{"id":2546,"date":"2012-03-13T17:14:04","date_gmt":"2012-03-13T17:14:04","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2546"},"modified":"2012-03-13T17:14:04","modified_gmt":"2012-03-13T17:14:04","slug":"ditadores-e-torturadores-nao-podem-ser-nomes-de-ruas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2546","title":{"rendered":"Ditadores e torturadores n\u00e3o podem ser nomes de ruas"},"content":{"rendered":"\n<p>DEBATE ABERTO<\/p>\n<p>Rodovia Castello Branco, elevado Costa e Silva, rua Dr. Sergio Fleury, avenida Presidente M\u00e9dici e por a\u00ed vai. O Brasil \u00e9 uma das poucas democracias do mundo que n\u00e3o s\u00f3 deixa tiranos impunes, como os homenageia em pra\u00e7a p\u00fablica. Boa iniciativa para a Comiss\u00e3o da Verdade seria propor a mudan\u00e7a imediata de tais nomes.<\/p>\n<p>Gilberto Maringoni<\/p>\n<p>Uma Comiss\u00e3o da Verdade de verdade poderia come\u00e7ar seus trabalhos propondo ao Congresso Nacional uma lei simples: proibir em todo o territ\u00f3rio nacional que logradouros p\u00fablicos sejam batizados com nomes de pessoas que enxovalharam a democracia e os bons costumes. E alterar as denomina\u00e7\u00f5es existentes.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 vergonhosa. A principal rodovia do estado chama-se Castello Branco. De t\u00e3o naturalizada est\u00e1 a quest\u00e3o, que poucos param para pensar no seguinte: aquele foi o chefe da conspira\u00e7\u00e3o que acabou com a democracia no Brasil, em 1964. A homenagem foi feita por Roberto de Abreu Sodr\u00e9, governador bi\u00f4nico, que inaugurou a via em 1967. Est\u00e1vamos em plena ditadura e seria natural que um servi\u00e7al do regime quisesse adular seus superiores.<\/p>\n<p>A via n\u00e3o representa uma exce\u00e7\u00e3o. A cidade comporta ainda o elevado (?) Costa e Silva, em homenagem ao segundo governante da ditadura. O idealizador foi outro funcion\u00e1rio do regime, Paulo Salim Maluf, nos idos de 1969. O mesmo Maluf mimoseou, em 1982, quando governador, o famigerado Caveirinha, alcunha que imortalizou o general Milton Tavares de Souza, falecido no ano anterior. Caveirinha foi chefe do Centro de Informa\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito (CIE) e suas grandes obras foram a implanta\u00e7\u00e3o dos DOI-CODI e da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes (Oban), \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis pelo assassinato de in\u00fameros oponentes do regime. Foi tamb\u00e9m um dos planejadores da repress\u00e3o \u00e0 guerrilha do Araguaia (1972-76).<\/p>\n<p>Ernesto Geisel, ditador entre 1974 e 1979, \u00e9 o nome de um conjunto habitacional em Bauru. Emilio Garrastazu M\u00e9dici, o comandante da fase mais repressiva da ditadura, nomeia dezenas de ruas, escolas e pra\u00e7as pelo Brasil. Presidente Figueiredo \u00e9 uma cidade no Amazonas. Diadema abriga uma Escola Estadual Filinto Muller, temido chefe da Pol\u00edcia Pol\u00edtica do Rio de Janeiro entre 1933 e 1942. Imortalizou-se por ter comandado a opera\u00e7\u00e3o que resultou na deporta\u00e7\u00e3o de Olga Benario \u00e0 Alemanha, em 1936.<\/p>\n<p>Mas nada supera a inacredit\u00e1vel rua Dr. Sergio Fleury, na Vila Leopoldina, na capital.<\/p>\n<p>Os nomes dos funcion\u00e1rios mais ou menos graduados da ditadura podem ser localizados com uma r\u00e1pida olhada no Google. Castello, Costa e Silva, M\u00e9dici e Figueiredo emprestam seus nomes a centenas de ruas, avenidas, estradas, escolas e edif\u00edcios p\u00fablicos espalhados pelo Brasil.<\/p>\n<p><strong>Propostas de mudan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Em 2006, o ent\u00e3o prefeito de S\u00e3o Paulo, Jos\u00e9 Serra (PSDB) enviou mensagem \u00e0 C\u00e2mara dos Vereadores de S\u00e3o Paulo, propondo altera\u00e7\u00e3o do nome do viaduto que enaltece Caveirinha. Aprovado em primeira inst\u00e2ncia, o projeto aguarda at\u00e9 hoje san\u00e7\u00e3o de Gilberto Kassab.<\/p>\n<p>O vereador Pedro Ruas e a vereadora Fernanda Melchiona, do PSOL de Porto Alegre, apresentaram em dezembro \u00faltimo um projeto de lei visando mudar o nome da Avenida Presidente Castello Branco para Avenida da Legalidade. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o apenas banir a mem\u00f3ria do l\u00edder golpista, mas homenagear o movimento liderado por Leonel Brizola, em 1961, que deteve as articula\u00e7\u00f5es visando impedir a posse do presidente Jo\u00e3o Goulart, ap\u00f3s a ren\u00fancia de Janio Quadros.<\/p>\n<p>Manter tais denomina\u00e7\u00f5es significa conservar viva a mem\u00f3ria de gente que deve ser colocada em seu justo lugar na Hist\u00f3ria: o daqueles que perpetraram crimes contra a democracia e a cidadania, prejudicaram o pa\u00eds e contribu\u00edram para o atraso em v\u00e1rios campos de atividade.<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia n\u00e3o existe rua, monumento ou edif\u00edcio p\u00fablico com o nome de Benito Mussolini ou de outro funcion\u00e1rio graduado do regime fascista. A decis\u00e3o faz parte de uma luta ideol\u00f3gica que visa extirpar as marcas da intoler\u00e2ncia, da brutalidade e da xenofobia que marcaram a vida do pa\u00eds entre 1924 e 1944.<\/p>\n<p>Tampouco h\u00e1 na Alemanha uma avenida Adolf Hitler, um aeroporto Herman G\u00f6ering (que foi \u00e1s da avia\u00e7\u00e3o na I Guerra Mundial), um viaduto Joseph Goebbels ou coisas que o valham. Ali\u00e1s, evitou-se durante d\u00e9cadas batizar crian\u00e7as com o nome Adolf, por motivos mais ou menos \u00f3bvios.<\/p>\n<p>Argentina, Chile e Uruguai tamb\u00e9m n\u00e3o fazem rapap\u00e9s \u00e0 mem\u00f3ria de respons\u00e1veis pelos anos de terror institucionalizado. A cidade de Puerto Stroessner, no Paraguai, teve seu nome mudado para Ciudad Del Este, assim que o ditador foi deposto, em 1989.<\/p>\n<p>No Brasil, como os zumbis da ditadura n\u00e3o apenas assombram, mas aparentemente intimidam o poder democr\u00e1tico, as mudan\u00e7as n\u00e3o acontecem. Est\u00e3o a\u00ed, fagueiros e lampeiros na vida nacional, figuras como Jos\u00e9 Sarney, Marco Maciel, Paulo Maluf e outras, crias da ditadura e cheios de autoridade na vida p\u00fablica. E os pijamas do Clube Militar volta e meia fazem ordem unida para enaltecer os anos de chumbo.<\/p>\n<p>Banir os nomes de gente dessa laia dos logradouros p\u00fablicos \u00e9 um bom passo para se consolidar a democracia.<\/p>\n<p>Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, \u00e9 doutor em Hist\u00f3ria pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e autor de \u201cA Venezuela que se inventa \u2013 poder, petr\u00f3leo e intriga nos tempos de Ch\u00e1vez\u201d (Editora Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Geledes\n\n\n\n\n\n\n\n\nCarta Maior &#8211; 12\/03\/2012\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2546\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-2546","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-F4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2546","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2546"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2546\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2546"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2546"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2546"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}