{"id":25402,"date":"2020-04-25T00:24:53","date_gmt":"2020-04-25T03:24:53","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25402"},"modified":"2020-04-25T00:24:53","modified_gmt":"2020-04-25T03:24:53","slug":"ao-napoleao-brasileiro-faltam-capital-e-baionetas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25402","title":{"rendered":"Ao Napole\u00e3o brasileiro faltam capital e baionetas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/otrabalho.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Jair-Bonaparte-696x392.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Leonardo Silva Andrada<br \/>\nPaula Campos Pimenta<\/p>\n<p>Em raz\u00e3o do comportamento espalhafatoso do presidente e de aus\u00eancia de rea\u00e7\u00f5es \u00e0 altura de seus atos, por parte dos atores em institui\u00e7\u00f5es que deveriam preservar a \u201cordem democr\u00e1tica\u201d, se adensa o temor de um golpe de Estado \u2013 ou ainda um autogolpe, perpetrado pelo pr\u00f3prio chefe do Executivo para se livrar dos obst\u00e1culos interpostos por Legislativo e Judici\u00e1rio a seus interesses. Diante da perplexidade, a an\u00e1lise consequente da pol\u00edtica nos impele a uma pergunta fundamental: existem for\u00e7as materiais interessadas e dispostas a realizar esse golpe? Paralelamente, como forma de subsidiar respostas poss\u00edveis, uma esp\u00e9cie de pergunta dependente: esses atores institucionais n\u00e3o est\u00e3o mesmo reagindo \u00e0 altura, considerando seu padr\u00e3o hist\u00f3rico de solu\u00e7\u00e3o de crises? O tratamento desses questionamentos s\u00f3 pode ser adequado passando pela identifica\u00e7\u00e3o de como est\u00e3o as for\u00e7as sociais que representam as classes em rela\u00e7\u00e3o ao processo. Em s\u00edntese, realizar a an\u00e1lise de conjuntura em cada um de seus componentes: o processo, os atores em campo e a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que estabelecem entre si.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 fortuito que a refer\u00eancia te\u00f3rica mais amplamente mobilizada para tratar o golpe civil militar de 64, e o regime autorit\u00e1rio que instaura, tenha sido justamente uma an\u00e1lise de conjuntura de f\u00f4lego, como o 18 Brum\u00e1rio de Marx. No per\u00edodo ditatorial, o recurso a esse cl\u00e1ssico permitia compreender como a burguesia dispensava o exerc\u00edcio direto do poder, e franqueava apoio a um governo autorit\u00e1rio comandado por um representante de setores m\u00e9dios, que na pr\u00e1tica promovia uma pol\u00edtica econ\u00f4mica que atendia seus interesses. Para al\u00e9m da compreens\u00e3o imediata da utilidade dessa obra, Marx oferece uma an\u00e1lise muito mais densa de como a luta de classes se reflete na forma do Estado e na modalidade de regime que o administra. Esmiu\u00e7ando os atores que representam as classes \u2013 jornais, associa\u00e7\u00f5es, partidos, institui\u00e7\u00f5es \u2013 suas posi\u00e7\u00f5es e comportamentos concretos, a leitura nos permite compreender como as disputas internas da classe dominante, sua crise de hegemonia e os temores com uma classe trabalhadora na ofensiva, levaram ao contexto que permitiu o exerc\u00edcio do poder por \u201cuma criatura med\u00edocre como Lu\u00eds Bonaparte\u201d. Diante de caracteriza\u00e7\u00e3o t\u00e3o desabonadora do primeiro presidente eleito pelo voto direto na Fran\u00e7a, imposs\u00edvel n\u00e3o pensar na validade de tal obra como lente para a atualidade brasileira.<\/p>\n<p>Enquanto o pensamento latino-americano se valia do 18 Brum\u00e1rio para entender os golpes militares que eram produzidos em todo o continente, na Europa, Poulantzas recorria \u00e0 mesma obra para avaliar a inadequa\u00e7\u00e3o da categoria \u201cbonapartismo\u201d para tratar o fen\u00f4meno fascista. Trata-se de posicionamento quanto \u00e0 validade do rigor hist\u00f3rico na caracteriza\u00e7\u00e3o de processos pol\u00edticos em contextos diferentes, n\u00e3o replicando literalmente todos os elementos originais. Nos \u00faltimos anos, muito se discutiu acerca da pertin\u00eancia de classificar como \u201cfascistas\u201d os movimentos e governos que emergiram no cen\u00e1rio pol\u00edtico como resposta \u00e0 crise estrutural do capitalismo da d\u00e9cada passada. Entretanto, se uma categoria foi mobilizada para esclarecer um problema concreto e informar a a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio interpretar o que desvia dessa finalidade como rigor te\u00f3rico. Ao contr\u00e1rio, o sentido do gesto de distinguir deve ser preservado para n\u00e3o obstar a distin\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. \u00c9 o caso do voc\u00e1bulo crise, aqui mobilizado como o momento em que as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo atingem os seus benefici\u00e1rios, os quais se valem do termo para chamar ao sacrif\u00edcio os exclu\u00eddos do modo de produ\u00e7\u00e3o e impedir o seu ocaso. Para a presente discuss\u00e3o, basta admitir que as caracter\u00edsticas do fen\u00f4meno bonapartista elencadas por Poulantzas s\u00e3o relevantes para pensarmos uma conjuntura cr\u00edtica que demanda solu\u00e7\u00f5es da classe dominante, interessada na preserva\u00e7\u00e3o da ordem. Com maior import\u00e2ncia, os elementos envolvidos nessa caracteriza\u00e7\u00e3o nos fornecem pistas para pensar em que condi\u00e7\u00f5es uma conjuntura de crise pode desaguar em golpe de Estado e solu\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria.<\/p>\n<p>O que o autor greco-franc\u00eas nos oferece \u00e9 uma sorte de complementa\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio de for\u00e7as presente no texto original, com as considera\u00e7\u00f5es sobre hegemonia elaboradas por L\u00eanin e desenvolvidas por Gramsci. Na obra de Marx j\u00e1 est\u00e3o presentes as indica\u00e7\u00f5es de que havia uma fratura na classe dominante, com as fra\u00e7\u00f5es industrial, comercial, agr\u00e1ria e financeira incapazes de amealhar isoladamente for\u00e7a o suficiente para impor seus interesses localizados \u00e0s demais, precisando recorrer a uma solu\u00e7\u00e3o de compromisso que acomodasse a todas e arbitrasse contendas pelo alto, com um governo forte o bastante para conter um movimento oper\u00e1rio em ascens\u00e3o. O aporte de Poulantzas \u00e9 tentar entender essa disputa interna em termos de crise de hegemonia, que se manifesta concretamente como crise ideol\u00f3gica e crise de dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O que importa reter aqui, fundamentalmente, \u00e9 a ideia forte de fra\u00e7\u00f5es dominantes em disputa, como elemento a contribuir com a resposta que orienta essa reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Cabe uma breve considera\u00e7\u00e3o sobre algumas aproxima\u00e7\u00f5es equivocadas dos fen\u00f4menos atuais com o fascismo, mesmo suspendendo o rigor hist\u00f3rico para o uso pol\u00edtico do termo. O fascismo n\u00e3o foi simplesmente a viol\u00eancia tornada pol\u00edtica de Estado, n\u00e3o foi a irracionalidade institucionalizada, n\u00e3o foi a \u201cmodula\u00e7\u00e3o de afetos\u201d para dar vaz\u00e3o ao \u00f3dio e ressentimento. Na conjuntura hist\u00f3rica europeia do p\u00f3s-I Guerra, foi uma solu\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria para impor a domina\u00e7\u00e3o do capital monopolista e financeiro. Emergiu de movimentos de classe m\u00e9dia, mas s\u00f3 se tornou regime dominante ao atender os interesses dessas classes dominantes, que rapidamente se livraram de pontos program\u00e1ticos e mesmo lideran\u00e7as que representassem sobreviv\u00eancias de classe que n\u00e3o a do capital. N\u00e3o foram cria\u00e7\u00f5es de seus l\u00edderes, mas a express\u00e3o social de crises profundas, que encontraram nas organiza\u00e7\u00f5es fascistas formas de se manifestar coletivamente. Os Camicie Nere, as S.A. e a Falange, recrutavam suas hordas entre militares e elementos das classes m\u00e9dia e baixa, mas sua atividade violenta e desestabilizadora era articulada em uma organiza\u00e7\u00e3o, que por sua vez estava submetida ao controle dos respectivos partidos fascistas em quest\u00e3o. Estes partidos s\u00f3 se viabilizaram como dire\u00e7\u00e3o de regimes pol\u00edticos autorit\u00e1rios e duradouros, na exata medida em que defendiam e avan\u00e7avam os interesses dos setores mais pronunciados das classes dominantes. Mais uma vez, fica ressaltada a import\u00e2ncia da liga\u00e7\u00e3o entre os movimentos golpistas, por mais violentos que se apresentem, e setores de classe com for\u00e7a para garantir sua efetividade na disputa pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Mais recentemente foi o italiano Domenico Losurdo quem se ocupou de trazer \u00e0 luz a categoria de bonapartismo para tratar os processos pol\u00edticos coet\u00e2neos, sempre fiel \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o intelectual \u00e0 qual se filia, preocupando-se em associar a reflex\u00e3o te\u00f3rica \u00e0 densa leitura hist\u00f3rica. Diante de uma sinfonia harm\u00f4nica de teses que advogavam o fim da hist\u00f3ria e o triunfo da democracia liberal, Losurdo nos mostra como esse incensado modelo se constituiu, principalmente nos EUA durante a I Guerra Mundial, refor\u00e7ando e encontrando formas institucionais para o elitismo autorit\u00e1rio que caracteriza o liberalismo desde seu nascedouro. Seja a Inglaterra do s\u00e9culo XVII, os EUA da independ\u00eancia e a Fran\u00e7a revolucion\u00e1ria do XVIII, seja a reflex\u00e3o posterior aos impactos da industrializa\u00e7\u00e3o e as massas prolet\u00e1rias, e finalmente as respostas te\u00f3ricas aos efeitos da Guerra e da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, \u00e9 caracter\u00edstica de toda a tradi\u00e7\u00e3o liberal a preocupa\u00e7\u00e3o com mecanismos institucionais de contrapeso ao incontorn\u00e1vel avan\u00e7o do sufr\u00e1gio universal. N\u00e3o sendo mais poss\u00edvel impedir o acesso das massas populares \u00e0 arena pol\u00edtica, tratava-se de domesticar e controlar sua entrada com o fortalecimento do executivo, chefiado por um l\u00edder carism\u00e1tico. A efic\u00e1cia de um l\u00edder de tal tipo depende em larga medida da manuten\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras como \u201cpovo-massa\u201d, destitu\u00eddo de organiza\u00e7\u00f5es que promovam sua forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a articula\u00e7\u00e3o de seus interesses como ator aut\u00f4nomo, e da exporta\u00e7\u00e3o do conflito para fora da rela\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho e a explora\u00e7\u00e3o que engendra. Dessa contribui\u00e7\u00e3o de Losurdo, nos importa reter a for\u00e7a do executivo e a desarticula\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es populares como t\u00e1tica para perpetuar a \u201cmultid\u00e3o crian\u00e7a\u201d, destitu\u00edda de orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e alijada de representa\u00e7\u00e3o de classe, conduzida para um conflito extirpado da luta de classes.<\/p>\n<p>Diante dessas breves considera\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, \u00e9 o caso de recuperar a preocupa\u00e7\u00e3o central: existem for\u00e7as pol\u00edticas que componham o cen\u00e1rio de um golpe de Estado, como solu\u00e7\u00e3o para a crise pol\u00edtica que acompanha a vers\u00e3o brasileira da pandemia global? \u00c9 poss\u00edvel perceber uma verdadeira fratura no bloco no poder, que justifique a identifica\u00e7\u00e3o de uma crise de hegemonia, a cobrar uma solu\u00e7\u00e3o de ruptura? Que setores e atores estariam alinhados ao presidente para escorar um autogolpe? Por fim, trazendo a reflex\u00e3o abrangente sobre caracter\u00edsticas de golpes no capitalismo moderno para mais perto de n\u00f3s: em que condi\u00e7\u00f5es o andamento da revolu\u00e7\u00e3o burguesa no Brasil abdicou do verniz pac\u00edfico e optou abertamente pela ruptura da ordem? Est\u00e3o presentes agora elementos concretos a se sobrepor \u00e0 recorrente negocia\u00e7\u00e3o, pelo alto, de uma sa\u00edda sem a instabilidade que traz a incerteza?<\/p>\n<p>Do ponto de vista das fra\u00e7\u00f5es que ocupam o condom\u00ednio do bloco no poder, n\u00e3o h\u00e1 motivo para remover Bolsonaro enquanto ele permanece funcional \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da agenda pol\u00edtica que atende seus interesses. A garantia de que as reformas trabalhista, da previd\u00eancia, administrativa, seriam colocadas na ordem do dia e conduzidas sem sobressaltos, foi a raz\u00e3o de sua elei\u00e7\u00e3o, e tem fiado a sua continuidade. Logo nos primeiros movimentos da amea\u00e7a sanit\u00e1ria tornada crise pol\u00edtica, foram eloquentes os posicionamentos p\u00fablicos de oposi\u00e7\u00e3o ao presidente dos governadores de S\u00e3o Paulo e Goi\u00e1s. Representam respectivamente a ind\u00fastria financeirizada e o agroneg\u00f3cio, fra\u00e7\u00f5es fundamentais para o movimento que culminou com o golpe contra Dilma Rousseff, tanto quanto o apoio que garantiu a manuten\u00e7\u00e3o de Michel Temer e a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro. O presidente, por seu turno, parece convencido do car\u00e1ter plebiscit\u00e1rio da elei\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria, escorando-se no apoio popular das urnas e das m\u00eddias sociais para esticar o tensionamento com os atores pol\u00edticos. \u00c0 medida em que Bolsonaro foi eleito com o apoio desses setores e continua atendendo seus interesses, a raz\u00e3o dessa contenda n\u00e3o parece se localizar em uma real disputa por projetos divergentes, mas no comportamento que Bolsonaro deriva dessa concep\u00e7\u00e3o plebiscit\u00e1ria do poder executivo. Por baixo da propaganda aos seus dezembristas de que n\u00e3o se submete \u00e0 velha pol\u00edtica, busca ocupar os espa\u00e7os de poder de forma exclusiva, resistindo \u00e0 partilha do executivo federal que reflete tanto a representa\u00e7\u00e3o eleitoral do Legislativo quanto das express\u00f5es regionais plasmadas nos executivos estaduais. A solu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica para essa partilha, na trajet\u00f3ria da Rep\u00fablica brasileira, \u00e9 a negocia\u00e7\u00e3o que cobrou um pre\u00e7o alto dos que resistiram \u00e0 sua l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Por mais que se preste a encarnar de forma ainda mais caricata e deprimente os piores adjetivos que Marx endere\u00e7ou a Lu\u00eds Bonaparte, Bolsonaro \u00e9 acompanhado de um grupo que realiza a tarefa que ele parece incapaz de cumprir. Articula com aliados apreensivos a garantia de que a agenda de reformas ser\u00e1 cumprida, e desenha uma estrat\u00e9gia de refor\u00e7o do apoio dos setores sociais que mantenham a base m\u00ednima necess\u00e1ria para alguma legitimidade. Parte desse pensamento estrat\u00e9gico, seguindo diretrizes que orientaram tamb\u00e9m o \u00eddolo do hemisf\u00e9rio norte, prescreve bal\u00f5es de ensaio e enfrentamentos encenados, para testar at\u00e9 onde o tensionamento pode chegar. As mais recentes preocupa\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 amea\u00e7a de autogolpe v\u00eam de uma manifesta\u00e7\u00e3o dessa t\u00e1tica, com discursos de apoio mal disfar\u00e7ado aos manifestantes que pediam, em frente ao Quartel General do Ex\u00e9rcito Brasileiro, o fechamento do Congresso Nacional e a reedi\u00e7\u00e3o de um AI-5.<\/p>\n<p>Se o posicionamento p\u00fablico foi um teste, as rea\u00e7\u00f5es n\u00e3o se fizeram esperar. Poucas horas se passaram at\u00e9 que ficasse claro o alinhamento de amplo espectro das for\u00e7as de centro \u00e0 direita: o presidente da C\u00e2mara, lideran\u00e7as partid\u00e1rias, ministros do STF, representantes do Minist\u00e9rio P\u00fablico, uma declara\u00e7\u00e3o conjunta assinada por 20 governadores. Legislativo, Judici\u00e1rio, executivos estaduais e entidades profissionais, todos s\u00e3o agentes pol\u00edticos que, para al\u00e9m de seus postos institucionais, sintetizam interesses de classe organizados e politicamente representados, e recorreram \u00e0 via imediata de comunica\u00e7\u00e3o das redes sociais para tornar p\u00fablica sua cr\u00edtica \u00e0 atitude do presidente da Rep\u00fablica. Uma sinaliza\u00e7\u00e3o eloquente de que n\u00e3o existem rachas significativos no interior da classe dominante, que indique a crise de hegemonia que reclame um golpe para ser solucionada. Mesmo a rela\u00e7\u00e3o com a lumpen burguesia, que publicamente endossa o seu comportamento estridente, est\u00e1 abalada. Seus interesses est\u00e3o amea\u00e7ados com a pol\u00edtica econ\u00f4mica que valoriza o d\u00f3lar e o alinhamento autom\u00e1tico com o imperialismo norte-americano que produz ru\u00eddos nas rela\u00e7\u00f5es comerciais com a China.<\/p>\n<p>Como um term\u00f4metro das disposi\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas de setores dominantes, para ruptura ou negocia\u00e7\u00e3o, faz sentido voltar a aten\u00e7\u00e3o para o tratamento dispensado por um importante modulador ideol\u00f3gico como a Rede Globo. Se \u00e9 ineg\u00e1vel que a penetra\u00e7\u00e3o das redes sociais e dos aplicativos de mensagem instant\u00e2nea rivalizam na capilaridade das mensagens produzidas, esse peso deve ser ponderado em pelo menos dois aspectos. O primeiro deles \u00e9 que o comportamento do conglomerado de m\u00eddia em quest\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 sendo apreciado aqui no seu poder de formata\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o das massas, mas como indicativo dos setores da classe dominante cujas posi\u00e7\u00f5es defende sob a forma de informa\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, como a burguesia espera que essa opini\u00e3o seja formada. O segundo \u00e9 que pesquisa recente nos informa que mesmo com o avan\u00e7o das tecnologias de difus\u00e3o de mensagens, as m\u00eddias tradicionais continuam com peso decisivo, particularmente ao considerar o reconhecimento de sua confiabilidade por maioria esmagadora dos entrevistados, em compara\u00e7\u00e3o com demais fontes de informa\u00e7\u00e3o. Nesse caso, \u00e9 relevante atentar que as cr\u00edticas ao governo federal produzidas pelo jornalismo da Rede Globo, ainda que tenha elevado o tom desde o in\u00edcio da crise pol\u00edtico-sanit\u00e1ria, n\u00e3o se compara em intensidade, conte\u00fado e tempo dedicado \u00e0 campanha realizada para consolidar uma \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d contr\u00e1ria ao governo Dilma e apoiadora do impeachment. N\u00e3o est\u00e3o em tela ataques de cunho moralista, destrui\u00e7\u00e3o da imagem publica, deslegitima\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de governo, criminaliza\u00e7\u00e3o do partido e de suas lideran\u00e7as, chamadas para protestos e cobertura das manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas em tempo real, com todo o direcionamento est\u00e9tico da forma\u00e7\u00e3o de her\u00f3is e vil\u00f5es que essa orienta\u00e7\u00e3o propagand\u00edstica carrega. Note-se, ainda, que em nenhuma das cr\u00edticas di\u00e1rias \u00e9 alvejada a pol\u00edtica econ\u00f4mica e sua agenda de reformas, o fiador desse governo junto \u00e0s fra\u00e7\u00f5es burguesas. A orienta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poupada, como indiretamente associada \u00e0 a\u00e7\u00e3o racionalizante do congresso, que preserva a administra\u00e7\u00e3o s\u00f3bria da emotividade err\u00e1tica do Executivo.<\/p>\n<p>Restariam ainda algumas preocupa\u00e7\u00f5es com os setores cuja ades\u00e3o ao governo n\u00e3o parece se abalar, seja com as posi\u00e7\u00f5es em pol\u00edtica econ\u00f4mica e exterior mais exploradas pela cr\u00edtica, seja pela estrat\u00e9gia adotada no enfrentamento da pandemia; menos ainda por atitudes como o apoio a reclamos golpistas, que em verdade se apresenta como fator de refor\u00e7o desse apoio. Entre esses trinta e poucos por cento da popula\u00e7\u00e3o (h\u00e1 um ano variando praticamente na margem de erro), duas categorias s\u00e3o mais pronunciadas, sendo imediatamente identificadas com a defesa fundamentalistas do seu \u201cmito\u201d. Estes s\u00e3o os crist\u00e3os mais fervorosos de diversas denomina\u00e7\u00f5es, mas particularmente os neopentecostais e cat\u00f3licos da renova\u00e7\u00e3o carism\u00e1tica; se associam aos ressentidos violentos que encontram em Bolsonaro o l\u00edder que legitima sua vis\u00e3o tacanha e preconceitos que, nos \u00faltimos anos, enfrentaram crescente resist\u00eancia e reprova\u00e7\u00e3o social, em raz\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o de v\u00edtimas dessa viol\u00eancia que nunca foi simplesmente simb\u00f3lica. A unific\u00e1-los, o tradicionalismo que mant\u00e9m vivo um conservadorismo difuso, transclassista, mobilizado por grupos no poder que precisam desviar o foco do conflito central entre capital e trabalho e exporta-lo para inimigos que unifiquem o povo em torno de um \u201cesp\u00edrito nacional\u201d.<\/p>\n<p>A estes subgrupos falta um movimento que os articule em forma de ator pol\u00edtico e lideran\u00e7as que direcionem a a\u00e7\u00e3o. S\u00e3o fatores que realizam a conex\u00e3o entre a base popular e os interesses de classes dominantes que, historicamente, sempre foram muito cuidadosas na garantia da exclus\u00e3o das classes dominadas dos processos pol\u00edticos no Brasil. Tais elementos e lideran\u00e7as estiveram presentes nas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013, 14 e 16, quando essa base foi mobilizada para derrubar Dilma Rousseff. Camuflados como \u201cmovimentos espont\u00e2neos\u201d, mas organizados, financiados e garantidos por atores pol\u00edticos tradicional\u00edssimos. Os movimentos e lideran\u00e7as que estiveram no processo que levou \u00e0 remo\u00e7\u00e3o de Dilma n\u00e3o est\u00e3o mais aliados a essa base de apoio a Bolsonaro porque os atores tradicionais que se mantinham \u00e0 sombra, agora se rearticulam em um bloco oposicionista, tendo percebido que sua estrat\u00e9gia de reconquista do poder de Estado atrav\u00e9s do impeachment n\u00e3o foi plenamente cumprido. A direita menos histri\u00f4nica hospedada no DEM, no PSDB e no MDB busca recolocar nos trilhos o projeto que pretendia executar com o golpe, mas escapou ao seu controle ao mobilizar o neofascismo. Bolsonaro e sua entourage provocam ru\u00eddos ao obstar a partilha de poder que apazigua os operadores da pol\u00edtica brasileira, clientes de cargos e or\u00e7amento.<\/p>\n<p>Para completar o quadro, o papel hist\u00f3rico das For\u00e7as Armadas como fiel da balan\u00e7a na hist\u00f3ria das crises republicanas, refor\u00e7ado pela forte liga\u00e7\u00e3o de Bolsonaro com os militares. \u00c9 conveniente lembrar que a corpora\u00e7\u00e3o militar n\u00e3o \u00e9 alheia \u00e0 estrutura de classes da sociedade, e n\u00e3o atua isolada dos interesses que essa divis\u00e3o expressa. Se a penetra\u00e7\u00e3o do presidente \u00e9 not\u00f3ria entre recrutas e baixas patentes, Werneck Sodr\u00e9 atentou para como o alto oficialato \u00e9 de extra\u00e7\u00e3o das classes altas, e atua politicamente em conson\u00e2ncia com seus interesses. Uma solidariedade de classe que se consolida e fortalece com a funda\u00e7\u00e3o da Escola Superior de Guerra, respons\u00e1vel por elaborar ideologicamente essa unidade atrav\u00e9s de uma Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional orientadora da forma\u00e7\u00e3o de quadros de comando alinhados ao interesse imperialista e seus s\u00f3cios minorit\u00e1rios locais. Diariamente \u00e9 reiterada a vers\u00e3o de que os oficiais que comp\u00f5em o governo s\u00e3o os principais respons\u00e1veis por moderar as interven\u00e7\u00f5es do presidente e aplainar as rea\u00e7\u00f5es opositoras. Retomando a analogia com o cl\u00e1ssico de Marx, ao arremedo brasileiro de Napole\u00e3o faltam o capital e as baionetas.<\/p>\n<p>Sem o papel fundamental de organiza\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o que essas entidades e lideran\u00e7as produzem, e seu papel de liga\u00e7\u00e3o com as fra\u00e7\u00f5es de classe dominantes, a base popular que ainda se ata fervorosamente ao l\u00edder n\u00e3o interv\u00e9m de forma efetiva na disputa pol\u00edtica. Encaminha-se a reprodu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3rica solu\u00e7\u00e3o negociada pelo alto para a composi\u00e7\u00e3o. No dia seguinte \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o e \u00e0s rea\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, o Minist\u00e9rio da Defesa proclama sua ades\u00e3o aos preceitos constitucionais e a defesa da ordem democr\u00e1tica; os jornais anunciam reuni\u00f5es do presidente com os l\u00edderes de MDB e DEM, principais for\u00e7as a controlar os oper\u00e1rios da pol\u00edtica no cotidiano legislativo. \u00c9 sintom\u00e1tico que nesse mesmo dia, no encontro di\u00e1rio que promove com jornalistas enquanto ati\u00e7a sua claque, Bolsonaro tenha sido obrigado a descompor um de seus dezembristas, que gritava pedidos de fechamento do Congresso. As \u00faltimas not\u00edcias especulam a negocia\u00e7\u00e3o para mudan\u00e7as ministeriais que acomodem fontes de apoio, for\u00e7ando a concess\u00e3o de parte do controle da m\u00e1quina que imaginava monopolizar por mandato plebiscit\u00e1rio. A Bolsonaro interessa se manter no poder, ainda que a muito custo precise compartilha-lo. Ao bloco oposicionista formado por fra\u00e7\u00f5es da classe dominante, interessa preserv\u00e1-lo, na medida em que permane\u00e7a nos marcos de sua agenda pol\u00edtica. Sua remo\u00e7\u00e3o produz instabilidade, podendo comprometer o andamento estrat\u00e9gico das reformas, e incerteza quanto ao controle r\u00edgido da interven\u00e7\u00e3o popular no processo pol\u00edtico. Fica ainda preservada a possibilidade de transforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o previstas nesse quadro, pois \u00e0 medida em que um dos atores se movimenta, os demais buscam responder readequando suas posi\u00e7\u00f5es. S\u00e3o dignos de cuidadosa aten\u00e7\u00e3o o lugar que ocupam, na din\u00e2mica do governo, seus grandes catalisadores de apoio.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise da conjuntura e a avalia\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, em conjunto, parecem desenhar um cen\u00e1rio de impossibilidade cr\u00f4nica de mudan\u00e7a de rumos, como se houvesse uma condena\u00e7\u00e3o inescap\u00e1vel \u00e0 eterna repeti\u00e7\u00e3o. Contra o fatalismo e o imobilismo que dele deriva, Gramsci nos ofereceu uma combina\u00e7\u00e3o astuta. Aliar o otimismo da vontade ao pessimismo da raz\u00e3o. O quadro \u00e9 impactante e desafiador, mas assim est\u00e1 porque assim foi feito \u2013 e isso significa que \u00e9 poss\u00edvel fazer que seja diferente. Para dar um andamento hist\u00f3rico distinto, \u00e9 preciso fortalecer o \u00f3rg\u00e3o que articula e prepara as classes trabalhadoras para atuar de forma aut\u00f4noma na defesa de seus interesses na disputa pol\u00edtica. A marca de passividade do desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o burguesa no Brasil n\u00e3o \u00e9 um mandamento divino, mas uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que atendeu aos interesses das classes dominantes, dividida em fra\u00e7\u00f5es incapazes de impor cada uma delas sua domina\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica, mas em acordo quanto \u00e0 estrat\u00e9gia de alijar os setores populares da vida p\u00fablica. Para sua realiza\u00e7\u00e3o, sempre foi fundamental manter os subalternos sob controle atrav\u00e9s da desarticula\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica, perseguindo, reprimindo e criminalizando suas entidades de classe, sindicatos e partidos. O poder popular \u00e9 a estrat\u00e9gia para que o protagonismo do ator supere o imp\u00e9rio dos fatos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25402\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[225],"class_list":["post-25402","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6BI","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25402","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25402"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25402\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25402"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25402"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25402"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}