{"id":252,"date":"2010-01-19T05:30:36","date_gmt":"2010-01-19T05:30:36","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=252"},"modified":"2017-08-25T00:54:03","modified_gmt":"2017-08-25T03:54:03","slug":"carta-de-silvio-tendler-a-nelson-jobim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/252","title":{"rendered":"CARTA DE SILVIO TENDLER A NELSON JOBIM"},"content":{"rendered":"\n<p>Este gesto, na pr\u00e1tica, resulta em dar prote\u00e7\u00e3o a bandidos que desonraram a farda que vestiam ao torturar, estuprar, roubar, enriquecer ilicitamente sempre agindo em nome das institui\u00e7\u00f5es que juraram defender. \u00c9 incompreens\u00edvel que o nosso futuro democr\u00e1tico seja posto em risco para acobertar crimes praticados por bandidos o que refor\u00e7a a sensa\u00e7\u00e3o de impunidade. Ao contr\u00e1rio do que afirmam os defensores da impunidade dos torturadores. O que est\u00e1 em ju\u00edzo n\u00e3o \u00e9 o julgamento das for\u00e7as armadas, como afirmam os que as querem arrastar para o lodo moral que mergulharam. Agora pretendem proteger sua impunidade, camuflados corporativamente em nome da honra da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um pouco de hist\u00f3ria n\u00e3o faz mal a ningu\u00e9m. N\u00e3o est\u00e1 em quest\u00e3o que para consumar o golpe de 64, os chefes militares de ent\u00e3o tiveram que expurgar das for\u00e7as armadas milhares de homens entre oficiais, sub-oficiais e pra\u00e7as cujo \u00fanico crime foi defender o regime constitucional do pa\u00eds. Afastaram da vida pol\u00edtica brasileira expressivas lideran\u00e7as, cassando direitos pol\u00edticos e mandatos parlamentares ou sindicais. Empurraram milhares de cidad\u00e3os, na imensa maioria jovens, para a a\u00e7\u00e3o clandestina que desembocou na luta armada.<\/p>\n<p>De qualquer maneira os golpistas de 64 protegidos pela lei de anistia n\u00e3o ser\u00e3o anistiados pela hist\u00f3ria. Fecharam e cercaram o Congresso Nacional. Inventaram a excresc\u00eancia chamada de Senador Bi\u00f4nico para n\u00e3o perder, pelo voto, o controle do Senado em plena ditadura militar. Os chefes militares podem ficar tranq\u00fcilos que seus antecessores n\u00e3o ir\u00e3o para a cadeia pelos crimes que cometeram contra um pa\u00eds, contra uma gera\u00e7\u00e3o inteira, a minha, que desaprendeu a falar e pensar em liberdade. Nada disso est\u00e1 em ju\u00edzo. Vinte e cinco anos depois de iniciada a transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, o que est\u00e1 em ju\u00edzo n\u00e3o \u00e9 o processo de anistia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Tranq\u00fcilize seus colegas militares, ministro. O regime militar n\u00e3o est\u00e1 sendo julgado pela quebra do sistema p\u00fablico de sa\u00fade ou pela quebra do sistema educacional. Estamos pedindo a puni\u00e7\u00e3o contra criminosos comuns por crimes de lesa humanidade. Queremos o julgamento e condena\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica de crimes hediondos. S\u00f3 isso. Assusta a quem? Em nome do qu\u00ea o Brasil ser\u00e1 eternamente ref\u00e9m de bandidos? O que justifica acobertar crimes condenados por todos os c\u00f3digos, normas e tribunais internacionais em mat\u00e9ria de direitos humanos? O Sr. deve estar se perguntando o porqu\u00ea do meu empenho nesta causa. Vou lhe contar.<\/p>\n<p>Despontei pra a vida adulta baixo a ditadura militar. Em 1964, tinha 14 anos e cresci sob o signo do medo. Sou de uma fam\u00edlia de judeus liberais, meu pai advogado e minha m\u00e3e m\u00e9dica. Invoco as ra\u00edzes judaicas porque meus pais eram muito marcados pelo holocausto, pelos crimes nazistas cometidos contra a humanidade. T\u00ednhamos muito medo das solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias. Eu queria viver num pa\u00eds livre e tinha sentimentos de profunda repugn\u00e2ncia a ditaduras. Meus amigos tamb\u00e9m eram assim. Participei de passeatas, diret\u00f3rios estudantis e cineclubes. Queria derrubar a ditadura fazendo filmes. Acreditava que era poss\u00edvel. Em 1969, um companheiro de Cineclubismo seq\u00fcestrou um avi\u00e3o para Cuba. N\u00e3o tive nada a ver com isso. Desconhecia as inten\u00e7\u00f5es e a organiza\u00e7\u00e3o do seq\u00fcestro. Meu crime foi ser amigo \u2013 sim, meu crime foi o de ser amigo de um seq\u00fcestrador. Quase fui preso e morreria na tortura sem falar, n\u00e3o por ato de bravura, mas por absoluto desconhecimento de causa. N\u00e3o pertencia a nenhuma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. N\u00e3o sabia nada sobre o seq\u00fcestro.<\/p>\n<p>Escapei dessa situa\u00e7\u00e3o pela coragem pessoal de minha m\u00e3e que driblou os imbecis fardados que foram me prender e consegui fugir de casa nas barbas da turma do Minist\u00e9rio da Aeron\u00e1utica que, naquele momento, ao inv\u00e9s de dedicar-se a cumprir sua miss\u00e3o constitucional de proteger nossas fronteiras, prendiam, torturavam e matavam estudantes. Tive tamb\u00e9m a ajuda do Coronel Aviador Afr\u00e2nio Aguiar que empenhou-se at\u00e9 a medula para que n\u00e3o fosse preso e massacrado na Aeron\u00e1utica. A ele dedico meu filme mais recente &#8220;Utopia e Barb\u00e1rie&#8221;. Sem ele, dificilmente estaria contando essa hist\u00f3ria hoje aqui. Outras pessoas tamb\u00e9m me ajudaram a sair vivo dessa hist\u00f3ria mas como n\u00e3o tenho autoriza\u00e7\u00e3o para cit\u00e1-los e est\u00e3o vivos, guardo nomes e lembran\u00e7as no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1970 fui viver no Chile por livre e espont\u00e2nea vontade. Sa\u00ed do Brasil legalmente com passaporte, ainda que tenha ido ao DOPS explicar por que sa\u00eda do Brasil. Eles sabiam as raz\u00f5es pelas quais sa\u00eda (como \u00e9 cantado na m\u00fasica, &#8220;N\u00e3o queria morrer de susto, bala ou v\u00edcio&#8221;). Em Janeiro de 1971,do Chile, mandei uma carta para minha m\u00e3e, trazida por uma portadora, senhora de boa cepa, que fora visitar o filho no ex\u00edlio em um gesto humanit\u00e1rio se ofereceu, ingenuamente, para trazer correspond\u00eancia para os familiares dos exilados. O gesto lhe custou pris\u00e3o e &#8220;maus tratos&#8221; nas depend\u00eancias da aeron\u00e1utica. Na carta pedia a minha m\u00e3e que me enviasse livros e minha m\u00e1quina de escrever. A carta foi entregue em Copacabana por militares do Doi-Codi que arrombaram minha casa, arrombaram m\u00f3veis a procura de metralhadora (Assim entenderam &#8220;m\u00e1quina de escrever&#8221;). Minha m\u00e3e foi levada para o quartel da PE na Bar\u00e3o de Mesquita, onde foi humilhada e um dos &#8220;patriotas&#8221;que a conduziu assumiu de forma permanente a guarda do rel\u00f3gio que entrou com ela na PE e n\u00e3o voltou para casa. Amigos ocultos numa rede de gente decente ajudaram a tirar minha m\u00e3e daquela filial verde oliva do inferno.<\/p>\n<p>Sim ministro, havia muita gente decente nas for\u00e7as armadas ou que gravitavam em torno dela e que faziam o que podiam para ajudar pessoas. A maioria, prefere, at\u00e9 hoje, n\u00e3o revelar seus gestos por medo dos que praticando atos dignos dos piores momentos da m\u00e1fia intimidam e atemorizam pessoas de bem. Pior do que o rel\u00f3gio foi o destino do ex-deputado Rubens Paiva que foi preso no mesmo dia e nunca mais encontrado. Os senhores fazem muita quest\u00e3o mesmo de proteger os canalhas que seq\u00fcestraram e assassinaram o ex-deputado pelo crime de ter recebido correspond\u00eancia pessoal de exilados no Chile? A quem interessa essa \u201cOmert\u00e1&#8221;? Ministro, para esses crimes n\u00e3o h\u00e1 justificativa e menos O que leva a chefes militares e o Ministro da Defesa a se pronunciarem contra a apura\u00e7\u00e3o de crimes? Tortura, estupro, morte, muitas vezes seguido de roubo, s\u00e3o atos pol\u00edticos pass\u00edveis de anistia?<\/p>\n<p>Desculpe a franqueza, mas n\u00e3o consigo entender. Em nome do futuro democr\u00e1tico do Brasil , espero que a banda podre, montada no Drag\u00e3o da Maldade, n\u00e3o saia vitoriosa.<\/p>\n<p>Os chefes militares pronunciam-se a favor do pagamento de repara\u00e7\u00f5es \u00e0s vitimas do arb\u00edtrio como um ato indenizat\u00f3rio. Pagamento este feito com recursos p\u00fablicos desviado de finalidades mais nobres para ressarcir preju\u00edzos causados por canalhas que deveriam ter seus bens confiscados e pagarem com recursos pr\u00f3prios os crimes que cometeram. Muitas empresas que se locupletaram durante a ditadura e inclusive financiaram o aparato repressivo poderiam participar dessas indeniza\u00e7\u00f5es. No meu caso, ministro, posso lhe dizer que n\u00e3o h\u00e1 dinheiro que feche essa conta. N\u00e3o pedi anistia nem indeniza\u00e7\u00e3o porque acho que n\u00e3o sou merecedor (nunca fui exilado, nunca me apresentei assim). E vivo bem com meu trabalho de cineasta h\u00e1 quarenta anos e professor universit\u00e1rio h\u00e1 31. Se fosse pago com recursos dos bandidos, aceitaria de bom grado. Recursos p\u00fablicos n\u00e3o. Cada centavo que aceitasse, me sentiria roubando de uma crian\u00e7a ou de um homem ou uma mulher humildes que precisam mais desse dinheiro numa escola p\u00fablica, num posto m\u00e9dico, do que eu. N\u00e3o recrimino quem, por necessidade ou sentimento de justi\u00e7a, o fa\u00e7a.<\/p>\n<p>A repara\u00e7\u00e3o que pe\u00e7o \u00e9 a puni\u00e7\u00e3o exemplar dos torturadores da minha m\u00e3e. O senhor h\u00e1 de concordar que n\u00e3o estou pedindo muito nem nada despropositado. E quando digo que penso no futuro e n\u00e3o no passado \u00e9 porque a puni\u00e7\u00e3o exemplar de criminosos desestimular\u00e1 semelhantes pr\u00e1ticas no futuro e ter\u00e1 uma fun\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica para os que caiam em tenta\u00e7\u00e3o de uso indevido dos poderes do Estado, que entendam que n\u00e3o vivemos no pa\u00eds da impunidade.Justi\u00e7a, pe\u00e7o apenas justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Bom 2010 para o sr.<\/p>\n<p>Atenciosamente,<\/p>\n<p>Silvio Tendler<\/p>\n<p>P.S. Falamos de tanta coisa mas esquecemos de comentar dois crimes cometidos depois de 1979 que j\u00e1 n\u00e3o estariam cobertos pela lei de anistia: O assassinato de D. Lyda Monteiro da Silva, secretaria do Presidente da OAB, a mutila\u00e7\u00e3o do jornalista Jos\u00e9 Ribamar em 1980 e, em 1981, a bomba que explodiu no Riocentro que causou a morte de um sargento e graves ferimento no Capit\u00e3o. Imagino que enquanto advogado, o quanto lhe repugna o assassinato da secret\u00e1ria do Presidente da OAB e a mutila\u00e7\u00e3o de um jornalista. Tantos anos decorridos, talvez ainda seja poss\u00edvel descobrir &#8220;os comunistas&#8221; respons\u00e1veis pela bomba do Riocentro, como concluiu o vexaminoso IPM instaurado na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Por falar em comunistas, movimento que condenava a luta armada, o que dizer do assassinato do jornalista Wladimir Herzog, do oper\u00e1rio Manoel Fiel Filho e do desaparecimento do dirigente Davi Capistrano? Seus assassinos ter\u00e3o imagem, nome e sobrenome ou continuar\u00e3o protegidos por este ex\u00e9rcito das sombras?<\/p>\n<p>Silvio Tendler<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: CartaMaior\n\n\n\n\nAo Ministro da Defesa Exmo. Dr. Nelson Jobim\nInvado sua caixa de mensagem pedindo aten\u00e7\u00e3o para um tema que trata do futuro, n\u00e3o do passado. O Sr. me conhece pessoalmente e lembra-se de que quando fui Secret\u00e1rio de Cultura de Bras\u00edlia, no ano de 1996, o Sr. era Ministro da Justi\u00e7a e instituiu e deu no Festival de Cinema Bras\u00edlia um pr\u00eamio para o filme que melhor abordasse a quest\u00e3o dos Direitos Humanos. Era uma preocupa\u00e7\u00e3o comum a nossa.\nPor que me dirijo agora ao senhor? Um punhado de cidad\u00e3os \u0336 hoje somos mais de dez mil \u0336 assinamos um manifesto afirmando que os envolvidos em crimes de tortura em nome do Estado Brasileiro devem ser julgados e punidos por seus atos, contr\u00e1rios aos mais elementares sentimentos da nacionalidade. Agimos em nome da intransigente defesa dos direitos humanos. O Sr., Ministro da Defesa, homem comprometido com a ordem democr\u00e1tica, eminente advogado constitucionalista, um dos redatores e subscritores da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, hoje em a\u00e7\u00e3o concertada com os comandantes das for\u00e7as armadas, condena a iniciativa de punir torturadores pelos crimes que cometeram.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/252\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-252","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-44","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/252","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=252"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/252\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=252"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=252"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=252"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}