{"id":25176,"date":"2020-03-25T07:32:17","date_gmt":"2020-03-25T10:32:17","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25176"},"modified":"2020-03-25T07:32:17","modified_gmt":"2020-03-25T10:32:17","slug":"o-coronavirus-e-a-propaganda-anti-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25176","title":{"rendered":"O coronav\u00edrus e a propaganda anti-China"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/pera-24-741x486.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Foto: Xinhua\/Zhang Long)<\/p>\n<p>por Andr\u00e9 Ortega e Pedro Marin | Revista Opera<\/p>\n<p>O deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da Rep\u00fablica, com seu abrangente conhecimento de intercambista e chapeiro nos EUA, tomou nessa semana a liberdade de nos dar uma aula de hist\u00f3ria, geopol\u00edtica, intelig\u00eancia e diplomacia pelo Twitter. Disse: \u201cQuem assistiu Chernobyl [sem d\u00favidas, ele aprendeu tudo o que sabe sobre o tema assistindo \u00e0 s\u00e9rie, j\u00e1 que este era seu meio favorito para se preparar ao cargo de embaixador] vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronav\u00edrus e a ditadura sovi\u00e9tica pela chinesa. Mais uma vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria in\u00fameras vidas. A culpa \u00e9 da China e liberdade seria a solu\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O deputado, que poderia ter sido embaixador em Washington, causou uma crise diplom\u00e1tica com seu tweet. A Embaixada da China respondeu: \u201cLamentavelmente, voc\u00ea \u00e9 uma pessoa sem vis\u00e3o internacional nem senso comum, sem conhecer a China nem o mundo. Aconselhamos que n\u00e3o corra para ser o porta-voz dos EUA no Brasil, sob a pena de trope\u00e7ar feio\u201d, instigando ainda o deputado a dar \u201cuma guinada o mais rapidamente poss\u00edvel, j\u00e1 que a hist\u00f3ria nos ensina que quem insiste em atacar e humilhar o povo chin\u00eas, acaba sempre dando um tiro no seu pr\u00f3prio p\u00e9\u201d e dizendo por fim que suas palavras soavam \u201cfamiliares\u201d, que n\u00e3o deixavam de ser \u201cuma imita\u00e7\u00e3o de seus queridos amigos\u201d (dos Estados Unidos) e que o deputado \u201cao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, v\u00edrus mental, que est\u00e1 infectando a amizades entre os nossos povos.\u201d<\/p>\n<p>As palavras n\u00e3o \u201csoam familiares\u201d por acaso, nem a dureza da resposta foi imotivada. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a imprensa dos Estados Unidos que tem tentado emplacar o coronav\u00edrus como um \u201cv\u00edrus chin\u00eas\u201d e responsabilizar o pa\u00eds pela doen\u00e7a, mas tamb\u00e9m o pr\u00f3prio presidente norte-americano, Donald Trump. Curiosamente, foi depois de um refor\u00e7o nessa campanha antichinesa nos EUA que, no Brasil, liberais e conservadores passaram a atacar a China com veem\u00eancia. Uma publica\u00e7\u00e3o do Movimento Brasil Livre pergunta \u201cQuando a China ser\u00e1 responsabilizada pelas doen\u00e7as que espalha ao mundo?\u201c, indo longe o suficiente para atribuir ao pa\u00eds a responsabilidade pela Peste Negra, que teve seu auge 700 anos atr\u00e1s. Houve at\u00e9 jornalistas que, na sua paix\u00e3o incandescente por procurar culpados no outro lado do mundo \u2013 talvez porque por aqui o presidente sa\u00eda \u00e0s ruas para aplaudir manifestantes e dizia que a pandemia era uma \u201cgripezinha\u201d \u2013 declararam abertamente que \u201ca culpa pela pela pandemia do coronav\u00edrus \u00e9 do Partido Comunista da China\u201d. E, para coroar a estupidez, nosso Ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Ernesto Ara\u00fajo, disse que a rea\u00e7\u00e3o a embaixada chinesa foi \u201cdesproporcional\u201d e pediu que ela se desculpasse com o governo brasileiro \u2013 que n\u00e3o foi mencionado nem atacado em sua resposta ao filho do presidente.<\/p>\n<p>A desinforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 grave por raz\u00f5es pragm\u00e1ticas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diplomacia ou ao com\u00e9rcio \u2013 a China \u00e9 o principal parceiro comercial do Brasil, e tamb\u00e9m o pa\u00eds mais preparado hoje para auxiliar outros pa\u00edses durante a pandemia, incluindo o nosso \u2013 nem s\u00f3 pelos perigos evidentes em atrelar um problema dessa gravidade a um povo, como a OMS reconhece (j\u00e1 s\u00e3o v\u00e1rios os casos de pessoas com fei\u00e7\u00f5es asi\u00e1ticas, chinesas ou n\u00e3o, que foram atacadas em diversos pa\u00edses, e correntes que apontam o coronav\u00edrus como uma \u201carma biol\u00f3gica\u201d da China parecem ser bastante populares). A desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 grave acima de tudo porque toma a forma de uma campanha coordenada por raz\u00f5es geopol\u00edticas e econ\u00f4micas; um tabuleiro de xadrez informacional de duas pot\u00eancias em meio a uma pandemia, no qual o Brasil se posiciona como linha auxiliar de Trump.<\/p>\n<p>No dia 30 de janeiro, o Secret\u00e1rio de Estado dos EUA, Mike Pompeo, chamou o Partido Comunista da China de \u201camea\u00e7a central de nossos tempos\u201d. A posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de hostilidade contra a Rep\u00fablica Popular pode n\u00e3o ser exclusividade do governo e transcende divis\u00f5es entre os partidos dos Estados Unidos, mas a hostilidade de alguns setores assume a forma de um \u00f3dio bestial, ultrapassando os interesses da defesa da hegemonia dos Estados Unidos para se apresentar como uma pol\u00edtica de mobiliza\u00e7\u00e3o chauvinista.<\/p>\n<p>A Foreign Affairs, revista do think tank mais influente da pol\u00edtica externa dos Estados Unidos \u2013 o Council of Foreign Relations (CFR) \u2013 publicou artigos mais moderados e at\u00e9 cr\u00edticos aos tons mais conspiracionistas utilizados para atacar a China, mesmo que igualmente preocupados com a proje\u00e7\u00e3o exterior dos chineses. A campanha virulenta de demoniza\u00e7\u00e3o dos chineses \u00e9 articulada pelos elementos mais decadentes e v\u00e2ndalos da pol\u00edtica externa dos Estados Unidos, que arrodearam Donald Trump. Estes procuram, como substitui\u00e7\u00e3o para rela\u00e7\u00f5es normais, associa\u00e7\u00e3o direta com incendi\u00e1rios de outros pa\u00edses capazes de fazer ataques temer\u00e1rios contra a China.<\/p>\n<p>O discurso chauvinista serve tanto para incendiar as rela\u00e7\u00f5es internacionais como para arregimentar for\u00e7as nacionais em torno dos incendi\u00e1rios, tentando legitimar o governo e mobilizar a popula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do medo e do \u00f3dio.<\/p>\n<p>A origem do v\u00edrus<br \/>\nUma das formas mais insidiosas de promover o chauvinismo e espalhar a desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 com especula\u00e7\u00f5es e afirma\u00e7\u00f5es inconsequentes sobre a origem do v\u00edrus. Nas pesquisas cient\u00edficas ainda predomina o tom de d\u00favida sobre de onde veio este v\u00edrus. Foi publicado um estudo importante na revista Nature interrogando sobre as origens do coronav\u00edrus, e este n\u00e3o tem resposta conclusivas, s\u00f3 a devida constru\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da d\u00favida. O v\u00edrus passa por diversas muta\u00e7\u00f5es, inclusive nas transmiss\u00f5es entre humanos, e tamb\u00e9m por um processo de sele\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<p>Apesar de se discutir a poss\u00edvel origem zoon\u00f3tica, n\u00e3o \u00e9 certo como foi a transmiss\u00e3o e de qual animal ele pode ter vindo.<\/p>\n<p>Os agitadores anti-China, no entanto, n\u00e3o est\u00e3o interessados em expor essas d\u00favidas e questionamentos, pois sabem que isto n\u00e3o contribui para a mensagem chauvinista que eles querem fundamentar e n\u00e3o contribui para o objetivo de dirigir a frustra\u00e7\u00e3o para um a figura m\u00edstica de um culpado.<\/p>\n<p>As posi\u00e7\u00f5es mais francamente racistas que se espalham nas redes sociais culpam os chineses, transformam os corpos asi\u00e1ticos em objeto de repulsa e apresentam supostos h\u00e1bitos chineses como b\u00e1rbaros e nojentos. No entanto, algumas posi\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de supostos intelectuais e jornalistas, que dizem que o \u201cPartido Comunista Chin\u00eas \u00e9 o culpado\u201d, tamb\u00e9m recorrem a distor\u00e7\u00f5es quando fazem afirma\u00e7\u00f5es sobre as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias em mercados chineses sem oferecer contexto real e alegam que n\u00e3o existe seguran\u00e7a alimentar na China.<\/p>\n<p>Um dos textos deste tipo, que vem sendo compartilhado, fala da \u201cfalta de condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias em um mercado de animais silvestres em Wuhan\u201d, o que seria tanto um sinal da falta de seguran\u00e7a alimentar no pa\u00eds como a origem da pandemia.<\/p>\n<p>O Mercado Atacadista de Frutos do Mar de Huanan, em Wuhan, n\u00e3o \u00e9 um \u201cmercado de animais silvestres\u201d, mas um mercado de alimentos voltados para frutos do mar que entra em uma categoria que ocidentais chamam de \u201cmercado molhado\u201d (wet markets). O mercado tem 50,000 m\u00b2 e mais de mil locat\u00e1rios, tendo em uma de suas zonas conhecida por vender animais ex\u00f3ticos. \u00c9 preciso entender melhor o que s\u00e3o esses mercados, antes de comentar.<\/p>\n<p>Antrop\u00f3logos que trabalharam na pesquisa de doen\u00e7as transmitidas de animais para seres humanos na China escreveram para o The Conversation um artigo intitulado \u201cPor que fechar os \u2018mercados molhados\u2019 chineses pode ser um erro terr\u00edvel\u201d, questionando as imagens distorcidas e preconceituosas da realidade chinesa:<\/p>\n<p>\u201cEsta imagem [dos mercados, conforme estere\u00f3tipos da m\u00eddia ocidental] \u00e9 muito falha, n\u00e3o s\u00f3 porque ela se baseia em sensibilidades ocidentais sobre o que \u00e9 com\u00edvel e o que n\u00e3o \u00e9, e que apresenta uma forma moderna de com\u00e9rcio de comida na China como \u2018tradicional\u2019, mas de forma mais pr\u00e1tica, porque deturpa a realidade econ\u00f4mica e material desses mercados.\u201d<\/p>\n<p>Os antrop\u00f3logos explicam que existem v\u00e1rios tipos desses mercados e seus produtos s\u00e3o muito menos \u201cex\u00f3ticos\u201d do que as representa\u00e7\u00f5es querem sugerir; e mais, que a maioria dos animais chamados de \u201cselvagens\u201d pela m\u00eddia ocidental s\u00e3o criados em cativeiro, como os patos-reais, as cobras e os sapos. Inclusive, apontam que a produ\u00e7\u00e3o desse tipos pelos camponeses chineses \u00e9 reflexo de mudan\u00e7as de mercado nos anos 90, por press\u00f5es do mercado que incentivaram os pequenos produtores a escapar da produ\u00e7\u00e3o industrial de larga escala (que promovia a integra\u00e7\u00e3o vertical dos pequenos produtores) se movendo para uma produ\u00e7\u00e3o que \u00e9 melhor remunerada e atende a pequenos nichos.<\/p>\n<p>A ca\u00e7a \u00e9 ilegal na China na maioria dos casos, o que tamb\u00e9m incentivou a cria\u00e7\u00e3o de certos tipos de animais chamados de \u201cselvagens\u201d ou locais.<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 ir\u00f4nico que muitos dos pequenos produtores chineses tenham sa\u00eddo da produ\u00e7\u00e3o de porco e galinha por efeito do v\u00edrus da doen\u00e7a de Newcastle (vdn), das aves, e o complexo respirat\u00f3rio su\u00edno, respectivamente; os nichos espec\u00edficos ofereceram uma sa\u00edda vi\u00e1vel e at\u00e9 lucrativa.<\/p>\n<p>Afirmar que o Estado chin\u00eas n\u00e3o pratica controles sanit\u00e1rios nestes mercados, ou que l\u00e1 n\u00e3o existe pol\u00edtica sanit\u00e1ria em geral, \u00e9 espalhar uma mentira. \u00c9 poss\u00edvel pesquisar medidas de inspe\u00e7\u00e3o e controle diversas, incluindo inspe\u00e7\u00f5es do Centro Chin\u00eas para o Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as (conhecido pela sigla em ingl\u00eas, CCDC), subordinado \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional de Sa\u00fade. Uma pesquisa do PhD Christos Lynteris, de posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica um tanto cr\u00edtica ao estado chin\u00eas, registrou controles peri\u00f3dicos nestes mercados, por exemplo.<\/p>\n<p>Existem outros artigos cient\u00edficos sobre a presen\u00e7a de regula\u00e7\u00e3o nesta \u00e1rea, como este artigo sobre sistemas de varejo na China. Em 2002 o governo chin\u00eas iniciou um programa de moderniza\u00e7\u00e3o dos \u201cmercados molhados\u201d, para transform\u00e1-los em \u201csupermercados de comida\u201d, programa que caminhou devagar devido \u00e0 resist\u00eancia dos consumidores, que preferem esse tipo de mercado por v\u00e1rias raz\u00f5es: a possibilidade de barganhar e a ideia de que \u00e9 poss\u00edvel conseguir comidas mais frescas, dentre outras.<\/p>\n<p>Segundo os autores, \u201co governo chin\u00eas tem tentado ativamente criar um sistema nacional moderno de abastecimento e log\u00edstica, pois s\u00e3o considerados mais eficientes que o sistema tradicional de mercado\u201d. A mudan\u00e7a \u00e9 dif\u00edcil por incluir grandes gastos com infraestrutura e o desafio de realocar os vendedores dentro de uma nova estrutura, com novas pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Os liberais deveriam ser os primeiros a se informar sobre as din\u00e2micas do mercado chin\u00eas e saber que tentativas anteriores de aplicar uma abordagem totalmente proibitiva, de banir os mercados \u2013 em 2003 com a SARS e em 2013-14 com a gripe avi\u00e1ria H7N9 \u2013 levaram \u00e0 explos\u00e3o de um mercado negro incontrol\u00e1vel. Afinal, estamos falando de um tipo de mercado que abastece um grande n\u00famero de consumidores chineses, em propor\u00e7\u00f5es que s\u00e3o maiores em algumas regi\u00f5es. Em suma, o mercado j\u00e1 \u00e9 controlado e regulado \u2013 diferente do que sugerem alguns.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o quer dizer que medidas repressivas n\u00e3o s\u00e3o adotadas: em 2007, por exemplo, ocorreu uma campanha repressiva contra a venda e o consumo de civetas, conforme relatado pela Reuters.<\/p>\n<p>\u00c9 por raz\u00f5es como estas que a PhD em biologia e jornalista de ci\u00eancia Chia-Yi Hou escreveu para o The Hill \u2013 jornal do cora\u00e7\u00e3o de Washington D.C. \u2013 um artigo sobre como fechar os mercados pode n\u00e3o ser uma solu\u00e7\u00e3o para prevenir surtos futuros.<\/p>\n<p>\u201cPode ser tentador tentar atribuir culpa ou procurar por um conserto conveniente em uma emerg\u00eancia como este novo coronav\u00edrus de Wuhan, mas faz\u00ea-lo n\u00e3o vai ajudar as dezenas de milhares de pessoas j\u00e1 afetadas\u201d, disse Chia-Yi, que ainda nos lembrou que o mercado de Wuhan pode n\u00e3o ser o lugar onde o v\u00edrus se originou.<\/p>\n<p>A rigor, n\u00e3o \u00e9 definitivamente comprovado que a origem do novo v\u00edrus \u00e9 o mercado de frutos do mar de Wuhan. Um n\u00famero significante dos primeiros casos \u2013 e acima de tudo o primeiro paciente de todos \u2013 n\u00e3o possu\u00edam v\u00ednculos com o mercado. Do primeiro grupo de pacientes, 13 de 41 n\u00e3o possu\u00edam rela\u00e7\u00e3o com o mercado.<\/p>\n<p>A revista Science, da Associa\u00e7\u00e3o Americana para o Avan\u00e7o da Ci\u00eancia, divulgou o dado sobre o n\u00famero de pessoas sem rela\u00e7\u00e3o com o mercado dizendo que \u00e9 poss\u00edvel que o lugar n\u00e3o seja a origem da doen\u00e7a. A mat\u00e9ria citou um especialista em infectologia da Universidade de Georgetown, Daniel Lucey, que considera o n\u00famero de pessoas sem rela\u00e7\u00e3o com mercado muito alto, isto \u00e9, muito consider\u00e1vel: assim, provavelmente as infec\u00e7\u00f5es come\u00e7aram antes desse primeiro grupo de pacientes, pela cidade de Wuhan \u2013 entrou no mercado, n\u00e3o saiu do mercado. A mat\u00e9ria tamb\u00e9m cita o diretor de estudos de genoma de doen\u00e7as infecciosas do instituto de pesquisa Scripps, Kristian Andersen, que vem analisando as sequ\u00eancias do v\u00edrus e considera a hip\u00f3tese do v\u00edrus ter surgido fora do mercado inteiramente plaus\u00edvel.<\/p>\n<p>O v\u00edrus pode sim, tamb\u00e9m, ter sa\u00eddo do contato com animais. Uma hip\u00f3tese \u00e9 que a muta\u00e7\u00e3o pode ter ocorrido em uma s\u00e9rie de contamina\u00e7\u00f5es assintom\u00e1ticas entre seres humanos. Textos que fazem refer\u00eancia a essa possibilidade at\u00e9 podem ser citados por algu\u00e9m como o \u201cbom liberal\u201d, mas ele prefere dizer, em tom de revela\u00e7\u00e3o apocal\u00edptica, que \u201ccientistas j\u00e1 haviam previsto essa possibilidade\u201d como se fosse um aviso ignorado pelos chineses, quando \u00e9 bem sabido que a circula\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de animais cria um ambiente prop\u00edcio para amplifica\u00e7\u00e3o de diversos tipos de v\u00edrus. Isto estava colocado no debate p\u00fablico da China \u2013 por pessoas como o pesquisador que investigou o surto de SARS em 2003, Zhang Jinshuo, do Instituto de Zoologia da Academia de Ci\u00eancias Chinesa -, mas a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simples de se resolver.<\/p>\n<p>A possibilidade de apari\u00e7\u00e3o de novos v\u00edrus \u00e9 uma coisa \u00f3bvia; o que \u00e9 dif\u00edcil prever \u00e9 onde aparecer\u00e3o, quais ser\u00e3o suas caracter\u00edsticas e efeitos em humanos, quando as muta\u00e7\u00f5es ocorrer\u00e3o e que perigo podem oferecer ou n\u00e3o. Milhares de novos v\u00edrus e muta\u00e7\u00f5es s\u00e3o descobertos todo ano. Em 2016, por exemplo, um grupo de pesquisadores australianos e chineses descobriu 1,5 mil novos v\u00edrus, pesquisando infec\u00e7\u00f5es em aranhas e insetos. \u00c9 poss\u00edvel que algum deles tenha a capacidade de \u201csaltar\u201d para humanos algum dia, mas n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil prev\u00ea-lo acertadamente.<\/p>\n<p>O professor Robert G. Webster publicou um artigo no The Lancet em fevereiro de 2004, discutindo os \u201cmercados molhados\u201d como fonte de doen\u00e7as respirat\u00f3rias agudas. Ele nos lembra que esse tipo de \u201cmercado de vivos\u201d tamb\u00e9m existe nos Estados Unidos e que serve como sistema de vigil\u00e2ncia, de alerta para novos v\u00edrus que podem amea\u00e7ar os animais e possivelmente seres humanos. Era esperado que eventualmente surgiria uma muta\u00e7\u00e3o de Coronav\u00edrus que tivesse uma transmissibilidade real entre seres humanos.<\/p>\n<p>Sobre o debate a respeito do fechamento desses mercados a c\u00e9u aberto, Webster lembrou que a aus\u00eancia de mercados molhados de carne vermelha em Hong Kong \u2013 o que inclui as carnes de ca\u00e7a \u2013 n\u00e3o impediu que surtos de SARS tenham aparecido na cidade depois disso. O pesquisador afirma que fechar os mercados em um pa\u00eds, sem fechar no resto da \u00c1sia, teria pouco impacto.<\/p>\n<p>Podemos dizer que em 2004 j\u00e1 se sabia que o coronav\u00edrus, sendo um v\u00edrus de RNA, tinha capacidade para muta\u00e7\u00e3o e recombina\u00e7\u00e3o \u2013 portanto, \u201ca pr\u00f3xima emerg\u00eancia do SARS CoV pode adquirir transmissibilidade real em seres humanos\u201d, disse Webster. Al\u00e9m disso, um dos riscos era o v\u00edrus escapar de amostras mal manuseadas em laborat\u00f3rios com baixa biosseguran\u00e7a. Fazer como um dos textos de propaganda e se referir a um artigo de 2007 dizendo que este \u201cj\u00e1 alertava que havia reservat\u00f3rio de coronav\u00edrus em morcegos\u201d como um aviso prof\u00e9tico, al\u00e9m de ser trivial, pode ser desinformador. D\u00e1 um tom de jornalismo investigativo e denuncista incompat\u00edvel com a realidade.<\/p>\n<p>Estes textos de propaganda, quando fazem uma s\u00e9rie denunciando o governo chin\u00eas, frequentemente transformam o trivial em algo tenebroso, assustador, a partir da interpreta\u00e7\u00e3o. Dizem que o governo chin\u00eas \u201cminimizou\u201d o risco como se fosse irrespons\u00e1vel e n\u00e3o estivesse acompanhando o posicionamento de cientistas, que eram cuidadosos antes de saltar para conclus\u00f5es.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi alegado que o governo mandou destruir as amostras do novo corona, em tom sensacionalista, como se o interc\u00e2mbio descontrolado de amostras, capaz de causar acidentes ou cair em laborat\u00f3rios inadequados, n\u00e3o fosse um perigo.<\/p>\n<p>\u00c9 especialmente desinformador se referir a morcegos quando estes n\u00e3o s\u00e3o uma iguaria em Wuhan, mas foram usados como refer\u00eancia da campanha de difama\u00e7\u00e3o da China no in\u00edcio da epidemia, em que imagens feitas em Palau se espalharam como se fossem feitas em Wuhan. Quando ocorreu o surto de Ebola, se especulou que a origem poderia ser um vilarejo que consumia morcegos, mas depois consideraram a possibilidade do contato de uma crian\u00e7a com fezes do animal em um brinquedo.<\/p>\n<p>S\u00e3o diversas as formas pelas quais um v\u00edrus pode passar pela chamada deriva antig\u00eanica, passando por v\u00e1rias tipos de ser vivo no caminho. A China \u00e9 um pa\u00eds grande, com uma grande popula\u00e7\u00e3o e com uma larga hist\u00f3ria de urbaniza\u00e7\u00e3o \u2013 a diferen\u00e7a s\u00e3o suas dimens\u00f5es, pois o surgimento de novos v\u00edrus \u00e9 uma possibilidade em todo mundo. Quanto mais o tempo passa e o v\u00edrus viaja, mais ele se transforma.<\/p>\n<p>J\u00e1 existem at\u00e9 mesmo d\u00favidas sobre o surgimento do v\u00edrus na China: m\u00e9dicos na Lombardia falam de uma \u201cpneumonia estranha\u201d afetando a regi\u00e3o antes da crise; ademais, as pr\u00f3prias autoridades chinesas questionam as autoridades dos Estados Unidos sobre a possibilidade de pessoas mortas pelo coronav\u00edrus terem inflado a contabilidade das v\u00edtimas de influenza, antes da crise.<\/p>\n<p>O agitador chauvinista, mancomunado com as inten\u00e7\u00f5es de Bolsonaro, n\u00e3o quer falar disso, ele s\u00f3 quer culpar o governo chin\u00eas. O agitador chauvinista n\u00e3o quer fazer questionamentos e ele nunca se escandalizou com a produ\u00e7\u00e3o de porcos estar possivelmente por tr\u00e1s do surto de H1N1 em 2009, a \u201cgripe su\u00edna\u201d, que pode ter chegado a matar at\u00e9 500 mil pessoas em estimativas altas. Sequer leva a s\u00e9rio sua pr\u00f3pria refer\u00eancia ao tr\u00e1fico de animais silvestres pelo mundo \u2013 onde os Estados Unidos aparecem como um dos principais compradores, de um contrabando que muitas vezes sai da China.<\/p>\n<p>\u00c9 tudo culpa das ditaduras<br \/>\nLarry Rohter \u2013 jornalista que ganhou grande notoriedade por ter chamado Lula de cachaceiro \u2013 \u00e9 aplaudido pelos \u201cbons liberais\u201d por um texto na Revista \u00c9poca que leva o t\u00edtulo de \u201cA pandemia tem um culpado: a China\u201d.<\/p>\n<p>O argumento de Rohter guarda alguns temas t\u00edpicos do discurso liberal: o \u201cautoritarismo chin\u00eas\u201d seria caracterizado por secretismo e inefici\u00eancia, que estariam por tr\u00e1s do desastre do coronav\u00edrus. Ao discutir coronav\u00edrus, pintam a imagem da \u201cmaligna ditadura chinesa\u201d, como se o estado chin\u00eas como um ente que se sobrep\u00f5e \u00e0 sociedade e n\u00e3o tivesse legitimidade: ele \u00e9 produto da emancipa\u00e7\u00e3o nacional da China no s\u00e9culo XX, e mant\u00e9m sua legitimidade gra\u00e7as a essa independ\u00eancia, a paz civil, o progresso social e tamb\u00e9m a mobiliza\u00e7\u00e3o, os mecanismos de contato pol\u00edtico.<\/p>\n<p>As pequenas fal\u00e1cias que acusam a \u201cirresponsabilidade\u201d dos chineses ser\u00e3o tratadas no decorrer do texto, mas primeiro precisamos expor seu sentido principal: culpar a China. Apesar de o artigo deixar clara sua inten\u00e7\u00e3o de apontar um culpado, ele n\u00e3o percebe o qu\u00e3o rid\u00edculo \u00e9 esse esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Sem pudor, at\u00e9 se associa a Eduardo Bolsonaro dizendo que este disse \u201cverdades\u201d quando fez suas declara\u00e7\u00f5es hostis \u00e0 China. Segundo ele, a postura do governo chin\u00eas \u00e9 que \u00e9 beligerante, n\u00e3o a de Eduardo Bolsonaro que \u00e9 provocadora.<\/p>\n<p>Os liberais diagnosticados com chauvinismo fascistoide apresentam aqui um dos seus sintomas iniciais: a nega\u00e7\u00e3o. Repetiam que o que aconteceu em Wuhan n\u00e3o poderia acontecer em pa\u00edses ocidentais liberais e democr\u00e1ticos, referindo-se a no\u00e7\u00f5es como \u201cconfian\u00e7a\u201d e \u201cefici\u00eancia\u201d em contraposi\u00e7\u00e3o ao que seriam limites insuper\u00e1veis de \u201cditaduras\u201d, que s\u00e3o secretivas e movidas pelo interesse em estabilidade; agora que pa\u00edses europeus sofrem com a pandemia, contemplando o colapso do sistema de sa\u00fade e possivelmente de velhas institui\u00e7\u00f5es, os liberais em nega\u00e7\u00e3o sentem a necessidade de reafirmar suas cr\u00edticas contra a \u201cditadura\u201d atribuindo um culpado.<\/p>\n<p>Rohter \u00e0s vezes \u00e9 referido como exemplar, por prest\u00edgio. Em um exemplo do que n\u00e3o fazer em uma reda\u00e7\u00e3o, desviando completamente o assunto e dando uma cambalhota para desmoralizar aqueles que denunciam o racismo contra os chineses, ele diz que \u201cna verdade, se existe racismo, \u00e9 por parte dos pr\u00f3prios chineses\u201d, que vivem em um pa\u00eds com uma maioria \u00e9tnica e que n\u00e3o s\u00e3o como \u201cBrasil e Estados Unidos\u201d que ele chama de \u201cgeleia geral\u201d de \u201cv\u00e1rias ra\u00e7as, etnias, povos e religi\u00f5es\u201d. A l\u00f3gica \u00e9 muito similar a de um marqueteiro: o autor quer nos convencer, no fundo, que racistas s\u00e3o os chineses, que n\u00e3o s\u00e3o como os Estados Unidos \u2013 um elogio da diversidade como fundamento para contribuir ao estere\u00f3tipo de chineses b\u00e1rbaros.<\/p>\n<p>Larry Rohter conclui nesse contorcionismo: dizendo que se trata de uma elite \u201cque acha que todo mundo que n\u00e3o \u00e9 han \u00e9 inferior\u201d e \u201cbrinca com a sa\u00fade do resto do mundo\u201d. Para variar, est\u00e1 tentando engrossar um discurso que por semelhan\u00e7a associa a China ao nazismo, restando aos Estados Unidos ser o grande campe\u00e3o do humanismo, da toler\u00e2ncia e da diversidade. As bandeiras mudam um pouco, mas a fun\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma: recorre a uma imagem apelativa \u2013 a ditadura dos chineses racistas \u2013 para mobilizar sentimentos antichineses.<\/p>\n<p>Acusar os chineses de racistas \u00e9 um tempero marqueteiro da imagina\u00e7\u00e3o de Larry Rohter, o que n\u00e3o deixa de ter um tom de hipocrisia. E ela \u00e9 outro sintoma do liberalismo em crise: liberais acusam que o governo chin\u00eas foi irrespons\u00e1vel por ter iniciado a quarentena quatro dias depois do Ano Novo chin\u00eas, o que seria \u201ctarde demais\u201d \u2013 mas quando o governo chin\u00eas adotou as medidas de fechamento em Wuhan, o discurso liberal o atacava dizendo que eram medidas autorit\u00e1rias, extremas, t\u00edpicas de um regime autorit\u00e1rio e no limite ineficientes. Por sua vez, o Ocidente estaria livre de tal necessidade por ser mais eficiente e ter sociedades \u201cbaseadas na confian\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 um artigo do The Washington Post, publicado no dia 27 de janeiro, que caracteriza j\u00e1 no t\u00edtulo o fechamento da cidade de Wuhan como \u201cautoritarismo\u201d (China\u2019s coronavirus lock down \u2013 brought to you by authoritarianism; O \u2018lock down\u2019 contra o coronav\u00edrus da China \u2013 feito gra\u00e7as ao autoritarismo, em tradu\u00e7\u00e3o livre). O banimento de viagens \u00e9 chamado de \u201ccontroverso\u201d e um acad\u00eamico s\u00eanior do think tank Council of Foreign Relations, Yanzhong Huang, chamou as medidas de draconianas e disse que s\u00f3 o governo chin\u00eas poderia aplic\u00e1-las nessa extens\u00e3o. Para eles as medidas podiam ser \u201csinal de resili\u00eancia do estado autorit\u00e1rio\u201d e n\u00e3o existiam evid\u00eancias fortes de que essa abordagem era efetiva. Huang \u00e9 citado mais de uma vez para criticar as medidas como sem fundamento e que \u201cexageram a resposta emocional, o que tende a exagerar o risco real trazido pelo v\u00edrus\u201d.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Huang, no entanto, divulgou no dia 14 de mar\u00e7o, em seu Twitter, uma pesquisa que afirma que, se n\u00e3o fossem as medidas tomadas em Wuhan, j\u00e1 no dia 19 de fevereiro haveriam 744,000 mil casos fora da cidade. At\u00e9 agora, no dia 21 de mar\u00e7o, se acumulam 307 mil casos, entre mortos, curados e infectados em todo o mundo (neste dia, 198 mil e 766 pacientes). A pesquisa foi feita por acad\u00eamicos de v\u00e1rias universidades do mundo.<\/p>\n<p>Assim o agitador chauvinista move suas posi\u00e7\u00f5es sem mudar seu alvo: a China primeiro estava errada quando tomou uma atitude, depois estava errada por n\u00e3o ter tomado atitude antes. As democracias liberais se recusaram a tomar o mesmo tipo de medida na It\u00e1lia, na Espanha, na Alemanha, na Su\u00e9cia, na Inglaterra e nos Estados Unidos \u2013 relutaram e em alguns casos at\u00e9 desmoralizaram a possibilidade de uma quarentena, como vem fazendo Bolsonaro no Brasil, que vacila at\u00e9 mesmo para tomar as medidas de mitiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois de terem anunciado que a China fracassaria, se depararam com a crise devassando as democracias liberais enquanto a China conseguia algum sucesso: a solu\u00e7\u00e3o agora \u00e9 fechar os olhos para os fracassos das democracias liberais e jogar a culpa no Partido Comunista da China.<\/p>\n<p>O liberal que faz pose de decente n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o diferente do conspiracionista que acusa a China de ter criado o v\u00edrus deliberadamente. Ele s\u00f3 \u00e9 mais refinado na hora de manufaturar culpa.<\/p>\n<p>O doutor Li Wenliang<br \/>\nUma das not\u00edcias mais frequentemente repetida em meio \u00e0 campanha \u2013 inclusive em grandes meios ocidentais \u2013 diz respeito \u00e0 hist\u00f3ria de um m\u00e9dico de Wuhan, Li Wenliang, que publicou em sua conta da rede social chinesa WeChat uma s\u00e9rie de informa\u00e7\u00f5es sobre o novo v\u00edrus no dia 30 de dezembro, e que teve de assinar uma reprimenda em uma delegacia de pol\u00edcia de Wuhan por espalhar boatos.<\/p>\n<p>Em um artigo para a revista Foreign Policy no qual descreve Li como um \u201cher\u00f3i real da epidemia\u201d e questiona a credibilidade dos dados chineses sobre o v\u00edrus, Laurie Garret diz que o caso \u201crevelou o lado mais feio do Partido Comunista da China (PCCh) e seu terr\u00edvel esfor\u00e7o para reescrever a hist\u00f3ria de uma epidemia notavelmente fora de controle. Li tratou de casos em dezembro em Wuhan, de onde o surto originou, e que se pareciam com casos de SARS, e disse a colegas no dia 30 de dezembro por meio de uma sala de chat de m\u00e9dicos. Dias depois, pelo assim chamado crime de espalhar boatos, Li e outros sete m\u00e9dicos foram levados \u00e0 pol\u00edcia chinesa e for\u00e7ados a assinar um documento admitindo terem \u2018espalhado mentiras\u2019\u201d, diz o texto que tamb\u00e9m cita \u201cespecialistas\u201d que comparam a situa\u00e7\u00e3o na China a Chernobyl e Li e os m\u00e9dicos ao \u201chomem-tanque\u201d do Massacre na Pra\u00e7a da Paz Celestial.<\/p>\n<p>Mas ao contr\u00e1rio do que sugere a narrativa, Li n\u00e3o era um dissidente tentando espalhar a verdade em meio aos \u201cterr\u00edveis esfor\u00e7os\u201d do governo para cont\u00ea-la. O m\u00e9dico \u2013 um oftalmologista, n\u00e3o um infectologista ou um pneumologista \u2013 era membro do Partido Comunista da China. E de acordo com o que ele mesmo declarou \u00e0 CNN, seu objetivo n\u00e3o era que as mensagens fossem p\u00fablicas. \u201cEu s\u00f3 queria avisar aos meus amigos da universidade para que tomassem cuidado\u201d, disse. \u201cQuando eu vi elas [as mensagens] circulando online, eu percebi que elas estavam fora do meu controle e que eu provavelmente seria punido\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo dia em que Li fez sua publica\u00e7\u00e3o, a Comiss\u00e3o Municipal de Sa\u00fade de Wuhan emitiu documentos internos para hospitais orientando no combate ao que nessa altura ainda era uma pneumonia desconhecida.<\/p>\n<p>Depois de sua morte no dia 7 de fevereiro, decorrente da infec\u00e7\u00e3o por coronav\u00edrus, a Comiss\u00e3o Nacional de Supervis\u00e3o abriu uma investiga\u00e7\u00e3o para avaliar o caso de Li. De acordo com a Xinhua, \u201cos investigadores sugeriram que as autoridades supervisoras locais examinem a emiss\u00e3o da carta de reprimenda contra Li, que foi inapropriada e n\u00e3o respeitou os procedimentos pertinentes de aplica\u00e7\u00e3o da lei. De mesmo modo, insistiram \u00e0 pol\u00edcia a revogar a carta e fazer que os respons\u00e1veis prestem contas, publicando os resultados de forma oportuna\u201d.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio tamb\u00e9m avaliou que Li \u201cn\u00e3o pretendeu perturbar a ordem p\u00fablica publicando mensagens no grupo de WeChat\u201d, mas que as partes dos conte\u00fados repassados por ele sem verifica\u00e7\u00e3o, em um momento em que a epidemia ainda n\u00e3o havia sido compreendida, \u201cn\u00e3o correspondiam plenamente com a realidade\u201d. Li Wenliang ainda assim foi homenageado pela Comiss\u00e3o Nacional de Sa\u00fade como um dos trabalhadores de sa\u00fade que combateram o coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia chinesa: Breve hist\u00f3ria de uma grande guerra<br \/>\nA cidade de Wuhan, na prov\u00edncia de Hubei, \u00e9 um dos mais importantes polos industriais chineses, e foi o grande foco de infec\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Mas, em meio \u00e0 crise do coronav\u00edrus, a cidade, al\u00e9m de polo industrial, poderia ter servido ao resto dos pa\u00edses do mundo como um grande laborat\u00f3rio de pol\u00edticas de combate ao v\u00edrus, \u00e0 qual poderiam olhar do conforto de um belvedere e se preparar para as crises que, mais cedo ou mais tarde, chegariam a seus territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora n\u00e3o se sabe quem foi o paciente zero do v\u00edrus na China. A dificuldade em encontr\u00e1-lo se d\u00e1 em parte precisamente porque a doen\u00e7a no pa\u00eds, no momento em que come\u00e7ou a ser transmitida, era desconhecida para todo o mundo, inclusive para os chineses \u2013 situa\u00e7\u00e3o completamente diferente da que a Europa, os EUA e o Brasil enfrentam. O site LiveScience noticia no entanto que o primeiro caso identificado em retrospecto \u00e9 do dia 17 de novembro, ou seja, 40 dias antes do dia 27 de dezembro, quando a doutora Zhang Jixian, chefe do departamento respirat\u00f3rio do Hospital Provincial de Hubei, informou \u00e0s autoridades que um novo tipo de coronav\u00edrus estava causando a doen\u00e7a. Naquela altura, o n\u00famero de infectados era de 180 \u2013 dado tamb\u00e9m s\u00f3 conhecido em retrospecto, j\u00e1 que a exist\u00eancia de uma nova doen\u00e7a sequer era conhecida.<\/p>\n<p>Somente tr\u00eas dias depois, no dia 30, o oftalmologista Li Wenliang faz suas t\u00e3o comentadas postagens no WeChat. Neste mesmo dia, amostras de lavagem broncoalveolar foram coletadas de um paciente \u201ccom uma pneumonia de etiologia desconhecida\u201d no Hospital Wuhan Jinyintan, de acordo com um relat\u00f3rio de uma miss\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) no pa\u00eds. No dia seguinte, o escrit\u00f3rio da OMS na China foi informado dos casos de uma doen\u00e7a desconhecida. \u201cDe 31 de dezembro de 2019 a 3 de janeiro de 2020, um total de 44 casos com pneumonia de etiologia desconhecida foram reportados \u00e0 OMS pelas autoridades nacionais da China. Durante esse per\u00edodo, o agente causador n\u00e3o foi identificado\u201d, diz um relat\u00f3rio da OMS do dia 21 de janeiro, que ressalta tamb\u00e9m que o v\u00edrus s\u00f3 foi reconhecido como um novo tipo de coronav\u00edrus no dia 7, e que no dia 12 o sequenciamento gen\u00e9tico do v\u00edrus foi compartilhado com outros pa\u00edses, para \u201cuso no desenvolvimento de kits de diagn\u00f3stico espec\u00edficos\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Yanzhong Huang, a China possui o maior sistema digital de vigil\u00e2ncia e notifica\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as, que permite aos trabalhadores de base da sa\u00fade p\u00fablica notificar qualquer coisa para as autoridades, mas ele argumenta que o sistema n\u00e3o funcionou dessa vez pela falta de protocolos para lidar com v\u00edrus, que n\u00e3o estava na categoria de pat\u00f3genos conhecidos.<\/p>\n<p>No dia 20 a informa\u00e7\u00e3o mais importante sobre o v\u00edrus foi confirmada: ele era transmiss\u00edvel entre humanos. Tr\u00eas dias depois, o governo chin\u00eas j\u00e1 havia estabelecido uma r\u00edgida quarentena na cidade de Wuhan, isolando completamente seus 11 milh\u00f5es de habitantes e impedindo sua a sa\u00edda. De acordo com a ag\u00eancia de not\u00edcias NPR, naquela altura \u201ccada lar podia enviar somente uma pessoa para a rua a cada tr\u00eas dias, para comprar mantimentos, e a temperatura de todos \u00e9 checada antes de entrarem\u201d. Ao longo dos dias, as restri\u00e7\u00f5es tornaram-se cada vez maiores, e foram impostas a outras cidades de Hubei.<\/p>\n<p>O representante da OMS na China, Gauden Galea, declarou que \u00e0 Reuters que a decis\u00e3o de isolar as cidades n\u00e3o foi uma recomenda\u00e7\u00e3o da OMS, mas disse que a decis\u00e3o era \u201csem precedentes na hist\u00f3ria da sa\u00fade p\u00fablica\u201d. Galea disse tamb\u00e9m que as autoridades deveriam esperar para ver qu\u00e3o efetiva a medida seria, mas disse que o passo \u201c\u00e9 um indicativo muito importante do compromisso para conter a epidemia na regi\u00e3o onde ela est\u00e1 mais concentrada.\u201d<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia chinesa consistia no seguinte mote: \u201cSe Wuhan vencer, Hubei vence. Se Hubei vencer, a China vence\u201d. A pol\u00edtica chinesa de supress\u00e3o completa do foco da infec\u00e7\u00e3o, somada a medidas de mobiliza\u00e7\u00e3o em massa de volunt\u00e1rios e funcion\u00e1rios de sa\u00fade e constru\u00e7\u00e3o de hospitais e abertura de novos leitos em tempo recorde, foi vitoriosa \u2013 a despeito de ter sido \u201csem precedentes\u201d at\u00e9 para a OMS. No \u00faltimo dia 19, o pa\u00eds oficialmente zerou a transmiss\u00e3o local do coronav\u00edrus. Essa hist\u00f3ria breve de dimens\u00f5es hom\u00e9ricas \u00e9 a hist\u00f3ria da luta por 81 mil pessoas infectadas no maior pa\u00eds do mundo por uma doen\u00e7a absolutamente desconhecida. Todo o resto do mundo poderia ter tra\u00e7ado seus planos a partir da luta chinesa. J\u00e1 conhec\u00edamos o inimigo, j\u00e1 sab\u00edamos como ele se transmitia, j\u00e1 prev\u00edamos seus perigos. T\u00ednhamos informa\u00e7\u00f5es do primeiro campo de batalha porque 3.249 chineses j\u00e1 haviam perecido nele.<\/p>\n<p>A crise do liberalismo<br \/>\nA revista Foreign Affairs anuncia que a pandemia pode transformar a ordem global; diferente do que o grito dos chauvinistas quer sugerir, a verdade \u00e9 que a China est\u00e1 ganhando uma vantagem geopol\u00edtica como l\u00edder na resposta \u00e0 pandemia, tanto pelo exemplo de sua rea\u00e7\u00e3o como pelo apoio concreto e articula\u00e7\u00e3o com os outros pa\u00edses que sofrem com a praga. Os Estados Unidos, por outro lado, parecem confusos, autocentrados, ego\u00edstas \u2013 perdem a legitimidade e a capacidade de oferecer bens globais e sequer est\u00e3o oferecendo um modelo de rea\u00e7\u00e3o em seu pr\u00f3prio pa\u00eds, vacilando perante o v\u00edrus com propostas de mitiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 os liberais da Foreign Affairs entendem: apesar dos racistas, dos chauvinistas e dos guerristas, a China ganha legitimidade \u2013 n\u00e3o uma Chernobyl, mas uma vit\u00f3ria. A China oferece materiais necess\u00e1rios e conhecimentos sem fazer exig\u00eancias e imposi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas: a dureza em suas palavras \u00e9 s\u00f3 sobre a necessidade de uma pol\u00edtica de supress\u00e3o, de quarentena de verdade. Abordagem direta ao problema, honesta. Isso contrasta com a pol\u00edtica intervencionista dos Estados Unidos em particular e do atlantismo em geral, cuja mentalidade se apresenta em todos os seus disc\u00edpulos e nos ataques contra a China: toda rela\u00e7\u00e3o \u00e9 enquadrada como parte de um conjunto de exig\u00eancias de liberaliza\u00e7\u00e3o, afirmando os princ\u00edpios do que alguns ainda se prestam a chamar de \u201cOcidente\u201d.<\/p>\n<p>De forma muito sugestiva, ao lado do aux\u00edlio chin\u00eas ao povo italiano, n\u00f3s vemos a chegada do contingente de m\u00e9dicos enviados por Cuba, que, mais uma vez, envia uma vanguarda militante para a linha de frente enquanto um outro pa\u00eds dirigido por comunistas exerce uma influ\u00eancia global.<\/p>\n<p>A Foreign Policy diz que \u201ca pandemia vai mudar o mundo para sempre\u201d: dentre os doze pensadores solicitados para comentar, n\u00f3s vemos os temas constantes da crise da hegemonia dos Estados Unidos e da morte abrupta da globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os liberais sentem esse processo e a pr\u00f3pria fraqueza perante a pandemia. A frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande e pode virar raiva, ou uma imensa vontade de sobreviver \u2013 n\u00e3o s\u00e3o eremitas procurando uma caverna para morrer, mas procuram a todo custo se agarrar \u00e0 vida. Por isso os ataques irracionais. N\u00e3o mentem por mera estultice.<\/p>\n<p>A humanidade se enfrenta com uma praga, n\u00e3o pela primeira vez na hist\u00f3ria, e como eles reagem? \u2013 Procuram um culpado e fecham os olhos para o que n\u00e3o querem ver.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, a histeria chauvinista \u00e9 acompanhada por histeria anticomunista. O racismo entra em campo como for\u00e7a auxiliar: n\u00e3o um mero produto da ignor\u00e2ncia das pessoas, mas uma excresc\u00eancia ideol\u00f3gica baseada na comunica\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel. Assim, tanto militantes insignificantes como elementos agressivos e ignorantes no meio de um povo s\u00e3o usados como armas em jogos de guerra.<\/p>\n<p>O \u201cliberal respeit\u00e1vel\u201d, pacifista, vira um soldado e um propagandista dedicado a fundamentar a hostilidade internacional contra a Rep\u00fablica Popular da China. A \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o destes celerados \u00e9 agitar o \u00f3dio dos ignorantes e dar motivos para uma guerra contra a China. O desinformador com pose de intelectual \u00e9 pior do que o desinformador que se arrasta nas redes sociais falando absurdos.<\/p>\n<p>Uma s\u00e9rie de pretensos iluministas liberais, progressistas e social-democratas se revelam chauvinistas e colocam facas entre os dentes t\u00e3o logo come\u00e7am a balbuciar o discurso da \u201camea\u00e7a chinesa\u201d \u2013 se convertem em brutais \u201cguardi\u00f5es da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Na esquerda, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o apenas intelectuais pregui\u00e7osos, deitados em suas camas de t\u00edtulos, mas sicofantas imorais associados a este movimento chauvinista e racista contra os chineses. \u00c9 t\u00edpico: assim como no passado v\u00e1rios esquerdistas se uniram aos elementos mais reacion\u00e1rios de seus pa\u00edses contra a \u201camea\u00e7a sovi\u00e9tica\u201d e assim como o Partido Democrata nos Estados Unidos usou a histeria antirrussa, agora o movimento natural dos oportunistas \u00e9 se juntar ao arregimentamento das fileiras contra a China.<\/p>\n<p>Os gritos das falanges raivosas n\u00e3o podem mudar a verdade: as bases do liberalismo foram profundamente abaladas pela pandemia. O radicalismo neoliberal tem seus princ\u00edpios ainda mais expostos como absurdos e at\u00e9 seus sacerdotes s\u00e3o obrigados a ceder. Isolados em nossas casas, testemunhamos nossa interdepend\u00eancia, a necessidade de organiza\u00e7\u00e3o e a exposi\u00e7\u00e3o de alguns sistemas de poder, a come\u00e7ar pelas diferen\u00e7as de classe. A coletividade existe.<\/p>\n<p>Est\u00e3o ridicularizados os que defendem o individualismo absoluto e questionam a pr\u00f3pria ideia de coletividade, de interesses coletivos e de atua\u00e7\u00e3o coletiva \u2013 at\u00e9 ideias como as de interesse p\u00fablico e interesse nacional mostram sua rela\u00e7\u00e3o com a realidade.<\/p>\n<p>Mesmo um mercado t\u00e3o poderoso, com corpora\u00e7\u00f5es t\u00e3o grandes, se mostra incapaz de enfrentar uma crise causada por um v\u00edrus. O mundo n\u00e3o se explica por \u201ccada um cuidando de sua vida, vendendo e comprando aquilo que quiser\u201d; as formas de organiza\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o humana est\u00e3o em primeiro plano, e a organiza\u00e7\u00e3o baseada no interesse financeiro exp\u00f5e suas fragilidades.<\/p>\n<p>Acima de tudo, e com o exemplo m\u00e1ximo na Rep\u00fablica Popular da China \u2013 dentre os v\u00e1rios exemplos inferiores que se espalham pelo mundo -, vemos a afirma\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio do pol\u00edtico contra o princ\u00edpio da economia e do com\u00e9rcio. A a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por excel\u00eancia mostra seu poder: n\u00e3o s\u00f3 na atua\u00e7\u00e3o de um estado forte, mas nas figuras de militantes volunt\u00e1rios do Partido Comunista em Wuhan.<\/p>\n<p>Essa a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o s\u00f3 se contrap\u00f5e ao fundamentalismo de mercado, mas tamb\u00e9m aos preceitos de modera\u00e7\u00e3o do liberalismo pol\u00edtico, afirmando a necessidade da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica decisiva no momento excepcional. A primazia do pol\u00edtico tamb\u00e9m aparece, infelizmente, em sua face pol\u00edtica, em dirigentes irrespons\u00e1veis que se recusam a enfrentar a doen\u00e7a de forma decisiva e se agarram ao liberalismo, que falam de liberdade enquanto o povo periga morrer tossindo e de fome \u2013 n\u00e3o existe ci\u00eancia, nem sa\u00fade p\u00fablica, nem medicina que cure os males de um p\u00e9ssimo l\u00edder.<\/p>\n<p>Mais do que a esquerda, os liberais est\u00e3o a contemplar assustados \u201ca vit\u00f3ria das ideias imortais do comunismo\u201d. N\u00e3o a foice e o martelo, n\u00e3o o movimento comunista em sentido estrito, mas algo maior, mais profundo, uma l\u00f3gica presente dentro dos seres humanos quando se deparam com sua exist\u00eancia coletiva. No limite, o comunismo como a consci\u00eancia das necessidades humanas como o caminho para a liberdade, como representa\u00e7\u00e3o ideal m\u00e1xima dessa afirma\u00e7\u00e3o da vida contra o capital, da exist\u00eancia coletiva que se afirma atrav\u00e9s de uma atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica consciente.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 algo maior que o modelo chin\u00eas ou o Partido Comunista da China, ainda que eles expressem em alguma medida precisamente o triunfo da pol\u00edtica e da planifica\u00e7\u00e3o contra a anarquia de mercado.<\/p>\n<p>No limite, \u00e9 o princ\u00edpio filos\u00f3fico que esmaga os princ\u00edpios liberais. Ao mesmo tempo, a confian\u00e7a liberal na sua supremacia intelectual ou mesmo na supremacia do capitalismo \u00e9 abalada enquanto as contradi\u00e7\u00f5es dos interesses do trabalho com aqueles do capital se tornam uma fratura exposta em uma Europa que era tida como muito est\u00e1vel. Os liberais se revoltam ao perceber o comunismo como algo subjacente ao contato humano com essa realidade.<\/p>\n<p>Tudo que \u00e9 s\u00f3lido desmancha no ar. E eles t\u00eam medo do ar, n\u00e3o por conta do v\u00edrus da doen\u00e7a, mas por medo de um outro tipo de v\u00edrus, um fantasma que ronda o mundo: o fantasma do comunismo. \u00c9 um fantasma precisamente por ser muito maior do que o movimento comunista organizado, consciente, mas ainda assim capaz de assombrar a partir das reivindica\u00e7\u00f5es dos povos que exigem a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se sentem amea\u00e7ados os liberais, quando veem o individualismo e o mercado sendo engolidos na avalanche, mas isso n\u00e3o quer dizer que a amea\u00e7a v\u00e1 se concretizar. N\u00e3o veremos uma utopia no ano que vem.<\/p>\n<p>O liberalismo n\u00e3o est\u00e1 morto de uma vez por todas \u2013 as din\u00e2micas de transforma\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais complexas que isso. Se, apesar disso, nos atermos \u00e0 met\u00e1fora da morte, veremos que ele caminhar\u00e1 entre n\u00f3s em formas de morto vivo e n\u00e3o s\u00f3 na marcha de zumbis fascistas, mas tamb\u00e9m surgindo em roupagens social-liberais mais arrojadas. Haver\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o liberal sa\u00edda de burguesias internacionais e baseada na defesa da globaliza\u00e7\u00e3o \u2013 possivelmente ligada a governos europeus -, que refor\u00e7ar\u00e1 os discursos de tecnocracia e coopera\u00e7\u00e3o global arranhando \u201ccr\u00edticas ao capitalismo\u201d no estilo do manifesto de Davos em 2019, com Klaus Schwab defendendo \u201cum novo tipo de capitalismo\u201d, objetivo reafirmado pelos dirigentes empresariais em 2020. Afinal, at\u00e9 Macron discursou sobre a necessidade de se rever os princ\u00edpios do neoliberalismo e preservar certos fundamentos da participa\u00e7\u00e3o estatal na economia. \u00c9 a alternativa do centro sist\u00eamico tentando se reformar e conduzir os destinos da mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da filosofia, que tamb\u00e9m faz parte da realidade, os liberais e chauvinistas gritam por causa de uma realidade mais imediata: o sucesso da China em responder \u00e0 crise pand\u00eamica. Adiantam-se querendo lidar com isso, enquanto o povo italiano, com aux\u00edlio chin\u00eas, tenta lidar com a cruz de seu calv\u00e1rio.<\/p>\n<p>No pa\u00eds onde nasceu Michelangelo, com uma popula\u00e7\u00e3o do tamanho da de Hubei, as Piet\u00e1s de um mundo globalizado sequer veem os corpos de seus filhos, que s\u00e3o levados em caminh\u00f5es militares e cremados fora da cidade, enquanto os velhos s\u00e3o deixados em casa para morrer com os pulm\u00f5es cheios d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>A It\u00e1lia \u00e9 em si uma esp\u00e9cie de Piet\u00e1, mais jovem que o filho a quem deu \u00e0 luz, abatida pela morte que carrega no colo e que agora \u2013 j\u00e1 \u00e9 tarde \u2013 dever\u00e1 carregar para sempre. J\u00e1 morrem mais que na China: confirmaram-se 3.405 italianos mortos no mesmo dia em que os chineses comemoravam o fim da transmiss\u00e3o local.<\/p>\n<p>\u00c9 para esse caminho que rumam todos os pa\u00edses cujos l\u00edderes preferem preservar mercados a salvar vidas, que riem da morte de seu povo, que querem mais a batalha no meio da pandemia do que a batalha contra a pandemia. Marias, que de antem\u00e3o sabiam do destino de seus filhos, se tornam Pilatos em busca de um novo Jesus, pregando-o com estrelas amarelas em um fundo vermelho.<\/p>\n<p>82 s\u00e3o os pa\u00edses a quem a China ofereceu ajuda no combate ao coronav\u00edrus. Em caixas de suprimentos enviadas \u00e0 It\u00e1lia h\u00e1 folhas de papel com a seguinte inscri\u00e7\u00e3o: \u201cSomos ondas do mesmo mar, folhas da mesma \u00e1rvore, flores do mesmo jardim\u201d. Nos Estados Unidos, manchetes buscam culpados no distante Oriente; escaramu\u00e7a dentro de uma guerra. No Brasil, um deputado, feito um c\u00e3o, late com o pesco\u00e7o apertado pela coleira de seu mestre, e seus filhotes estendem faixas: \u201cXi Jinping \u2013 Son of bitch \u2013 China virus\u201d. Se \u201cliberdade \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o\u201d, tomaremos ela como r\u00e9gua para medir a fila de cad\u00e1veres brasileiros ao final dessa dura jornada. Se nos faltar alguns metros, sabemos onde cobr\u00e1-los. E n\u00e3o ser\u00e1 na China.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25176\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[350],"tags":[233],"class_list":["post-25176","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-china","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6y4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25176","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25176"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25176\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25176"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25176"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}