{"id":25426,"date":"2020-04-30T12:10:42","date_gmt":"2020-04-30T15:10:42","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25426"},"modified":"2020-04-30T12:10:42","modified_gmt":"2020-04-30T15:10:42","slug":"o-neofascista-bolsonaro-diante-da-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25426","title":{"rendered":"O neofascista Bolsonaro diante da pandemia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2020\/04\/michael-lowy-artur-renzo-boitempo.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Michael L\u00f6wy na sede da editora Boitempo. Foto: Artur Renzo.<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Por Michael L\u00f6wy<\/p>\n<p>Um dos fen\u00f4menos mais inquietantes dos \u00faltimos anos \u00e9 a espetacular ascens\u00e3o, no mundo inteiro, de governos de extrema direita, autorit\u00e1rios e reacion\u00e1rios, em alguns casos com tra\u00e7os neofascistas: Shinzo Abe (Jap\u00e3o), Modi (\u00cdndia), Trump (USA), Orban (Hungria) e Bolsonaro (Brasil) s\u00e3o os exemplos mais conhecidos. N\u00e3o \u00e9 surpreendente que v\u00e1rios deles reagiram \u00e0 pandemia do coronav\u00edrus de forma absurda, negando ou subestimando dramaticamente o perigo.<\/p>\n<p>Foi o caso de Donald Trump nas primeiras semanas, e de seu disc\u00edpulo ingl\u00eas, Boris Johnson, que chegou a propor que se deixasse o conjunto da popula\u00e7\u00e3o se infectar com o v\u00edrus, para assim \u201cimunizar coletivamente\u201d toda a na\u00e7\u00e3o \u2013 claro, com o custo de algumas centenas de milhares de mortes\u2026 Mas diante da crise, os dois tiveram de recuar, no caso de Boris Johnson, sendo ele mesmo gravemente atingido.<\/p>\n<p>O caso do Brasil torna-se assim especial, porque o personagem do Pal\u00e1cio da Alvorada persiste em sua atitude \u201cnegacionista\u201d, caracterizando o coronav\u00edrus como uma \u201cgripezinha\u201d, defini\u00e7\u00e3o que merece entrar nos anais, n\u00e3o da medicina, mas da loucura pol\u00edtica. Mas esta loucura tem sua l\u00f3gica, que \u00e9 a do \u201cneofascismo\u201d.<\/p>\n<p>O neofascismo n\u00e3o \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o do fascismo dos anos 1930: \u00e9 um fen\u00f4meno novo, com caracter\u00edsticas do s\u00e9culo XXI. Por exemplo, n\u00e3o toma a forma de uma ditadura policial, respeita algumas formas democr\u00e1ticas: elei\u00e7\u00f5es, pluralismo partid\u00e1rio, liberdade de imprensa, exist\u00eancia de um Parlamento, etc. Naturalmente, trata, na medida do poss\u00edvel, de limitar ao m\u00e1ximo estas liberdades democr\u00e1ticas, com medidas autorit\u00e1rias e repressivas. Tampouco se apoia em tropas de choque armadas, como o eram as SA alem\u00e3s ou o fascio italiano.<\/p>\n<p>Isto vale tamb\u00e9m para Bolsonaro: ele n\u00e3o \u00e9 nem Hitler nem Mussolini, e n\u00e3o tem nem mesmo como refer\u00eancia a vers\u00e3o brasileira do fascismo nos anos 1930, o integralismo de Pl\u00ednio Salgado. Enquanto que o fascismo cl\u00e1ssico propugnava a interven\u00e7\u00e3o massiva do Estado na economia, o neofascismo de Bolsonaro \u00e9 totalmente identificado com o neoliberalismo, e tem por objetivo impor uma pol\u00edtica socioecon\u00f4mica favor\u00e1vel \u00e0 oligarquia, sem nenhuma das pretens\u00f5es \u201csociais\u201d do fascismo antigo.<\/p>\n<p>Um dos resultados desta vers\u00e3o fundamentalista do neoliberalismo \u00e9 o desmantelamento do sistema de sa\u00fade p\u00fablica brasileira (SUS), j\u00e1 bastante fragilizado pelas pol\u00edticas de governos anteriores. Nestas condi\u00e7\u00f5es, a crise sanit\u00e1ria decorrente da dissemina\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus pode ter consequ\u00eancias tr\u00e1gicas, sobretudo para as camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica pr\u00f3pria ao neofascismo brasileiro \u00e9 que, apesar de sua ret\u00f3rica ultranacionalista e patrioteira, ele \u00e9 completamente subordinado ao imperialismo americano, do ponto de vista econ\u00f4mico, diplom\u00e1tico, pol\u00edtico e militar. Isto se manifestou tamb\u00e9m na rea\u00e7\u00e3o ao coronav\u00edrus, quando se viu Bolsonaro e seus ministros imitar Donald Trump, culpando os chineses pela epidemia.<\/p>\n<p>O que Bolsonaro tem em comum com o fascismo cl\u00e1ssico \u00e9 o autoritarismo, a prefer\u00eancia por formas ditatoriais de governo, o culto do Chefe (\u201cMito\u201d) Salvador da P\u00e1tria, o \u00f3dio \u00e0 esquerda e ao movimento oper\u00e1rio. Mas n\u00e3o consegue organizar um partido de massas, nem tropas de choque uniformizas. Tampouco tem condi\u00e7\u00f5es, por enquanto, de estabelecer uma ditadura fascista, um Estado totalit\u00e1rio, fechando o Parlamento e colocando fora da lei sindicatos e partidos de oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O autoritarismo de Bolsonaro se manifesta no seu \u201ctratamento\u201d da pandemia, tentando impor, contra o Congresso, os governos estaduais e seus pr\u00f3prios ministros uma pol\u00edtica cega de recusa das medidas sanit\u00e1rias m\u00ednimas, indispens\u00e1veis para tentar limitar as dram\u00e1ticas consequ\u00eancias da crise (confinamento, etc). Sua atitude tem tamb\u00e9m tra\u00e7os de social-darwinismo (t\u00edpico do fascismo): a sobreviv\u00eancia dos mais fortes. Se milhares de pessoas vulner\u00e1veis \u2013 idosos, pessoas de sa\u00fade fr\u00e1gil \u2013 virem a falecer, \u00e9 o pre\u00e7o a pagar, afinal, \u201co Brasil n\u00e3o pode parar!\u201d.<\/p>\n<p>Um aspecto espec\u00edfico do neofascismo bolsonarista \u00e9 seu o obscurantismo, o desprezo pela ci\u00eancia, em alian\u00e7a com seus apoiadores incondicionais, os setores mais retr\u00f3grados do neopentecostalismo \u201cevang\u00e9lico\u201d. Esta atitude, digna do terraplanismo, n\u00e3o tem equivalente em outros regimes autorit\u00e1rios, mesmo aqueles que t\u00eam como ideologia o fundamentalismo religioso como \u00e9 o caso do Ir\u00e3. Max Weber distinguia religi\u00e3o, baseada em princ\u00edpios \u00e9ticos, e magia, a cren\u00e7a nos poderes sobrenaturais do sacerdote. No caso de Bolsonaro e seus amigos pastores neopentecostais (Malafala, Edir Macedo, etc) se trata mesmo de magia ou de supersti\u00e7\u00e3o: parar a epidemia com \u201cora\u00e7\u00f5es\u201d e \u201cjejuns\u201d\u2026<\/p>\n<p>Embora Bolsonaro n\u00e3o tenha conseguido impor o conjunto de seu programa mort\u00edfero, uma parte dele \u2013 por exemplo, um relaxamento do confinamento \u2013 talvez se imponha, por meio de imprevis\u00edveis negocia\u00e7\u00f5es do presidente com seus ministros, militares ou civis.<\/p>\n<p>Apesar do comportamento delirante do sinistro personagem atualmente instalado no Pal\u00e1cio da Alvorada, e da amea\u00e7a que ele representa para a sa\u00fade publica, uma parcela importante da popula\u00e7\u00e3o brasileira ainda o apoia, em maior ou menor medida. Segundo sondagens recentes, s\u00f3 17% dos eleitores que votaram nele se mostram arrependidos de seu voto.<\/p>\n<p>O combate da esquerda e das for\u00e7as populares brasileiras contra o neofascismo ainda est\u00e1 no come\u00e7o; ser\u00e1 preciso mais do que alguns simp\u00e1ticos protestos de ca\u00e7arolas para derrotar esta forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica teratol\u00f3gica. Certo, mais cedo ou mais tarde o povo brasileiro vai se libertar deste pesadelo neofascista. Mas qual ser\u00e1 o pre\u00e7o a pagar, at\u00e9 l\u00e1?<\/p>\n<p>Post Scriptum: Em 20 de abril Bolsonaro fez uma declara\u00e7\u00e3o significativa. Disse que cerca de \u201c70% da popula\u00e7\u00e3o vai ser contaminada pela covid-19, isto \u00e9 inevit\u00e1vel\u201d Claro, seguindo a l\u00f3gica da \u201cimuniza\u00e7\u00e3o de grupo\u201d (proposta inicial de Trump e Boris Johnson, depois abandonada), isto talvez pudesse acontecer. Mas s\u00f3 seria \u201cinevit\u00e1vel\u201d se Bolsonaro conseguisse impor sua pol\u00edtica de recusa das medidas de confinamento: \u201co Brasil n\u00e3o pode parar\u201d.<\/p>\n<p>Quais seriam as consequ\u00eancias? A taxa de mortalidade da covid-19 no Brasil atualmente \u00e9 de 7% das pessoas contaminadas. Um pequeno c\u00e1lculo aritm\u00e9tico levaria \u00e0 seguinte conclus\u00e3o: (1) Se 70% da popula\u00e7\u00e3o brasileira fosse contaminada seriam 140 milh\u00f5es de pessoas. (2) 7% de mortalidade de 140 milh\u00f5es d\u00e1 uns 10 milh\u00f5es. (3) Se Bolsonaro conseguisse impor sua orienta\u00e7\u00e3o, o resultado seriam dez milh\u00f5es de brasileiros mortos.<\/p>\n<p>Isto se chama, na linguagem penal internacional, genoc\u00eddio. Por um crime equivalente, v\u00e1rios dignit\u00e1rios nazistas foram condenados \u00e0 forca pelo Tribunal de Nuremberg.<\/p>\n<p>* Publicado originalmente no site \u201cA terra \u00e9 redonda\u201d e, 28 abr. 2020.<\/p>\n<p>Michael L\u00f6wy, soci\u00f3logo, \u00e9 nascido no Brasil, formado em Ci\u00eancias Sociais na Universidade de S\u00e3o Paulo, e vive em Paris desde 1969. Diretor em\u00e9rito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Homenageado, em 1994, com a medalha de prata do CNRS em Ci\u00eancias Sociais, \u00e9 autor de Estrela da manh\u00e3: marxismo e surrealismo (2018) Revolta e melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade, Walter Benjamin: aviso de inc\u00eandio (2005), Lucien Goldmann ou a dial\u00e9tica da totalidade (2009), A teoria da revolu\u00e7\u00e3o no jovem Marx (2012), A jaula de a\u00e7o: Max Weber e o marxismo weberiano (2014) e organizador de Revolu\u00e7\u00f5es (2009) e Capitalismo como religi\u00e3o (2013), de Walter Benjamin, al\u00e9m de coordenar, junto com Leandro Konder, a cole\u00e7\u00e3o Marxismo e literatura da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25426\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[226],"class_list":["post-25426","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6C6","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25426","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25426"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25426\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25426"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25426"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25426"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}