{"id":25338,"date":"2020-04-14T21:57:14","date_gmt":"2020-04-15T00:57:14","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25338"},"modified":"2020-04-19T22:35:09","modified_gmt":"2020-04-20T01:35:09","slug":"caminhoneiros-e-trabalho-de-base","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25338","title":{"rendered":"Caminhoneiros e trabalho de base"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/thumbor-prod-eu-central-1.photo.aws.arc.pub\/2yGYxnpmIkzmqfimy0VRfpvKXXI%3D\/arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa\/public\/LEJE3B2BJBUACSQT3VBSIRYXWU.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Marcelo Schmidt<\/p>\n<p>Gostaria de agradecer o camarada Leo Tentaculorum de Blumenau, por me auxiliar bastante na produ\u00e7\u00e3o deste pequeno artigo sobre a cr\u00edtica do trabalho de base e os caminhoneiros do Brasil. Outros sete estudos seguir\u00e3o sobre: rodovi\u00e1rios, mar\u00edtimos, portu\u00e1rios, aerovi\u00e1rios, aeronautas, metrovi\u00e1rios e ferrovi\u00e1rios, para todos aqueles que se interessam pelas categorias estrat\u00e9gicas do transporte.<\/p>\n<p>Um dos meus filmes prediletos \u00e9: \u201cOs Fuzis\u201d, de Ruy Guerra. O filme fala do papel do Ex\u00e9rcito na conten\u00e7\u00e3o social da mis\u00e9ria brasileira, mas tamb\u00e9m fala da tomada de consci\u00eancia de um trabalhador caminhoneiro, o Ga\u00facho. A metamorfose da consci\u00eancia de classe deste trabalhador e como isso impacta na consci\u00eancia dos trabalhadores militares e da comunidade est\u00e1 no centro da trama.<\/p>\n<p>Este filme abre o microcosmo de uma categoria muito pouco estudada no Brasil, no interior de um setor completamente carente de uma estrat\u00e9gia de integra\u00e7\u00e3o log\u00edstica nacional. Se existe um setor carente da revolu\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 o setor de transportes. E neste a parte mais carente \u2014 e potencialmente poderosa \u2014 de conhecer e exercitar o poder da classe s\u00e3o os caminhoneiros.<\/p>\n<p>Os trabalhadores caminhoneiros cortam o Brasil de norte a sul e de leste a oeste. Isso n\u00e3o \u00e9 uma novidade. Desde os anos 1980, vemos esta importante categoria, estrat\u00e9gica para a circula\u00e7\u00e3o de mercadorias, aumentando em n\u00famero e diversificando a sua composi\u00e7\u00e3o. Desde a destrui\u00e7\u00e3o da categoria ferrovi\u00e1ria, cujo golpe final se deu no fim dos anos 1980, os caminhoneiros ou rodovi\u00e1rios da carga, aut\u00f4nomos e empregados de grandes ou pequenas empresas assumem a ponta da estrat\u00e9gica log\u00edstica do Brasil.<\/p>\n<p>Mas quem s\u00e3o os caminhoneiros? Os trabalhadores deste setor estrat\u00e9gico n\u00e3o s\u00e3o muito conhecidos pela maioria dos especialistas no trabalho organizativo, que tamb\u00e9m desconhece o conjunto dos trabalhadores em transportes. As centrais sindicais praticamente n\u00e3o os organizam. Uma quest\u00e3o de poder negligenciada pelas for\u00e7as populares. Os partidos revolucion\u00e1rios t\u00eam um d\u00e9ficit absurdo na organiza\u00e7\u00e3o do setor rodovi\u00e1rio como um todo.<\/p>\n<p>A categoria dos caminhoneiros \u00e9 a categoria estrat\u00e9gica mais fragmentada, a mais n\u00e3o politizada pelas for\u00e7as populares, a mais distante da organiza\u00e7\u00e3o classista dentre os trabalhadores em transportes. Para se ter uma ideia, os trabalhadores mar\u00edtimos possuem uma \u00fanica federa\u00e7\u00e3o; os metrovi\u00e1rios tamb\u00e9m uma, ambas poderosas. Os trabalhadores ferrovi\u00e1rios, assim como os trabalhadores aeronautas, possuem uma federa\u00e7\u00e3o, em ambas situa\u00e7\u00f5es as federa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o muito fortes. O caso dos aeronautas \u00e9 um caso interessante porque os trabalhadores aeronautas s\u00e3o mais fortes que sua pr\u00f3pria federa\u00e7\u00e3o (estudaremos estes trabalhadores em outro momento). Os trabalhadores aerovi\u00e1rios est\u00e3o divididos em duas federa\u00e7\u00f5es. Os trabalhadores estivadores e portu\u00e1rios em geral t\u00eam tr\u00eas.<\/p>\n<p>Os rodovi\u00e1rios de passageiros t\u00eam 27 federa\u00e7\u00f5es, uma por estado, algumas tentativas interestaduais. Finalmente, os caminhoneiros t\u00eam, al\u00e9m das 27 federa\u00e7\u00f5es, mais in\u00fameras associa\u00e7\u00f5es. Um saco de gatos. Uma confedera\u00e7\u00e3o para os aut\u00f4nomos e outras para trabalhadores empregados, a CNTA e a CNTTT. H\u00e1 tentativas de fragmentar ainda mais o setor. Se os trabalhadores em transportes procuram unificar os setores de transportes em uma \u00fanica federa\u00e7\u00e3o ou por setores, para citar a poderosa CONTTMAF dos mar\u00edtimos, portu\u00e1rios e aerovi\u00e1rios, ou a CNTTL da CUT, j\u00e1 os caminhoneiros est\u00e3o completamente pulverizados. Este \u00e9 o seu maior desafio.<\/p>\n<p>Um outro desafio \u00e9 o processo de organiza\u00e7\u00e3o de base, a organiza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica em torno das suas demandas concretas, na luta de classes e no tempo de matura\u00e7\u00e3o do aprendizado pol\u00edtico do seu poder. Fazer a luta concreta encontrar a luta hist\u00f3rica. Existe uma vontade muito grande pelo trabalhador rodovi\u00e1rio de carga ou pelo caminhoneiro de compreender e de exercitar o seu poder.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que faltam especialistas para fazer este debate com excel\u00eancia pela cr\u00edtica do trabalho de base. A esquerda de modo geral desconhece os caminhoneiros. Ent\u00e3o, esta vontade de conhecer e de exercitar poder de forma coletiva e classista esbarra no d\u00e9ficit organizativo da classe e, mais especificamente, o deste setor. As explos\u00f5es s\u00e3o difusas, as lideran\u00e7as s\u00e3o cooptadas e instrumentalizadas por pelegos, por for\u00e7as da direita para a\u00e7\u00f5es liberais e fascistas; o caminhoneiro distancia-se da sua base concreta para \u201cpedir diminui\u00e7\u00e3o de impostos\u201d e \u201cinterven\u00e7\u00e3o militar\u201d, por exemplo. Quanto mais se distancia da sua base concreta, mais se distancia da luta de classes. A direita, a m\u00eddia e o governo j\u00e1 entenderam a import\u00e2ncia destes trabalhadores que, a partir de 2012, ensaiam \u2014 mas a partir de 2016-7 explodiram \u2014 em demandas de proje\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Primeiramente, \u00e9 preciso se reportar ao perfil do trabalhador aut\u00f4nomo, mas, por analogia, dos demais trabalhadores caminhoneiros. S\u00e3o trabalhadores com carga hor\u00e1ria do in\u00edcio do s\u00e9culo 20: na m\u00e9dia, trabalham 14 horas di\u00e1rias, alguns 16 horas e outros 18 horas. No m\u00ednimo 12 horas, sob grande inseguran\u00e7a nas estradas, com baixo apoio log\u00edstico e atomizados na maioria do tempo. Sozinhos. At\u00e9 bem pouco tempo, estavam literalmente sozinhos e largados. Esta carga hor\u00e1ria de trabalho absurda e a total falta de uma estrat\u00e9gia de transportes de cargas e passageiros para o Brasil fazem com que eles percorram enormes dist\u00e2ncias, e por isso mesmo seguem aprendendo o Brasil.<\/p>\n<p>Pois bem, eles conhecem muito bem o Brasil e suas car\u00eancias. S\u00e3o homens e mulheres simples com um perfil do ferrovi\u00e1rio de antes da sua organiza\u00e7\u00e3o nos anos 1920. Ainda sobre esta enorme carga de trabalho, ela aporta ilus\u00f3rios R$ 10 mil ou R$ 12 mil. S\u00e3o R$ 4 mil geralmente comprometidos com as presta\u00e7\u00f5es do caminh\u00e3o, R$ 3 mil com despesas correntes e de R$ 2 mil a R$ 4 mil para casa. Absurdo? Sim. Por isso, suas demandas s\u00e3o as daqueles que trabalham pra comer, e se pararem n\u00e3o comem.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o quais s\u00e3o as demandas mais prementes e mais concretas? E quais seriam as demandas dos trabalhadores mais estrat\u00e9gicos deste setor estrat\u00e9gico? E, neste sentido, neste momento de pandemia, o que seria priorit\u00e1rio para levantar o debate do conjunto das suas demandas? Poder\u00edamos listar desde a seguran\u00e7a nas estradas at\u00e9 o valor do frete. Este \u00e9 o momento em que a sa\u00fade do trabalhador est\u00e1 mais em risco, para a economia do pa\u00eds n\u00e3o parar e fazer com que alimentos cheguem nas casas das pessoas. Ironicamente, a maioria n\u00e3o tem plano de sa\u00fade e, portanto, depende do setor p\u00fablico, do SUS, desde a emerg\u00eancia at\u00e9 o cuidado da sa\u00fade de profissionais que passaram dos 40 anos, em m\u00e9dia. Hoje poder\u00edamos dizer que se um trabalhador caminhoneiro pegar o coronav\u00edrus, ele n\u00e3o ter\u00e1 qualquer assist\u00eancia ou seguro.<\/p>\n<p>Vamos colocar estas demandas de modo mais claro:<\/p>\n<p>\u2022 A sa\u00fade p\u00fablica precisa funcionar, principalmente o resgate nas estradas, mas tamb\u00e9m o trabalho rotineiro de cuidado da sa\u00fade de quem passa muito tempo sentado. Agora, com a pandemia do coronav\u00edrus, as medidas de sa\u00fade precisam ser extremas, com fornecimento de EPIs e medi\u00e7\u00e3o de temperatura corporal nas estradas.<\/p>\n<p>\u2022 \u00c9 preciso acertar imediatamente um valor compensat\u00f3rio para estes trabalhadores, no caso de ca\u00edrem doentes. O valor de R$ 600, aprovado recentemente para trabalhadores aut\u00f4nomos, \u00e9 muito baixo. Como vimos acima, \u00e9 necess\u00e1rio um valor entre R$ 2 mil a R$ 4 mil para manter este trabalhador naquilo que lhe \u00e9 mais essencial.<\/p>\n<p>\u2022 \u00c9 preciso imediatamente rever o financiamento do seu caminh\u00e3o, com o governo assumindo as parcelas n\u00e3o pagas das presta\u00e7\u00f5es vencidas e vincendas do instrumento de trabalho do caminhoneiro.<\/p>\n<p>\u2022 O valor m\u00ednimo do frete precisa ser colocado em lei, ainda que este valor m\u00ednimo tenha sido conquistado na pr\u00e1tica pelas \u00faltimas greves e pela amea\u00e7a de greve no fim de 2019.<\/p>\n<p>\u2022 O valor do diesel, que est\u00e1 baixo devido \u00e0 pandemia, precisa ter pre\u00e7o tabelado em lei no Brasil e desenvolver outras formas de combust\u00edvel mais barato e mais autossustent\u00e1vel (amigo do meio ambiente) precisa ser ponto priorit\u00e1rio da pesquisa cient\u00edfica brasileira.<\/p>\n<p>\u2022 O valor do ped\u00e1gio precisa ser subsidiado, e o que hoje \u00e9 a pol\u00edtica de n\u00e3o pagar por caminh\u00e3o vazio como se paga por caminh\u00e3o cheio (\u201ccobran\u00e7a por eixos\u201d) precisa ser colocada em lei.<\/p>\n<p>\u2022 \u00c9 preciso uma pol\u00edtica nacional de integra\u00e7\u00e3o nacional multimodal, que priorize o transporte mar\u00edtimo e ferrovi\u00e1rio, mas tamb\u00e9m o de cargas, e com infraestrutura rodovi\u00e1ria excelente. A maioria esmagadora das estradas brasileiras n\u00e3o \u00e9 asfaltada.<\/p>\n<p>\u2022 Por fim, na conex\u00e3o com as demandas concretas, o processo organizativo classista precisa do quadro, um agente preparado para fazer a jun\u00e7\u00e3o daquelas com o panorama da luta de classes.<\/p>\n<p>O melhor local de trabalho de base cr\u00edtico s\u00e3o os ped\u00e1gios estrat\u00e9gicos em torno dos arcos rodovi\u00e1rios das grandes cidades. No caso do Estado do Rio de Janeiro, em Serop\u00e9dica. Cada estado tem um. Isso \u00e9 comum no setor de transportes, a escolha de um local priorit\u00e1rio de organiza\u00e7\u00e3o pelo debate construtor de consci\u00eancia da classe a partir da discuss\u00e3o da demanda concreta. Um quadro preparado, externo, precisa encontrar outro interno, e ambos neste processo devem conduzir o trabalho tanto via panfleto como tamb\u00e9m pela porta de entrada das m\u00eddias sociais; mas o trabalho de base cr\u00edtico s\u00f3 se materializa pelo debate humano, um a um, nos locais de trabalho: restaurantes, confraterniza\u00e7\u00f5es, ped\u00e1gios, encontros, caravanas, etc. Uma estrutura m\u00ednima associativa na estrutura vigente precisa partir da demanda concreta: um comunicado para checar a sa\u00fade, aten\u00e7\u00e3o jur\u00eddica pela enorme quantidade de multas de tr\u00e2nsito que estes profissionais est\u00e3o submetidos etc. aproxima o quadro externo do interno, e estes da base organizada. Para fazer o complexo, precede o simples.<\/p>\n<p>Para a constru\u00e7\u00e3o do Poder Popular, a quest\u00e3o do poder de trabalhadores capazes de parar a produ\u00e7\u00e3o do sistema capitalista precisa estar no centro da pauta sobre o poder classe trabalhadora e, nisto, a quest\u00e3o do poder dos trabalhadores caminhoneiros est\u00e1 no centro da ordem do dia da luta de classes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25338\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[56,31],"tags":[224],"class_list":["post-25338","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c67-greve","category-c31-unidade-classista","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6AG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25338","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25338"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25338\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25338"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25338"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25338"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}