{"id":25422,"date":"2020-04-30T12:01:28","date_gmt":"2020-04-30T15:01:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25422"},"modified":"2020-04-30T12:01:28","modified_gmt":"2020-04-30T15:01:28","slug":"a-economia-global-a-beira-de-um-colapso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25422","title":{"rendered":"A economia global \u00e0 beira de um colapso"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/leftreviewonline.com\/english\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/American-Dream-is-over-left-review-online-800x450px.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Andr\u00e9 Brand\u00e3o, professor de Filosofia na rede estadual de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica na Bahia e militante da Unidade Classista<\/p>\n<p>O atual movimento da circula\u00e7\u00e3o mercantil e o papel do capital fict\u00edcio<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o do Novo Coronav\u00edrus ao estatuto de pandemia mundial manifesta-se, pelo menos em seu aspecto mais aparente, como o estopim de uma poderosa crise econ\u00f4mica no sistema-mundo do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Para entender qual o papel real do Covid-19 na economia global, \u00e9 necess\u00e1rio apreender tal fator no interior da circula\u00e7\u00e3o efetiva do tecido social, de modo a estabelecer com quais legalidades se desenvolve um vetor heterog\u00eaneo que incide sobre a articula\u00e7\u00e3o interna de tal tecido, e qual seria o eixo central deste movimento recessivo. Os estudos da teoria social marxista apontam para a ideia de que a pandemia n\u00e3o \u00e9 a forma inaugural de um processo de crise, mas sim um elemento potencializador de uma crise econ\u00f4mica que j\u00e1 vinha sendo engendrada antes mesmo da dissemina\u00e7\u00e3o generalizada da doen\u00e7a. Assim, \u00e9 preciso retomar o itiner\u00e1rio que p\u00f4de constituir as condi\u00e7\u00f5es de eclos\u00e3o de uma nova etapa da crise econ\u00f4mica mundial, dramaticamente agravadas pelos efeitos poderosos e nefastos do novo v\u00edrus.<\/p>\n<p>Na ordem mercantil, a circula\u00e7\u00e3o do capital se estabeleceu de modo que a sua contradit\u00f3ria estrutura forma uma legalidade tendencial no sentido a queda da taxa de lucro dos capitalistas. Como explica o ge\u00f3grafo marxista brasileiro Maur\u00edlio Lima Botelho,<\/p>\n<p>[&#8230;] A longo prazo, a tend\u00eancia do investimento capitalista \u00e9 incrementar de tal maneira os meios de produ\u00e7\u00e3o que, em termos relativos, este se torna muito maior do que o montante de capital mobilizado em for\u00e7a de trabalho. Entretanto, o trabalho \u00e9 a \u00fanica fonte de valor e, quanto maior for o volume de capital convertido em m\u00e1quinas e equipamentos, menor ser\u00e1 o grau de acr\u00e9scimo de nova riqueza no sistema. Como a economia capitalista funciona sob a compuls\u00e3o ao lucro e o lucro nada mais \u00e9 do que uma fun\u00e7\u00e3o dessa rela\u00e7\u00e3o entre o volume total de investimentos realizados e a quantidade de valor produzida pelo trabalho, ent\u00e3o a tend\u00eancia \u00e9 uma queda secular dos lucros capitalistas.<\/p>\n<p>Sobre este movimento, Marx assevera n\u2019O capital que n\u00e3o h\u00e1 capitalista algum que se utiliza por sua pr\u00f3pria vontade de tais m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o, por mais produtivos que eles possam ser, a partir do momento que tal alternativa a longo prazo diminuir\u00e1 a sua taxa de lucro. Ele s\u00f3 o faz porque de imediato tais m\u00e9todos barateiam as mercadorias, o que faz com que a empresa possa vend\u00ea-las originalmente acima do seu pre\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o e quem sabe acima do seu valor. Apenas quando a concorr\u00eancia a generaliza e a submete a lei geral que a taxa de lucro decresce. No atual est\u00e1gio do desenvolvimento da ordem do capital, uma s\u00e9rie de mecanismos s\u00e3o introduzidos com o intuito de aumentar a curto prazo os seus ganhos, engendrando de maneira sub-rept\u00edcia a sua queda a longo prazo.<\/p>\n<p>Como Botelho indica, o desenvolvimento da microeletr\u00f4nica proporcionado pela terceira revolu\u00e7\u00e3o industrial levou a economia global a um giro, em que os ganhos em queda nos investimentos produtivos for\u00e7aram uma corrida aos mercados financeiros como estrat\u00e9gia de compensa\u00e7\u00e3o, ainda que tempor\u00e1ria, frente \u00e0s perdas dos lucros da produ\u00e7\u00e3o com os juros dos investimentos. Desta forma, o capital fict\u00edcio foi eleito como rota de fuga para o capitalismo contempor\u00e2neo. Mas o que seria este capital fict\u00edcio?<\/p>\n<p>O capital fict\u00edcio toma forma como capitaliza\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, como t\u00edtulo de propriedade que d\u00e1 direito a participar proporcionalmente na mais-valia que um dado capital venha a realizar. Sua exist\u00eancia marca a expans\u00e3o da mercantiliza\u00e7\u00e3o generalizada da vida que \u00e9 imanente ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, figurando como a \u201ccategoria social que transforma os fluxos de renda futura em mercadoria-capital\u201d. Como ferramenta de apropria\u00e7\u00e3o de mera expectativa de rendimento no porvir, atende a perspectivas eminentemente financeiras com rela\u00e7\u00e3o a capacidade de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o de ganhos, respondendo aos movimentos mercantis com relativa autonomia frente a estrutura econ\u00f4mica real. Assim, o capital fict\u00edcio redefine profundamente as formas de aloca\u00e7\u00e3o da riqueza social, que passam a ter como refer\u00eancia o modo pelo qual as in\u00fameras aplica\u00e7\u00f5es manifestam-se nos mercados financeiros. Sua introdu\u00e7\u00e3o e crescimento confere maior flexibilidade a reprodu\u00e7\u00e3o do capital, ampliando a sua capacidade de acumula\u00e7\u00e3o ao proporcionar uma recomposi\u00e7\u00e3o da riqueza sob a forma financeira.<\/p>\n<p>Deste modo, o capital fict\u00edcio origina-se no ciclo de reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capital industrial, distorcendo a sua circula\u00e7\u00e3o. Isto n\u00e3o significa que ele se contrap\u00f5e a legalidade de tal processo, mas, em sentido contr\u00e1rio, constitui-se como um ap\u00eandice contradit\u00f3rio que potencializa a capacidade de explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. Nunca \u00e9 demais lembrar que os chamados fundos de pens\u00e3o, originariamente constitu\u00eddos para garantir uma renda suplementar a trabalhadores aposentados, possuem protagonismo real no mundo financeiro, sendo geridos por profissionais das finan\u00e7as que especulam com as poupan\u00e7as reunidas em seus empreendimentos, muitas vezes as sequestrando em opera\u00e7\u00f5es inescrupulosas.<\/p>\n<p>Marx aponta que o capital fict\u00edcio se estabelece como um t\u00edtulo puramente ilus\u00f3rio, e sua exist\u00eancia n\u00e3o se conforma de modo a excluir a possibilidade de que represente mera fraude. O fil\u00f3sofo alem\u00e3o chega a afirmar que \u201cna medida em que a desvaloriza\u00e7\u00e3o ou valoriza\u00e7\u00e3o desses t\u00edtulos \u00e9 independente do movimento de valor do capital real que eles representam, a riqueza de uma na\u00e7\u00e3o \u00e9 exatamente do mesmo tamanho tanto antes quanto depois da desvaloriza\u00e7\u00e3o ou valoriza\u00e7\u00e3o\u201d. Enquanto alternativa para manter os lucros a qualquer custo, o desenvolvimento do capital fict\u00edcio manifesta-se de uma maneira surpreendente justamente pelo seu estilo especulativo e predat\u00f3rio. Como afirma David Harvey, o avan\u00e7o do capital fict\u00edcio concretizou-se por meio de<\/p>\n<p>Valoriza\u00e7\u00f5es fraudulentas de a\u00e7\u00f5es, falsos esquemas de enriquecimento imediato, a destrui\u00e7\u00e3o estruturada de ativos por meio da infla\u00e7\u00e3o, a dilapida\u00e7\u00e3o de ativos mediante fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es e a promo\u00e7\u00e3o de n\u00edveis de encargos de d\u00edvida que reduzem popula\u00e7\u00f5es inteiras, mesmo nos pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados, a prisioneiros da d\u00edvida, para n\u00e3o dizer nada da fraude corporativa e do desvio de fundos (a dilapida\u00e7\u00e3o de recursos de fundos de pens\u00e3o e sua dizima\u00e7\u00e3o por colapsos de a\u00e7\u00f5es e corpora\u00e7\u00f5es) decorrente de manipula\u00e7\u00f5es do cr\u00e9dito e das a\u00e7\u00f5es \u2014 tudo isso s\u00e3o caracter\u00edsticas centrais da face do capitalismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Assim, como nos lembra Michel Husson, \u201co capitalismo prefere n\u00e3o produzir em vez de produzir sem lucro\u201d, mesmo que os graves \u00f4nus dessa constru\u00e7\u00e3o especulativa cres\u00e7am de maneira subterr\u00e2nea para explodir em uma crise maior a longo prazo.<\/p>\n<p>Levando em conta todos estes aspectos, podemos atestar que ainda tem grande atualidade a met\u00e1fora marxiana de que o desenvolvimento das rela\u00e7\u00f5es burguesas de produ\u00e7\u00e3o e troca assemelha-se ao feiticeiro que j\u00e1 n\u00e3o pode controlar as pot\u00eancias infernais por ele postas em movimento. O feiti\u00e7o do capital fict\u00edcio surpreende a todos com a apar\u00eancia a curto prazo de gerar valor a partir de nenhum lastro real, mas com a chegada da crise o seu pre\u00e7o pode ser dissolvido com extrema facilidade. Como Marx indica n\u2019O capital, em tempos de crise, o capital fict\u00edcio pode perder drasticamente seu pre\u00e7o, seja pela escassez geral de cr\u00e9ditos, que obriga seus possuidores a lan\u00e7\u00e1-los em massa no mercado a fim de conseguir dinheiro, seja pela diminui\u00e7\u00e3o das rendas a que d\u00e3o direito ou mesmo gra\u00e7as ao car\u00e1ter fraudulento dos empreendimentos que t\u00e3o frequentemente representam, diminuindo enormemente em \u00e9poca de crises e, consequentemente, caindo o poder de seus possuidores de obter dinheiro no mercado, uma vez que os t\u00edtulos n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com o capital real que representam, mais sim com a solv\u00eancia de seus propriet\u00e1rios.<\/p>\n<p>A exaust\u00e3o de um ciclo<\/p>\n<p>Mas afinal, existe de fato uma bolha financeira? Diversas fontes do pr\u00f3prio \u201cmercado\u201d apontam para este momento, indicando uma clara satura\u00e7\u00e3o dos t\u00edtulos e culpabilizando o universo de pequenos agentes econ\u00f4micos que adentraram na bolsa nos \u00faltimos tempos, resultado de sua pauperiza\u00e7\u00e3o, que os obrigaram a buscar uma renda extra nos mais diversos campos, seduzidos pelo canto da sereia do mito do microempreendedor \u00e9pico que, em meio \u00e0s oscila\u00e7\u00f5es financeiras, faz fortuna da noite para o dia. Aqui, os ve\u00edculos ideol\u00f3gicos do capital financeiro reproduzem ao seu modo as pseudoexplica\u00e7\u00f5es promovidas pelos keynesianos, seja pela den\u00fancia de um fr\u00e1gil esp\u00edrito animal dos agentes econ\u00f4micos, que os levariam sempre a respostas emocionais aos mecanismos do mercado, seja pelo Momento Minsky, que reduz as apostas arriscadas dos investimentos a mero sobressalto devido a uma confian\u00e7a indevida, escamoteando a satura\u00e7\u00e3o estrutural dos t\u00edtulos menos arriscados.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que podemos observar o movimento do capital real apresentando sinais evidentes da chegada de um limite para o atual circuito do sistema-mundo mercantil. O mercado imobili\u00e1rio, forte term\u00f4metro para rela\u00e7\u00f5es da ordem mercantil tem apontado para um crescimento gigantesco do pre\u00e7o de im\u00f3veis em diversos espa\u00e7os do mundo, como no conjunto dos pa\u00edses europeus, apresentando uma clara artificializa\u00e7\u00e3o. O impasse entre a OPEP e a R\u00fassia com a defini\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os do barril de petr\u00f3leo e ao ritmo de produ\u00e7\u00e3o, manifesta os impactos geopol\u00edticos e econ\u00f4micos de tais rela\u00e7\u00f5es em que os pa\u00edses digladiam-se para tomar para si as \u00faltimas fatias do bolo, levando a uma queda brusca do pre\u00e7o do barril do petr\u00f3leo, que chegou ao absurdo de adquirir pre\u00e7o negativo, abaixo de zero. No Brasil, antes da eclos\u00e3o da pandemia, mais de 25% do parque produtivo estava parado e a ociosidade tornou-se cr\u00f4nica: os bens de capital, chegaram a 40% de ociosidade; a ind\u00fastria automobil\u00edstica ficou com um ter\u00e7o de suas m\u00e1quinas paradas, numa din\u00e2mica produtiva em que a extens\u00e3o portu\u00e1ria brasileira acumulou em m\u00e9dia 50% de ociosidade.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, em termos financeiros, o montante da soma das d\u00edvidas mundiais j\u00e1 atingiu 225% do total da economia global real. Para termos dimens\u00e3o do risco que tal dado apresenta, em 2007, nas circunst\u00e2ncias pr\u00e9-crise de 2008, a economia real era quatro vezes menor o volume das d\u00edvidas e dez vezes menor do que a movimenta\u00e7\u00e3o do mercado financeiro futuro. No momento presente, o aumento do capital fict\u00edcio est\u00e1 inviabilizando os ganhos especulativos gerais, promovendo um redirecionamento em massa dos investimento para os t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica dos pa\u00edses, cuja remunera\u00e7\u00e3o tornou-se irris\u00f3ria, por conta dos juros baix\u00edssimos a n\u00edvel mundial, chegando at\u00e9 mesmo a se tornarem negativos, remunerando menos que a corre\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o, algo nunca antes visto na hist\u00f3ria mundial, pelo menos n\u00e3o neste volume. J\u00e1 s\u00e3o 17 trilh\u00f5es de d\u00f3lares investidos em t\u00edtulos de governos com rendimentos negativos ao redor do mundo, um quarto de todo o mercado da d\u00edvida p\u00fablica global. O problema do volume da esfera fict\u00edcia do capital j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais a conforma\u00e7\u00e3o de uma massa de capital sem oportunidades de investimento produtivo: o ac\u00famulo de investimentos fict\u00edcios inviabiliza at\u00e9 mesmo os investimentos meramente especulativos.<\/p>\n<p>Nesse ritmo, diversos pa\u00edses, antes mesmo da chegada brutal do novo Coronav\u00edrus, j\u00e1 indicavam recess\u00e3o, como o Jap\u00e3o e Alemanha. Ap\u00f3s o crescimento da pandemia, os Estados Unidos j\u00e1 esperam um encolhimento de 30% do seu PIB e atingir 30% de desemprego. S\u00f3 na segunda metade do m\u00eas de mar\u00e7o, mais de 10 milh\u00f5es de estadunidenses buscaram alternativas de seguro-desemprego. Aqui, no Brasil, \u00e9 esperado o maior recuo da economia desde 1962. Assim, assistimos ao desfecho de um ciclo de superprodu\u00e7\u00e3o, em que a pletora de capitais fict\u00edcios rompeu com o circuito poss\u00edvel do movimento da economia. Temos assim uma crise mundial se instalando aos poucos, representando assim mais uma comprova\u00e7\u00e3o que o movimento do real nos d\u00e1 acerca da iner\u00eancia das crises c\u00edclicas na circula\u00e7\u00e3o do valor do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Marx concebe que a principal caracter\u00edstica que desenvolve a crise capitalista \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o entre a pobreza e a restri\u00e7\u00e3o ao consumo das massas promovida pelo mercado e o \u00edmpeto da produ\u00e7\u00e3o capitalista a desenvolver as for\u00e7as produtivas como se estas tivessem seu limite apenas na capacidade absoluta de consumo da sociedade. Deste modo, ao mesmo tempo que imp\u00f5e limites \u00e0 cristaliza\u00e7\u00e3o do valor que o consumo representa, busca transpor os limites pela sua pura necessidade de reproduzir-se ampliadamente. Isto se reflete na grave contradi\u00e7\u00e3o existente no capitalismo, entre a produ\u00e7\u00e3o social da riqueza e sua apropria\u00e7\u00e3o privada, destinada aos fins do car\u00e1ter abstratamente autoexpansivo do metabolismo social do capital.<\/p>\n<p>Neste sentido, o voo de galinha que representou a aparente sa\u00edda da crise que o Brasil enfrentou em 2014-2016, movido por sua desindustrializa\u00e7\u00e3o, pelo ajuste fiscal, pelo desmonte do estado e pela uberiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho obedeceram a compreens\u00e3o engelsiana de que os capitalistas buscam a sa\u00edda da crise com o engendramento da pr\u00f3xima. A capacidade de consumo das fam\u00edlias brasileiras foi destru\u00edda nos \u00faltimos anos, chegando a um cen\u00e1rio em que 61 milh\u00f5es de brasileiros est\u00e3o endividados, 104 milh\u00f5es de brasileiros possuem renda per capita de at\u00e9 413 reais por m\u00eas, vivendo jornadas de trabalho extenuantes, e com cada vez com menos direitos trabalhistas, abrindo m\u00e3o de f\u00e9rias, d\u00e9cimo terceiro, FGTS, ao passo que, com o desenvolvimento dos v\u00ednculos informais e prec\u00e1rios, a taxa de extra\u00e7\u00e3o de mais-valia bate a casa dos 20 a 25%. Ao acabar com sua fonte real de cristaliza\u00e7\u00e3o do valor, a burguesia acaba cavando a cova da crise econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>No cen\u00e1rio catastr\u00f3fico que pouco a pouco se explicita, o novo coronav\u00edrus surge como um duplo golpe ao sistema econ\u00f4mico capitalista. Ao mesmo tempo em que o isolamento social congela parte significativa do capital vari\u00e1vel, da massa de trabalhadores que efetiva a cria\u00e7\u00e3o de valor, bem como diversos postos de trabalho nos setores de distribui\u00e7\u00e3o e troca das mercadorias, o momento de sua cristaliza\u00e7\u00e3o \u2014 como j\u00e1 foi citado, no ato de consumo \u2014 tamb\u00e9m \u00e9 interditado pela quarentena. Assim, a exaust\u00e3o que a circula\u00e7\u00e3o capitalista mundial j\u00e1 vem sinalizando ganha um novo e in\u00e9dito fardo, e claramente n\u00e3o possui as condi\u00e7\u00f5es para absorv\u00ea-lo sem a intensifica\u00e7\u00e3o do quadro da crise. A redu\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica da ordem mercantil \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do valor imp\u00f5e limites tremendos para garantir os investimentos p\u00fablicos necess\u00e1rios nas a\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e a sobreviv\u00eancia das massas tais como o capital as concebe: como trabalho e como consumo.<\/p>\n<p>As duas respostas poss\u00edveis para a crise<\/p>\n<p>Os trabalhadores n\u00e3o podem esperar o movimento de resposta dos capitalistas \u00e0 crise em que eles mesmos colocaram os primeiros. Para eles mesmos, podemos esperar generosas ajudas. Perante os estragos ampliados pelo Covid-19, o governo dos Estados Unidos j\u00e1 estabeleceu um pacote de est\u00edmulo de 2 trilh\u00f5es de d\u00f3lares para salvar o mercado financeiro, e este montante em curto a m\u00e9dio prazo pode chegar a 6 trilh\u00f5es. Enquanto isso, o que n\u00f3s podemos ver de imediato s\u00e3o mais ataques aos sal\u00e1rios, condi\u00e7\u00f5es de trabalho e dignidade dos trabalhadores, como no exemplo recente da startup educacional de Luciano Huck, expondo o seu tratamento vil aos trabalhadores.<\/p>\n<p>Ao surgir uma nova crise, a faceta destrutiva do capital radicaliza-se de vez, buscando de todo modo destruir uma massa de for\u00e7as produtivas, conquistar novos mercados e explorar de modo mais intenso os mercados antigos para derrubar a crise momentaneamente. Neste sentido, podemos aguardar uma s\u00e9rie violenta de tentativas de expropria\u00e7\u00f5es e uma mercantiliza\u00e7\u00e3o maior das m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia da classe trabalhadora. Em nosso contexto latino-americano, o impacto pode ser ainda maior, uma vez que a nossa economia obedece a uma din\u00e2mica global de trocas desiguais, em que transferimos valor para as economias centrais como mecanismo de compensa\u00e7\u00e3o das exig\u00eancias de acumula\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da mais-valia relativa destes pa\u00edses. Assim, para o desenvolvimento de novos mercados e destrui\u00e7\u00e3o de for\u00e7as produtivas, nenhum tipo de expropria\u00e7\u00e3o pode ser descartado, desde a destrui\u00e7\u00e3o de todo um sistema de sa\u00fade e de previd\u00eancia p\u00fablica, a dilapida\u00e7\u00e3o das universidades e do sistema educacional como fil\u00e3o de mercado e at\u00e9 mesmo as guerras nas periferias do sistema-mundo capitalista, como trincheiras for\u00e7adas dos confrontos interimperialistas.<\/p>\n<p>A crise n\u00e3o adv\u00e9m do Coronav\u00edrus. A crise sanit\u00e1ria representada pela doen\u00e7a agrava fortemente a crise econ\u00f4mica que j\u00e1 estava \u00e0 espreita. O encontro das duas crises e a sua simbiose, se pudermos v\u00ea-la em todos os seus aspectos, demonstra certas aberturas hist\u00f3ricas. Talvez, a principal delas seja a constata\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de que o trabalho humano objetivado, e n\u00e3o a circula\u00e7\u00e3o especulativa de pap\u00e9is, \u00e9 a \u00fanica fonte de valor. S\u00f3 o trabalho e os recursos naturais se constituem como riquezas efetivas. \u00c9 o trabalho que constr\u00f3i, no dia a dia, a produ\u00e7\u00e3o e a reprodu\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia humana, e \u00e9 s\u00f3 o trabalho que pode dar, enquanto resposta prolet\u00e1ria, um rumo para essa crise que possa efetivamente transformar o mundo. S\u00f3 o trabalho pode denunciar as contradi\u00e7\u00f5es inerentes na economia capitalista e apontar para uma outra forma social, n\u00e3o mais marcada por um sistema de riqueza abstrata, que suga as pot\u00eancias humanas em prol de uma reprodu\u00e7\u00e3o ampliada per si. \u00c9 por isso que Marx apontava para a crise como uma abertura sui generis do movimento hist\u00f3rico, que s\u00f3 pode ser efetivado pela classe trabalhadora:<\/p>\n<p>O monop\u00f3lio do capital torna-se um entrave de produ\u00e7\u00e3o que floresceu com ele e sob ele. A centraliza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o e a socializa\u00e7\u00e3o do trabalho atingem um ponto em que se tornam incompat\u00edveis com seu inv\u00f3lucro capitalista. [&#8230;] Soa a hora final da propriedade privada capitalista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25422\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[228],"class_list":["post-25422","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6C2","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25422","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25422"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25422\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}