{"id":25497,"date":"2020-05-08T22:21:06","date_gmt":"2020-05-09T01:21:06","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25497"},"modified":"2020-05-08T22:21:06","modified_gmt":"2020-05-09T01:21:06","slug":"cinema-e-uberizacao-do-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25497","title":{"rendered":"Cinema e uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/24271732-a16-f4d\/FT1086A\/652\/voce-nao-estava-aqui.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Rick Turney, personagem principal em Voc\u00ea n\u00e3o estava aqui, de Ken Loach<\/p>\n<p>TR\u00caS FILMES PARA PENSAR A TECNOLOGIA E A UBERIZA\u00c7\u00c3O DO TRABALHO<\/p>\n<p>Por Alexandre Campos<\/p>\n<p>Passamos pelo Dia do Trabalhador (1\u00b0 de maio) com pouco a se comemorar. Os impactos econ\u00f4micos por conta do isolamento social imposto pela pandemia de coronav\u00edrus s\u00e3o inevit\u00e1veis e se somam a um cen\u00e1rio que j\u00e1 era desanimador. Em 2019, o PIB brasileiro cresceu apenas 1,1%, menos da metade da expectativa que os analistas econ\u00f4micos haviam projetado no in\u00edcio daquele ano, que era de 2,53% [1]. O mercado de trabalho vem passando por um processo de precariza\u00e7\u00e3o, que, em linhas gerais, significa uma desvaloriza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. Embora nos \u00faltimos anos tenha havido aumento do n\u00famero de contrata\u00e7\u00f5es com remunera\u00e7\u00e3o de at\u00e9 dois sal\u00e1rios m\u00ednimos, h\u00e1 14 anos seguidos (desde 2006) o Brasil teve redu\u00e7\u00e3o dos postos de trabalho com valores acima de dois sal\u00e1rios m\u00ednimos [2]. Em linhas gerais, isso significa dizer que o mercado de trabalho est\u00e1 pagando menos, que tem ocorrido um achatamento salarial em massa h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada e que isso vem cada vez mais afetando a classe m\u00e9dia, que \u00e9 justamente o estrato social que disputa os postos de emprego acima dessa faixa salarial. E claro que o governo (todos eles), na hora de alardear a cria\u00e7\u00e3o de postos de trabalho, fala sobre o aumento de empregos de at\u00e9 dois sal\u00e1rios, mas omite a redu\u00e7\u00e3o dos empregos com remunera\u00e7\u00e3o acima desse valor.<\/p>\n<p>A precariza\u00e7\u00e3o j\u00e1 seria um problema grave por afetar trabalhadores das classes baixas, mas, como dissemos, tem avan\u00e7ado nas classes mais elevadas. Algumas pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para o trabalho e emprego contribuem para esse avan\u00e7o. A terceiriza\u00e7\u00e3o das atividades-fim \u00e9 um exemplo: uma coisa \u00e9 uma empresa terceirizar seus funcion\u00e1rios de limpeza, zeladoria e seguran\u00e7a; outra \u00e9 fazer o mesmo com engenheiros (se for uma empresa de engenharia) ou nutricionistas (uma empresa da \u00e1rea de sa\u00fade), ou seja, profissionais com n\u00edvel superior (o que, no Brasil, est\u00e1 normalmente relacionado a pessoas at\u00e9 ent\u00e3o com maior poder aquisitivo).<\/p>\n<p>Outras iniciativas se somam na constru\u00e7\u00e3o de um cen\u00e1rio desolador para a for\u00e7a de trabalho, como a reforma da previd\u00eancia, que reduziu as expectativas de futuro e de uma aposentadoria digna, e a reforma trabalhista, que, passados dois anos, n\u00e3o cumpriu a promessa de gerar mais vagas de emprego feita por seus defensores, na tentativa de convencer a opini\u00e3o p\u00fablica e a classe trabalhadora [3]. Tudo isso serve para contextualizar a realidade brasileira, mas o fato \u00e9 que o trabalho vem passando por transforma\u00e7\u00f5es muito r\u00e1pidas no mundo todo, nem sempre traduzidas em vantagens para seu sujeito principal, o protagonista dessa hist\u00f3ria: o trabalhador.<\/p>\n<p>A tecnologia tem papel primordial nas mudan\u00e7as. Hoje n\u00e3o h\u00e1 quem n\u00e3o conhe\u00e7a algu\u00e9m que faz um \u201cbico\u201d como motorista de aplicativo ou mesmo tem nessa atividade sua principal fonte de renda. Aplicativos como a Uber, por exemplo, fazem parte do que vem sendo chamado de \u201ceconomia de compartilhamento\u201d. Em linhas gerais, um termo que abrange mudan\u00e7as nas formas de trabalho que incluem o consumo colaborativo e atividades de compartilhamento de bens e servi\u00e7os mediadas pelas tecnologias. Tudo ainda \u00e9 muito novo. Embora alguns especialistas apontem que a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho tende a se tornar mais flex\u00edvel e horizontalizada (ou seja, sem rigidez hier\u00e1rquica, como na imagem cl\u00e1ssica do chefe mal-humorado batendo na mesa e distribuindo ordens), muitos cientistas sociais apontam que todo esse ide\u00e1rio da economia compartilhada s\u00f3 esconde uma rela\u00e7\u00e3o cada vez mais explorat\u00f3ria entre os executivos respons\u00e1veis pelas plataformas tecnol\u00f3gicas, de um lado, e os vendedores da for\u00e7a de trabalho, ou seja, os trabalhadores, de outro.<\/p>\n<p>Bertrand Russell, Stephen Hawking e Charles Chaplin: tecnologia e trabalho<\/p>\n<p>Em sua obra, o fil\u00f3sofo brit\u00e2nico Bertrand Russell j\u00e1 nos lembrava na primeira metade do s\u00e9culo 20, muito antes da Uber aparecer, que, apesar dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, continu\u00e1vamos a trabalhar bastante, at\u00e9 exaustivamente. Ele estava se referindo \u00e0s m\u00e1quinas industriais, n\u00e3o a aplicativos, mas desde aquela \u00e9poca j\u00e1 havia certa decep\u00e7\u00e3o com o fato de que a tecnologia n\u00e3o atendia \u00e0 expectativa de atenuar, de modo geral, a carga de trabalho para o ser humano. Como dizia Russell, \u201cat\u00e9 agora continuamos a ser t\u00e3o en\u00e9rgicos quanto \u00e9ramos antes que existissem as m\u00e1quinas. Em rela\u00e7\u00e3o a isso, temos sido tolos, mas n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para que essa tolice continue sempre\u201d [4].<\/p>\n<p>Pois chegamos ao s\u00e9culo 21 e o problema persiste. O f\u00edsico Stephen Hawking teve um trabalho de pesquisa amplamente dedicado \u00e0 astrof\u00edsica, mas deixou algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a tecnologia e a intelig\u00eancia artificial. Ele tinha uma grande preocupa\u00e7\u00e3o com os riscos que m\u00e1quinas e rob\u00f4s trazem ao ser humano. Hawking n\u00e3o se referia \u201capenas\u201d a algum tipo de rebeli\u00e3o ao estilo Matrix ou Blade Runner, mas a quest\u00f5es aparentemente mais triviais, como o risco de desemprego e at\u00e9 de concentra\u00e7\u00e3o de riquezas. Para ele:<\/p>\n<p>\u201cSe as m\u00e1quinas produzirem tudo de que precisamos, o resultado depender\u00e1 de como as coisas s\u00e3o distribu\u00eddas. Todo mundo poder\u00e1 aproveitar uma vida de lazer luxuoso se a riqueza produzida pela m\u00e1quina for compartilhada, ou a maior parte das pessoas pode se tornar miser\u00e1vel se o s donos das m\u00e1quinas conseguirem se posicionar contra a redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza. At\u00e9 agora, a tend\u00eancia tem sido para a segunda op\u00e7\u00e3o, com a tecnologia aumentando a desigualdade\u201d [5].<\/p>\n<p>No ano passado, o cofundador da Uber, Garret Camp, arrematou uma mans\u00e3o em Beverly Hills no valor de U$$ 72 milh\u00f5es (isso mesmo: setenta e dois milh\u00f5es de D\u00d3LARES), um montante bem mais alto do que a esmagadora maioria dos trabalhadores do mundo ter\u00e1 trabalhando por toda a vida [6]. A grande aquisi\u00e7\u00e3o aconteceu em um momento em que muitos trabalhadores da Uber, no Brasil, Reino Unido, EUA e diversos outros pa\u00edses reivindicam melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e maiores ganhos. Stephen Hawking tinha raz\u00e3o em se preocupar. Russell tamb\u00e9m tinha raz\u00e3o em chamar a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, ao longo da hist\u00f3ria, os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos est\u00e3o sendo desvirtuados da fun\u00e7\u00e3o que poderiam ter de atenuar o trabalho humano e coletivizar o bem-estar e a prosperidade: apesar dos in\u00fameros avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, a sociedade atual trabalha mais do que camponeses medievais, com tempo bem menor de descanso e f\u00e9rias [7]. Por que isso? Porque, como dissemos, Hawking estava certo: n\u00e3o \u00e9 a tecnologia em si que faz a diferen\u00e7a, mas a forma como ela \u00e9 apropriada e distribu\u00edda.<\/p>\n<p>A economia do compartilhamento \u00e9 a cara do trabalho no s\u00e9culo 21. Se Charles Chaplin estivesse vivo e fizesse uma releitura de seu cl\u00e1ssico Tempos Modernos, as filmagens provavelmente n\u00e3o seriam em uma f\u00e1brica, mas com profissionais sobrecarregados dominados por seus aparelhos celulares. O g\u00eanio respons\u00e1vel por Carlitos n\u00e3o est\u00e1 mais entre n\u00f3s, mas o cinema, seja o de fic\u00e7\u00e3o quanto o documental, segue atento \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es na sociedade, incluindo aquelas relacionadas ao mundo do trabalho. Aqui selecionamos tr\u00eas filmes que mostram a cara do trabalho no s\u00e9culo atual. S\u00e3o dois longas-metragens (um document\u00e1rio e outro de fic\u00e7\u00e3o) e um curta, que mostram a realidade da uberiza\u00e7\u00e3o no Brasil e exterior. O processo, apesar de ter sido apelidado de \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o diz respeito somente \u00e0 Uber. A empresa de caronas compartilhadas apenas \u201cemprestou\u201d seu nome por ser uma das mais conhecidas do p\u00fablico e dos pesquisadores sobre rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Especialistas e trabalhadores t\u00eam apontado alguns caminhos para melhor regulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho no setor. N\u00e3o se trata de ser contra a tecnologia, mas de buscar alternativas e pol\u00edticas p\u00fablicas de valoriza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho [9].<\/p>\n<p>GIG- A uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho [10]<\/p>\n<p>Dirigido por Cau\u00ea Angeli e produzido pela ONG Rep\u00f3rter Brasil, o filme traz uma grande diversidade de trabalhadores de aplicativos, desde motoristas da Uber at\u00e9 motociclistas, empregadas dom\u00e9sticas e professores. Sim, o processo de uberiza\u00e7\u00e3o chegou \u00e0 \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o e u m professor de geografia que d\u00e1 aulas particulares por meio de uma plataforma fala de sua experi\u00eancia. O filme se prop\u00f5e a fazer uma abordagem te\u00f3rica bem contextualizada da economia de compartilhamento e seus impactos nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, por isso a fala de cientistas sociais brasileiros e estrangeiros divide espa\u00e7o com a dos trabalhadores. Um desses especialistas \u00e9 o ge\u00f3grafo David Harvey, que associa a desregulamenta\u00e7\u00e3o trabalhista atual, incorporada e fomentada pela economia de compartilhamento, ao avan\u00e7o do neoliberalismo. Em uma perspectiva hist\u00f3rica, ele diz que o neoliberalismo foi uma resposta \u00e0 Primavera de 1968, em que estudantes pediram liberdades individuais e justi\u00e7a social, mas a elite empresarial descartou a justi\u00e7a social, focando apenas na primeira parte das reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os especialistas destacam que, apesar de um aparente barateamento dos servi\u00e7os oferecidos pela uberiza\u00e7\u00e3o, tudo isso tem um custo social, que inclui a redu\u00e7\u00e3o de renda de um n\u00famero cada vez maior de trabalhadores, e perguntam qual o risco que as classes m\u00e9dia e alta querem assumir para que a lgumas d e suas necessidades sejam atingidas de uma forma mais barata. Afinal, tudo tem seu pre\u00e7o. Os pesquisadores chamam a aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m para o que nomearam de \u201cgamifica\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d, uma influ\u00eancia do v\u00eddeo game nas rotinas e procedimentos de trabalho de motoristas e entregadores. Por meio dos aplicativos, esses trabalhadores passam a se ver como personagens em uma esp\u00e9cie de jogo, em que algumas de suas a\u00e7\u00f5es geram b\u00f4nus, estimulando-os a trabalhar sempre mais e mais e incentivando a competitividade entre os colegas. Tudo isso bem arquitetado por psic\u00f3logos ligados \u00e0s plataformas e intermediado pelas telas de celulares. Do ponto de vista t\u00e9cnico, com a uberiza\u00e7\u00e3o nunca foi t\u00e3o f\u00e1cil regular o trabalho: \u00e9 como se cada trabalhador tivesse milhares de gerentes, j\u00e1 que os clientes d\u00e3o as notas, nem sempre de forma muito justa. Uma dom\u00e9stica que faz di\u00e1ria por um app diz que se v\u00ea obrigada a limpar at\u00e9 coisas que, teoricamente, n\u00e3o deveria limpar, pois, caso n\u00e3o o fa\u00e7a, sua nota cai. A \u201cprofecia\u201d de George Orwell recai sobre as rela\u00e7\u00f5es de trabalho [8], como bem lembra uma das pesquisadoras ouvidas.<\/p>\n<p>Vidas entregues [11]<\/p>\n<p>Este curta-metragem, dirigido por Renato Prata Biar, tem o Rio de Janeiro como cen\u00e1rio e sons bem conhecidos pelos cariocas, como o sino do VLT, fazendo a ambienta\u00e7\u00e3o sonora. O ve\u00edculo sobre trilhos divide o espa\u00e7o urbano com os ciclistas de aplicativos como Rappi, Ifood e Uber Eats. Sem falas de especialistas, o protagonismo \u00e9 total para os entregadores de comida, que, aparentemente, s\u00e3o os mais precarizados dentre todos os profissionais que atuam na economia de compartilhamento. Eles falam sobre seus dramas e preocupa\u00e7\u00f5es, incluindo a falta de perspectiva de futuro. \u201cA m\u00e3e do meu filho sempre me cobra: at\u00e9 quando voc\u00ea vai trabalhar com aplicativo?\u201d, diz o entregador Vitor Pinheiro dos Santos. Em falas como essa, v\u00ea-se a deteriora\u00e7\u00e3o do conceito de carreira e de trajet\u00f3ria de vida, algo discutido tamb\u00e9m em GIG- A uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho. Os tr\u00eas principais personagens do filme s\u00e3o negros, o que mostra que o segmento tem um recorte \u00e9tnico muito percept\u00edvel. Mas a personagem que mais se destaca \u00e9 Bianca Souza dos Santos. Mulher e negra, ela d\u00e1 ainda um recorte de g\u00eanero ao curta. Bianca trabalha com o marido, que tamb\u00e9m \u00e9 profissional de aplicativos, fala do cansa\u00e7o com a rotina de entregas e do quanto a ideia do empreendedorismo pode ser ilus\u00f3ria: \u201cmicroempreendedora eu n\u00e3o sou, n\u00e3o. Sou uma pessoa desesperada. N\u00e3o tem emprego, fazer o que?\u201d Todos os personagens preferiam estar trabalhando de carteira assinada.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o estava aqui [12]<\/p>\n<p>Por fim, esse filma\u00e7o de Ken Loach (mesmo diretor do aclamado Eu, Daniel Blake, que tamb\u00e9m fala sobre trabalho, com foco no esfacelamento do chamado \u201cestado de bem-estar social\u201d) \u00e9 de um realismo quase documental. Voc\u00ea n\u00e3o estava aqui (Sorry, we missed you) tem o m\u00e9rito de ir al\u00e9m do cotidiano de trabalho t\u00e3o bem retratado nos document\u00e1rios aqui apresentados para mostrar os impactos desse tipo de atividade na vida privada e familiar. \u00c9 como se Loach cruzasse uma linha que os document\u00e1rios n\u00e3o cruzaram para nos trazer uma realidade mais intimista. Voc\u00ea n\u00e3o estava aqui mostra que o maior inimigo da fam\u00edlia \u00e9 o mercado de trabalho predat\u00f3rio. \u00c9 ele quem atrapalha as pessoas de se casarem. E quando elas conseguem, ele as atrapalha de ter filhos. E quando elas conseguem, ele as atrapalha de cri\u00e1-los. E quando, na medida do poss\u00edvel, elas criam seus filhos, ele atrapalha que esses filhos lhes retribuam a cria\u00e7\u00e3o com um amparo na velhice. Ali\u00e1s, essa falta de amparo \u00e0 terceira idade \u00e9 trabalhada n\u00e3o por meio de Ricky Turner, o protagonista motorista de um aplicativo de entregas, mas de sua mulher, cuidadora de idosos. Ao falar sobre a rotina extenuante de seu marido para uma de suas clientes\/pacientes (uma ex-sindicalista aposentada), \u00e9 indagada: \u201cmas o que houve com a jornada de trabalho de oito horas?\u201d. Pois \u00e9, a desregulamenta\u00e7\u00e3o atropelou!<\/p>\n<p>Logo de cara, Loach mostra a que veio. No in\u00edcio do filme, durante uma entrevista a qual Turner \u00e9 submetido, o recrutador diz: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o trabalha para n\u00f3s, voc\u00ea trabalha conosco\u201d. A afirma\u00e7\u00e3o d\u00e1 uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de liberdade (a ideia do \u201cmicroempreendedor de si mesmo\u201d), que \u00e9 desconstru\u00edda sequ\u00eancia ap\u00f3s sequ\u00eancia. A escravid\u00e3o moderna fica cada vez mais clara na medida em que Turner n\u00e3o tem tempo nem de ir ao banheiro, tampouco autonomia para levar a sua filha ao trabalho, mesmo trabalhando com seu pr\u00f3prio ve\u00edculo. Aos poucos, v\u00ea-se que a rela\u00e7\u00e3o trabalhista n\u00e3o se trata de uma parceria, mas de uma clara subordina\u00e7\u00e3o. O desfecho do filme, um final bastante inconclusivo, deixa no espectador o sentimento do quanto \u00e9 dif\u00edcil lidar com o problema atual da desregulamenta\u00e7\u00e3o explorat\u00f3ria do trabalho. Entretanto, em muitos pa\u00edses os trabalhadores j\u00e1 se organizam para reivindicar solu\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 importante lembrar que a hist\u00f3ria do trabalho mostra que as melhorias e direitos obtidos n\u00e3o caem do c\u00e9u. Eles s\u00e3o frutos da capacidade de organiza\u00e7\u00e3o e luta da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Alexandre Campos \u00e9 graduado em Cinema (UFF), mestre em M\u00eddia e Cotidiano (UFF)<\/p>\n<p>Texto original: https:\/\/camerapolis.blogspot.com\/2020\/05\/feliz-dia-do-trabalhador-tres-filmes.html<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>1 \u2013 Crescimento do PIB em 2019 abaixo das expectativas: https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/bbc\/2020\/03\/04\/pib-por-que-2019-frustrou-mais-uma- vez-expectativas-de-crescimento-da-economia.htm<\/p>\n<p>2- Redu\u00e7\u00e3o da oferta de empregos com remunera\u00e7\u00e3o acima de dois sal\u00e1rios m\u00ednimos: https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/pais-nao-cria-vagas-com-ganhos-acima-de-2-salarios-minimos-ha-14-anos-24211895?fbclid=IwAR3kmtgEXRp3pKqHtAeOVclvcHG8Saa7SZDuV0iayU642-gPW5vKzjODR1M<\/p>\n<p>3- Alguns resultados da reforma trabalhista: https:\/\/economia.uol.com.br\/reportagens-especiais\/reforma-trabalhista-completa-dois-anos-\/#mais-mudancas-no-emprego<\/p>\n<p>4- RUSSEL, Bertrand. O Elogio ao \u00f3cio. Dispon\u00edvel em: http:\/\/tele.sj.ifsc.edu.br\/~msobral\/pji\/ElogioOcio.pdf Acesso em 23 abr 2020.<\/p>\n<p>5- Stephen Hawking, sobre desigualdade e tecnologia: https:\/\/www.huffpostbrasil.com\/entry\/stephen-hawking-capitalism-robots_n_5616c20ce4b0dbb8000d9f15?ri18n=true<\/p>\n<p>6- Cofundador da Uber compra sua mans\u00e3o de U$$ 72 milh\u00f5es: https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/cofundador-do-uber-paga-us-72-milhoes-por-mansao-em-beverly-hills-2 3781807&lt; \/a&gt;<\/p>\n<p>7- Sociedade moderna trabalha mais do que camponeses medievais: https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/historia-hoje\/sociedade-moderna-trabalha-mais-horas-que-camponeses-medievais-indica-pesquisadora.phtml<\/p>\n<p>8- Sobre George Orwell: https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/02\/21\/cultura\/1487699424_853146.html?%3Fssm=FB_BR_CM&amp;fbclid=Iw AR3lPWTP7Bzs2EEYGySRe0KbMWUX7HbrYGD8tqUM7o6cfMrd4XsYCIYKBac<\/p>\n<p>9- Mesa-redonda com o diretor do filme GIG &#8211; A uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=eZfdM16ORY0<\/p>\n<p>10- GIG \u2013 A uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho: https:\/\/reporterbrasil.org.br\/gig\/<\/p>\n<p>11- Link para o curta Vidas entregues (na \u00edntegra): https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=cT5iAJZ853c<\/p>\n<p>12- Sobre Voc\u00ea n\u00e3o estava aqui: https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2020-02-28\/nosso-filme-olha-para-o-caos-da-vida-dominada-pela-tecnologia-e-sobre-essa-falsa-ilusao-de-liberdade.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25497\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[225],"class_list":["post-25497","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Df","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25497","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25497"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25497\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25497"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25497"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25497"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}