{"id":25440,"date":"2020-05-01T22:42:33","date_gmt":"2020-05-02T01:42:33","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25440"},"modified":"2020-05-01T22:42:33","modified_gmt":"2020-05-02T01:42:33","slug":"a-ditadura-que-tentou-matar-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25440","title":{"rendered":"A ditadura que tentou matar o futuro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/midia.gruposinos.com.br\/_midias\/jpg\/2020\/04\/30\/ew2_yzmxgauwkjw-18977964.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Jair Bolsonaro, durante visita ao Centro de Opera\u00e7\u00f5es de combate \u00e0 covid-19 do Comando Militar do Sul, em Porto Alegre. 30 abr. 2020.<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>O perfil bonapartista, e a pr\u00e1tica pol\u00edtica do militar-presidente, tem colocado em movimento um golpe de Estado que j\u00e1 se apresenta em diversas a\u00e7\u00f5es, contudo, ainda n\u00e3o teve um desfecho institucional.<\/p>\n<p>Por Milton Pinheiro<\/p>\n<p>Para Angelina Gon\u00e7alves, oper\u00e1ria tecel\u00e3 e militante do PCB, assassinada nas manifesta\u00e7\u00f5es do primeiro de maio na cidade do Rio Grande (RS) por agentes do DOPS e da Brigada Militar.<\/p>\n<p>S\u00f3 vos pe\u00e7o uma coisa: se sobreviverdes a esta \u00e9poca, n\u00e3o vos esque\u00e7ais!<br \/>\nN\u00e3o vos esque\u00e7ais nem dos bons, nem dos maus.<br \/>\nJuntai com paci\u00eancia as testemunhas daqueles que tombaram por eles e por v\u00f3s.<br \/>\nUm belo dia, hoje ser\u00e1 o passado, e falar\u00e3o numa grande \u00e9poca<br \/>\ne nos her\u00f3is an\u00f4nimos que criaram a hist\u00f3ria.<br \/>\nGostaria que todo mundo soubesse que n\u00e3o h\u00e1 her\u00f3is an\u00f4nimos.<br \/>\nEles eram pessoas, e tinham nomes, tinham rostos, desejos e esperan\u00e7as,<br \/>\ne a dor do \u00faltimo entre os \u00faltimos n\u00e3o era menor do que a dor do primeiro,<br \/>\ncujo nome h\u00e1 de ficar.<br \/>\nQueria que todos esses vos fossem t\u00e3o pr\u00f3ximos como pessoas que tiv\u00e9sseis<br \/>\nConhecido como membros da sua fam\u00edlia, como v\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Julius Fucik1<\/p>\n<p>As for\u00e7as golpistas tentam, novamente, entrar em cena<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 56 anos do golpe-burgo militar de 1964, setores do com\u00e9rcio varejista, militares da reserva, militares de alta patente confinados ao aparato de Estado, segmentos da pequena burguesia (classe m\u00e9dia) racistas e neofascistas, hordas neopentencostais, agrupamentos instalados nos aparatos de repress\u00e3o dos estados (PM), estratos da seguran\u00e7a privada, setores da Pol\u00edcia Federal, e profissionais da pequena pol\u00edtica nos diversos n\u00edveis do parlamento, sinalizam, nas m\u00eddias de cont\u00e1gio, e em apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, o desejo que o atual presidente, o agitador fascista Jair Bolsonaro, rompa as balizas institucionais da democracia formal, j\u00e1 fraturada, e d\u00ea um golpe de Estado.<\/p>\n<p>A crise condensada que abala a Rep\u00fablica \u2013 sem caracter\u00edsticas de ruptura revolucion\u00e1ria -, para al\u00e9m das disputas entre as fra\u00e7\u00f5es da burguesia por um espa\u00e7o maior no bloco no poder e da presen\u00e7a constante da extrema direita, ainda contempla uma articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que unifica aqueles segmentos que podemos qualificar como base social do Bolsonaro: a pequena burguesia (classe m\u00e9dia) n\u00e3o vinculada ao servi\u00e7o p\u00fablico e a burguesia industrial\/comercial que n\u00e3o precisam do consumo de massas, nem do d\u00f3lar barato.<\/p>\n<p>O perfil bonapartista, e a pr\u00e1tica pol\u00edtica do militar-presidente, tem colocado em movimento um golpe de Estado que j\u00e1 se apresenta em diversas a\u00e7\u00f5es, contudo, ainda n\u00e3o teve um desfecho institucional. Essa concretiza\u00e7\u00e3o do ato de ruptura institucional, ainda n\u00e3o se estabeleceu em virtude da c\u00e9lere altera\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre os golpistas por um lado e, por outro, pelo avan\u00e7o das for\u00e7as de esquerda e das organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora na conjuntura em disputa diante da pandemia do coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>A luta de classes entrou no campo do imprevis\u00edvel. O enfrentamento dos operadores da pol\u00edtica do campo socialista, ao lado da inicial movimenta\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es das classes trabalhadoras, tem constru\u00eddo uma cena pol\u00edtica que tende a ser desvelada. Neste cen\u00e1rio abrupto, precisamos aprender com as li\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria e combater o que a extrema direita quer \u201creviver\u201d ao saudar o golpe de 1964 e sua ditadura.<\/p>\n<p>A ditadura burgo-militar, que o complexo ideol\u00f3gico da extrema-direita reivindica, efetivou uma opera\u00e7\u00e3o que tentou matar o futuro. As organiza\u00e7\u00f5es da esquerda brasileira que optaram por resistir \u00e0 ditadura, com armas em punho, foram destro\u00e7adas covardemente pelo aparato da repress\u00e3o do Estado ditatorial. Destru\u00edram a ALN, PCBR, VPR, Colina, VAR-Palmares, REDE, MRT, MR-8, POC, AP, Molipo, PORT, etc; assassinaram Carlos Marighella, C\u00e2mara Ferreira, M\u00e1rio Alves, Capit\u00e3o Carlos Lamarca, Eduardo Collen Leite (Bacuri), Sargento Onofre Pinto, Luiz Eduardo Merlino, Maur\u00edcio Grabois, Pedro Pomar, a revolucion\u00e1ria juventude que lutou pelo futuro na guerrilha do Araguaia, militantes internacionalistas e centenas de homens e mulheres que deram suas vidas em defesa da liberdade e da Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira. Contudo, a viol\u00eancia policial-militar da ditadura operava a servi\u00e7o da burguesia e do seu projeto de domina\u00e7\u00e3o que estava orientado para destro\u00e7ar o PCB, que ainda era a for\u00e7a hegem\u00f4nica na esquerda brasileira, antes de qualquer projeto de sustenta\u00e7\u00e3o e da chamada \u201cabertura pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>Nessa conjuntura pol\u00edtica precisamos aprender com a hist\u00f3ria para que as trevas do obscurantismo n\u00e3o se apresentem com possibilidade de vit\u00f3ria novamente. Por isso, analisar como essa repress\u00e3o se abateu sobre o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o mais longevo operador pol\u00edtico da classe trabalhadora brasileira, \u00e9 uma das li\u00e7\u00f5es que nos apresenta a hist\u00f3ria para impedirmos que o futuro seja novamente colocado em risco.<\/p>\n<p>O PCB sempre foi atacado com extrema viol\u00eancia durante o s\u00e9culo XX, mas, nada se compara ao massacre organizado pelas for\u00e7as militares e policiais da burguesia durante a ditadura de 1964-1985.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, o \u00f3dio de classe exercitado pela burguesia durante todo o s\u00e9culo XX contra o PCB, foi levado \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias pelo aparato do Estado burgu\u00eas-militar. Eles prenderam, torturaram e mataram os militantes mais destacados de um operador pol\u00edtico que teve seus erros no pr\u00e9-1964, mas que resolveu articular uma ampla luta de massas contra a ditadura, e por isso pagou um gigantesco pre\u00e7o, que foi regado com o sofrimento e sangue de seus militantes.<\/p>\n<p>O massacre contra o PCB2<\/p>\n<p>Logo no primeiro momento, quando se estabeleceram as trevas golpistas que cortaram as luzes da democracia em constru\u00e7\u00e3o, no \u00faltimo dia de mar\u00e7o de 1964, a burguesia e seu aparato militar\/policial repressivo partiu para cima dos comunistas. Era a bota de chumbo pisando o sol da liberdade, come\u00e7ando a ceifar vidas da vanguarda comunista.<\/p>\n<p>A primeira v\u00edtima foi o estudante secundarista Ivan Rocha Aguiar (PE), jovem militante ligado ao partido, l\u00edder do Gr\u00eamio estudantil Joaquim Nabuco e da Uni\u00e3o dos Estudantes de Palmares. Tinha 22 anos quando foi assassinado a tiros juntamente com Jonas Jos\u00e9 Albuquerque Barros no primeiro dia de abril, na Rua Dantas Barreto, em Recife, protestando contra o golpe e em defesa do governo popular de Miguel Arraes. Come\u00e7ava ent\u00e3o a jorrar o sangue dos comunistas brasileiros em defesa das liberdades democr\u00e1ticas e da emancipa\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Segue-se assim um longo roteiro\u2026<\/p>\n<p>Estivador e sindicalista, Antogildo Pascoal Viana (AM) era presidente do Sindicato dos Estivadores de Manaus e representante da categoria no CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), encontrava-se na Guanabara quando foi assassinado sob tortura, aos 36 anos, no dia 8 de abril de 1964. Mesmo morto, seu nome constava na lista dos cem maiores inimigos da ditadura cassados pelo AI-1 que foi editado no dia 9 de abril de 1964.<\/p>\n<p>Oper\u00e1rio eletricista e sindicalista, velho militante do partido, Carlos Schirmer (MG) foi preso no dia 1\u00ba de maio em sua casa na cidade de Divin\u00f3polis. Reagiu \u00e0 pris\u00e3o, lutando com dois policiais, quando foi baleado. O militante comunista tinha 68 anos quando foi assassinado, seu corpo foi levado para Belo Horizonte.<\/p>\n<p>Pedro Domiense de Oliveira (BA) era sindicalista, funcion\u00e1rio p\u00fablico (Correios) e l\u00edder dos posseiros urbanos do Nordeste de Amaralina, em Salvador. Foi presidente das Classes Fardadas de Correios e Tel\u00e9grafos, trabalhou no jornal O Momento, era bacharel em Ci\u00eancias e Letras, e foi muito perseguido pela repress\u00e3o. Pedro estava na reda\u00e7\u00e3o do jornal quando o Ex\u00e9rcito invadiu a sede e o espancou barbaramente em 1953, vindo depois a contrair tuberculose em virtude daquela tortura. Foi preso no dia 4 de maio de 1964, sendo encaminhado para o Quartel do Ex\u00e9rcito onde foi envenenado, vindo a falecer no dia 7 de maio aos 43 anos.<\/p>\n<p>Manuel Alves de Oliveira (SE), segundo sargento do Ex\u00e9rcito servindo no Rio de Janeiro, foi preso no Regimento Andrade Neves em abril, ficando detido para responder inqu\u00e9rito policial-militar. No dia 8 de maio, foi deslocado para o Hospital Central do Ex\u00e9rcito quando foi brutalmente torturado, vindo a falecer aos 29 anos. Seu assassinato causou impacto na opini\u00e3o p\u00fablica em virtude das den\u00fancias da vi\u00fava (Concei\u00e7\u00e3o Martorelli de Oliveira) e o governo Castelo Branco resolveu \u201ctomar medidas acauteladoras\u201d ao nomear o general Geisel para investigar tortura nos quart\u00e9is.<\/p>\n<p>O l\u00edder gr\u00e1fico e sindicalista Newton Eduardo de Oliveira (PE) foi presidente da Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores nas Ind\u00fastrias Gr\u00e1ficas, integrava o CGT e foi cassado pelo AI-1 no dia 9 de abril. Vivia na clandestinidade uma brutal persegui\u00e7\u00e3o, para ele, em carta publicada no jornal \u00daltima Hora, do Rio de Janeiro: \u201cS\u00f3 via duas sa\u00eddas: a morte ou a pris\u00e3o, com todas as circunst\u00e2ncias de uma pol\u00edcia desumana e cruel. Prefiro a morte\u201d. Sendo assim, foi levado ao suic\u00eddio pela ditadura no 1\u00ba de setembro aos 42 anos.<\/p>\n<p>O l\u00edder campon\u00eas Jo\u00e3o Alfredo Dias (PB), organizador da Liga Camponesa de Sap\u00e9, era um incans\u00e1vel militante, foi preso muitas vezes defendendo os camponeses. Era conhecido como \u201cnego fub\u00e1\u201d, foi sapateiro e ex-vereador com uma extraordin\u00e1ria vota\u00e7\u00e3o. Preso pela repress\u00e3o ap\u00f3s o golpe ficou detido no Ex\u00e9rcito em Jo\u00e3o Pessoa, onde foi torturado seguidamente at\u00e9 setembro de 1964. Encontra-se desaparecido desde o dia 7 de setembro de 1964, aos 32 anos.<\/p>\n<p>Ainda no dia da p\u00e1tria, ap\u00f3s pris\u00e3o e tortura, tamb\u00e9m desapareceu o l\u00edder campon\u00eas de Sap\u00e9 e presidente das Ligas Camponesas, Pedro In\u00e1cio de Ara\u00fajo (PB) que tinha 54 anos. Ele foi membro da Federa\u00e7\u00e3o das Ligas Camponesas, sendo preso diversas vezes durante aquela jornada de lutas. Tamb\u00e9m atuou em conjunto com Jo\u00e3o Pedro Teixeira, l\u00edder campon\u00eas que foi assassinado em 1962.<\/p>\n<p>O baiano de Nazar\u00e9 das Farinhas, Israel Tavares Roque (BA), era gr\u00e1fico, havia trabalhado no jornal O Momento, quando foi preso em 1953 pela primeira vez na reda\u00e7\u00e3o do jornal do PCB. Foi dirigente do partido em Salvador. No dia 15 de novembro de 1964, aos 34 anos, um policial da Bahia a servi\u00e7o da ditadura prendeu o gr\u00e1fico e, a partir dessa data, ele encontra-se desaparecido.<\/p>\n<p>O mar\u00edtimo Divo Fernandes D\u2019oliveira (SC) era taifeiro da marinha mercante e como militante do PCB tinha a tarefa de levar para cada porto do Brasil as correspond\u00eancias e os jornais do partido. Teve atua\u00e7\u00e3o destacado no com\u00edcio da Central do Brasil, no dia 13 de mar\u00e7o de 1964. Foi preso logo ap\u00f3s o golpe burgo-militar e levado para o pres\u00eddio Lemos Brito, no Rio de Janeiro. A ditadura desapareceu com Divo, de acordo com as pesquisas, no final de 1964 ou come\u00e7o de 1965, aos 70 anos.<\/p>\n<p>Ao todo, em 1964, a ditadura matou 30 militantes que lutavam contra o arb\u00edtrio, sendo dez do PCB. Contudo, esses dados podem n\u00e3o conter desaparecimentos e algumas mortes estranhas, n\u00e3o computadas diretamente \u00e0 repress\u00e3o. Mas, com certeza, em virtude da a\u00e7\u00e3o criminosa do estado ditatorial naquele momento.<\/p>\n<p>Em 1965, no dia 28 de julho, foi preso, por agentes da Aeron\u00e1utica, o ex-militar Severino Elias de Melo (PB). Ele havia sido mascate muito jovem no interior da Para\u00edba para ajudar sua fam\u00edlia. Deslocou-se aos 17 anos para o Rio de Janeiro, quando entrou para a Aeron\u00e1utica, tendo participado junto com Luiz Carlos Prestes da revolta dos tenentes sendo, por isso, desligado da For\u00e7a A\u00e9rea. Foi diretor da Editora do PCB (Vit\u00f3ria). Ap\u00f3s sua pris\u00e3o, foi levado para a Base A\u00e9rea do Gale\u00e3o onde foi torturado e faleceu no dia 30 de julho, aos 51 anos.<\/p>\n<p>No dia 4 de abril de 1967, foi preso na cidade de Feira de Santana, na Bahia, Inoc\u00eancio Pereira Alves (BA), alfaiate. Quando da pris\u00e3o, em sua casa, foi barbaramente espancado na frente de seus familiares e depois levado para o Batalh\u00e3o da PM. Depois foi deslocado para Salvador, primeiro para o Quartel da PM no bairro dos Dendezeiros e, posteriormente, para o Quartel dos Aflitos. Em ambas as depend\u00eancias, foi selvagemente torturado. Ficou preso 2 anos e 3 meses, quando, j\u00e1 estando com a sa\u00fade completamente comprometida pela tortura foi, posteriormente, internado como indigente no Albergue Santo Ant\u00f4nio onde morreu no dia 18 de mar\u00e7o de 1967, aos 67 anos.<\/p>\n<p>Em deslocamento de S\u00e3o Paulo para Curitiba, foi preso e assassinado sob tortura Lucindo Costa (SE), aos 48 anos, no dia 26 de julho de 1967. Ele era funcion\u00e1rio p\u00fablico e, constantemente, transportava documentos do partido. As circunst\u00e2ncias da sua morte ficaram completamente desconhecidas. Sabe-se que no dia 31 de julho, 5 dias depois do seu assassinato, ele foi demitido do servi\u00e7o p\u00fablico por \u201cindisciplina\u201d; a pesquisa identificou que no prontu\u00e1rio dele n\u00e3o constava essa informa\u00e7\u00e3o. Em agosto, agentes do Ex\u00e9rcito foram at\u00e9 a sua casa para recolher documentos e cartas que ele havia recebido. Algum tempo depois, sua fam\u00edlia foi obrigada, por agentes da repress\u00e3o, a reconhecer um corpo que teria morrido em virtude de atropelamento como sendo o de Lucindo.<\/p>\n<p>Em 10 de outubro de 1969, a ditadura, atrav\u00e9s do Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas (CCC), e o Cenimar (Marinha), matou o vice-presidente da UEE da Para\u00edba e estudante de medicina da UFPB, Jo\u00e3o Roberto Borges de Souza (PB). O l\u00edder estudantil havia sido preso em alguns momentos depois do golpe (Congresso da UNE em Ibi\u00fana\/SP, depois em Recife). Por fim, foi preso no dia 7 de outubro pelo CCC e Cenimar e assassinado sob tortura no dia 10, aos 23 anos.<\/p>\n<p>O recrudescimento da ditadura avan\u00e7ou ap\u00f3s o AI-5 em 1968, uma parte importante da esquerda brasileira, rompida com o PCB, enfrentava as trevas organizando a luta armada, sofrendo, portanto, o massacre covarde da ditadura. O PCB, consciente da necessidade de colocar as massas no processo de resist\u00eancia, desenvolvia seu trabalho oper\u00e1rio e popular, que avan\u00e7ava na constru\u00e7\u00e3o de uma Frente Democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>No decorrer de 1971, o terror da ditadura prosseguia com a tortura especializada. Jos\u00e9 Dalmo Guimar\u00e3es Lins (AL) era um destacado militante comunista, foi cronista no jornal A Voz do Povo (AL), foi enviado pelo partido para Cuba e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica para fazer cursos de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, tornando-se dirigente da executiva do partido em Alagoas. Foi preso antes e depois do golpe. Mudou-se para o Rio de Janeiro, voltou a ser preso em 1969, com sua esposa Maria Luiza de Ara\u00fajo (estudante de medicina), no dia 18 de maio de 1970, quando sua casa foi invadida e eles foram levados para o quartel do Ex\u00e9rcito na Rua Bar\u00e3o de Mesquita (sede do DOI-CODI\/RJ), na mesma cidade. Barbaramente torturado, seis meses depois Jos\u00e9 Dalmo foi solto com graves problemas mentais em virtude da tortura. No dia 11 de fevereiro de 1971, sozinho em seu apartamento (Maria Luiza continuaria presa at\u00e9 20 de mar\u00e7o de 1972), Jos\u00e9 Dalmo \u201cse jogou do sexto andar\u201d vindo a morrer aos 33anos.<\/p>\n<p>O ex-sargento da PM paraibana, ex-funcion\u00e1rio do Banco do Nordeste e funcion\u00e1rio da Embratel, Francisco da Chagas Pereira (PB) era um ativo militante, quando foi acusado de ter feito um atentado contra as instala\u00e7\u00f5es da empresa (Embratel) e passou a ser severamente procurado. Est\u00e1 desaparecido desde o dia 5 de agosto de 1971, quando tinha 27 anos.<\/p>\n<p>O sapateiro e velho militante comunista Epaminondas Gomes de Oliveira (MA) estava organizando trabalhadores do garimpo de Ipixuna (PA) quando foi preso, no dia 9 de agosto, e levado para Jacund\u00e1 (PA), depois Imperatriz (MA) e por fim para Bras\u00edlia. Ele foi preso na Opera\u00e7\u00e3o Mesopot\u00e2mia, comandada pelo criminoso Gal. Antonio Bandeira de Mello. Ap\u00f3s ser torturado, ele foi assassinado em 20 de agosto de 1971, em Bras\u00edlia, aos 69 anos.<\/p>\n<p>Em 1972, alguns militantes da esquerda foram assassinados pela repress\u00e3o policial-militar, dois pertenciam aos quadros do PCB.<\/p>\n<p>O jovem militante secundarista Ismael Silva de Jesus (GO) foi preso no dia 8 de agosto, sendo estupidamente torturado no d\u00e9cimo Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores de Goi\u00e1s, faleceu no dia seguinte, 9 de agosto de 1972, faltando 3 dias para completar 19 anos.<\/p>\n<p>C\u00e9lio Augusto Guedes (BA) entrou no partido em meados dos anos 1930 atrav\u00e9s da juventude comunista. Trabalhou na lapida\u00e7\u00e3o de pedras preciosas e estudou odontologia. Membro de hist\u00f3rica fam\u00edlia de comunistas baianos (irm\u00e3o de Arm\u00eanio Guedes), trabalhou no aparelho de seguran\u00e7a diretamente com Prestes e exerceu v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es dentro do partido. Em 1970, foi condenado, \u00e0 revelia, a dois anos de deten\u00e7\u00e3o por suas atividades comunistas. Foi preso na fronteira sul (Uruguai), juntamente com o m\u00e9dico comunista Fued Saad e levados para a sede do Cenimar (Marinha) no Rio de Janeiro. C\u00e9lio Guedes foi torturado e assassinado em 15 de agosto de 1972, aos 51 anos.<\/p>\n<p>O her\u00f3i da segunda guerra, Jos\u00e9 Mendes de S\u00e1 Roriz (CE), tornou-se l\u00edder dos combatentes por seu hero\u00edsmo em campo de batalha na It\u00e1lia. Perdeu a vis\u00e3o de um dos olhos e foi condecorado por diversas vezes. Em campo de batalha, salvou da morte o Marechal Cordeiro de Farias. Foi preso nos primeiros momentos do golpe de 1964, sendo solto em 1965. Partiu exilado para o M\u00e9xico, onde permaneceu at\u00e9 1969. Voltando ao Brasil em virtude de uma grave doen\u00e7a de seu filho mais novo (meningite), conseguiu escapar de um cerco das for\u00e7as de repress\u00e3o \u00e0 sua casa. A ditadura cercou sua resid\u00eancia sequestrando seu filho e neta. Eles exigiam, sob tortura do filho, que ele se entregasse para liberar os ref\u00e9ns. O comunista entregou-se ao marechal Cosme de Farias no come\u00e7o de fevereiro de 1973. No entanto, foi assassinado na mais cruel tortura no dia 17 de fevereiro de 1973 aos 46 anos.<\/p>\n<p>Mas, o pior ainda estava por vir. A ditadura burgo-militar iria ca\u00e7ar os comunistas brasileiros, aprofundando em 1974 uma longa persegui\u00e7\u00e3o planejada para liquidar o PCB, cuja pol\u00edtica de resist\u00eancia democr\u00e1tica come\u00e7ava a se consolidar com a articula\u00e7\u00e3o da Frente Ampla contra o regime.<\/p>\n<p>No come\u00e7o do ano de 1974, em 18 de mar\u00e7o, foi preso e sequestrado Davi Capistrano da Costa (CE), um importante dirigente comunista. Ex-militar, participou do levante de 1935, quando foi preso. Fugiu de Ilha Grande e foi lutar, em 1936, na Espanha, ao lado dos republicanos como brigadista internacionalista. Participou de forma her\u00f3ica na batalha de Ebro, que ocorreu entre julho e outubro de 1938. Ainda em 1938, foi para a Fran\u00e7a, onde lutou na resist\u00eancia a ocupa\u00e7\u00e3o nazista. Foi preso pelos nazistas e, por ser estrangeiro, n\u00e3o foi executado no primeiro momento, mas, foi levado para o campo de Gurs, na Alemanha hitlerista. Quando foi libertado, pesava 35 quilos. Voltou ao Brasil, foi preso novamente em Ilha Grande, e com o processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o elegeu-se deputado estadual por Pernambuco, em 1947. David Capistrano foi eleito para o CC no IV congresso em 1954. Com a instala\u00e7\u00e3o da ditadura, saiu do Brasil e, ao voltar, foi preso juntamente com Jos\u00e9 Roman, que tinha ido busc\u00e1-lo na fronteira, no dia 18 de mar\u00e7o de 1974. Est\u00e1 desaparecido desde essa data, quando tinha 60 anos. Pesquisas recentes informam que ele foi assassinado. Seu desaparecimento\/morte teve repercuss\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>O metal\u00fargico Jos\u00e9 Roman (SP) era um destacado militante oper\u00e1rio, participava da vida sindical e exercia diversas tarefas internas ao partido, entre as quais, o deslocamento de dirigentes comunistas pela fronteira sul. Foi preso no dia 18 de mar\u00e7o de 1974 ao ir buscar David Capistrano em Uruguaiana (RS). Encontra-se morto\/desaparecido aos 69 anos.<\/p>\n<p>O massacre ainda continuaria no ano de 1974, que seria marcado por uma grande trag\u00e9dia causada pela ditadura, foram assassinados tr\u00eas lutadores da vanguarda heroica do povo brasileiro.<\/p>\n<p>O oper\u00e1rio metal\u00fargico Jo\u00e3o Massena Melo (PE) foi preso em S\u00e3o Paulo e desaparecido\/assassinado pela repress\u00e3o. O dirigente metal\u00fargico foi vereador pelo Distrito Federal em 1947, quando foi cassado. Elegeu-se deputado estadual pelo estado da Guanabara em 1962, sendo cassado novamente. Era membro do CC do PCB e seu corpo continua desaparecido desde o dia 3 de abril de 1974, aos 55 anos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi preso, na mesma opera\u00e7\u00e3o, em 3 de abril, o membro do CC Luiz Ign\u00e1cio Maranh\u00e3o Filho (RN) sendo desaparecido\/assassinado aos 53 anos. Jornalista, deputado estadual eleito em 1958 pelo Rio Grande do Norte, havia visitado Cuba a convite de Fidel Castro, era membro do CC do PCB. O jornalista e dirigente comunista era respons\u00e1vel pelo contato com a Igreja Cat\u00f3lica, defendia o di\u00e1logo entre marxistas e crist\u00e3os, esteve preso em v\u00e1rios momentos da hist\u00f3ria republicana, quando foi severamente torturado.<\/p>\n<p>Junto com os dois anteriores, tamb\u00e9m foi preso e desaparecido o oficial do Ex\u00e9rcito Walter de Souza Ribeiro (MG), aos 49 anos. Era um ativo militante das lutas pela paz, membro do CC do PCB, Secret\u00e1rio Pol\u00edtico do Comit\u00ea Regional do partido em S\u00e3o Paulo, atuava na estrutura interna e nas rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Esses 4 assassinatos de membros do CC j\u00e1 sinalizavam que havia infiltra\u00e7\u00f5es no PCB. Desde as dela\u00e7\u00f5es do agente da CIA, Adauto Freire, sobre o partido, a dire\u00e7\u00e3o mostrava-se atenta, mas ainda n\u00e3o tinha localizado a infiltra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O professor de hist\u00f3ria, Afonso Henrique Martins Saldanha (PE), era inspetor federal do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura, foi presidente cassado do Sindicato dos professores do munic\u00edpio do Rio de Janeiro por duas vezes. Foi preso no come\u00e7o de 1970 e barbaramente torturado, vindo a falecer em 8 de dezembro de 1974, aos 58 anos, em virtude das torturas que sofreu na cadeia. Era um destacado militante docente que defendia as bandeiras comunistas e os interesses da categoria no movimento dos professores.<\/p>\n<p>No ano de 1975, a repress\u00e3o seria ainda mais violenta com o PCB, prendendo e assassinando membros do Comit\u00ea Central e outros militantes do partido.<\/p>\n<p>Logo no dia 15 de janeiro de 1975, o l\u00edder caminhoneiro que comandou a greve da categoria em Minas Gerais, Elson Costa (MG), foi eliminado em S\u00e3o Paulo, aos 60 anos. Ele foi um destacado dirigente que atuou em v\u00e1rios estados da federa\u00e7\u00e3o, membro do CC do PCB, teve larga experi\u00eancia na se\u00e7\u00e3o de agita\u00e7\u00e3o e propaganda quando trabalhou na organiza\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o dos jornais A Classe Oper\u00e1ria e Voz Oper\u00e1ria. Foi condenado e preso de 1970 at\u00e9 1973, quando solto retornou as atividades do partido na clandestinidade. No come\u00e7o dos anos 1960, foi destacado para viagens aos pa\u00edses do leste europeu. Seu corpo continua desaparecido\u2026<\/p>\n<p>Hiran de Lima Pereira (RN) foi um importante dirigente do PCB, destacado para atuar na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Exerceu as fun\u00e7\u00f5es de secret\u00e1rio de Administra\u00e7\u00e3o nos governos de Miguel Arraes, Pel\u00f3pidas da Silveira e Liberato da Costa J\u00fanior de 1959 a 1964, na cidade do Recife (PE). No dia 15 de janeiro de 1975, logo cedo, agentes do DOI-CODI sequestraram sua esposa (C\u00e9lia Pereira) e a levaram para a tortura. Nesse mesmo dia, foi preso e assassinado em igual circunst\u00e2ncia que Elson Costa, aos 61 anos. Era membro do CC do PCB.<\/p>\n<p>Em seguida, no dia 4 de fevereiro de 1975, era preso e assassinado no Rio de Janeiro, o jornalista e advogado Jayme Amorim de Miranda (AL), aos 48 anos. Not\u00f3rio organizador de lutas oper\u00e1rias e populares pelo Brasil, foi preso v\u00e1rias vezes e sofreu tentativa de homic\u00eddio. Esteve na URSS, encontrou-se com Mao Zedong na China, exerceu intensa atividade na imprensa comunista. Ap\u00f3s os diversos \u201crachas\u201d que ocorreram no VI Congresso do partido, seu papel interno foi de grande destaque, sendo um dos quadros da maior import\u00e2ncia na estrutura interna. Podemos afirmar que, depois de Luiz Carlos Prestes e Giocondo Dias, era, sem d\u00favida, um quadro dirigente em ascens\u00e3o. Encontrava na URSS quando voltou ao Brasil para investigar as prov\u00e1veis infiltra\u00e7\u00f5es no partido. Seu corpo continua desaparecido.<\/p>\n<p>Em abril, foi preso e assassinado o l\u00edder campon\u00eas Nestor Veras (SP), aos 59 anos. Organizador das lutas camponesas teve intensa presen\u00e7a entre os trabalhadores sem terra, foi fundador e respons\u00e1vel pelo jornal Terra Livre, foi dirigente da ULTAB. Era membro do CC do PCB e seu corpo est\u00e1 desaparecido at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>No m\u00eas de maio de 1975, no dia 25, era preso e assassinado o oper\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o civil, Itair Jos\u00e9 Veloso (MG), aos 44 anos. L\u00edder oper\u00e1rio, foi primeiro sapateiro e depois passou a atuar na constru\u00e7\u00e3o civil, sendo eleito dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Constru\u00e7\u00e3o Civil de Niter\u00f3i e Nova Igua\u00e7u. Foi eleito secret\u00e1rio-geral da Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores da Constru\u00e7\u00e3o Civil. Itair Veloso esteve nas delega\u00e7\u00f5es sindicais que foram convidadas para visitar a URSS e a China. Membro do CC do PCB entrou no partido em 1952 atrav\u00e9s da juventude comunista. Seu corpo continua desaparecido.<\/p>\n<p>No segundo semestre de 1975, em 7 agosto, morria Alberto Aleixo (MG), aos 72 anos, em virtude da tortura. Estava preso desde janeiro e n\u00e3o resistiu aos maus tratos. Foi um militante gr\u00e1fico, trabalhou nos Di\u00e1rios Associados, foi respons\u00e1vel pela gr\u00e1fica do partido e exerceu uma longa jornada de trabalho na imprensa comunista. Era irm\u00e3o do ent\u00e3o vice-presidente de Costa e Silva, Pedro Aleixo. Alberto Aleixo foi uma das dezenas de v\u00edtimas da Opera\u00e7\u00e3o Radar3.<\/p>\n<p>No dia seguinte, 8 de agosto de 1975, era assassinado sob tortura, o tenente da PM de S\u00e3o Paulo, Jos\u00e9 Ferreira de Almeida (SP), sendo aplicado sobre ele a mesma informa\u00e7\u00e3o padr\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o para acobertar a morte sob tortura: ele havia se enforcado. Foi policial militar da reserva que exercia uma intensa atividade na PM paulista e integrava o grupo interno de militares do partido. Foi assassinado aos 64 anos.<\/p>\n<p>No dia 18, ainda no m\u00eas de agosto, tamb\u00e9m era morto em virtude das torturas o coronel reformado da PM\/SP, Jos\u00e9 Maximino de Andrade Netto (MG) aos 62 anos, que havia sido cassado em 1964. O militante comunista foi preso em 11 de agosto de 1975 e sofreu intensa tortura, at\u00e9 morrer em um hospital de Campinas em virtude dos maus tratos. Tamb\u00e9m fazia parte do coletivo de militares do partido.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o continuava ca\u00e7ando o PCB. No dia 17 de setembro de 1975, o dirigente do partido no estado do Cear\u00e1, Pedro Jer\u00f4nimo de Souza (CE), comerci\u00e1rio que se encontrava preso desde 11 de setembro de 1975, foi morto sob tortura aos 63 anos.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois, no dia 29 de setembro de 1975 era preso, assassinado\/desaparecido, o dirigente da juventude comunista, Jos\u00e9 Montenegro de Lima (CE). Ativo dirigente estudantil, foi diretor da UNETI (uni\u00e3o Nacional dos Estudantes T\u00e9cnicos Industriais), contribuiu para formular as posi\u00e7\u00f5es do PCB na \u00e1rea juvenil, principalmente secundarista e tecnol\u00f3gica. Teve grande participa\u00e7\u00e3o na representa\u00e7\u00e3o de organismos da juventude internacional (FMJD), contribuiu para articular rotas para as sa\u00eddas ao exterior de dirigentes do partido, ao tempo em que tamb\u00e9m se dedicava a reconstru\u00e7\u00e3o do parque gr\u00e1fico do PCB. Foi morto\/desaparecido aos 31 anos, seu corpo n\u00e3o foi localizado at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Quando chegou o m\u00eas de outubro, a ditadura fez outra v\u00edtima, agora, o destacado dirigente comunista Orlando da Silva Rosa Bomfim J\u00fanior (ES), aos 60 anos. Ele foi preso e assassinado sob tortura no dia 8 de outubro de 1975, seu corpo ainda n\u00e3o foi encontrado. Orlando Bomfim foi jornalista e advogado, tendo sido vereador do PCB por Belo Horizonte, em 1947. Era membro do CC do partido e exerceu intensa atividade jornal\u00edstica.<\/p>\n<p>O plano de massacre do PCB continuava. Para fechar o ano de 1975, a repress\u00e3o assassinou, sob tortura, Vladimir Herzog (Osijek\/Iug\u00f3slavia, hoje Cro\u00e1cia), no dia 25 de outubro. Herzog era professor da USP e jornalista, militante da base cultural do PCB em S\u00e3o Paulo, foi assassinado ap\u00f3s se apresentar no DOI-CODI para prestar depoimento, aos 38 anos. A farsa montada pelo II Ex\u00e9rcito para informar o seu assassinato teve ampla contesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>A ditadura dava sinais de exaust\u00e3o pol\u00edtica. Nas elei\u00e7\u00f5es de 1974, o governo da ditadura acusava o PCB de ter elegido 22 deputados federais, as elei\u00e7\u00f5es municipais de 1976 corriam risco de ser canceladas e a pol\u00edtica do PCB come\u00e7ava a ser vitoriosa na ampla Frente Democr\u00e1tica. Mesmo com uma nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no parlamento federal, a repress\u00e3o ainda assassinaria comunistas naquele ano.<\/p>\n<p>No dia 7 de janeiro de 1976, era morta a militante comunista Neide Alves Santos (RJ), aos 31 anos. As pesquisas revelam, at\u00e9 aqui, que Neide, essa mulher de convic\u00e7\u00e3o profunda, foi a \u00fanica comunista do PCB morta pela ditadura. Atuava no setor de propaganda conjuntamente com Hiran de Lima Pereira. Ela havia sido presa em 6 de fevereiro e encaminhada para DOI-CODI\/SP, e depois para o DOPS\/RJ, foi novamente encaminhada para o DOI-CODI\/SP, torturada, queimada viva e deixada em via p\u00fablica para morrer por agentes do II Ex\u00e9rcito. Foi encontrada em estado terminal em logradouro p\u00fablico e levada para um hospital em Tatuap\u00e9, onde morreu com sev\u00edcias por todo o corpo.<\/p>\n<p>Dez dias depois da morte de Neide, era assassinado sob tortura, no dia 17 de janeiro de 1976, o oper\u00e1rio metal\u00fargico Manoel Fiel Filho (AL), que era respons\u00e1vel pela distribui\u00e7\u00e3o da Voz Oper\u00e1ria nas f\u00e1bricas da Mooca. Foi preso no dia 16, em sua casa, levado para o DOI-CODI\/SP e assassinado em seguida. A sua morte nas depend\u00eancias do DOI-CODI\/SP, aos 49 anos, gerou forte repercuss\u00e3o na imprensa e movimentou institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil que exigiram do governo ditatorial explica\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>No dia 29 de setembro, ainda em 1976, era assassinado sob tortura o oper\u00e1rio Feliciano Eug\u00eanio Neto (MG), aos 56 anos. O hist\u00f3rico militante comunista realizou tarefas com Maur\u00edcio Grabois e Carlos Danielli, foi oper\u00e1rio da CSN e vereador em Volta Redonda. Ap\u00f3s ser cassado, foi ser oper\u00e1rio no ABC paulista. Era respons\u00e1vel pela distribui\u00e7\u00e3o da Voz Oper\u00e1ria no estado de S\u00e3o Paulo, at\u00e9 ser preso em 2 de outubro de 1975.<\/p>\n<p>Em 1977, o PCB ainda teria mais um militante assassinado pela ditadura. No dia 30 de setembro, era morto, sob tortura, nas depend\u00eancias da 1\u00aa CIA da PE do Ex\u00e9rcito, no Rio de Janeiro, o taxista Louren\u00e7o Camelo de Mesquita (CE), aos 51 anos. Ativista muito conhecido exercia sua milit\u00e2ncia no comit\u00ea do partido na Esta\u00e7\u00e3o Ferrovi\u00e1ria da Leopoldina.<\/p>\n<p>De acordo com o III relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, o \u00faltimo assassinato de militante do PCB teria sido o de Jos\u00e9 Pinheiro Jobim (SP), diplomata aposentado, sequestrado no dia 22 de mar\u00e7o de 1979, torturado e assassinado no dia 24 de setembro daquele ano, aos 69 anos. O diplomata foi assassinado pelos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o da ditadura porque iria apresentar em livro um conjunto de den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o praticadas pelos militares durante as obras de constru\u00e7\u00e3o da Usina Hidrel\u00e9trica de Itaipu.<\/p>\n<p>Uma primeira conclus\u00e3o\u2026<br \/>\nO massacre contra o PCB, com mortos sob tortura e assassinatos\/desaparecimento de corpos, ocorreu do primeiro dia do golpe at\u00e9 1979. Contudo, de 1973 a 1976 as a\u00e7\u00f5es das for\u00e7as da ditadura foram mais incisivas em virtude do planejamento realizado pelo Ex\u00e9rcito para agir sobre o partido em todo o pa\u00eds. Tratava-se da \u201cOpera\u00e7\u00e3o Radar\u201d, que tinha como objetivo liquidar o hist\u00f3rico operador pol\u00edtico dos comunistas brasileiros. Essa era uma das medidas impostas pela geopol\u00edtica arquitetada por Golbery do Couto e Silva para flexibilizar a ordem pol\u00edtica, manter intacta as balizas da autocracia burguesa, no sentido de uma transi\u00e7\u00e3o \u201clenta, gradual e segura\u201d.<\/p>\n<p>O PCB teve 42 militantes assassinados, nas mais diversas modalidades, desde o primeiro momento do golpe at\u00e9 o come\u00e7o da difusa \u201cdistens\u00e3o pol\u00edtica\u201d do regime militar. Eram militantes de diversas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o: foram 08 oper\u00e1rios, 07 militares, 06 jornalistas, 05 funcion\u00e1rios p\u00fablicos, 04 estudantes, 03 camponeses, 01 professor, 01 sapateiro, 01 caminhoneiro, 01 alfaiate, 01 mar\u00edtimo, 01 estivador, 01 dentista, 01 taxista e 01 comerci\u00e1rio. Eram militantes que haviam nascidos em 15 estados brasileiros e um em outro pa\u00eds: foram 06 mineiros, 05 paraibanos, 05 cearenses, 04 baianos, 04 pernambucanos, 04 paulistas, 03 alagoanos, 02 potiguares, 02 sergipanos, 01 goiano, 01 maranhense, 01 amazonense, 01 capixaba, 01 carioca, 01 catarinense e 01 de fora do pa\u00eds (Osijek\/Iugosl\u00e1via, hoje Cro\u00e1cia). Foram 41 homens e uma mulher.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dessas mortes, o PCB teve milhares de processos, centenas de militantes presos que passaram pela mais hedionda tortura, sem falar nas dezenas de exilados que foram viver o desterro em v\u00e1rias partes do mundo. Todo esse massacre contra um partido que n\u00e3o optou pelo enfrentamento armado, por\u00e9m n\u00e3o descartasse esse movimento, por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Por que tanto \u00f3dio da burguesia contra esse operador estrat\u00e9gico? Talvez seja poss\u00edvel responder: o PCB sempre lutou ao lado da classe trabalhadora do campo e da cidade. N\u00e3o houve nenhum acontecimento que diga respeito aos interesses dos trabalhadores, das popula\u00e7\u00f5es pobres e perif\u00e9ricas na hist\u00f3ria do Brasil que n\u00e3o tenha tido a participa\u00e7\u00e3o decidida dos comunistas. O sangue dos militantes do PCB tingiu de vermelho a hist\u00f3ria, os acontecimentos sociais e as bandeiras levantadas pela classe trabalhadora desde o come\u00e7o de 1922 at\u00e9 1979.<\/p>\n<p>O PCB surgiu para operar um programa de classe, universal, na particularidade brasileira. Com erros e acertos pol\u00edticos, a plataforma de luta do PCB \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o brasileira na perspectiva do socialismo. Superados os equ\u00edvocos da sua formula\u00e7\u00e3o, o PCB estar\u00e1 sempre ao lado de todos aqueles que se movimentam no campo do trabalho e da emancipa\u00e7\u00e3o humana, na vanguarda da revolu\u00e7\u00e3o brasileira. Portanto, o \u00f3dio de classe da burguesia apresenta-se, mais do que nunca, contra as ideias da teoria marxista e a possibilidade do socialismo, confirmando assim, sua pr\u00e1tica terrorista contra o partido que luta para operar essa tarefa hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Vila Andaluz, Chapad\u00e3o da Conquista, Abril de 2020.<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>* Artigo elaborado a partir de pesquisas realizadas nos arquivos do IEVE, Cedem\/Unesp, AEL\/Unicamp, Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo e nos dados da Comiss\u00e3o de Familiares de Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos e nos relat\u00f3rios da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. Para efeito dessa publica\u00e7\u00e3o optei por tirar o conjunto das refer\u00eancias.<br \/>\n1 Julius Fucik foi um destacado quadro do Partido Comunista da Tchecoslov\u00e1quia, jornalista, lutou na resist\u00eancia contra a ocupa\u00e7\u00e3o nazista. Preso, foi barbaramente torturado e posteriormente assassinado pelos nazistas em 8 de setembro de 1943, aos 39 anos. Deixou uma carta\/testemunho que ficou conhecida com o t\u00edtulo \u201cTestamento sob forca\u201d.<br \/>\n2 Este artigo cont\u00e9m levantamentos de pesquisas apresentados em outros textos que foram por mim publicados.<br \/>\n3 A Opera\u00e7\u00e3o Radar foi um instrumento dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o do Ex\u00e9rcito para destruir a imprensa comunista e as dire\u00e7\u00f5es nacional e estaduais do PCB. De acordo com informa\u00e7\u00f5es do II Ex\u00e9rcito: \u201ca organiza\u00e7\u00e3o tinha em curso uma opera\u00e7\u00e3o chamada Radar, que objetivava localizar e desarticular a infraestrutura do jornal Voz Oper\u00e1ria em todo o territ\u00f3rio nacional. A opera\u00e7\u00e3o, que estava parada, foi retomada no final de 1973 pelo DOI de S\u00e3o Paulo, em colabora\u00e7\u00e3o com outros DOIs e com o CIE, desencadeando pris\u00f5es e persegui\u00e7\u00f5es por todo o Brasil, em estados como S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Paran\u00e1 e Santa Catarina. Nestes \u00faltimos estados, as opera\u00e7\u00f5es foram batizadas de Marumbi e Barriga Verde, como aconteceu tamb\u00e9m em outras regi\u00f5es do pa\u00eds. Dessa vez, o DOI-CODI do II Ex\u00e9rcito visava tamb\u00e9m a elimina\u00e7\u00e3o de alguns dirigentes do PCB. Falava-se que \u201cmuitos deles j\u00e1 haviam sido presos \u2013 alguns mais de uma vez \u2013 e, mesmo assim, se revelaram insens\u00edveis \u00e0s puni\u00e7\u00f5es aplicadas\u201d. Documento confidencial do CISA, ag\u00eancia Rio de Janeiro, de 1975, mostra a colabora\u00e7\u00e3o entre os centros de informa\u00e7\u00e3o e a abrang\u00eancia nacional da investida da repress\u00e3o contra o PCB: \u201cRemetemos, para conhecimento, c\u00f3pia xerox do relat\u00f3rio do inqu\u00e9rito policial, realizado pelo DOPS\/SP, que apurou atividades do Partido Comunista Brasileiro, indiciando 105 militantes\u201d. Dessa vez, a investida sobre o PCB foi sistem\u00e1tica e direcionada. Documento confidencial da 2\u00aa Se\u00e7\u00e3o do II Ex\u00e9rcito, de mar\u00e7o de 1975, com o assunto \u201cNeutraliza\u00e7\u00e3o do PCB\u201d, lista o nome de oito dirigentes cujas pris\u00f5es seriam de grande impacto para a atua\u00e7\u00e3o do partido: Giocondo Gerbasi Alves Dias, H\u00e9rcules Correia dos Reis, Orlando da Silva Rosa Bonfim Junior, Jaime Amorim de Miranda, Aristeu Nogueira Campos, Renato de Oliveira Mota, Elson Costa, Hiram de Lima Pereira.\u201d<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Milton Pinheiro \u00e9 Cientista Pol\u00edtico e professor titular de hist\u00f3ria pol\u00edtica da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Pesquisador na USP, editor-geral da revista Novos Temas e autor\/organizador de oito livros, entres eles, Ditadura: o que resta da transi\u00e7\u00e3o (Boitempo, S\u00e3o Paulo, 2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25440\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[221],"class_list":["post-25440","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Ck","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25440","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25440"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25440\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25440"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25440"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25440"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}