{"id":25335,"date":"2020-04-14T21:54:12","date_gmt":"2020-04-15T00:54:12","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25335"},"modified":"2020-04-14T21:54:12","modified_gmt":"2020-04-15T00:54:12","slug":"cultura-em-tempos-de-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25335","title":{"rendered":"Cultura em tempos de pandemia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/BJ1Ypflok3PGjjVQiG00zax7mIs8fc5RP29wzm6wSFq4eZdgaK-BMNet45Cx4dmEhDzdgIXEyt2WQoSCXYeH-2PTHTKffvlDgoklLOpQRLYp5lYcNH0Ez0RsnFCaP3Oe_uPQPiH-SniGRXsmoXBiQpg_9eSD4_xAj0aDjKE85fW3UR5zATJ97TYiVizHvJ9B2jVixXD_fkxVWiAiYEaPSAY2KiYJOKDz6wGoP-wmDwjyWRaKOOVCeRl6lM_zFkf-xsVMgYG7cCz_CW6joZgx4HnM-hR7fMiugK6by3dFtAjXL-cPoqBdCOAzhx-aTRkHqmrO-2SrT4t_fTscuZuOsSOS8SXY5MyynH9GVWePgZ7wtwgQKlu6verkEocX-AQ-HbJTSBtGI-XnM8hlqLUhr3CKU8ClAXyu2a_ahcfVNhbbGNsLSLK4eMHgqMIuLMfgSGIx4Wh7ryN-05oDWcWvSraDPHRa7L6-3oSmJfzCeDOTMAfoHrv51iectIV9FYr9CPaZV8JksxsXKbMMsGQ7YPIMVs7bwOaFp0RUH5tGn28Dc11wlPCNzcVwMxQLegSrI6dvzqGt2_8Esz4_BsMf-okYmQ_Sp0RfTecPtFemdlq8D_L586PtxhETbgi7tsNRtXKNFfO2Vx9Tq_k9IXdSuCUFAmkPWcZfQOJqOmqQjP0gHWFugrHata3oxVzRX_tC1JiYO-ZKbYOykKHniOkTdvVWz9m8NdLRl4n17hZsOJIK4ibyh2wSTg=w548-h685-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->DEMOCRACIA DA CULTURA EM TEMPOS DE PANDEMIA<\/p>\n<p>Por Rafael Ayres*<br \/>\nIlustra\u00e7\u00e3o de Allan Brasil e Gabriel Borem<\/p>\n<p>A cena \u00e9 relativamente comum: seja para relaxar, aprender, distrair ou prestigiar seu artista\/comunicador, voc\u00ea acessa a internet, abre o Youtube, Instagram ou Facebook, para ver um v\u00eddeo, curtir uma postagem e ouvir m\u00fasica. De repente, acontece: a pr\u00f3xima atra\u00e7\u00e3o sugerida \u00e9 algo completamente diferente do que voc\u00ea estava esperando, ou mesmo do que voc\u00ea tem interesse (principalmente se voc\u00ea for uma pessoa de esquerda). Sua primeira impress\u00e3o \u00e9 achar que o algoritmo errou com voc\u00ea. Um erro inocente. Ser\u00e1?<\/p>\n<p>Temos a tend\u00eancia de achar que estamos num per\u00edodo extremamente democr\u00e1tico em rela\u00e7\u00e3o aos produtos culturais. Com a internet, basta pesquisar e tudo est\u00e1 l\u00e1: as vanguardas, as novas tend\u00eancias, toda a arte j\u00e1 produzida no mundo &#8211; tudo pode ser facilmente encontrado no mundo virtual. E, com a COVID-19, a internet se tornou a principal forma de acessarmos a arte \u2013 al\u00e9m da TV, do r\u00e1dio e dos livros. E a resposta ao isolamento social, proposto pelos trabalhadores da cultura e institui\u00e7\u00f5es culturais, parece bastante \u00f3bvia: lives de m\u00fasicos e atores, museus com seus acervos online, produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado de forma gratuita, cursos, aulas, etc. Finalmente chegamos \u00e0 forma definitiva de democratiza\u00e7\u00e3o da cultura: tudo dispon\u00edvel na internet, um toque na tela de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, essa &#8220;democracia&#8221; esbarra numa quest\u00e3o fundamental: os distribuidores da cultura virtual. No mundo anterior \u00e0 era virtual, o papel da distribui\u00e7\u00e3o e exibi\u00e7\u00e3o da cultura estava nas m\u00e3os da Igreja, do Estado e do mecenato burgu\u00eas; agora, com a possibilidade da reprodu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, potencializada ao m\u00e1ximo pela internet, temos novos \u201cplayers\u201d que contribuem, com peso desproporcional, no papel da cria\u00e7\u00e3o da demanda por cultura. O aumento desta oferta de cultura \u00e9 somente isto: o aumento da oferta. O encontro dela com seu p\u00fablico depende de um mediador &#8211; o novo \u201cplayer\u201d \u2013 sob o qual n\u00f3s, trabalhadores, n\u00e3o temos nenhum controle. No Brasil, esse mediador se traduz pelos nomes de Facebook e Google.<\/p>\n<p>Essas duas empresas s\u00e3o donas da distribui\u00e7\u00e3o de conte\u00fado para praticamente 95% das pessoas que t\u00eam acesso \u00e0 internet (no Brasil, esse n\u00famero gira em torno de 70%), e o fazem via WhatsApp, Facebook, Youtube e Instagram. J\u00e1 sabemos a forma como essas empresas usam seu poder &#8220;distributivo&#8221; a seu favor, com interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos pr\u00f3prios. Basta lembrar o que at\u00e9 mesmo plataformas liberais sem nenhuma simpatia pelo comunismo demonstram em suas mat\u00e9rias investigativas: em duas delas, publicadas em agosto e novembro de 2019, a Intercept Brasil comprova a a\u00e7\u00e3o direta do Google para treinar e beneficiar produtores de conte\u00fado de direita e extrema direita, influenciando diretamente as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais no Brasil.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as pol\u00edticas de exibi\u00e7\u00e3o dessas plataformas (os famosos algoritmos) obedecem \u00e0 l\u00f3gica capitalista \u2013 ou seja, quanto maior o n\u00famero de visualiza\u00e7\u00f5es, maior o potencial propagand\u00edstico e de receita que certa foto\/v\u00eddeo pode oferecer de volta \u00e0 empresa &#8211; praticamente sem filtros sobre qualquer qualidade\/veracidade do material apresentado. E n\u00e3o s\u00f3 isso: agora, caso voc\u00ea queira uma experi\u00eancia mais \u201cagrad\u00e1vel\u201d como usu\u00e1rio, voc\u00ea s\u00f3 precisa pagar uma taxa mensal para se livrar das milhares de propaganda e restri\u00e7\u00f5es que aparecem a todo momento. Ou seja, as plataformas ganham dinheiro (e exploram os trabalhadores da cultura) de tr\u00eas formas distintas: nas propagandas veiculadas (com uma \u201csuposta\u201d concord\u00e2ncia do produtor de conte\u00fado), na cobran\u00e7a de taxas mensais, e na venda indiscriminada de nossos padr\u00f5es de navega\u00e7\u00e3o (e dados supostamente sigilosos) para quem puder pagar melhor. Trump j\u00e1 se aproveitou disso. A NSA tamb\u00e9m. E n\u00e3o nos esque\u00e7amos das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais do Brasil. Ou seja, aquele v\u00eddeo recomendado a voc\u00ea por engano, n\u00e3o \u00e9 um erro. \u00c9 um projeto.<\/p>\n<p>Portanto, por mais que os trabalhadores da cultura se esforcem para produzir mais conte\u00fado neste momento dif\u00edcil (e este esfor\u00e7o \u00e9 extremamente v\u00e1lido), essa rela\u00e7\u00e3o entre aumento da oferta e democratiza\u00e7\u00e3o da cultura \u00e9 falsa. Sempre haver\u00e1 mais visibilidade para lives de artistas famosos &#8211; que desrespeitam todas as recomenda\u00e7\u00f5es de isolamento social e fazem os trabalhadores se exporem a riscos desnecess\u00e1rios &#8211; n\u00e3o somente porque s\u00e3o famosos, mas porque &#8211; como demonstrado anteriormente &#8211; podem gerar mais valor para as plataformas que os veiculam.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, do ponto de vista da cultura classista, n\u00e3o basta simplesmente alimentar tais plataformas com conte\u00fado e temas revolucion\u00e1rios. Ciente desta situa\u00e7\u00e3o, o trabalhador da cultura com consci\u00eancia de classe pode encontrar em Walter Benjamin, no seu texto &#8220;Autor como Produtor&#8221; (1934), a seguinte formula\u00e7\u00e3o: &#8220;o aparelho burgu\u00eas de produ\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o pode assimilar uma surpreendente quantidade de temas revolucion\u00e1rios (&#8230;) sem colocar seriamente em risco sua pr\u00f3pria exist\u00eancia e a exist\u00eancia das classes que o controlam&#8221;. Neste sentido, Brecht diz que n\u00e3o podemos abastecer o aparelho de produ\u00e7\u00e3o sem modific\u00e1-lo, na medida do poss\u00edvel, num sentido socialista. Benjamin complementa: \u201cseu trabalho n\u00e3o ser\u00e1 jamais a fabrica\u00e7\u00e3o exclusiva de produtos, mas sempre, ao mesmo tempo, a dos meios de produ\u00e7\u00e3o\u201d. Ou seja, nossa reflex\u00e3o sobre a democratiza\u00e7\u00e3o da cultura deve dar um passo adiante. Fica claro que o acesso \u00e0 cultura n\u00e3o pode ser considerado democr\u00e1tico somente porque existe mais oferta do mesmo. \u00c9 necess\u00e1rio refletir tamb\u00e9m sobre como transformar o pr\u00f3prio meio no qual se insere a produ\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, a esquerda deve pensar em modos de ressignificar as novas formas de comunica\u00e7\u00e3o, o que implica confrontar as formas hegem\u00f4nicas e reacion\u00e1rias consolidadas pelo aparelho vigente.<\/p>\n<p>Obviamente, a transforma\u00e7\u00e3o completa destes meios s\u00f3 ocorre em num ambiente revolucion\u00e1rio, com a consolida\u00e7\u00e3o do poder popular. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel criar dentro do sistema capitalista, com o mesmo tamanho e intensidade, um aparelho de produ\u00e7\u00e3o que concorra com a hegemonia vigente. Mas os primeiros passos (te\u00f3ricos e experimentais) precisam ser dados, e, para isso, \u00e9 necess\u00e1rio ocupar os aparelhos vigentes e tamb\u00e9m questionar sua fun\u00e7\u00e3o. Pensar a possibilidade de novas formas e fun\u00e7\u00f5es dentro da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e9 imperativo, dadas as condi\u00e7\u00f5es materiais sob as quais vivemos hoje. Parafraseando Benjamin, precisamos refletir nossa posi\u00e7\u00e3o no processo produtivo, o que implica pensar o artista como trabalhador da cultura, j\u00e1 que esta categoria, em sua grande maioria, \u00e9 composta por artistas que est\u00e3o a cada dia mais distantes dos astros e estrelas da ind\u00fastria cultural, e cada vez mais pr\u00f3ximos do trabalho precarizado ou do desemprego.<\/p>\n<p>*Secretario de Organiza\u00e7\u00e3o do Coletivo Cultural Vianinha \u2013 S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p>Texto de Rafael Ayres<br \/>\nRevis\u00e3o de Wesley Fraga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25335\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[13],"tags":[225],"class_list":["post-25335","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s14-cultura","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6AD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25335","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25335"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25335\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25335"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25335"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25335"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}