{"id":25522,"date":"2020-05-14T09:23:01","date_gmt":"2020-05-14T12:23:01","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25522"},"modified":"2020-05-14T09:23:01","modified_gmt":"2020-05-14T12:23:01","slug":"cade-regina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25522","title":{"rendered":"Cad\u00ea Regina?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.wixstatic.com\/media\/89d5ca_a8f02902ce134cf4b3161301e89012d3~mv2.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Lu\u00eds Barbosa<\/p>\n<p>Secret\u00e1rio de Finan\u00e7as do Coletivo Cultural Vianinha<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de duas semanas, diversos profissionais da cultura publicaram um v\u00eddeo em que perguntavam, em tom de ironia, \u201cCad\u00ea Regina?\u201d, em refer\u00eancia ao \u201csumi\u00e7o\u201d da atual Secret\u00e1ria Especial de Cultura, Regina Duarte. Depois de sua posse, e desde o in\u00edcio da quarentena que fechou espa\u00e7os e equipamentos culturais, deixando sem trabalho e sem renda milhares de trabalhadores do setor cultural, Regina praticamente desapareceu, deixando \u00e0 deriva e sem amparo aqueles a quem ela chama de \u201cos meus\u201d.<\/p>\n<p>Na \u00faltima quinta-feira (07\/05\/2020), Regina finalmente apareceu, numa entrevista para a CNN. Vinha de uma audi\u00eancia, no dia anterior, em que teria apresentado ao presidente seu programa para a Secretaria. A entrevista se iniciou amistosa, com a secret\u00e1ria elogiando a rede de televis\u00e3o por sempre \u201cmostrar os dois lados\u201d. Acabou mal, quando a produ\u00e7\u00e3o do canal colocou no ar uma fala de uma antiga companheira de emissora, Mait\u00ea Proen\u00e7a, pedindo que Regina ouvisse os seus e fizesse algo pelo setor. A namoradinha do Brasil \u201cchilicou\u201d (segundo suas pr\u00f3prias palavras) e abandonou a entrevista, embora tenha dito que ainda tinha muito por mostrar do que estaria fazendo pela cultura do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do chilique, soubemos o que Regina realmente pensa sobre cultura, regimes ditatoriais e sobre sua pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o como servidora p\u00fablica. Houve quem dissesse que a secret\u00e1ria seria \u201cburra\u201d, \u201clouca\u201d, \u201cdespreparada\u201d. N\u00e3o \u00e9 nada disso. Regina Duarte assumiu seu derradeiro papel, aquele para o qual tem se preparado desde sempre, o de \u201cnamoradinha fascista do Brasil\u201d. N\u00e3o foi por acaso que a ex-atriz (conforme os jornalistas de sua antiga emissora) aceitou participar de um governo racista, machista, homof\u00f3bico, preconceituoso&#8230; Regina apenas tenta encarnar uma vers\u00e3o \u201cleve\u201d do monstro&#8230; em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal qual o chefe, Regina desacredita a imprensa: \u201ca gente vive um mundo t\u00e3o distorcido em alguns ve\u00edculos de imprensa\u201d, embora afirme que n\u00e3o acompanha as not\u00edcias, para \u201cn\u00e3o se contaminar\u201d. Como boa representante da ala feminina do governo, por\u00e9m, a secret\u00e1ria se mostra recatada, mesmo ao fazer as cr\u00edticas \u2013 n\u00e3o l\u00ea mais o \u201cfil\u00f3sofo\u201d Olavo de Carvalho porque ele diz muitos \u201cpalavr\u00f5es, nomes feios\u201d.<\/p>\n<p>Como boa bolsonarista, Regina tenta desconstruir a pol\u00edtica e demonstra, al\u00e9m disso, um completo desconhecimento sobre o que seja justamente o objeto da Secretaria que comanda &#8211; \u201co pessoal da cultura n\u00e3o tem partido, a cultura est\u00e1 acima dos partidos, das ideologias\u201d. Os subterf\u00fagios de que se vale para lidar com as contradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o semelhantes: a secret\u00e1ria se vale de narrativas confusas, recheadas de interpola\u00e7\u00f5es sem sentido cujo objetivo final \u00e9 desviar do assunto, culpabilizar e atacar interlocutores, \u201c\u00c9 crime gravar, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 uma pergunta que eu fa\u00e7o aos advogados\u201d.<\/p>\n<p>Ao ser questionada sobre a aus\u00eancia de manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica da Secretaria sobre as mortes de alguns expoentes da cultura, como Aldir Blanc, Flavio Migliaccio, Rubem Fonseca e Moraes Moreira, entre outros, a secret\u00e1ria admitiu ter sido cobrada, por sua assessoria de comunica\u00e7\u00e3o, por um pronunciamento oficial do \u00f3rg\u00e3o. Numa vers\u00e3o mais branda do \u201cE da\u00ed?\u201d e do \u201cEu n\u00e3o sou coveiro!\u201d de seu chefe, devolveu aos jornalistas: \u201cEu imaginei assim, ser\u00e1 que eu vou ter de virar um obitu\u00e1rio, a Secretaria virar um obitu\u00e1rio?\u201d.<\/p>\n<p>Como outros membros do governo e contradizendo o princ\u00edpio da impessoalidade, Regina cr\u00ea que cabe a ela decidir, de acordo com seu gosto pessoal, aqueles que merecem reconhecimento e homenagem: \u201cRicardo Brennand \u00e9 uma pessoa que eu amava&#8230; pessoa important\u00edssima para a cultura\u201d. N\u00e3o se trata aqui, claro, de diminuir a import\u00e2ncia ou afirmar que o empres\u00e1rio e colecionador n\u00e3o merecesse homenagem, mas os pesos e as medidas parecem oscilar ao sabor de suas prefer\u00eancias quando cita, por exemplo, o amigo: \u201cMas esse eu conheci, cada vez que eu ia a Recife, ele convidava para ir na casa dele, entendeu?&#8230; jantar&#8230; Eu tive intimidade com aquele homem de cultura, profundo mecenas, grande homem, exemplo&#8230;\u201d e ao se referir aos demais nomes da cultura que faleceram recentemente \u201co reconhecimento, ou ele existe ou ele n\u00e3o existe&#8230; o pa\u00eds est\u00e1 cultuando a mem\u00f3ria deles, n\u00e3o precisa da Secretaria de Cultura\u201d.<\/p>\n<p>Sobre as raz\u00f5es que a fizeram apoiar e aceitar participar do governo Bolsonaro, Regina \u00e9 enf\u00e1tica: \u201c&#8230; eu acredito que ele era e continua sendo a melhor op\u00e7\u00e3o para o pa\u00eds\u201d. Sobre suas falas odiosas, seu apoio \u00e0 ditadura e \u00e0 tortura? \u201cEu n\u00e3o quero ficar olhando pra tr\u00e1s, se eu ficar olhando para o retrovisor, vou dar trombada&#8230; tem que olhar pra frente, tem que ser construtivo, tem que amar o pa\u00eds\u201d. Sobre os mortos na ditadura? \u201cCara, (&#8230;) na humanidade n\u00e3o para de morrer, se voc\u00ea falar \u2018vida\u2019, do lado tem \u2018morte\u2019 (&#8230;) sempre houve tortura&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Numa outra emula\u00e7\u00e3o de seu atual patr\u00e3o, que j\u00e1 disse em refer\u00eancia aos familiares da guerrilha do Araguaia que ainda procuram seus mortos, que \u201cquem procura osso \u00e9 cachorro\u201d e hoje desdenha dos mortos pelo coronavirus: \u201cN\u00e3o vive quem fica arrastando cord\u00e9is de caix\u00f5es, eu acho que tem uma morbidez nesse momento, o COVID est\u00e1 trazendo uma morbidez insuport\u00e1vel&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Falas sobre as a\u00e7\u00f5es da Secretaria em apoio \u00e0 classe dos trabalhadores da cultura na pandemia? Sim, houve: elas se resumem \u00e0 \u201cajuda\u201d de R$ 600. Depois? \u201cDepois ningu\u00e9m sabe o que vai acontecer\u201d. Foi anunciada ainda uma vit\u00f3ria de seus 60 dias de gest\u00e3o: um decreto que reestrutura a Secretaria e a retirada da al\u00e7ada do Minist\u00e9rio da Cidadania. Como isso ajuda os trabalhadores da cultura? N\u00e3o se sabe&#8230; Mas a sua \u201cprimeira instru\u00e7\u00e3o normativa\u201d, \u201ca gente nunca esquece\u201d, permite aos proponentes com projetos em andamento ampliar o prazo para presta\u00e7\u00e3o de contas, desde que haja justificativa, claro, afinal \u201cn\u00e3o \u00e9 flexibiliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 aumento de prazo\u201d&#8230; porque uma pandemia n\u00e3o parece ser justificativa suficiente, obviamente.<\/p>\n<p>Poderia estender-me sobre outros descalabros da entrevista, mas paro por aqui. Como dito no in\u00edcio, a entrevista \u00e9 encerrada abruptamente pela secret\u00e1ria que inicia a conversa elogiando a postura da emissora, permitindo que os dois lados falem, mas que se mostrou incapaz de lidar com o contradit\u00f3rio, apelando para assessores e seguran\u00e7as para encerrar a tentativa de di\u00e1logo.<\/p>\n<p>O que fica claro \u00e9 que, a despeito da imagem de boa mo\u00e7a, a \u201cnamoradinha do Brasil\u201d se mostrou autorit\u00e1ria, refrat\u00e1ria ao di\u00e1logo, intransigente. A Secretaria de Cultura, como tantas outras secretarias e minist\u00e9rios, se transformou em palco de in\u00e9rcia e descaso para com os cidad\u00e3os a quem devia servir. At\u00e9 o momento de encerramento deste texto, as \u00fanicas a\u00e7\u00f5es concretas da pasta em apoio aos trabalhadores da cultura foram o j\u00e1 referido \u201caumento de prazo\u201d para a presta\u00e7\u00e3o de contas dos projetos em andamento e a prorroga\u00e7\u00e3o do pagamento de parcelamentos de projetos.<\/p>\n<p>Sobre como v\u00e3o sobreviver os trabalhadores da cultura n\u00e3o contemplados pelo mecanismo excludente da Rouanet e seus correlatos estaduais e municipais, que viram seus espet\u00e1culos cancelados ou como v\u00e3o sustentar os espa\u00e7os onde se apresentam e dos quais tiram seu sustento? Apenas um \u201cDepois ningu\u00e9m sabe o que vai acontecer\u201d. E n\u00e3o se sabe mesmo o que acontecer\u00e1 enquanto tivermos \u00e0 frente do pa\u00eds e da pasta da Cultura o fascista e seu fantoche.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25522\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[225],"class_list":["post-25522","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6DE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25522","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25522"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25522\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25522"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25522"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25522"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}