{"id":25155,"date":"2020-03-21T23:59:40","date_gmt":"2020-03-22T02:59:40","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25155"},"modified":"2020-03-21T23:59:40","modified_gmt":"2020-03-22T02:59:40","slug":"a-crise-tem-nome-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25155","title":{"rendered":"A crise tem nome: capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.tagesspiegel.de\/images\/eroeffnung-ezb-demonstrationen\/25045042\/1-format6001.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->A confian\u00e7a no capitalismo est\u00e1 diminuindo, mesmo assim, onde est\u00e3o as alternativas? Rainer Mausfeld, professor na universidade de Kiel na Alemanha acaba de lan\u00e7ar mais um livro sobre a reciprocidade entre Medo e Poder.<\/p>\n<p>Artigo escrito por R\u00fcdiger G\u00f6bel no jornal do Partido Comunista Alem\u00e3o Unsere Zeit. Tradu\u00e7\u00e3o exclusiva para o PCB.<\/p>\n<p>O jornal conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung soa o alarme: &#8220;Alem\u00e3es duvidam do capitalismo&#8221;. A ag\u00eancia americana de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas Edelmann apresentou o seu &#8220;Trust Barometer&#8221;. Segundo essa pesquisa, que foi realizada em 28 pa\u00edses, apenas 12,5% dos alem\u00e3es acreditam que podem tirar proveito de um crescimento econ\u00f4mico. Nem mesmo 25% olham com otimismo para seu futuro financeiro. 55% s\u00e3o da opini\u00e3o de que o capitalismo, na sua apar\u00eancia atual, mais prejudica que ajuda.<\/p>\n<p>Os alem\u00e3es est\u00e3o bem na m\u00e9dia dos outros 27 pa\u00edses. A cr\u00edtica ao capitalismo cresce em todo lugar e ultrapassa a barreira do n\u00edvel de rendimento. Tamb\u00e9m \u00e9 marcante a desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos &#8220;super ricos&#8221;. Mas se o capitalismo e os capitalistas passam a ser vistos sem ilus\u00f5es, por que a resist\u00eancia ao sistema n\u00e3o fica maior? Onde fica a cr\u00edtica ao sistema como um todo e a oposi\u00e7\u00e3o ativa? De onde vem o medo de levantar a voz e exigir mudan\u00e7as?<\/p>\n<p>Repostas a essas perguntas oferece o professor Rainer Mausfeld da Universidade de Kiel, na qual ele dirigiu a faculdade de pesquisa cognitiva e perceptiva at\u00e9 sua aposentadoria. Segundo ele, a destrui\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica deixada pelo neoliberalismo \u00e9 gigantesca. &#8220;O capitalismo \u00e9 na sua constitui\u00e7\u00e3o ligado \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de medo. A ordem capitalista da propriedade privada obriga a todos que n\u00e3o disponham de capital a trabalhar na propriedade alheia e transformar assim seu trabalho em sal\u00e1rio&#8221;, diz o professor Rainer em seu mais novo livro Medo e Poder.<\/p>\n<p>Se trabalho no capitalismo \u00e9 impens\u00e1vel sem medo, ent\u00e3o o sistema gera com isso de forma estrutural a mat\u00e9ria-prima que \u2013 tanto diretamente como atrav\u00e9s de seus resultados \u2013 se deixa explorar de forma manipulativa para os fins do Poder.<br \/>\nO Professor Rainer cita ainda tr\u00eas t\u00e9cnicas de domina\u00e7\u00e3o ligadas \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de medo que ajudam a evitar que o abismo entre a ret\u00f3rica democr\u00e1tica e a realidade capitalista seja reconhecido publicamente. A primeira delas \u00e9 a desformaliza\u00e7\u00e3o do direito. Ela se d\u00e1 na utiliza\u00e7\u00e3o de alguns termos do direito p\u00fablico como, por exemplo, a palavra &#8220;suspeito&#8221; de forma indiscriminada, a fim de que decis\u00f5es sobre um fato sejam determinadas n\u00e3o pelo enquadramento jur\u00eddico espec\u00edfico, mas de acordo com a interpreta\u00e7\u00e3o do agente p\u00fablico diante do caso concreto. A pris\u00e3o por tr\u00eas meses de tr\u00eas jovens ao passarem pela autoestrada nas imedia\u00e7\u00f5es da cidade de Biarritz, onde havia um encontro do G7, sob a acusa\u00e7\u00e3o de que eles eram &#8220;perigosos&#8221;, \u00e9 um exemplo disso.<\/p>\n<p>O Professor Rainer destaca: &#8220;O direito democr\u00e1tico exige seguran\u00e7a e clareza jur\u00eddica atrav\u00e9s de defini\u00e7\u00f5es formuladas de forma espec\u00edfica e de enquadramentos com base na lei. A desformaliza\u00e7\u00e3o do direito faz com que \u2013 principalmente no campo das atividades onde a discord\u00e2ncia \u00e9 articulada \u2013 o ato p\u00fablico em nome do Estado se torne imprevis\u00edvel e incalcul\u00e1vel. O medo gerado por essa f\u00f3rmula \u00e9 politicamente desejado\u201c. No livro &#8220;Por que as ovelhas se calam&#8221; o autor aborda esse mecanismo de um ponto de vista mais global. &#8220;Uma forma especial de legaliza\u00e7\u00e3o da criminalidade organizada da classe propriet\u00e1ria com pesadas consequ\u00eancias \u00e9 o sistema do direito comercial internacional e o estabelecimento de uma justi\u00e7a paralela representada por tribunais que se tornam independentes dos estados democr\u00e1ticos de direito. Este desenvolvimento leva a uma refeudaliza\u00e7\u00e3o, na qual o direito \u00e9 retirado do processo democr\u00e1tico e reprivatizado de forma a que os atores econ\u00f4micos mais fortes se livram do direito p\u00fablico e entregam a judicializa\u00e7\u00e3o de seus interesses a tribunais com arcabou\u00e7o jur\u00eddico por eles mesmos elaborado.<\/p>\n<p>Um outro instrumento para a gera\u00e7\u00e3o do medo \u00e9 a ideologia da meritocracia. Meritocracia considera que todos aqueles s\u00e3o legitimados ao exercicio do poder que conquistaram esse m\u00e9rito com o esfor\u00e7o, com trabalho. &#8220;Na democracia capitalista a meritocracia serve para justificar o status quo da domina\u00e7\u00e3o dos donos e leva aqueles que n\u00e3o possuem nada \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o enquanto lhes \u00e9 sugerido a esperan\u00e7a de que, com o devido esfor\u00e7o, eles tamb\u00e9m ter\u00e3o seu status social melhorado. Al\u00e9m disso, a ideologia da sociedade do resultado, na qual o status social depende do esfor\u00e7o e trabalho, \u00e9, segundo o autor, t\u00e3o profundamente ancorada em nossa cultura que n\u00f3s nem a percebemos como tal. Escolas, universidades e todo o sistema de forma\u00e7\u00e3o social servem para espalh\u00e1-la e s\u00e3o organizadas com base nela. Ela faz com que as pessoas menos privilegiadas busquem em si mesmas a origem de seus problemas sociais e se sintam por eles respons\u00e1veis. Com isso, a meritocracia gera na maior parte da popula\u00e7\u00e3o um sentimento de vergonha e fracasso.<\/p>\n<p>Por fim, o Professor Rainer aborda a gera\u00e7\u00e3o do medo em si. Segundo ele o medo \u00e9 gerado principalmente atrav\u00e9s da propaganda de um suposto perigo. Como exemplo ele cita a constru\u00e7\u00e3o do inimigo R\u00fassia na Europa por parte dos Estados Unidos e da OTAN. Para isso foram construidos in\u00fameros &#8220;centros estrat\u00e9gicos de comunica\u00e7\u00e3o&#8221;, nos quais &#8220;m\u00e9todos adequados para o manejamento de percep\u00e7\u00f5es&#8221; e para o &#8220;controle da narrativa&#8221; s\u00e3o desenvolvidos e por meio das m\u00eddias usados como base de &#8220;desinforma\u00e7\u00e3o direcionada&#8221;. Como exemplo, o autor cita a &#8220;Integrity iniciative&#8221;. Trata-se de uma rede internacional com sede na Gr\u00e3-Bretanha cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica e os &#8220;tomadores de decis\u00e3o\u201c. Essa empresa \u00e9 financiada pelos minist\u00e9rios das rela\u00e7\u00f5es exteriores dos EUA, da Gr\u00e3-Bretanha e pela OTAN. Sob o lema &#8220;defending democracy against desinformation&#8221; ela espalha por toda a Europa campanhas midi\u00e1ticas contra a R\u00fassia.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel observar tamb\u00e9m como eles trabalham ao se analisar como eles trataram os protestos dos Coletes Amarelos na Fran\u00e7a. Atrav\u00e9s da rotula\u00e7\u00e3o dos protestos sociais de massa como exagerados, violentos e de direita mirava-se \u00e0 aus\u00eancia de solidariedade e a um banimento midi\u00e1tico do movimento. Imaginemos o que aconteceria se na R\u00fassia dezenas de pessoas perdessem olhos por tiros de balas de borracha ou tivessem m\u00e3os amputadas por explos\u00f5es de c\u00e1psulas de g\u00e1s lacrimog\u00eanio\u2026<\/p>\n<p>O Professor Rainer \u00e9 categ\u00f3rico: &#8220;Democracia n\u00e3o se deixa combinar com capitalismo. Por motivos estruturais \u00e9 imposs\u00edvel que em uma democracia capitalista as tr\u00eas promessas democr\u00e1ticas \u2013 s\u00e3o elas: autonomia, solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica para problemas internos e externos e liberdade de medos sociais \u2013 sejam cumpridas. \u00c9 necess\u00e1rio que n\u00f3s nos libertemos da aparente falta de alternativa frente \u00e0s democracias capitalistas&#8221;. Isso n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil. &#8220;Hoje parece mais simples imaginar o fim do planeta do que o fim do capitalismo&#8221;, diz o professor citando o marxista americano Frederic Jameson.<\/p>\n<p>&#8220;Deve o capitalismo com um todo ser posto em quest\u00e3o?&#8221;, perguntou o Frankfurter Allgemeine Zeitung. 44% dos leitores do jornal conservador responderam: &#8220;Sim, o sistema todo deve ser posto em quest\u00e3o\u201c. Resta-nos agora o grande desafio de responder acertadamente a essa quest\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25155\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[227],"class_list":["post-25155","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6xJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25155","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25155"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25155\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25155"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25155"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25155"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}