tamb\u00e9m para pa\u00edses do chamado Terceiro Mundo. Floresceram nessas novas cidades as teorias da unidade de vizinhan\u00e7a e da cidade para o trabalho.<\/p>\n<p>Despontava assim um novo enfoque da rela\u00e7\u00e3o entre povoamento e territorialidade no Brasil. Enfoque que iria se ampliar com a pol\u00edtica de regionaliza\u00e7\u00e3o e de planejamento nacional defendida por Celso Furtado. Dentro desse contexto maior, Bras\u00edlia seria simplesmente uma Washington brasileira, uma cidade administrativa, capital do pa\u00eds e n\u00e3o uma <em>urbs<\/em> qualquer. Um enfoque que preparava terreno para um real Pacto Federativo da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Ouvi certa feita de Paul Baran que o planejamento \u00e9 a t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o do reformismo. Referia-se \u00e0 positivista ordena\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es, j\u00e1 em si positiva quanto \u00e0 anarquia gerada por casu\u00edsticos interesses das chamadas leis de mercado. Ao positivismo falta, no entanto, o interesse pelo conhecimento da mudan\u00e7a, da transforma\u00e7\u00e3o. Esse o erro maior em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Bras\u00edlia. Trucidaram no nascedouro os instrumentos de ampla participa\u00e7\u00e3o na aferi\u00e7\u00e3o das implica\u00e7\u00f5es da aplica\u00e7\u00e3o de seu projeto. Sindicatos e partidos pol\u00edticos progressistas foram manietados pelo bra\u00e7o armado das elites. Por imposi\u00e7\u00e3o de interesses externos o Brasil viu-se for\u00e7ado a desmontar seu aparelho de planejamento e adotar o desenvolvimento do tipo <em>gota de \u00f3leo<\/em> que vertido sobre S\u00e3o Paulo se acreditava espraiar suas benesses sobre o resto do pa\u00eds. \u00d3rg\u00e3os de planejamento e coordena\u00e7\u00e3o regional, como a SUDENE, foram vitimados por iniciativas casu\u00edsticas e privatizantes. Passou a valer a \u00f3tica neoliberal. Por fim, face ao adiantado estado de infesta\u00e7\u00e3o desses organismos, no dizer de T\u00e2nia Bacelar, ao inv\u00e9s de se extirpar os bernes preferiu-se matar a vaca.<\/p>\n<p>Afastados das atividades de planejamento a centralidade do <em>fator trabalho<\/em> e o questionamento da <strong>propriedade privada do solo, dos im\u00f3veis e dos meios de transporte<\/strong>, escancarou-se a porta para a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Corretores, empreiteiros e transportadores ascenderam \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de elite financeira e pol\u00edtica. Tornaram-se deputados, senadores e governadores. Apoderaram-se do Estado. Os partidos e agremia\u00e7\u00f5es trabalhistas reduziram sua luta a quest\u00f5es salariais contentando-se em aceitar o planejamento filantr\u00f3pico da chamada habita\u00e7\u00e3o popular. O Minist\u00e9rio do Planejamento reduziu-se a um grande escrit\u00f3rio de contabilidade or\u00e7ament\u00e1ria.<\/p>\n<p>Planejamento passou a ser coisa de grandes escrit\u00f3rios privados, de consultorias vendendo <em>papel pintado<\/em> para o governo. O conceito de meio-ambiente viu-se reduzido \u00e0 considera\u00e7\u00e3o de somente <em>metade<\/em> do ambiente. A universidade foi privada da sua responsabilidade em produzir conhecimento para a solu\u00e7\u00e3o dos problemas candentes do pa\u00eds. Foi invadida por enfoques fundamentalistas e pela ideologia da n\u00e3o-ideologia, como se essa n\u00e3o o fosse. N\u00e3o h\u00e1 porque negar que estamos vivenciando uma crise sist\u00eamica.<\/p>\n<p>Face tal quadro, ressalta a quest\u00e3o de como influir na forma\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia coletiva a respeito. \u00c9 incontest\u00e1vel sermos n\u00f3s mesmos os instrumentos primeiros de apreens\u00e3o da realidade externa ao pensamento. Atrav\u00e9s de nossos sentidos, ativados pela observa\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o, \u00e9 que a realidade vem a n\u00f3s. Acontece que pensar observando e\/ou observar pensando s\u00e3o formas de trabalho imbricadas com outras formas de trabalho; de a\u00e7\u00e3o rec\u00edproca com o meio ambiente e com os nossos semelhantes. Somos na ess\u00eancia ativos seres sociais. Contentar-se com os enfoques <em>vitalistas<\/em> para agir, transformando-nos atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o do real, \u00e9 limitar-se a somente uma das categorias da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Limitar o chamado planejamento f\u00edsico a uma quest\u00e3o de ordenamento dos lugares da vida \u00e9 insuficiente para a melhor intera\u00e7\u00e3o entre a mesma e seu cen\u00e1rio. Sem a centralidade do fator trabalho e o questionamento da propriedade privada dos lugares da vida, estaremos simplesmente favorecendo a mercantiliza\u00e7\u00e3o dos mesmos em detrimento de seu valor de uso.<\/p>\n<p>\u00c9 brilhante o esclarecimento de Marx caracterizando os lugares da vida como o <em>l\u00f3cus standi<\/em> (o lugar em que se atua); como meios indiretos de produ\u00e7\u00e3o. Abre assim as portas do conhecimento para a mais plena intera\u00e7\u00e3o entre a vida e seu meio ambiente. Torna assim toda a forma de planejamento de interesse das classes trabalhadoras. E n\u00e3o \u00e9 por acaso que as experi\u00eancias de planejamento aben\u00e7oadas pela Hist\u00f3ria s\u00e3o aquelas que se deram por for\u00e7a de reivindica\u00e7\u00f5es e participa\u00e7\u00e3o trabalhistas.<\/p>\n<p>Abaixo a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria! A cidade e o campo s\u00e3o os lugares da Hist\u00f3ria, da luta de classes tamb\u00e9m em termos de planejamento. Ele se torna diferente do planejamento positivista na medida em que seu objeto social assume a condi\u00e7\u00e3o de sujeito do mesmo.<\/p>\n<p>Frank Svensson \u00e9 professor titular aposentado da FAU\/UnB e membro do CC do PCB.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: maps.google.com.br\n\n\n\n\nEscrito por Frank Svensson\nHoje dorme nos arquivos do IBGE um projeto do governo Vargas prevendo a constru\u00e7\u00e3o de 150 novas cidades em favor da interioriza\u00e7\u00e3o do desenvolvimento nacional. Encarregada da elabora\u00e7\u00e3o de tais planos foi uma institui\u00e7\u00e3o por nome URBS dirigida pelo sanitarista Saturnino Brito. Os respectivos projetos existem reunidos sob forma de suas obras completas na biblioteca do Congresso Nacional.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/251\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-251","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-43","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=251"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=251"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=251"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=251"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}