{"id":25178,"date":"2020-03-25T07:34:14","date_gmt":"2020-03-25T10:34:14","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25178"},"modified":"2020-03-25T07:34:14","modified_gmt":"2020-03-25T10:34:14","slug":"a-civilizacao-catastrofica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25178","title":{"rendered":"A Civiliza\u00e7\u00e3o Catastr\u00f3fica"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/media.zuza.com\/e\/4\/e4dd6a94-8415-403e-b86f-955c993a79da\/B881072553Z.1_20200310171906_000_GIBTFRB0.2-0_Super_Portrait.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Cr\u00edtica da Economia<\/p>\n<p>Por Jos\u00e9 Martins<\/p>\n<p>O que vem antes, o ovo ou a galinha? Para todos os cidad\u00e3os e quase todos economistas do mundo o Coronav\u00edrus vem antes da crise econ\u00f4mica que se aprofunda em todo o mundo. O Coronav\u00edrus seria o determinante da crise econ\u00f4mica. Dito de maneira mais popular, o Coronav\u00edrus \u00e9 o culpado pela crise econ\u00f4mica global. Sem o misterioso v\u00edrus n\u00e3o haveria a atual crise econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A sociedade do espet\u00e1culo a todo vapor: a imagem da crise econ\u00f4mica global como mera interrup\u00e7\u00e3o causada pelo disjuntor de inoportuno e obscuro v\u00edrus global. Um raio no c\u00e9u azul da infal\u00edvel m\u00e3o invis\u00edvel do capital e seus virtuosos capitalistas. Acidente de percurso na civiliza\u00e7\u00e3o das mercadorias e de seus ilustrados consumidores.<\/p>\n<p>Os diretores do espet\u00e1culo e seus economistas projetam tamb\u00e9m a imagem consoladora que quando terminar a pandemia da gripe a crise econ\u00f4mica tamb\u00e9m terminar\u00e1. A economia voltar\u00e1 a crescer. O emprego tamb\u00e9m, para a felicidade geral de todos os ansiosos espectadores.<\/p>\n<p>Entretanto, para algumas poucas pessoas que ainda cultuam o saud\u00e1vel h\u00e1bito de duvidar sempre e pensar com sua pr\u00f3pria cabe\u00e7a \u2013 o grandioso espet\u00e1culo do Coronav\u00edrus n\u00e3o \u00e9 nada mais que a primeira e significativa manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social da crise catastr\u00f3fica do capital que ora pede passagem em todos os cantos do globo terrestre. Essa desconstru\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo \u00e9 muito importante, como se ver\u00e1 mais abaixo.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos cem anos foram encenados espet\u00e1culos quase t\u00e3o grandiosos quanto o Coronav\u00edrus. Talvez o mais paradigm\u00e1tico tenha sido o inc\u00eandio do Reichstag (Berlim,1933). O mais duradouro, entretanto, a Guerra Fria EUA x Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Mais recentemente, a Al Qaeda de Osama Bin Laden e o mais do que espetacular ataque \u00e0s torres g\u00eameas de Nova York (11 setembro 2001). Mais recentemente ainda, novas cepas do Al Qaeda, como o Estado Isl\u00e2mico e outras organiza\u00e7\u00f5es terroristas devidamente produzidas e distribu\u00eddas pelos est\u00fadios de Washington e Telavive.<\/p>\n<p>S\u00e3o apenas alguns exemplos de alguns espet\u00e1culo que v\u00eam \u00e0 mem\u00f3ria. Mas vale a pena relembrar outro muito importante: o famoso sequestro e assassinato de Aldo Moro, primeiro ministro da It\u00e1lia, em 1978, pelas chamadas Brigadas Vermelhas. A encena\u00e7\u00e3o deste espet\u00e1culo foi devidamente analisada por Guy Debord, em carta a G\u00e9rard Lebovici, 7 fevereiro 1979.<\/p>\n<p>Para cada \u00e9poca e novas circunst\u00e2ncias de crise, novos espet\u00e1culos de crescentes magnitudes. Quanto maior a crise, mais elaborados os espet\u00e1culos. Nesta progress\u00e3o hist\u00f3rica, j\u00e1 se pode afirmar com certa seguran\u00e7a que o espet\u00e1culo Coronav\u00edrus se apresenta como uma produ\u00e7\u00e3o muito mais avassaladora do que todas as outras anteriores.<\/p>\n<p>Muito mais aterrorizante no seu ensaio geral de separa\u00e7\u00e3o e controle policial totalit\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o mundial. Muito mais eficiente organiza\u00e7\u00e3o de repress\u00e3o e imobiliza\u00e7\u00e3o da luta de classes do que todos aqueles outros grandes espet\u00e1culos da ordem capitalista nos \u00faltimos 100 anos.<\/p>\n<p>Dialeticamente, portanto, o Coronav\u00edrus \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 uma express\u00e3o pol\u00edtica e social da crise, que viria depois da crise, mas \u00e9 tamb\u00e9m um preciso (e precioso) indicador antecedente da magnitude do per\u00edodo de crise c\u00edclica que se abre.<\/p>\n<p>O que os capitalistas sabem do que vem pela frente que a grande massa trabalhadora mundial ainda n\u00e3o sabe? Exatamente que a t\u00e3o aguardada crise catastr\u00f3fica j\u00e1 come\u00e7ou. Na bolsas e mercados do mundo tudo se pulveriza, o valor do capital desaparece. E os capitalistas agem.<\/p>\n<p>Agem para que o Estado comece a mudar de pele e que a democracia se reforce, que se reestruture em bases militarmente adequadas para o encarni\u00e7ado embate da luta de classes que se desdobrar\u00e1 doravante no interior de todas as na\u00e7\u00f5es do mundo. E nas guerras mundiais que necessariamente ocorrer\u00e3o entre essas na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo do Coronav\u00edrus \u00e9, portanto, um dos muitos instrumentos que est\u00e3o sendo criados pelo Estado capital para o controle social generalizado, em escala global. O espet\u00e1culos sempre ser\u00e3o de guerra e nesta guerra os governos nacionais se apresentam para \u201cdefender a sociedade deste inimigo invis\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>Nos per\u00edodos de crise econ\u00f4mica geral o tempo desaparece junto com o valor. O espet\u00e1culo do Coronav\u00edrus se interpenetra com o movimento real. Ovo e galinha juntos e ao mesmo tempo. O que resta \u00e9 que nesta contradit\u00f3ria comunh\u00e3o a economia global derrete descontroladamente. Pouco relevante, portanto, a burlesca discuss\u00e3o de quem veio primeiro, quem veio depois.<\/p>\n<p>O que aparece com a desconstru\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo \u00e9 a realidade dura e crua: a pandemia econ\u00f4mica global se sobrepondo progressivamente \u00e0 pandemia do espet\u00e1culo. E anunciando a cada burguesia nacional que a sua incapacidade de retomar a sua acumula\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica e garantir o emprego dos trabalhadores ter\u00e1 consequ\u00eancias pol\u00edticas ser\u00edssimas.<\/p>\n<p>O mais importante deste enredo do Coronav\u00edrus \u00e9, portanto, um claro sinal de enfraquecimento do Estado. Um dos muitos sinais.<\/p>\n<p>Acontece que a substitui\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia potencial do Estado pela viol\u00eancia cin\u00e9tica que ele representa \u2013 quer dizer, aproxima\u00e7\u00e3o da guerra civil e aumento da repress\u00e3o aberta \u2013 sempre foi, historicamente, demonstra\u00e7\u00e3o de enfraquecimento da capacidade de repress\u00e3o dos capitalistas sobre os trabalhadores no interior das r\u00edgidas fronteiras nacionais.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta ao soberano \u2013 como j\u00e1 advertia sabiamente o \u201cgrande imperador\u201d \u2013 sentar-se sobre as pontas das baionetas. Neste sentido, o espet\u00e1culo do Coronav\u00edrus anuncia ricas possibilidades de transforma\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias embutidas na crise catastr\u00f3fica do capital: ingovernabilidade e enfraquecimento da capacidade de repress\u00e3o dom\u00e9stica dos capitalistas.<\/p>\n<p>As diferentes burguesias nacionais estar\u00e3o doravante cada vez mais isoladas em suas intranspon\u00edveis e sagradas fronteiras nacionais. S\u00f3 o capital \u00e9 mundial. N\u00e3o existe burguesia mundial, e muito menos governan\u00e7a global.<\/p>\n<p>Isso s\u00f3 aparenta ser poss\u00edvel \u2013 como na ilus\u00f3ria Uni\u00e3o Europeia \u2013 em momentos de expans\u00f5es c\u00edclicas e de expans\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o produtiva. Com a chegada da crise geral (catastr\u00f3fica) essa ilus\u00e3o de governan\u00e7a global se dissipa como por milagre da natureza.<\/p>\n<p>\u00c9 o que se passa neste brilhante primeiro trimestre de 2020. O movimento material se acelera velozmente na crosta terrestre. Assim, aquele cen\u00e1rio marcado por uma \u201cs\u00fabita derrocada financeira e comercial mundial nos pr\u00f3ximos tr\u00eas meses\u201d, que na \u00faltima avalia\u00e7\u00e3o da Cr\u00edtica da Economia (setembro 2019) era apenas um cen\u00e1rio prov\u00e1vel, agora passa a ser o mais prov\u00e1vel. Quer dizer, j\u00e1 deixou at\u00e9 de ser cen\u00e1rio. J\u00e1 est\u00e1 acontecendo de fato.<\/p>\n<p>Cem anos depois da derrota da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria na Alemanha e do assassinato de Rosa de Luxemburgo e Karl Liebknecht pelo governo da social democracia alem\u00e3 (Rep\u00fablica de Weimar), a velha toupeira da revolu\u00e7\u00e3o emerge na superf\u00edcie do globo anunciando grandes possibilidades de liberta\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana: eu fui, eu sou, eu serei!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25178\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[226],"class_list":["post-25178","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6y6","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25178","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25178"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25178\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25178"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25178"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}