{"id":25215,"date":"2020-03-29T21:40:17","date_gmt":"2020-03-30T00:40:17","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25215"},"modified":"2020-03-29T21:40:17","modified_gmt":"2020-03-30T00:40:17","slug":"a-economia-depois-da-catastrofe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25215","title":{"rendered":"A economia depois da cat\u00e1strofe"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/4.bp.blogspot.com\/-Fry2OTiVtFA\/WKiwiTAUY3I\/AAAAAAAABo8\/TGAb0ByAHx00O2KiqYak6ZX9fNBev9c9QCLcB\/s1600\/Neoliberalismo.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->At\u00edlio Boron<\/p>\n<p>A Grande Depress\u00e3o dos anos de 1930 arrastou em sua queda a ortodoxia liberal, cujas bases eram: a divis\u00e3o internacional do trabalho entre pa\u00edses avan\u00e7ados e a periferia capitalista produtora de mat\u00e9rias-primas, o padr\u00e3o ouro, a doutrina do\u00a0<em>laissez-faire<\/em>, que consagrava o predom\u00ednio absoluto dos mercados e, como contrapartida, o \u201cEstado m\u00ednimo\u201d, que se limitava a garantir que os pa\u00edses de capitalismo avan\u00e7ado mantivessem sob seu poder os mais diversos componentes da vida social, implantando, de fato, uma verdadeira \u201cditadura liberal mercantilista\u201d.<\/p>\n<p>Nos fins de 1929, irrompeu a Grande Depress\u00e3o e o mundo que emergiu das cinzas da crise foi muito diferente: a divis\u00e3o internacional do trabalho come\u00e7ou a degringolar porque alguns pa\u00edses da periferia deram in\u00edcio a um forte processo de expans\u00e3o industrial. O padr\u00e3o ouro foi substitu\u00eddo \u2013 depois de um turbulento intervalo que terminaria com o fim da Segunda Guerra Mundial \u2013 pelo d\u00f3lar, que foi estabelecido como moeda universal de troca, porque, naquele momento, n\u00e3o havia nenhuma outra moeda que pudesse fazer frente ao d\u00f3lar, levando-se em conta a destrui\u00e7\u00e3o provocada pela guerra. E, o mais importante: os mercados foram submetidos a uma crescente regulamenta\u00e7\u00e3o por parte dos governos, o que levou a um desequil\u00edbrio desvairado que, se antes havia sido enormemente favor\u00e1vel aos mercados, passou a ser favor\u00e1vel aos Estados. Consequentemente, o gasto p\u00fablico reivindicado por novas demandas de uma cidadania mobilizada e fortalecida pelas lutas contra a depress\u00e3o e a reconstru\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-guerra fizeram com que o tamanho do Estado em rela\u00e7\u00e3o do PIB crescesse significativamente, como demonstra a tabela abaixo.<\/p>\n<p><strong>Gasto total dos governos em 1900, 1929 e 1975\u00a0<\/strong>(% do PIB):<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><\/td>\n<td>1900<\/td>\n<td>1929<\/td>\n<td>1975<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Alemanha<\/td>\n<td>19.4<\/td>\n<td>14.6<\/td>\n<td>51.7<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Reino Unido<\/td>\n<td>11.9<\/td>\n<td>26.5<\/td>\n<td>53.1<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Estados Unidos<\/td>\n<td>2.9<\/td>\n<td>3.7<\/td>\n<td>36.6<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Jap\u00e3o<\/td>\n<td>1.1<\/td>\n<td>2.5<\/td>\n<td>29.6<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><em>Fonte<\/em>: IMF Data, Fiscal Affairs Departmental Data, Public Finances in Modern History<\/p>\n<p>Os n\u00fameros s\u00e3o eloquentes e nos poupam a tarefa de recorrer a complicados argumentos para demonstrar a enorme amplitude do c\u00e2mbio experimentado pelo modelo da governan\u00e7a macroecon\u00f4mica do capitalismo depois da Grande Depress\u00e3o e da Segunda Guerra Mundial. A Alemanha mais que triplicou o gasto p\u00fablico entre 1929 e 1975, o Reino Unido aumento pouco mais do que o dobro e os Estados Unidos e o Jap\u00e3o chegaram quase a dez e a doze vezes respectivamente! Mais Estado do que mercado para sustentar o processo de democratiza\u00e7\u00e3o e de \u201ccidadaniza\u00e7\u00e3o\u201d do p\u00f3s-guerra. Sa\u00fade, previd\u00eancia social, educa\u00e7\u00e3o, moradia e todos os bens p\u00fablicos que o Estado deve oferecer foram os motores que impulsionaram a crescente centralidade do Estado na vida econ\u00f4mica e social.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, isso n\u00e3o \u00e9 tudo: outro aspecto relevante \u00e9 que, uma vez esgotado o ciclo keynesiano em 1974-1975 e engendrado o sinistro retorno do liberalismo (agora suavizado pelo prefixo \u201cneo\u201d para enganar os ing\u00eanuos com uma falsa \u201cnovidade\u201d), em nenhum desses pa\u00edses o Estado se reduziu ao n\u00edvel que tinha nas v\u00e9speras da Grande Depress\u00e3o, revertendo a radical atra\u00e7\u00e3o adquirida em suas economias. O ritmo do crescimento desacelerou e o gasto p\u00fablico se reduziu, de forma mais acentuada na Gr\u00e3-Bretanha (com o thatcherismo) e na Alemanha (com a vigarice da \u201cterceira via\u201d) e menor nos Estados Unidos e no Jap\u00e3o. Por\u00e9m, ainda assim, em 2010, esses quatro pa\u00edses estavam, em rela\u00e7\u00e3o ao tamanho do Estado, muito acima dos n\u00edveis que apresentavam durante o apogeu do liberalismo nas primeiras tr\u00eas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Levando em conta, inclusive, as not\u00edcias dos \u00faltimos dez anos, h\u00e1 neles muito mais Estado do que havia em 1929.<\/p>\n<p>Que conclus\u00e3o pode-se tirar dessas an\u00e1lises? Que a pandemia que hoje castiga o planeta ter\u00e1 um impacto igual ou maior do que, em seu momento, a Grande Depress\u00e3o e a Segunda Guerra Mundial tiveram. O capitalismo europeu e o estadunidense, que j\u00e1 vinham apresentando sinais claros da aproxima\u00e7\u00e3o de uma iminente recess\u00e3o, ser\u00e3o arrasados pelo efeito econ\u00f4mico da atual cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria. E a sa\u00edda desta crise ter\u00e1 como uma de suas marcas a bancarrota ideol\u00f3gica do neoliberalismo, com sua est\u00fapida f\u00e9 na \u201cmagia do mercado\u201d, nas privatiza\u00e7\u00f5es e nas desregulamenta\u00e7\u00f5es e na suposta capacidade das for\u00e7as do mercado em distribuir racionalmente os recursos.<\/p>\n<p>Isso determinar\u00e1 uma profunda revis\u00e3o do paradigma das pol\u00edticas p\u00fablicas, come\u00e7ando pela sa\u00fade e, em seguida, pela previd\u00eancia social, como previs\u00e3o do que ser\u00e1 a batalha decisiva: controlar o capital financeiro e sua rede global, que asfixiam a economia mundial, provocando recess\u00f5es, aumentando o desemprego e levando a desigualdade econ\u00f4mica a n\u00edveis absurdos. Um capital financeiro ultraparasit\u00e1rio, que financia e protege as m\u00e1fias do \u201ccolarinho branco\u201d e que, com a complac\u00eancia e cumplicidade dos governos dos capitalismos centrais e das institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas internacionais, criam os \u201cpara\u00edsos fiscais\u201d, que facilitam a oculta\u00e7\u00e3o de seus crimes e a evas\u00e3o tribut\u00e1ria, que empobrece os Estados, privando-os dos recursos necess\u00e1rios para garantir uma vida digna a suas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 esse o mundo que vir\u00e1 quando a pandemia for uma triste lembran\u00e7a do passado. Claro que, para este momento, as for\u00e7as populares ter\u00e3o de estar muito bem organizadas e conscientizadas (e articuladas internacionalmente), porque essas mudan\u00e7as n\u00e3o acontecer\u00e3o pelo favor de uma burguesia imperialista arrependida de seus crimes e ansiosa por abandonar seus privil\u00e9gios, mas dever\u00e3o ser conquistadas por meio de grandes mobiliza\u00e7\u00f5es e de lutas sociais para impor uma nova ordem econ\u00f4mica e social p\u00f3s-capitalista. \u00c9 preciso ter valor para lutar pela constru\u00e7\u00e3o desse mundo novo, mas tamb\u00e9m intelig\u00eancia para estimular a consci\u00eancia cr\u00edtica das grandes massas populares e evitar que caiam, mais uma vez, nas trapa\u00e7as, nas armadilhas que os bruxos do neoliberalismo j\u00e1 est\u00e3o preparando. Eles t\u00eam claramente seu objetivo: que, depois da pandemia, tudo seja o mesmo.<\/p>\n<p>Devemos estar dispostos a enfrent\u00e1-los e a assumirmos a conquista exatamente do contr\u00e1rio: que nada seja igual, iluminando com nossas lutas e nossa consci\u00eancia os contornos da nova sociedade que luta para nascer. Uma sociedade, enfim, em que a sa\u00fade, os medicamentos, a educa\u00e7\u00e3o, a previd\u00eancia social, a moradia, o transporte, a cultura, a comunica\u00e7\u00e3o, o lazer, o esporte e todos os componentes que fazem uma vida digna deixem de ser mercadorias e adquirem sua condi\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel de direitos universais. E agora temos uma grande oportunidade para lutar por isso.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n<p>Publicado originalmente nos\u00a0<em>blogs<\/em>\u00a0abaixo:<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0<a href=\"https:\/\/frenteantiimperialista.org\/blog\/2020\/03\/23\/la-economia-despues-de-la-catastrofe\/\">https:\/\/frenteantiimperialista.org\/blog\/2020\/03\/23\/la-economia-despues-de-la-catastrofe\/<\/a><\/p>\n<p>&#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/atilioboron.com.ar\/la-economia-despues-de-la-catastrofe\/\">http:\/\/atilioboron.com.ar\/la-economia-despues-de-la-catastrofe\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25215\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[234],"class_list":["post-25215","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6yH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25215"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25215\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}