{"id":25213,"date":"2020-03-29T02:42:37","date_gmt":"2020-03-29T05:42:37","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25213"},"modified":"2020-04-03T02:25:27","modified_gmt":"2020-04-03T05:25:27","slug":"a-morte-de-edson-luis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25213","title":{"rendered":"A Morte de Edson Lu\u00eds"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.causaoperaria.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/jjk.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Airton Queiroz<\/p>\n<p>O tiro que atingiu o estudante paraense de 18 anos, Edson Lu\u00eds, n\u00e3o veio do alto.<\/p>\n<p>Eu era comensal do Calabou\u00e7o, pois, na \u00e9poca, j\u00e1 me tinha tornado um transposto pol\u00edtico for\u00e7ado, sem dinheiro, rec\u00e9m fugido do Nordeste, de onde passara meses na clandestinidade, por causa da persegui\u00e7\u00e3o da ditadura e motivado pela &#8220;queda&#8221; de membros dos Comit\u00eas Estadual e Universit\u00e1rio do Partid\u00e3o (PCB) em Pernambuco, no segundo semestre de 1967. Eu era o Secret\u00e1rio Agitprop (Agita\u00e7\u00e3o e Propaganda) do Comit\u00ea Universit\u00e1rio.<\/p>\n<p>O Calabou\u00e7o era um complexo estadual de assist\u00eancia estudantil, localizado em um velho pr\u00e9dio, alongado por um grande galp\u00e3o ao lado da Avenida Marechal C\u00e2mara, no centro do Rio de Janeiro. Compreendia um verdadeiro universo de estudantes carentes de todas as partes do pa\u00eds e reduto de todas as esquerdas universit\u00e1rias e secundaristas.<\/p>\n<p>Havia, no seu interior, oficinas de diferentes tipos de artesanato, de produ\u00e7\u00e3o r\u00fastica de livros de poesia, &#8220;salas&#8221; de aula de tudo quanto era mat\u00e9ria comum e esot\u00e9rica, cursinhos pr\u00e9-vestibular, proje\u00e7\u00e3o rudimentar de filmes, grupos de teatro popular, de dan\u00e7a, muito namoro e amor livre e, claro, comida barata, que era o principal. No Calabou\u00e7o, tamb\u00e9m existia o Instituto Cooperativo de Ensino, no qual Edson Lu\u00eds continuava seu curso secund\u00e1rio come\u00e7ado em sua Bel\u00e9m do Par\u00e1.<\/p>\n<p>Com\u00edcios eram feitos quase todos os dias e noites, dentro e fora, num descampado situado \u00e0 frente do galp\u00e3o do Calabou\u00e7o e delimitado pelo Edif\u00edcio da Legi\u00e3o Brasileira de Assist\u00eancia (LBA) e por muros de pr\u00e9dios que voltavam suas frentes para a Avenida General Justo.<\/p>\n<p>Naquela fat\u00eddica quinta feira, durante o jantar, no dia 28 de mar\u00e7o de 1968, quando j\u00e1 passava das 18 horas, os estudantes hav\u00edamos marcado um ato de protesto e est\u00e1vamos concentrados no descampado, no que seria seguido de uma passeata, contra o pre\u00e7o das refei\u00e7\u00f5es, al\u00e9m das p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de higiene e a lentid\u00e3o das obras do Calabou\u00e7o. Foi, ent\u00e3o, que choques da Pol\u00edcia Militar, de in\u00edcio com cassetetes, cercaram o descampado, vindos pela galeria do Edif\u00edcio da LBA e pela Avenida Marechal C\u00e2mara e atacaram-nos em uma atitude bestial de espancamentos com ordens de dispers\u00e3o e abandono do local.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o quer\u00edamos abandonar a \u00e1rea, corremos para o interior do galp\u00e3o do Calabou\u00e7o e, daquele lugar, revid\u00e1vamos com o varejamento de pedras da obra. A pol\u00edcia reagiu com rajadas de fuzis e metralhadoras para o alto, como forma de intimida\u00e7\u00e3o. Em seguida, baixou a linha de disparos, que eram respondidos com mais pedradas nossas, no que resultou em v\u00e1rios estudantes feridos e na trag\u00e9dia da morte do estudante Edson Lu\u00eds Lima Souto, assassinado com um tiro no peito, de pistola calibre 45, identificada depois, como do tenente Alcindo Costa, que comandava o Batalh\u00e3o Motorizado da PM no local.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s os tiros que atingiram o Edson, n\u00f3s entramos em clamor, gritando que mataram um jovem, chamando os policiais de assassinos. Perdermos o medo da morte e avan\u00e7amos contra eles, carregando o corpo do Edson Lu\u00eds, quando, finalmente, a pol\u00edcia, receosa, retirou-se, depois de ter feito outras v\u00edtimas, dentre elas o comerci\u00e1rio Telmo Henriques, com um tiro na boca, e um porteiro do INPS que passava pelas imedia\u00e7\u00f5es e que tamb\u00e9m tombou morto.<\/p>\n<p>Com o Edson ainda com vida e sangrando muito, eu tentei influenciar a turba, na confus\u00e3o do empurra-empurra, para que ele fosse levado, rapidamente, para ser atendido no Hospital da Santa Casa, que fica pr\u00f3ximo ao local. Todavia, s\u00f3 consegui meu intento depois de passados alguns minutos preciosos. Ao l\u00e1 adentrar, o m\u00e9dico, Dr. Luis Fortes, declarou que o Edson j\u00e1 estava morto.<br \/>\nSeu corpo, ent\u00e3o, foi retirado da Santa Casa, sob protestos dos funcion\u00e1rios do hospital, e carregado aos brados de: &#8220;Abaixo a Ditadura Militar&#8221; e &#8220;Mataram um estudante e se fosse filho seu?&#8221; No trajeto at\u00e9 a Cinel\u00e2ndia, o corpo do Edson, ainda sangrava. Foi conduzido, deitado, no alto, sustentado por v\u00e1rios bra\u00e7os que se revezavam, por uma multid\u00e3o enfurecida de estudantes e populares que se incorporaram, pela Rua Santa Luzia.<\/p>\n<p>Quando, por volta das 21 horas, seu corpo chegou, foi depositado no sagu\u00e3o da Assembleia Legislativa da Guanabara (hoje C\u00e2mara de Vereadores do Rio de Janeiro), onde foi velado, at\u00e9 o dia seguinte. Seu enterro, no dia 29 de mar\u00e7o de 1968, foi acompanhado por um cortejo gigantesco, at\u00e9 o Cemit\u00e9rio S\u00e3o Jo\u00e3o Batista. Deputados estaduais encheram-se de coragem e, em sess\u00e3o noturna da Assembleia, extraordinariamente convocada, conclamavam o governador Negr\u00e3o de Lima a tomar medidas contra o ato infame e covarde.<\/p>\n<p>V\u00e1rios de n\u00f3s ficamos com nossas roupas tintas do sangue daquele jovem em plena flor da idade. Durante todo o resto de noite do dia 28, na madrugada e em toda a manh\u00e3 e tarde do dia 29 de mar\u00e7o, uma grande e crescente multid\u00e3o se comprimia na Cinel\u00e2ndia. Ouviram-se muitos oradores, com os mais candentes discursos a vituperar a ditadura, exigir sua derrubada, reivindicar a volta das liberdades democr\u00e1ticas e denunciar v\u00e1rios outros crimes cometidos pelos golpistas de abril de 64.<\/p>\n<p>Notem que est\u00e1vamos a tr\u00eas dias do quarto anivers\u00e1rio da \u201cgorilada\u201d de 1\u00b0 de abril, ou a dois dias como entendiam eles, que se fixavam no dia 31 de mar\u00e7o, a fugir do dia da mentira de que o golpe fora desfechado para restabelecer a democracia no Brasil.<\/p>\n<p>DURANTE TODO ESSE TEMPO, NEM UM SINAL DE POL\u00cdCIA EM TODO O CENTRO DA CIDADE. T\u00ednhamos a impress\u00e3o de que a ditadura come\u00e7ava a cair. Isso era afirmado em muitos discursos. Que grande ilus\u00e3o a nossa!<\/p>\n<p>Ir\u00f4nica foi a resposta do covarde general Oswaldo Niemeyer, Superintendente da Pol\u00edcia Executiva (depois demitido pelo Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a, general Dario Coelho, a mando do governador Negr\u00e3o de Lima), ao declarar ao Jornal do Brasil que a pol\u00edcia estava inferiorizada em pot\u00eancia de fogo, comparada \u00e0 dos estudantes (pedras).<\/p>\n<p>Aquele foi um crime-s\u00edmbolo que fez tremer todo o pa\u00eds e abalou a pol\u00edtica nacional. Ofereceu-nos a liberdade, por um dia, de protestar sem a presen\u00e7a dos meganhas. Entretanto, constituiu-se, tamb\u00e9m, em marco da escalada de uma ditadura que marchava pela rota do endurecimento e da repress\u00e3o crescentes. Dali a nove meses se gestava mais um golpe profundo, o nefando Ato n\u00b0 5, parido em 13 de dezembro.<\/p>\n<p>Este texto encontra-se na p\u00e1gina 161 do livro &#8220;68 a gera\u00e7\u00e3o que queria mudar o mundo relatos\u201d, organizado e editado por Eliete Ferrer e publicado no Projeto Marcas de Mem\u00f3ria, da Comiss\u00e3o de Anistia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a em 2011, na Presid\u00eancia de Paulo Abr\u00e3o.<br \/>\nPara ler ou gravar o livro em PDF, acesse aqui:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.plural.jor.br\/documentosrevelados\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/68-a-geracao-que-queria-mudar-o-mundo-relatos.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Clique para acessar o 68-a-geracao-que-queria-mudar-o-mundo-relatos.pdf<\/a><\/p>\n<p>ou<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.justica.gov.br\/central-de-conteudo\/anistia\/anexos\/livro_68-relatos.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Clique para acessar o livro_68-relatos.pdf<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25213\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[225,247],"class_list":["post-25213","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria","tag-4a","tag-jd"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6yF","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25213","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25213"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25213\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25213"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25213"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25213"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}