{"id":253,"date":"2010-01-19T07:02:33","date_gmt":"2010-01-19T07:02:33","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=253"},"modified":"2010-01-19T07:02:33","modified_gmt":"2010-01-19T07:02:33","slug":"a-criacao-de-um-mito-a-nova-face-da-alienacao-politica-do-periodo-petista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/253","title":{"rendered":"A Cria\u00e7\u00e3o de um Mito. A nova face da aliena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do per\u00edodo petista."},"content":{"rendered":"\n<p>Mas o que nos chama a aten\u00e7\u00e3o no filme n\u00e3o \u00e9 a grande quantidade de empresas privadas que financiaram a obra e nem t\u00e3o pouco a qualidade cinematogr\u00e1fica e o investimento no elenco. O que nos chama a aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o as mensagens que est\u00e3o evidenciadas nessa obra e o quanto a era Lula d\u00e1 ind\u00edcios de que ainda ir\u00e1 perdurar por algum tempo no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro.<\/p>\n<p>Podemos avaliar o filme em pelo menos tr\u00eas aspectos, sendo que todos eles s\u00e3o partes de um todo que pode ser resumido na tentativa da reifica\u00e7\u00e3o de um mito vivo no imagin\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O 1o aspecto trata da supera\u00e7\u00e3o e da conquista de outro patamar de vida, ao qual de certa forma, todos(as) os(as) trabalhadores(as) s\u00e3o envolvidos ao se verem retratar na pele de um menino pobre, de uma fam\u00edlia numerosa e retirante, que sonha com uma perspectiva melhor ao virem para S\u00e3o Paulo e que s\u00e3o sujeitados a todo o tipo de prova: fome, mis\u00e9ria, enchentes destruindo tudo nas madrugadas, humilha\u00e7\u00f5es etc, etc.<\/p>\n<p>Lula encarna a figura do her\u00f3i \u00e9pico que vence com afinco as determina\u00e7\u00f5es \u00e0s quais a classe trabalhadora estaria subjugada.<\/p>\n<p>Uma vez oper\u00e1rio, ainda jovem, se horroriza com o vandalismo das greves dirigidas pelos comunistas, como o seu irm\u00e3o mais velho, conhecido na \u00e9poca como \u201cFrei Chico\u201d e n\u00e3o v\u00ea sentido em tratar os patr\u00f5es e o Governo, leia-se o capital, como os inimigos de classe dos trabalhadores(as).<\/p>\n<p>Lula quer namorar, curtir o futebol, tomar cerveja e viver a vida, mesmo que sob o obscurantismo da Ditadura Militar e as persegui\u00e7\u00f5es e arrochos sob os quais o operariado vivia no Brasil naquele momento. Representa o trabalhador comum, mas sens\u00edvel aos dilemas de seu tempo. Por sua vez, escolhe outra forma de se posicionar frente a esse contexto; critica a luta armada, o radicalismo ideol\u00f3gico da esquerda marxista, presente nos di\u00e1logos com o irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a perda tr\u00e1gica da 1a esposa, morta em trabalho de parto junto com o filho, Lula se deprime e envolve-se ent\u00e3o de corpo e alma com o sindicato dos metal\u00fargicos do ABC, \u00e0 \u00e9poca dirigido por um sindicalista oportunista e que possu\u00eda rela\u00e7\u00f5es esp\u00farias com o Governo e o empresariado.<\/p>\n<p>Eis o 2o aspecto da pe\u00e7a, o oper\u00e1rio comum que desde cedo n\u00e3o se condicionou pelo enfrentamento ideol\u00f3gico, mas que buscou encontrar outras formas de conviv\u00eancia com o capital, aceita o estabelecimento do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Servi\u00e7o) e passa a propagandear as vantagens em se aceitar a transi\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio dos comunistas que denunciavam o ataque ao direito da estabilidade por tempo de servi\u00e7o. \u00c9 o sindicalista que aos poucos vai retirando o sindicato do isolamento e vai condicionando aos trabalhadores do ABC uma voz ativa frente aos arrochos promovidos pela pol\u00edtica econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>No filme, em seu discurso de posse em 1975, Lula reafirma que o papel fundamental do sindicato seria \u201cbuscar o entendimento\u201d e de que \u201c n\u00e3o s\u00e3o os patr\u00f5es os nossos inimigos\u201d. Est\u00e1 plantada a\u00ed a semente ideol\u00f3gica de um modelo sindical que se alastrou e firmou ra\u00edzes em diversos segmentos da classe trabalhadora em todo o Brasil e que alguns anos mais tarde estaria bem representada na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico e sindical conhecida como Articula\u00e7\u00e3o, a principal corrente do Partido dos Trabalhadores e da Central \u00danica dos Trabalhadores ( CUT).<\/p>\n<p>Nesse momento o aspecto ideol\u00f3gico fica muito evidente. O novo sindicalismo forjado nas lutas do ABC no final dos anos 70 e in\u00edcio dos 80 \u00e9 um sindicalismo que superou tanto o \u201cvelho\u201d modelo comunista, baseado na luta de classes, como tamb\u00e9m o peleguismo, t\u00edpico do per\u00edodo intervencionista na estrutura sindical, constituindo atrav\u00e9s das greves e da mobiliza\u00e7\u00e3o de base o despertar do sonho de uma classe por um futuro mais digno e a supera\u00e7\u00e3o das amarras da Ditadura.<\/p>\n<p>\u00c9 o her\u00f3i coletivo, aquele que encarna todo o sentimento de esperan\u00e7a e rebeldia de um momento hist\u00f3rico, de transi\u00e7\u00e3o, mas ao mesmo tempo de estabelecimento de um novo modelo de rela\u00e7\u00e3o entre o capital e o trabalho no cora\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria brasileira.<\/p>\n<p>O 3o e \u00faltimo ato da pe\u00e7a encerra todo o sentido da obra.<\/p>\n<p>Lula supera as adversidades, \u201cconquista\u201d junto com seus companheiros de sindicato um novo patamar n\u00e3o apenas para os metal\u00fargicos do ABC mas tamb\u00e9m para o conjunto da popula\u00e7\u00e3o brasileira ao se tornar o 1o oper\u00e1rio eleito presidente da rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Um l\u00edder sindical que atrav\u00e9s da persist\u00eancia e da fidelidade com suas origens, imbu\u00eddo de suas convic\u00e7\u00f5es, entre elas a de que os \u201cpatr\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o os nossos inimigos\u201d consegue chegar ao mais alto posto do poder pol\u00edtico no Brasil.<\/p>\n<p>Enfim o filme: \u201cLula, O Filho do Brasil\u201d \u00e9 um fant\u00e1stico document\u00e1rio de propaganda pol\u00edtica e ideol\u00f3gica da perspectiva social democrata, n\u00e3o para a \u00e9poca retratada no filme; mas para a nossa atualidade.<\/p>\n<p>Muitos cr\u00edticos v\u00eaem no filme mais um elemento de campanha eleitoral para a ministra chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, o que n\u00e3o deixa de ser verdade. Mas essa obra tamb\u00e9m serve como elemento de propaga\u00e7\u00e3o de uma id\u00e9ia, de uma mensagem aos trabalhadores em \u00e9poca de crise econ\u00f4mica mundial e acentuada contradi\u00e7\u00f5es no mundo do trabalho, de que assim como nos anos 70, mesmo comgreves e ocupa\u00e7\u00f5es, o di\u00e1logo e a parceria devem estar sempre \u00e0 frente da condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das lideran\u00e7as de classe, sejam eles patr\u00f5es ou empregados.<\/p>\n<p>O modelo instaurado no ABC e ampliado pela CUT durante os anos 90 com a defesa do chamado sindicalismo de resultados perpassa hoje por uma s\u00e9ria onda de cr\u00edticas, pois o apogeu desse modelo de sindicalismo conciliat\u00f3rio e institucionalizado encontrou justamente no Governo do presidente \u201coper\u00e1rio\u201d seu cl\u00edmax e ao mesmo tempo seu limite hist\u00f3rico, pois aumenta significativamente a onda de desfilia\u00e7\u00f5es das entidades de base ao n\u00e3o identificarem mais nesse modelo sindical uma real alternativa de luta frente aos efeitos da crise.<\/p>\n<p>Mesmo assim a associa\u00e7\u00e3o do homem retirante com o l\u00edder sindical e com o presidente eleito que ap\u00f3s ser derrotado por tr\u00eas vezes, n\u00e3o desistiu, vencendo as elei\u00e7\u00f5es de 2002 \u00e9 justamente a s\u00edntese desejada tanto pelos que defendem o atual governo em ano eleitoral, como os que defendem o legado hist\u00f3rico da CUT e seus sindicatos org\u00e2nicos, como os que defendem a manuten\u00e7\u00e3o desse modelo de governo socialiberal, calcado na mais profunda alian\u00e7a de classe j\u00e1 operada entre a burguesia e a nova burocracia sindical e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda outro elemento que n\u00e3o pode ser desconsiderado e nada mais justo que parafrasear o pr\u00f3prio presidente Lula: \u201cnunca antes na hist\u00f3ria desse pa\u00eds\u201d, um presidente que n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es legais de ser candidato ao pr\u00f3ximo pleito j\u00e1 antecipou sua campanha para 2014 com tanta pompa e intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>O filme sem sombra de d\u00favida estar\u00e1 presente no imagin\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o brasileira ao longo desses pr\u00f3ximos anos tornando-se mais um acess\u00f3rio de propaganda ideol\u00f3gica, utilizada pelo PT em torno da figura de Lula sempre que se fizer necess\u00e1rio, pois como bem est\u00e1 sintetizado em seu t\u00edtulo, LULA seria o filho natural de toda uma na\u00e7\u00e3o chamada Brasil.<\/p>\n<p>Nem Get\u00falio Vargas inspirado em Joseph Goebbels, quando criou o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) inaugurando na hist\u00f3ria da rep\u00fablica o uso do marketing pol\u00edtico para a auto promo\u00e7\u00e3o, chegaria a tanto!<\/p>\n<p>*Professor de Hist\u00f3ria e Filosofia e membro do CC do PCB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: www.correiocidadania.com.br\n\n\n\n\nF\u00e1bio Bezerra*\nPela primeira vez na hist\u00f3ria do cinema, um presidente da rep\u00fablica ainda em pleno mandato, tem dedicada sua biografia \u00e0 s\u00e9tima arte, com um grande apelo \u00e0 trajet\u00f3ria de quem venceu a fome e as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es as quais os retirantes nordestinos s\u00e3o submetidos desde o \u00eaxodo do sert\u00e3o at\u00e9 chegar \u00e0s favelas na periferia de S\u00e3o Paulo. O filme sobre a trajet\u00f3ria de Lula \u00e9 uma superprodu\u00e7\u00e3o para os padr\u00f5es brasileiros, financiado com recursos de diversas empresas privadas, entre elas empreiteiras que est\u00e3o diretamente envolvidas nas obras do PAC, tais como a Odebrecht e Camargo Corr\u00eaa e empresas prestadoras de servi\u00e7os ou parceiras na explora\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9-sal, como o grupo EMX, do empres\u00e1rio Eike Batista.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/253\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-253","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-45","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=253"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=253"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=253"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=253"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}