{"id":25358,"date":"2020-04-16T23:56:00","date_gmt":"2020-04-17T02:56:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25358"},"modified":"2020-04-16T23:56:00","modified_gmt":"2020-04-17T02:56:00","slug":"a-pandemia-e-a-economia-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25358","title":{"rendered":"A pandemia e a economia da morte"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/media.zenfs.com\/en-US\/reuters.com\/ba841bf752ad1439348866170854b730\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->S\u00f3crates Menezes*<\/p>\n<p>O mundo se encontra hoje precisamente entre duas pandemias. A primeira est\u00e1 no campo das condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias globais, precarizadas e dilapidadas por, pelo menos, quatro d\u00e9cadas de pol\u00edticas neoliberais. Estas que possibilitaram um surto viral se tornar pand\u00eamico e assassino, dada a incapacidade absurda dos sistemas nacionais de sa\u00fade tratarem seus doentes infectados pelo novo coronav\u00edrus. Como aponta Mike Davis, s\u00f3 nos EUA, atual epicentro da crise (citando um pa\u00eds de economia central), o hist\u00f3rico enfraquecimento do sistema de sa\u00fade, que absorveu cegamente a cartilha just in time da produtividade neoliberal, causou a redu\u00e7\u00e3o em 39% da quantidade dos leitos hospitalares entre os anos 1981 e 1999. Atualmente, os 45.000 leitos dos hospitais americanos, representam um n\u00famero caoticamente tr\u00e1gico frente a proje\u00e7\u00e3o de um milh\u00e3o de infectados no pa\u00eds. Essa incapacita\u00e7\u00e3o do sistema de sa\u00fade na principal economia global foi criada por uma l\u00f3gica muito simples: os hospitais particulares (empresas lucrativas) tiveram que implementar a pol\u00edtica de \u201ccorte de gordura\u201d, fechando leitos ociosos (mas providenciais nos recorrentes surtos virais, como em 2009 e 2018) para aumentar a taxa de ocupa\u00e7\u00e3o, reduzindo custos e viabilizado lucrativamente os gastos privados.<\/p>\n<p>A segunda pandemia, n\u00e3o menos desastrosa, est\u00e1 no campo da \u201cracionaliza\u00e7\u00e3o capitalista\u201d da crise. Foi com muita perplexidade que os ouvidos mais sensatos e preocupados com a vida das pessoas escutaram os clamores de algumas de suas principais lideran\u00e7as pol\u00edticas e econ\u00f4micas: o absurdo de que \u201ca economia n\u00e3o pode parar!\u201d, apesar da crescente morte de milhares pelo mundo. E o discurso se apresentou com um claro tom imperativo sobre a exig\u00eancia do retorno dos trabalhadores aos seus postos, bem como dos consumidores \u00e0 suas compras. Inicialmente, o clamor ultraliberal saiu de bocas mais est\u00fapidas. Figuras da import\u00e2ncia de Donald Trump, Boris Johnson e Jair Bolsonaro defenderam a normalidade econ\u00f4mica frente \u00e0 extraordinariedade necr\u00f3fila que se espalhava pelo mundo. Tamb\u00e9m figuras empresariais brasileiras, n\u00e3o menos pat\u00e9ticas, como Roberto Justus (apresentador), Lucianno Hang (rede Havan) e Alexande Guerra (rede Giraffas), tentaram compor alguma racionalidade na recomenda\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0quelas dos \u00f3rg\u00e3os de sa\u00fade do Brasil e do mundo.<\/p>\n<p>Logo, logo, algum argumento pseudol\u00f3gico contaminaria o esfor\u00e7o solid\u00e1rio com que a sociedade se mobiliza em torno do isolamento social e em prol da vida humana. Esse movimento, ent\u00e3o de car\u00e1ter claramente elitista-empresarial, ganha corpo pol\u00edtico at\u00e9 sair \u00e0s ruas no que ficou chamado no Brasil de \u201ccarreatas da morte\u201d. Isso ocorreu exatamente no mesmo momento em que figuras como Giuseppe Sala (prefeito de Mil\u00e3o, It\u00e1lia), al\u00e9m do pr\u00f3prio Trump e Johnson, revisaram seus posicionamentos e, vergonhosamente, se renderam a desastrosa realidade pand\u00eamica que se montava \u00e0 suas caras. A pandemia da (ir)racionalidade do mercado e seu discurso f\u00fanebre ent\u00e3o se alastra pelo corpo social colocando frente \u00e0 frente vida humana versus economia capitalista.<\/p>\n<p>O Discurso e a Realidade da Economia da Morte<\/p>\n<p>O discurso da morte \u00e9 um incr\u00edvel absurdo, mas cinicamente \u201chumanit\u00e1rio\u201d: \u201cAs consequ\u00eancias que n\u00f3s vamos ter economicamente, no futuro, ser\u00e3o muito maiores do que as pessoas que v\u00e3o morrer agora com coronav\u00edrus&#8221;, &#8220;O Brasil n\u00e3o pode parar dessa maneira. O Brasil n\u00e3o aguenta. Tem que ter trabalho. As pessoas t\u00eam que produzir, t\u00eam que trabalhar&#8230;\u201d. \u201cMas n\u00f3s n\u00e3o podemos [parar], por conta de 5.000 pessoas ou 7.000 pessoas que v\u00e3o morrer&#8230;\u201d, como alardeou Junior Duski, o dono da rede de hamburgueria Madero. Parece que a burguesia redescobriu a centralidade do trabalho e dos trabalhadores na vida econ\u00f4mica (ao mesmo tempo em que os p\u00f3s-modernos insistem em um mil\u00eanio que se recusa a chegar).<\/p>\n<p>O absurdo do discurso empresarial est\u00e1 na admiss\u00e3o da morte de milhares de pessoas para a manuten\u00e7\u00e3o da vida econ\u00f4mica do mercado. E \u00e9 igualmente incr\u00edvel a falta de pudor, minimamente moral, do discurso. A parte c\u00ednica do argumento est\u00e1 na forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o do trabalhador, agora objeto da suposta preocupa\u00e7\u00e3o burguesa. Se desempregado, se precarizado, se informalizado, se uberizado, se hifenizado, se miserabilizado&#8230;, a situa\u00e7\u00e3o do trabalhador brasileiro, que sofrer\u00e1 ainda mais com o influxo econ\u00f4mico capitalista, n\u00e3o tem outra origem sen\u00e3o a rapinagem despudorada que essa elite empresarial, financeira e escravista promoveu ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas neste pa\u00eds. Recentemente, basta lembrar que os formuladores e apologetas desse discurso da morte foram os mesmos que se esfor\u00e7aram em engrossar o apoio \u00e0 reforma da previd\u00eancia, \u00e0 reforma trabalhista e \u00e0 \u201cPEC da maldade\u201d. Estas pol\u00edticas admitidas pelo Estado, juntas, retiraram ainda mais os direitos do trabalhador brasileiro, rebaixando seu n\u00edvel de vida material, al\u00e9m de n\u00e3o ter avan\u00e7ado em nada no problema do desemprego e ter jogado as pol\u00edticas sociais, inclusive aquelas voltadas para a sa\u00fade, a um reduto vergonhoso do Estado.<\/p>\n<p>A impossibilidade de o trabalhador empobrecido pelas pol\u00edticas neoliberais ficar em casa e ter que se expor \u00e0 morte pelo trabalho n\u00e3o \u00e9 nada mais do que produto de uma necessidade pr\u00f3pria da forma como a economia de mercado exclui esse mesmo trabalhador dos meios de produ\u00e7\u00e3o e subsist\u00eancia. Por parte dos trabalhadores, a reposta seria, de um ponto de vista economicamente l\u00f3gico, a tomada do controle daquelas empresas que seus donos n\u00e3o conseguirem sustentar durante a longa crise que est\u00e1 por vir. Ora, se a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 importante, se o trabalho \u00e9 importante, se o emprego \u00e9 importante, etc, os neg\u00f3cios fechar\u00e3o porque os empres\u00e1rios n\u00e3o lucrar\u00e3o mais e a contento? Exatamente eles, arautos da riqueza nacional, os \u201cprodutores\u201d, os respons\u00e1veis pela sa\u00fade financeira do pa\u00eds, eles que se vangloriam de estar \u00e0 frente do comando econ\u00f4mico por conta de sua ast\u00facia e intelig\u00eancia nos neg\u00f3cios, esses mesmos \u201cempreendedores\u201d que nas recess\u00f5es reverberam para os trabalhadores desempregados que a crise n\u00e3o seria nada mais que \u201cuma abertura de novas oportunidades\u201d, que \u201ca crise est\u00e1 em voc\u00ea\u201d? Obviamente isso n\u00e3o se daria sem uma luta de classes bastante intensa e dentro de um quadro de possibilidades o qual ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar. Mas o cinismo da burguesia continua sendo, assim como sempre, o \u00faltimo instrumento de disfarce, na pat\u00e9tica tentativa de convencimento geral de que os seus interesses privados pelo lucro s\u00e3o uma necessidade social. Eis que isso agora se exp\u00f5e: a impossibilidade da \u201cm\u00e3ozinha do mercado\u201d socorrer o pr\u00f3prio mercado.<\/p>\n<p>No entanto, apesar de esdr\u00faxulo, o discurso da morte pela vida econ\u00f4mica exp\u00f5e uma verdade dram\u00e1tica. Do ponto de vista do capital, as condi\u00e7\u00f5es atuais da crise econ\u00f4mica estrutural (que se arrasta fenomenicamente desde 2008) n\u00e3o permitem uma paralisa\u00e7\u00e3o causada por qualquer influxo da produ\u00e7\u00e3o e do consumo de mercadorias, mesmo que seja em prol da preserva\u00e7\u00e3o de milhares de vidas. Embora a admiss\u00e3o desse limite do capital, frente \u00e0s demandas humanas mais b\u00e1sicas pela sobreviv\u00eancia, tenha vindo de figuras protofascistas, porque elas comp\u00f5em um projeto de sociedade admitidamente necr\u00f3fila, descolado de qualquer heran\u00e7a civilizat\u00f3ria do capitalismo moderno, \u00e9 preciso tamb\u00e9m reconhecer as contradi\u00e7\u00f5es do discurso que preza a assimila\u00e7\u00e3o entre preserva\u00e7\u00e3o das vidas pelo isolamento social e, ao mesmo tempo, prote\u00e7\u00e3o \u00e0 economia de mercado. Vinda de vozes aparentemente mais sensatas, da m\u00eddia tradicional ou da economia liberal, a cartilha \u201chumanit\u00e1ria\u201d do capital \u00e9 un\u00edvoca: direcionamento de recursos p\u00fablicos para salvaguardar a vida das pessoas em quarentena pela garantia da capacidade de consumo delas, al\u00e9m do salvamento das empresas privadas amea\u00e7adas de fal\u00eancia. Ou seja, uma solu\u00e7\u00e3o pouco ousada, pouco criativa, pouco eficaz, que apenas refor\u00e7a duas certezas: primeiro, a baixa capacidade dos apologetas da economia de mercado entenderem e proporem solu\u00e7\u00f5es concretas e reais \u00e0s crises causadas pelo mesmo sistema que defendem. E segundo: diante do agravamento das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e da vida social geral (quando \u201ctivermos que pagar a conta\u201d, especialmente no Brasil), a necess\u00e1ria constru\u00e7\u00e3o de alguma alternativa orientada para o controle social da produ\u00e7\u00e3o, do emprego e do trabalho.<\/p>\n<p>A Natureza Socioecon\u00f4mica da Pandemia<\/p>\n<p>A Pandemia do COVID-19 se inicia na China, especialmente na cidade de Wuhan, embora seja ainda desconhecida a origem efetiva do novo coronav\u00edrus. Ao que tudo indica, tem causas naturais, fruto de sele\u00e7\u00e3o natural a partir de intera\u00e7\u00e3o animal, at\u00e9 o cont\u00e1gio humano; hospedeiro providencial \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o do v\u00edrus que causa sintomas gripais com agravamento de problemas respirat\u00f3rios, principalmente em pessoas com baixa imunidade (PERTERSEN; RAMBAUT; LIPKIN, ET. AL, 2020). Portanto, a princ\u00edpio, trata-se apenas de mais um v\u00edrus que, assim como tantos outros, e em outras condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas, n\u00e3o seria qualquer motivo para alarde sanit\u00e1rio global. Mas sendo Wuhan importante centro comercial (com mais de 11 milh\u00f5es de habitantes) da segunda maior economia do mundo, propicia um quadro contextual favor\u00e1vel \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o viral. Aqui \u00e9 onde a\u00e7\u00f5es humanas, vinculadas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica predat\u00f3ria, encontram a potencialidade da natureza liberada, agora de forma destrutiva. Neste contexto, nota-se uma conflu\u00eancia complexa do que significam, mas tamb\u00e9m exemplificam, essas condi\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas e origin\u00e1rias do desenvolvimento desigual do capital. Como observou Alain Baidou, \u201ca China \u00e9, assim, um local onde se pode observar a liga\u00e7\u00e3o \u2013 primeiro por uma raz\u00e3o arcaica, depois moderna \u2013 entre uma conflu\u00eancia entre a natureza e a sociedade em mercados malconservados que seguiam costumes mais antigos, por um lado, e uma difus\u00e3o planet\u00e1ria deste ponto de origem transportado pelo mercado mundial capitalista e a sua depend\u00eancia de uma mobilidade r\u00e1pida e incessante, por outro\u201d.<\/p>\n<p>Nessas circunst\u00e2ncias se encontra, de forma mais desastrosa e contradit\u00f3ria, a rela\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica prim\u00e1ria homem-natureza mediada pela \u201crela\u00e7\u00e3o de segunda ordem\u201d do sistema econ\u00f4mico do capital, como escreveria Istv\u00e1n Mesz\u00e1ros. A l\u00f3gica \u00e9 relativamente simples: a natureza n\u00e3o tem uma din\u00e2mica absolutamente pr\u00f3pria, ou seja, separada das rela\u00e7\u00f5es humanas de produ\u00e7\u00e3o. Rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o, em suma, a forma como os homens se relacionam entre si e com a natureza para garantir sua exist\u00eancia. E isso varia absurdamente ao longo da hist\u00f3ria: sociedades primitivas, comunais, escravocratas, feudais, modernas e capitalistas, todas elas tem formas espec\u00edficas de produ\u00e7\u00e3o (produzir a si mesma, seu mundo e sua natureza). A natureza, al\u00e9m de estar inserida nesse grande complexo da produ\u00e7\u00e3o social, interage com ela e por ela \u00e9 produzida, se tornando o que ficou conhecido como \u201csegunda natureza\u201d. Karl Marx j\u00e1 havia dialetizado essa rela\u00e7\u00e3o: \u201c[O homem] ao atuar, por meio deste movimento [do trabalho], sobre a Natureza externa a ele e ao modific\u00e1-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua pr\u00f3pria natureza. Ele desenvolve pot\u00eancias nela adormecidas e sujeita o jogo de suas for\u00e7as ao seu pr\u00f3prio dom\u00ednio\u201d.<\/p>\n<p>Ocorre que a sujei\u00e7\u00e3o das for\u00e7as da natureza ao dom\u00ednio humano n\u00e3o \u00e9 abstrato, gen\u00e9rico&#8230; O grande limite do conceito de \u201cmeio ambiente\u201d \u00e9 retirar da natureza o processo hist\u00f3rico humano de produ\u00e7\u00e3o espec\u00edfico \u00e0 \u00e9poca em que essa mesma natureza \u00e9 considerada. Os grandes \u201cdesastres naturais\u201d, mesmo que globais, ocorrem apenas porque impactam em condi\u00e7\u00f5es sociais bem espec\u00edficas, tanto em rela\u00e7\u00e3o ao tempo quanto ao espa\u00e7o. Portanto, n\u00e3o \u00e9 o \u201chomem\u201d (o ser gen\u00e9rico, comum a qualquer tempo) que provoca problemas ambientais, mas a forma de produ\u00e7\u00e3o e as condi\u00e7\u00f5es sociais, materiais e econ\u00f4micas em que esse homem se encontra diante das suas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia: sua capacidade produtiva de retirar da natureza suas pot\u00eancias e, principalmente, a finalidade do uso dessa capacidade, se para a vida ou para a morte.<\/p>\n<p>Os \u201cdesastres naturais\u201d, ou tudo aquilo que se possa culpar a natureza por algo destrutivo ao homem, t\u00eam suas origens nas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es humanas. O deslizamento de uma encosta em um bairro perif\u00e9rico de qualquer metr\u00f3pole diz muito mais sobre a forma economicamente desigual de como a cidade \u00e9 ocupada do que, propriamente, sobre a chuva torrencial que eventualmente possa cair sobre ela (mesmo que essa chuva tenha origem em algum \u201cdesequil\u00edbrio clim\u00e1tico\u201d). Como lembra Mike Davis, as doen\u00e7as end\u00eamicas mais mortais, como a gripe espanhola no in\u00edcio do s\u00e9culo do s\u00e9culo XX, n\u00e3o seriam t\u00e3o desastrosas se n\u00e3o encontrassem \u201cum lugar favor\u00e1vel nos acampamentos dos ex\u00e9rcitos e nas trincheiras do campo de batalha\u201d da Primeira Guerra Mundial, ou na baixa imunidade dos indianos mais pobres atingidos pela gripe e pela desnutri\u00e7\u00e3o: \u201celes se tornaram v\u00edtimas de uma sinistra sinergia entre a desnutri\u00e7\u00e3o \u2013 que suprimiu sua resposta imunol\u00f3gica \u00e0 infec\u00e7\u00e3o e produziu uma inflama\u00e7\u00e3o bacteriana, bem como uma pneumonia viral\u201d. Por isso David Harvey acerta ao afirmar que \u201cdeste ponto de vista, n\u00e3o existe um verdadeiro desastre natural. Os v\u00edrus mudam o tempo todo. Mas as circunst\u00e2ncias nas quais uma muta\u00e7\u00e3o se torna uma amea\u00e7a \u00e0 vida dependem das a\u00e7\u00f5es humanas\u201d.<\/p>\n<p>A intensa expans\u00e3o do coronav\u00edrus pelo mundo, at\u00e9 ser considerado o quadro pand\u00eamico em 11 de mar\u00e7o de 2020 (quando j\u00e1 se contabilizava oficialmente 118 mil infectados em 114 pa\u00edses e 4.291 mortes) tem, obviamente, duas raz\u00f5es: (1) a capacidade latente e natural do pr\u00f3prio v\u00edrus encontrar em c\u00e9lulas humanas \u201cafinidade\u201d reprodutiva, (2) mas principalmente as condi\u00e7\u00f5es com que esses humanos interagem inevitavelmente dentro dos quadros socioecon\u00f4micos espec\u00edficos. O que se sabe, em termos oficiais, \u00e9 que os espa\u00e7os mais prop\u00edcios \u00e0 expans\u00e3o da COVID-19 s\u00e3o aqueles que t\u00eam forte intera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica: espa\u00e7os densamente urbanizados, com grandes mercados de consumo (como em Wuhan) e grande ind\u00fastria tur\u00edstica, como nas principais cidades europeias, al\u00e9m de Nova York, nos EUA. Por isso mesmo, o COVID-19 \u00e9 confundido como \u201cdoen\u00e7a de rico\u201d, \u201cdoen\u00e7a de turista\u201d. Isso nos diz mais sobre os processos de urbaniza\u00e7\u00e3o e adensamento populacional, sobre as condi\u00e7\u00f5es sociais com que desigualmente as pessoas transitam pelo mundo, sobre a natureza predat\u00f3ria da ind\u00fastria do turismo global, sobre a pr\u00f3pria natureza da \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d, do que propriamente sobre um v\u00edrus.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do que os dados oficiais mostram, o quadro que se monta \u00e9, certamente, muito mais grave. A incapacidade de os sistemas de sa\u00fade das economias centrais salvarem vidas, exauridos por 40 anos de irresponsabilidade neoliberal, \u00e9 apenas uma pequena dimens\u00e3o da natureza socioecon\u00f4mica da pandemia. Sobre isso vale ressaltar, como j\u00e1 ocorre nos EUA, a grande capacidade que o novo coronav\u00edrus tem em \u201cselecionar\u201d popula\u00e7\u00f5es negras e pobres que h\u00e1 anos, sem assist\u00eancia e acesso \u00e0 sa\u00fade, est\u00e3o morrendo em propor\u00e7\u00f5es absurdamente desiguais. Mas a previs\u00edvel expans\u00e3o do COVID-19 para os espa\u00e7os pauperizados pela geopol\u00edtica do capital, principalmente nas favelas e demais \u201cdep\u00f3sitos de gente\u201d nos pa\u00edses latino-americanos e africanos, \u00e9 um desastre anunciado. Nesses pa\u00edses e nos rinc\u00f5es deles, onde sequer os testes ser\u00e3o feitos, porque n\u00e3o os ter\u00e3o, o desastre da pandemia \u00e9 potencialmente incalcul\u00e1vel. Na cidade de Guayaquil, quando os notici\u00e1rios internacionais mostraram o caos sanit\u00e1rio no Equador no dia 02 de abril, os dados oficiais contaram 78 mortes, enquanto o pr\u00f3prio prefeito da cidade, Andr\u00e9s Guschmer, revelou que mais de 400 corpos foram retirados das casas, das ruas e das pra\u00e7as, abandonados diante do colapso funer\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ainda sobre o Equador, vale lembrar as medidas econ\u00f4micas for\u00e7adas pelo FMI e seguidas pelo governo de Lenin Moreno, que provocaram forte retra\u00e7\u00e3o nos investimentos sociais em 2020, em detrimento do pagamento da d\u00edvida contra\u00edda com o Fundo em 2019. S\u00f3 na sa\u00fade, o corte foi de cerca de 36%, de acordo com o economista Jonathan B\u00e1ez. O agravamento da pandemia, nesses locais com forte vincula\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia aos interesses do capital especulativo atrelado ao processo de miserabilidade social, se demostra deveras desastroso. Ainda como observa Mike Davis, o coronav\u00edrus j\u00e1 deu provas suficientes de sua alta capacidade destrutiva: \u201cpode tomar um caminho diferente e mais mortal nos bairros de lata, densos e doentes, da \u00c1frica e do Sul da \u00c1sia. Com casos que agora aparecem em Lagos, Kigali, Addis Abeba e Kinshasa, ningu\u00e9m sabe (e n\u00e3o se saber\u00e1 por muito tempo devido \u00e0 aus\u00eancia de testes) como pode interagir com as condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e as doen\u00e7as locais\u201d.<\/p>\n<p>A Natureza da Crise<\/p>\n<p>A perda de controle e a natureza socioecon\u00f4mica da pandemia foram admitidas pelo pr\u00f3prio diretor-geral da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, Tedros Adhanom: \u201cEsse v\u00edrus, desconhecido por n\u00f3s h\u00e1 tr\u00eas meses, exp\u00f4s as fraquezas e desigualdades em nossos sistemas de sa\u00fade\u201d. Mas o colapso sanit\u00e1rio exp\u00f5e muito mais do que \u201cfraquezas\u201d nos sistemas de sa\u00fade. Al\u00e9m do colapso no atendimento de pacientes nos pa\u00edses centrais e o desenvolvimento desigual da pandemia nos pa\u00edses perif\u00e9ricos, a incapacidade operacional do sistema socioecon\u00f4mico global em evitar milhares, talvez mais de um milh\u00e3o de mortos, exp\u00f5e fraturas e defeitos estruturais agora inocult\u00e1veis. Nesses momentos em que a humanidade se v\u00ea obrigada a pensar em seu destino, avaliando as condi\u00e7\u00f5es insustent\u00e1veis de explora\u00e7\u00e3o da natureza e do trabalho, suas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, a forma como o mundo est\u00e1 desigualmente composto, o questionamento se estende para al\u00e9m da estrita esfera da sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u00c9 sintom\u00e1tico que a nova pandemia tenha origem na China, pa\u00eds de onde disseminaria em 2003 outro surto: o SARS-1. Mas o COVID-19 difere deste primeiro exatamente porque as condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas de hoje est\u00e3o muito mais limitadas do que antes. A mesma China, que ofereceu ao mundo um modelo de desenvolvimento produtivo para salvar o colapso da economia em 2008 (baseada na ultra-explora\u00e7\u00e3o do trabalho, gerida pelo Estado), se viu em paralisia pela redu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e da circula\u00e7\u00e3o das mercadorias. O fluxo do valor e o consequente processo de valoriza\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o interrompido, foi diminu\u00eddo drasticamente. \u00c9 poss\u00edvel que a composi\u00e7\u00e3o do quadro pand\u00eamico, em si, n\u00e3o seria significativamente suficiente para a fundamenta\u00e7\u00e3o de uma \u201ccrise global\u201d. Restrita \u00e0 esfera sanit\u00e1ria, a import\u00e2ncia do coronav\u00edrus poderia ser facilmente relativizada. Enquanto o surto se expandia para pa\u00edses n\u00e3o t\u00e3o centrais na economia global, como Coreia do Sul e Ir\u00e3, havia alguma subestima\u00e7\u00e3o das possibilidades da crise. \u00c9 apenas quando chega \u00e0 Europa, primeiro na It\u00e1lia depois na Espanha, que a \u201ccrise\u201d realmente se instaura: \u201cO crash da bolsa de valores que come\u00e7ou em meados de fevereiro oscilou um pouco, mas em meados de mar\u00e7o levou a uma desvaloriza\u00e7\u00e3o l\u00edquida de quase 30% nas bolsas de valores em todo o mundo\u201d, lembra Harvey. Temos ent\u00e3o um fato n\u00e3o admitido: a pandemia se torna crise quando se \u201cocidentaliza\u201d.<\/p>\n<p>No momento em que os mercados, retra\u00eddos desde 2008, se veem agora for\u00e7ados a reduzir a capacidade de valoriza\u00e7\u00e3o do capital, a\u00ed sim, temos a explos\u00e3o de uma crise. As incalcul\u00e1veis perdas na esfera do capital financeiro, a queda do PIB global, as restri\u00e7\u00f5es produtivas e o redirecionamento de recursos para o combate do novo coronav\u00edrus apenas exp\u00f5em os limites bastante sens\u00edveis com que o mercado perigosamente vinha manipulando o presente e futuro da humanidade. Se a natureza da pandemia \u00e9 tamb\u00e9m, e sobretudo, socioecon\u00f4mica (porque suas condi\u00e7\u00f5es poderiam ser menos sens\u00edveis, caso a sa\u00fade fosse um bem p\u00fablico universal, e n\u00e3o econ\u00f4mico), a decreta\u00e7\u00e3o de \u201ccrise\u201d mundial n\u00e3o teria outro fundamento, sen\u00e3o os riscos contra o pr\u00f3prio sistema econ\u00f4mico financeiro global. Portanto, n\u00e3o seria por outro motivo, sen\u00e3o pela paraliza\u00e7\u00e3o do fluxo de capital, a verdadeira g\u00eanese da crise do COVID-19.<\/p>\n<p>A Natureza da Economia da Morte<\/p>\n<p>Mas a capacidade com que o sistema econ\u00f4mico dominante produz suas crises pand\u00eamicas, aliada a sua pr\u00f3pria incapacidade de resolv\u00ea-las, indica muito mais do que \u201cequ\u00edvocos\u201d na administra\u00e7\u00e3o global ou governamental dos problemas. As contradi\u00e7\u00f5es estruturais, os defeitos incorrig\u00edveis e as profundas limita\u00e7\u00f5es no funcionamento do sistema do capital, exp\u00f5e a humanidade (primeiro) ao potencial destrutivo dessas contradi\u00e7\u00f5es e (segundo) a incapacidade de resolv\u00ea-las dentro dos nossos limites previs\u00edveis de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O capital, como observa M\u00e9sz\u00e1ros, \u00e9 um sistema sociometab\u00f3lico de segunda ordem, orientado pelo processo incontrol\u00e1vel, expansivo e totalizante da autovaloriza\u00e7\u00e3o pela autoacumula\u00e7\u00e3o. Isso significa que nenhuma media\u00e7\u00e3o de primeira ordem \u2013 aquela fundamental \u00e0 exist\u00eancia humana, como o direito inalien\u00e1vel \u00e0 vida, \u00e0 sa\u00fade \u2013 pode se desenvolver por fora do desenvolvimento lucrativo dos mercados. Desenvolver a sociedade significa, para o capital, \u201cdesenvolver a sociedade a partir do desenvolvimento do mercado\u201d. A economia da morte n\u00e3o \u00e9 um privil\u00e9gio triste do nosso tempo, mas ela se expressa com mais evid\u00eancia nesses momentos cr\u00edticos.<\/p>\n<p>O exemplo mais absurdo e providencial, para esse contexto de pandemia, \u00e9 o mercado da sa\u00fade. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a abertura desse mercado tem levado a uma completa orienta\u00e7\u00e3o n\u00e3o priorit\u00e1ria e perigosamente n\u00e3o preventiva do setor. A import\u00e2ncia dos planos de sa\u00fade no cotidiano das pessoas cresce na mesma propor\u00e7\u00e3o em que se observa a fal\u00eancia dos sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade. Para novamente exemplificar um pa\u00eds de economia central e fortemente afetado pela pandemia, \u201cfuncion\u00e1rios do hospital da Fran\u00e7a, lutando ao longo do ano passado, t\u00eam dito repetidamente: que o hospital p\u00fablico \u00e9 v\u00edtima de pol\u00edticas de estrangulamento financeiro\u201d. Assim lembra Alain Bihr.<\/p>\n<p>Isso tem se dado, por um lado, em consequ\u00eancia da \u201cmedicina liberal\u201d, onde (desde a forma\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico, orientado pelo retorno financeiro) se nota o abandono da pol\u00edtica sanit\u00e1ria p\u00fablica e o fortalecimento das cl\u00ednicas particulares como fundamento de um projeto econ\u00f4mico. A prioridade n\u00e3o \u00e9 mais o paciente, mas a clientela. Por outro lado, a desorienta\u00e7\u00e3o da sa\u00fade como um servi\u00e7o p\u00fablico e universal afeta diretamente o desenvolvimento da capacidade imunol\u00f3gica do conjunto das pessoas, j\u00e1 que as medidas de preven\u00e7\u00e3o s\u00e3o cada vez mais deslocadas da centralidade m\u00e9dica em prol do tratamento dessas mesmas doen\u00e7as preven\u00edveis. Isso n\u00e3o envolve necessariamente a exist\u00eancia ou n\u00e3o das vacinas, mas a prepara\u00e7\u00e3o pr\u00e9via dos sistemas de sa\u00fade em absorver os surtos virais, recorrentes ou n\u00e3o. E \u00e9 exatamente neste momento de explos\u00e3o pand\u00eamica que nem as cl\u00ednicas, nem os m\u00e9dicos da \u201cmedicina liberal&#8221; conseguem conter ou curar o novo coronav\u00edrus, porque tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 tratamento dispon\u00edvel. Nos hospitais abarrotados de doentes resta escolher quem morre. E assim, a medicina e o sistema de sa\u00fade global se veem rendidos \u00e0 economia da morte contando agora suas v\u00edtimas fatais.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 aus\u00eancia de tratamento farmacol\u00f3gico, n\u00e3o se trata simplesmente de uma limita\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia diante da \u201cnovidade\u201d COVID-19. Vale salientar, como observa Alain Badiou, que a SARS-2, como ainda \u00e9 denominado o novo coronav\u00edrus, assim \u00e9 chamada porque se trata de uma varia\u00e7\u00e3o da SARS-1, tamb\u00e9m disseminada pelo mundo a partir da China em 2003, como apontado acima. Desta forma, continua Badiou, \u201ca \u00fanica cr\u00edtica s\u00e9ria que hoje pode ser dirigida \u00e0s autoridades em termos de previs\u00e3o \u00e9 n\u00e3o terem financiado, depois da SARS-1, a investiga\u00e7\u00e3o que teria disponibilizado ao mundo da medicina, verdadeiros instrumentos de a\u00e7\u00e3o contra a SARS-2\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 igualmente importe destacar a orienta\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica que a ind\u00fastria farmac\u00eautica tomou, diante da necessidade de manter a competitividade do mercado. Aqui a economia da morte se expressa pelo vi\u00e9s mais l\u00f3gico da prioriza\u00e7\u00e3o dos lucros em detrimento da preven\u00e7\u00e3o de surtos epidemiol\u00f3gicos, at\u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s doen\u00e7as tradicionais, principalmente as tropicais, que h\u00e1 anos, dizimam popula\u00e7\u00f5es pobres inteiras nos pa\u00edses perif\u00e9ricos da Am\u00e9rica Latinha, \u00c1frica e Sul da \u00c1sia. Como lembra Harvey, \u201cdas 18 maiores empresas farmac\u00eauticas, 15 abandonaram totalmente este campo [das vacinas preventivas]. Medicamentos para o cora\u00e7\u00e3o, tranquilizantes viciantes e tratamentos para a impot\u00eancia masculina s\u00e3o l\u00edderes do lucro, n\u00e3o as defesas contra infec\u00e7\u00f5es hospitalares, doen\u00e7as emergentes e assassinos tropicais tradicionais\u201d.<\/p>\n<p>Obviamente, a economia da morte n\u00e3o surge com essas evid\u00eancias localizadas neste momento de pandemia, mas sim, estrutura-se historicamente conforme a natureza da economia capitalista. Esta que se v\u00ea agora desafiada \u00e0 sua reprodu\u00e7\u00e3o, colocando a vida de milh\u00f5es de trabalhadores em risco. S\u00e3o nesses momentos que a economia real, de mercado capitalista, demonstra seus limites, pois nem sequer civilizat\u00f3ria consegue mais ser, porque agora deve se desvelar efetivamente mortal.<\/p>\n<p>Salvemos a economia, mas qual economia?<\/p>\n<p>Quando no dia 3 de abril, um artigo assinado em conjunto pela diretora do Fundo Monet\u00e1rio Internacional, Kristalina Georgieva, e o diretor Geral da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, Tedros Adhanom, destacou ser um \u201cfalso dilema\u201d escolher entre economia e vida, \u00e9 porque o problema j\u00e1 estava posto. O discurso era o de conciliar esfor\u00e7os econ\u00f4micos com objetividade sanit\u00e1ria de preserva\u00e7\u00e3o da vida, insinuando algum princ\u00edpio humanit\u00e1rio na economia da morte. O documento fala de \u201csalvar vidas\u201d e \u201csalvar meios de subsist\u00eancia\u201d, como se a \u00fanica forma de produzir meio de subsist\u00eancia para a sobreviv\u00eancia das pessoas fosse necessariamente pela via do mercado capitalista (que agora se encontra orientado para a morte). Na China, onde se observa o in\u00edcio do controle do surto viral, a retomada da \u201cnormalidade econ\u00f4mica\u201d tem se baseado na explora\u00e7\u00e3o do mercado aberto pela pr\u00f3pria pandemia. Empresas de insumos m\u00e9dicos e hospitalares promovem verdadeiros leil\u00f5es atr\u00e1s de \u201cquem paga mais\u201d por suas mercadorias. A supereleva\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os dos respiradores \u00e9 clarividente no contexto em que a economia da morte ativa seus horrores mais normatiz\u00e1veis e irracionalmente justific\u00e1veis: \u201cTem problema de demanda hiperaquecida\u201d, reconheceu o ex-ministro da sa\u00fade do Brasil, Henrique Mandetta, sem nenhuma consterna\u00e7\u00e3o e diante do insucesso na compra dos aparelhos chineses. Este \u00e9 o mesmo que, ali\u00e1s, orientou a \u201cracionalidade de investimentos\u201d no j\u00e1 fragilizado Sistema \u00danico de Sa\u00fade Nacional no primeiro ano do governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>Isso ocorre exatamente no momento em que se observa um tipo de \u201csolidariedade global\u201d diante do desastre mundial causado pela pandemia. Obviamente, os discursos jamais assumir\u00e3o a grande contradi\u00e7\u00e3o entre a preserva\u00e7\u00e3o da vida humana e a manuten\u00e7\u00e3o da vida do mercado da morte. Isso exp\u00f5e as inten\u00e7\u00f5es n\u00e3o admitidas entre FMI e a real preocupa\u00e7\u00e3o com a vida das pessoas. Mas \u00e9 nesse mesmo contexto que um novo horizonte de possibilidades se abre, e das quais \u00e9 necess\u00e1rio refletir, ainda que especulativamente.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da realidade, ao menos a brasileira, o chamado empresarial \u00e0 \u201cnormalidade da vida econ\u00f4mica\u201d nesses tempos de socializa\u00e7\u00e3o da morte exp\u00f5e duas condi\u00e7\u00f5es. A primeira est\u00e1 no ch\u00e3o dos bairros perif\u00e9ricos e das ruas dos centros das cidades. Esses espa\u00e7os de moradia e trabalho, para a massa empobrecida da classe trabalhadora, s\u00e3o irrevog\u00e1veis. Assalariados tempor\u00e1rios ou permanentes, informais, comerciantes pequenos e m\u00e9dios, pedintes ou pequenos vendedores, esses milh\u00f5es ter\u00e3o sua condi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 precarizada, ainda piorada com a paraliza\u00e7\u00e3o espacial e o consequente influxo de suas rendas. A segunda condi\u00e7\u00e3o, do ponto de vista da realidade, \u00e9 a paralisa\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica dominante: dos grandes investimentos de capital, das ind\u00fastrias distribu\u00eddas em diversos setores, que tem na alta burguesia e na emburrecida e idiotizada classe m\u00e9dia, seus apologetas.<\/p>\n<p>Essas duas realidades, a do trabalhador e a do grande capital, embora fa\u00e7am parte do grande complexo econ\u00f4mico que move o pa\u00eds, n\u00e3o podem ser colocadas como iguais, como simplesmente \u201ceconomia\u201d. Elas n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 diferentes, nem harmonicamente complement\u00e1rias, mas efetivamente antag\u00f4nicas, contradit\u00f3rias, porque assumem objetivos e interesses contr\u00e1rios. A realidade econ\u00f4mica da classe trabalhadora empobrecida objetiva efetivamente a reprodu\u00e7\u00e3o da vida imediata. Por isso, ela \u00e9 cercada de mecanismos e estrat\u00e9gias de solidariedade, principalmente na reprodu\u00e7\u00e3o dos seus espa\u00e7os de moradia. S\u00e3o instrumentos de preserva\u00e7\u00e3o da vida em ambiente comunit\u00e1rio h\u00e1 muito tempo desenvolvidos e que se colocam reativamente contra os interesses e o avan\u00e7o do grande capital. O contr\u00e1rio dessa experi\u00eancia solid\u00e1ria pr\u00f3pria do mundo do trabalho \u00e9 a realidade econ\u00f4mica do grande capital que se concretiza exatamente nas medidas contra a realidade econ\u00f4mica dos trabalhadores: as reformas ultraliberais e as pol\u00edticas antissociais.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 inconceb\u00edvel que aqueles mesmos sujeitos pr\u00f3-capital, pertencentes a uma elite necr\u00f3fila, venham agora dizer que est\u00e3o preocupados com a vida, o trabalho e o emprego dos trabalhadores, estes mesmos que tiveram seus direitos b\u00e1sicos de emprego, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade negados historicamente por aqueles. O cinismo do discurso empresarial, como estrat\u00e9gia de assimila\u00e7\u00e3o coletiva dos seus interesses privados, orientado para a acumula\u00e7\u00e3o de riqueza e renda, n\u00e3o pode mais significar qualquer possibilidade de representar as necessidades vitais e gerais da sociedade. Diante dessas duas realidades econ\u00f4micas cada vez mais inconcili\u00e1veis (uma pela vida, outra pela morte), o momento decisivo \u00e9 a tomada da objetividade e funcionalidade econ\u00f4mica por aqueles que defendem a preserva\u00e7\u00e3o da vida, os trabalhadores.<\/p>\n<p>Como Vladimir Safatle coloca, o c\u00ednico chamado da burguesia n\u00e3o poderia representar outra coisa sen\u00e3o uma convoca\u00e7\u00e3o das pessoas a um \u201cEstado suicid\u00e1rio\u201d. Esse chamado vem das mesmas figuras protofascistas (no Brasil, obviamente, representadas pelo Presidente da Rep\u00fablica) que h\u00e1 anos imp\u00f5em a realidade do \u201cnecroestado\u201d: um tipo de orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e admitida institucionalmente a favor da morte, da dizima\u00e7\u00e3o de pobres, por aqui assumida pelo jarg\u00e3o \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto!\u201d. Mas o Estado suicid\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 propriamente um estado assassino, mas um Estado que convoca seu pr\u00f3prio povo \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o, \u00e0 morte, pelo trabalho, pela economia! Ainda segundo Safatle, esse tipo de Estado s\u00f3 existiu anteriormente no contexto da Alemanha nazista onde, diante da derrota eminente, Hitler convoca a popula\u00e7\u00e3o \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o. Para o atual momento, e ainda diante da analogia hist\u00f3rica, vale lembrar do slogan exposto nos campos de concentra\u00e7\u00e3o, trabalho for\u00e7ado e morte na mesma Alemanha nazista: \u201cS\u00f3 o trabalho liberta!\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, os agentes pol\u00edticos e o discurso necr\u00f3filo de preserva\u00e7\u00e3o da economia n\u00e3o poderiam ter outro sentido sen\u00e3o a pr\u00f3pria autodestrui\u00e7\u00e3o. Mas como a sociedade e a economia caminham juntas, mesmo essa autodestrui\u00e7\u00e3o tem suas diferen\u00e7as de classes. Foi sintom\u00e1tico observar como que as \u201ccarreatas da morte\u201d, convocando os trabalhadores a se exporem ao novo coronav\u00edrus, estavam compostas: empres\u00e1rios e empres\u00e1rias, isolados em seus carros, com suas m\u00e1scaras de prote\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria, disseminando o discurso de morte para as trabalhadoras e os trabalhadores pelas cidades do Brasil. Do lado das trabalhadoras e dos trabalhadores, o cen\u00e1rio de morte que se monta ao chamado econ\u00f4mico empresarial tem provavelmente duas possibilidades: no mundo pand\u00eamico, o risco da morte pela infec\u00e7\u00e3o do v\u00edrus; no mundo p\u00f3s-pand\u00eamico, o risco da morte pela mis\u00e9ria social, ou a morte pelo trabalho diante do recrudescimento radical das mesmas pol\u00edticas econ\u00f4micas que os colocaram em tal condi\u00e7\u00e3o. Este \u00faltimo \u00e9, ali\u00e1s, um cen\u00e1rio que j\u00e1 se monta desde j\u00e1, com a justificativa previamente colocada de \u201cretomada\u201d econ\u00f4mica quando \u201cvoltarmos \u00e0 normalidade\u201d. Assim, a morte justifica a pr\u00f3pria morte.<\/p>\n<p>A \u00fanica alternativa poss\u00edvel \u00e9 insistir na orienta\u00e7\u00e3o da solidariedade humana somente produzida a partir da realidade experimentada pelos trabalhadores, mas n\u00e3o por meio de qualquer romantismo que se coloque na perspectiva. Basta advertir que \u201ccaridade\u201d preserva a desigualdade. A solidariedade substantiva e materialmente sustentada, origin\u00e1ria dos trabalhadores, \u00e9 a \u00fanica poss\u00edvel contra a economia da morte, porque \u00e9 diametralmente oposta a ela: porque \u00e9 constitu\u00edda, primeiro, pela e para a sobreviv\u00eancia, depois pelo desenvolvimento de suas condi\u00e7\u00f5es e capacidades materiais.<\/p>\n<p>A pandemia exp\u00f5e defeitos estruturais insuper\u00e1veis da forma como nossa economia est\u00e1 dirigida para \u00e0 morte e \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o. Ela j\u00e1 se mostra evidentemente insustent\u00e1vel. Diante da crise produzida pelo pr\u00f3prio capital e exposta pela pandemia, processos de estatiza\u00e7\u00e3o de empresas, pol\u00edticas de distribui\u00e7\u00e3o de renda, ressurg\u00eancia do debate sobre taxa\u00e7\u00e3o de grandes fortunas reaparecem como perspectivas ainda muito t\u00edmidas (ou at\u00e9 enganosas) para se pensar em qualquer mudan\u00e7a estrutural. Mas qualquer necessidade de mudan\u00e7a, em algum ponto espec\u00edfico desse corpo econ\u00f4mico em extrema debilita\u00e7\u00e3o, abre possibilidades para novas perspectivas de realidade. Por exemplo, como lembra Harvey, se a manuten\u00e7\u00e3o das taxas de acumula\u00e7\u00e3o do capital depender do aumento do consumismo americano, que j\u00e1 \u00e9 predat\u00f3rio, \u201cisto exigir\u00e1 a socializa\u00e7\u00e3o de toda a economia dos Estados Unidos, por exemplo, sem chamar-lhe de socialismo\u201d.<\/p>\n<p>Pelos limites hist\u00f3ricos apontados, pela incapacidade de solu\u00e7\u00e3o dos problemas por ele mesmo criado, o sistema sociometab\u00f3lico do capital coloca a humanidade diante daquele momento em que, como exaltaria Marx e Engels, \u201cas pessoas s\u00e3o finalmente for\u00e7adas a encarar com serenidade sua posi\u00e7\u00e3o social e suas rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas\u201d.<\/p>\n<p>* Militante da Unidade Classista e da c\u00e9lula do PCB de Vit\u00f3ria da Conquista. Professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Doutor em Geografia pela Universidade de S\u00e3o Paulo. Pesquisador do Grupo de Pesquisa &#8220;Estado, Capital, Trabalho e Pol\u00edticas de Reordenamentos Territoriais&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25358\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[223],"class_list":["post-25358","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6B0","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25358","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25358"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25358\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25358"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25358"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25358"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}