{"id":25569,"date":"2020-05-21T00:57:31","date_gmt":"2020-05-21T03:57:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25569"},"modified":"2020-05-21T00:57:31","modified_gmt":"2020-05-21T03:57:31","slug":"capitalismo-putrificado-crise-e-colapso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25569","title":{"rendered":"Capitalismo putrificado: crise e colapso"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/190815-crise.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Notas introdut\u00f3rias sobre o debate marxista<\/p>\n<p>Por Lu\u00eds Fernandes*<\/p>\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, ap\u00f3s a crise de 2008, ganhou notoriedade no chamado \u201cmainstream\u201d econ\u00f4mico, como o editor do \u201cFinancial Time\u201d Martin Wolf, e entre p\u00f3s keynesianos, como Paul Krugman, o debate relativo a uma tend\u00eancia \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o secular do capitalismo, principalmente diante das dificuldades de recupera\u00e7\u00e3o da economia mundial. A crise econ\u00f4mica e sanit\u00e1ria de 2020, impulsionada pela epidemia de Covid-19, j\u00e1 se notabiliza por ser a maior crise da hist\u00f3ria do capitalismo. Sendo assim, os debates sobre estagna\u00e7\u00e3o e colapso econ\u00f4mico-social merecem ser revisitados, ainda mais numa perspectiva marxista. Esse breve artigo visa recapitularmos as distintas posi\u00e7\u00f5es sobre o tema entre alguns intelectuais marxistas na d\u00e9cada de 2010.<\/p>\n<p>Vale destacar que, principalmente nos EUA e na Europa, n\u00e3o existem desdobramentos consensuais sobre esse debate. Eleut\u00e9rio Prado (2013), didaticamente, divide as opini\u00f5es em duas grandes posi\u00e7\u00f5es: a primeira estaria centrada na compreens\u00e3o da crise, essencialmente, enquanto um problema de realiza\u00e7\u00e3o ou de demanda agregada. J\u00e1 a segunda, o centro do argumento sobre as origens da crise de 2007-2008, estaria na queda tendencial da taxa de lucro1.<\/p>\n<p>Os atuais editores da revista Monthly Review, John Foster e Fred Magdoff (2009), s\u00e3o, sem d\u00favida, uma das principais refer\u00eancias no campo marxista em defender a tend\u00eancia \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o e ao subconsumo no capitalismo monopolista. Em \u201cCapitalismo Monopolista-Financeiro e a Grande Recess\u00e3o\u201d. Foster e Fred Magdoff (2009) retomam os argumentos de Baran e Swezzy com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo monopolista, em especial, a dificuldade de realiza\u00e7\u00e3o do excedente econ\u00f4mico e a tend\u00eancia \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o. Para eles, o capitalismo contempor\u00e2neo seria essencialmente monopolista-financeiro, tendo como base duas grandes caracter\u00edsticas: (1) a contradi\u00e7\u00e3o de uma economia madura onde uma enorme capacidade produtiva n\u00e3o utilizada se choca com uma decrescente oportunidade de investimentos e (2), consequentemente, gera uma tend\u00eancia ao aumento do excedente, com efeitos negativos sobre a acumula\u00e7\u00e3o de capital. Dessa forma, a rela\u00e7\u00e3o entre finan\u00e7as e produ\u00e7\u00e3o se explica antes por um estado da economia \u201creal\u201d, no caso uma economia estagnada, e a possibilidade de uma sa\u00edda, um ref\u00fagio para o capital nas finan\u00e7as, especialmente no processo de endividamento e na especula\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n<p>Para Foster e Fred Magdoff (2009), essencialmente, a crise contempor\u00e2nea do capitalista \u00e9 um problema de realiza\u00e7\u00e3o dos lucros, em especial, diante da estagna\u00e7\u00e3o da economia estadunidense. Os autores d\u00e3o continuidade aos argumentos de Baran e Swezzy, ao proporem a substitui\u00e7\u00e3o da lei da queda tendencial da taxa de lucro para a tend\u00eancia \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da dificuldade do excedente econ\u00f4mico se realizar no capitalismo monopolista. Em nosso ju\u00edzo, o equ\u00edvoco desses intelectuais \u00e9 dicotomizar o problema da realiza\u00e7\u00e3o dos lucros com a tend\u00eancia a uma diminui\u00e7\u00e3o na raz\u00e3o entre a massa de mais valia produzida e o capital investido pelos capitalistas (a taxa m\u00e9dia de lucro). A queda tendencial da taxa de lucro \u00e9 relativa, isto \u00e9, h\u00e1 um aumento da massa absoluta de mais valia e intensifica\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o do trabalho, contudo, ainda aqu\u00e9m das necessidades do capital.<\/p>\n<p>Nesse sentido, corroboramos com o argumento de Mandel ao analisar a busca pelos superlucros por parte dos grandes monop\u00f3lios. Mandel sustenta que, na maioria dos casos, a conquista dos superlucros \u00e9 oriunda da expropria\u00e7\u00e3o da massa de mais valia produzida pelos setores n\u00e3o monopol\u00edsticos, vejamos:<\/p>\n<p>\u201c[&#8230;] Na verdade, eles podem ser acompanhados por uma queda na taxa m\u00e9dia de lucro, o que efetivamente se verifica na maioria das vezes. O caso cl\u00e1ssico de capitalismo monopolista, em que um superlucro aparece em muitos setores sob prote\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio, mostra como superlucros podem, se o seu volume for consider\u00e1vel, at\u00e9 mesmo intensificar abruptamente a queda do coeficiente m\u00e9dio de lucro, pois, afinal esses superlucros foram retirados da massa de mais-valia a ser dividida entre os setores n\u00e3o monopolistas.&#8221; (MANDEL, 1982. P.53)<\/p>\n<p>Essa pondera\u00e7\u00e3o n\u00e3o exclu\u00ed a validade da pesquisa e reflex\u00e3o dos intelectuais estadunidenses, a tese subconsumista tamb\u00e9m \u00e9 defendida por Michel Husson. Husson, em pol\u00eamica com o \u00faltimo livro \u201cFinance Capital Today\u201d de Chesnais (2016), sustenta que, at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1980, houve uma desacelera\u00e7\u00e3o nos ganhos de produtividade, o que resultou em uma tend\u00eancia de queda na taxa de lucro. No entanto, a partir da fase neoliberal, o capitalismo conseguiu restaurar a taxa de lucro, apesar da desacelera\u00e7\u00e3o nos ganhos de produtividade. Inclusive, uma das defini\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de Husson sobre o neoliberalismo residiria na discrep\u00e2ncia entre \u201cretomada dos lucros e decl\u00ednio nas taxas de acumula\u00e7\u00e3o\u201d. Para o autor, essa discrep\u00e2ncia tem como base o aumento regular da taxa de explora\u00e7\u00e3o e a implementa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios dispositivos financeiros, multiplicadores de capitais fict\u00edcios, que a levaram \u00e0 crise atual. Sobre a tend\u00eancia \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o, Husson questiona e deixa \u201cem aberto\u201d a capacidade de um novo ciclo de crescimento da acumula\u00e7\u00e3o capitalista dentro dos padr\u00f5es do \u201cneoliberalismo\u201d:<\/p>\n<p>\u201cO debate sobre estagna\u00e7\u00e3o secular pode ent\u00e3o ser interpretado da seguinte forma: se o capitalismo \u00e9 incapaz de gerar novos ganhos de produtividade, ele pode recuperar um dinamismo renovado sem recair nas distor\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es do modelo neoliberal? Vemos que esse questionamento vai al\u00e9m de uma leitura &#8216;financeirista&#8217; da crise e tem a vantagem de se interessar pelos &#8216;fundamentos&#8217; do capitalismo. Esse problema geral leva a duas perguntas essenciais relacionadas \u00e0 possibilidade de aumento da produtividade induzida por novas tecnologias e ao papel dos chamados pa\u00edses emergentes. O exame dessas quest\u00f5es leva mais \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de um programa de trabalho do que \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o de propostas conclu\u00eddas.\u201d (HUSSON, 2016. Tradu\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria)<\/p>\n<p>Retomando um di\u00e1logo com as teses de Mandel, Husson se reserva a d\u00favida de uma poss\u00edvel nova onda de investimentos cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos para serem revertidos em ganhos de produtividade para o grande capital. Segundo o autor, a robotiza\u00e7\u00e3o ou a automa\u00e7\u00e3o podem gerar ganhos em produtividade do trabalho. Mas as inova\u00e7\u00f5es exigem investimentos, e estes s\u00e3o pressionados por gerarem alta rentabilidade na atual etapa do capitalismo. Empiricamente, o economista franc\u00eas demonstra que, quando empresas conquistam ganhos de produtividade associados \u00e0s novas tecnologias, esses ganhos resultam em uma baixa da produ\u00e7\u00e3o relativa e em um decl\u00ednio ainda mais r\u00e1pido do emprego. Por isso, al\u00e9m da press\u00e3o por rentabilidade, os ganhos de produtividade envolvem maior intensidade de explora\u00e7\u00e3o nas cadeias produtivas de valor e o aumento do desemprego em massa, dificultando ainda mais a realiza\u00e7\u00e3o da massa de mais valia produzida. Afinal, quem ir\u00e1 comprar os bens produzidos pelos rob\u00f4s? Nesse sentido, Husson lan\u00e7a d\u00favida sobre a capacidade do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista incorporar rapidamente essas inova\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>\u201cAs mudan\u00e7as induzidas pelo que agora \u00e9 chamado de &#8220;economia colaborativa&#8221; requerem reflex\u00e3o espec\u00edfica. Sem necessariamente v\u00ea-lo como uma alternativa ao capitalismo, pode-se, contudo, perguntar at\u00e9 que ponto esse tipo de inova\u00e7\u00e3o pode ser inserido na l\u00f3gica capitalista: oficinas de impressoras 3D onde as redes de compartilhamento de carros n\u00e3o s\u00e3o necessariamente portadoras de uma amplia\u00e7\u00e3o do campo de mercadorias. Essa pode ser a resposta b\u00e1sica ao paradoxo de Solow: o fluxo de inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas n\u00e3o parece estar secando, mas \u00e9 a capacidade do capitalismo de incorpor\u00e1-las \u00e0 sua l\u00f3gica que est\u00e1 se esgotando.\u201d (HUSSON,2016. Tradu\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria)<\/p>\n<p>Dumenil e Levy (2014) analisam a crise como fruto de um ordenamento social particular do capitalismo: o neoliberalismo. Sua causa \u00faltima, para os autores, n\u00e3o residiria na aus\u00eancia de demanda agregada ou na queda tendencial na taxa de lucro, mas sim na din\u00e2mica contradit\u00f3ria do neoliberalismo, na estrat\u00e9gia da classe capitalista em alian\u00e7a com a classe gerencial para elevar ao m\u00e1ximo os seus rendimentos. As pol\u00edticas neoliberais, a crescente financeiriza\u00e7\u00e3o da economia, o movimento de globaliza\u00e7\u00e3o recente, o fraco desempenho econ\u00f4mico dos Estados Unidos, o d\u00e9ficit em transa\u00e7\u00f5es correntes e o elevado endividamento interno e externo s\u00e3o os fatores, direta ou indiretamente, relacionados \u00e0quela estrat\u00e9gia, que, conjuntamente, levaram \u00e0 crise.<\/p>\n<p>O intelectual estadunidense Andrew Kliman (2015) sustenta que, \u201cdesde meados da d\u00e9cada de 1950, h\u00e1 uma queda tendencial da taxa de lucro nas corpora\u00e7\u00f5es norte-americanas at\u00e9 a d\u00e9cada de 1980. Essa tend\u00eancia se manteve no per\u00edodo neoliberal\u201d. O autor concorda com a tend\u00eancia estagnante da economia dos EUA, no entanto, a queda da taxa de lucro das corpora\u00e7\u00f5es se mostra como a raz\u00e3o \u00faltima e indireta da atual crise. O foco da interven\u00e7\u00e3o de Kliman \u00e9 muito mais enfatizar o car\u00e1ter estrutural da queda tendencial da taxa de lucro do que compreender as particularidades das crises recorrentes do capitalismo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de polemizar diretamente com Foster e Magdoff, Kliman questiona os dados trazidos por Husson, Demenil e Levy. O autor tamb\u00e9m questiona a tese de estagna\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios e transfer\u00eancia dos mesmos para os lucros das grandes corpora\u00e7\u00f5es. De fato, os questionamentos de Kliman n\u00e3o se resumem a um mero debate t\u00e9cnico ou quantitativo, mas a uma profunda discuss\u00e3o metodol\u00f3gica e te\u00f3rica2.<\/p>\n<p>O economista ingl\u00eas Michael Roberts mant\u00e9m a refer\u00eancia na queda tendencial da taxa de lucro para explicar a atual crise, inclusive se utiliza de dados fornecidos por Dumenil e Levy. Sem cair numa tentativa de explica\u00e7\u00e3o monocausal para as crises do capitalismo, Roberts, em especial no artigo \u201cCrise ou Colapso\u201d(2012), demonstra que, numa perspectiva de longa dura\u00e7\u00e3o, as taxas de lucro dos capitalistas nos EUA e no mundo nunca chegaram perto daquelas dos anos de 1960. Aproximando-se das indica\u00e7\u00f5es de Mandel sobre a tonalidade declinante do atual ciclo longo, Roberts tamb\u00e9m identifica per\u00edodos de recupera\u00e7\u00e3o e crescimento da taxa de lucro.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Roberts analisa que h\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias entre uma tend\u00eancia secular estagnante\/colapso e outra tend\u00eancia de crises recorrentes do capitalismo e breves per\u00edodos de recupera\u00e7\u00e3o. Essas crises mais rotineiras, dentro de uma espiral de colapso, sem a a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria dos trabalhadores, pode se perdurar por d\u00e9cadas e s\u00e9culos. Como afirma o autor:<\/p>\n<p>\u201cO capitalismo pode ser substitu\u00eddo por um novo sistema de organiza\u00e7\u00e3o social por meio da a\u00e7\u00e3o consciente dos homens, em particular pela maioria das pessoas (a classe trabalhadora mundial). Sem essa a\u00e7\u00e3o consciente, o capitalismo pode trope\u00e7ar conforme vai em frente, de tal modo que a sociedade venha a cair eventualmente na barb\u00e1rie. Por barb\u00e1rie deve-se entender uma queda na produtividade do trabalho e nas condi\u00e7\u00f5es de vida inerentes aos tempos anteriores ao capitalismo. A rep\u00fablica romana se arrastou durante 500 anos com base na agricultura camponesa e na propriedade privada do Estado. Ent\u00e3o, o Imp\u00e9rio Romano, baseado na escravid\u00e3o, deslizou por 400 anos antes que o mundo europeu colapsasse na barb\u00e1rie. A tecnologia romana (derivada das inova\u00e7\u00f5es dos gregos antigos) foi esquecida e se tornou in\u00fatil. Isto pode acontecer de novo e muito mais rapidamente, pois se est\u00e1 num mundo onde as coisas acontecem muito celeremente.\u201d (ROBERTS,2012)<\/p>\n<p>J\u00e1 Chesnais, em seu livro publicado em 2016 e numa s\u00e9rie de artigos no portal \u201cAlencontre\u201d, aprofunda seu di\u00e1logo com Roberts. Para o economista franc\u00eas, a raiz da atual crise de superacumula\u00e7\u00e3o e superprodu\u00e7\u00e3o est\u00e1 no crescimento insuficiente da taxa de lucro e nas dificuldades de realiza\u00e7\u00e3o da mais valia. O atual regime de acumula\u00e7\u00e3o p\u00f3s crise de 2007-2008 caracteriza-se pelo baixo crescimento sem final previs\u00edvel, cujo fundamento seriam as oportunidades de investimento insuficientes devido ao estado da taxa de lucro e da dificuldade de produ\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o da mais-valia. O per\u00edodo de uma economia mundial impulsionada pela China, que n\u00e3o escapou da desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, \u00e9 considerado como terminado. Somente as grandes transnacionais teriam conseguido restaurar sua lucratividade, mas seus poderes de oligop\u00f3lio as dispensariam da urg\u00eancia em investir. Al\u00e9m disso, a massa de capital monet\u00e1rio com dificuldades de se valorizar financeiramente seria respons\u00e1vel pela instabilidade cr\u00f4nica dos mercados financeiros.<\/p>\n<p>Segundo Chesnais, a crise dura mundialmente porque a financeiriza\u00e7\u00e3o da economia equivale a uma infla\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis direitos de saque sobre a mais-valia atual e futura, mas que excede a capacidade do sistema de produzir tanta mais-valia. A crise, como j\u00e1 salientamos, pode ent\u00e3o ser interpretada como um lembrete da lei do valor: o capitalismo simplesmente n\u00e3o pode distribuir mais mais-valor do que produz, parte desse capital fict\u00edcio precisava ser desvalorizado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessa (auto) contradi\u00e7\u00e3o na acumula\u00e7\u00e3o capitalista, o autor tamb\u00e9m aponta um outro elemento ex\u00f3geno: a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente. Citando a tese de Jason Moore acerca do \u201cCapitaloceno\u201d, Chesnais defende que a continuidade da acumula\u00e7\u00e3o capitalista representa in\u00fameras mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e geol\u00f3gicas j\u00e1 estudadas pela comunidade cient\u00edfica internacional. Para ele, a sobreviv\u00eancia do planeta depende de novas rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e consumo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de discordar sobre a queda tendencial da taxa de lucros e a produ\u00e7\u00e3o insuficiente de mais valia, Husson pondera sobre os \u201climites intranspon\u00edveis\u201d do capitalismo, o que para ele seria uma certa compreens\u00e3o catastrofista da atual crise. Para ele, mesmo na quest\u00e3o do meio ambiente, o colapso ambiental n\u00e3o necessariamente representa o colapso do capitalismo. Afinal, a intensifica\u00e7\u00e3o de guerras civis, invas\u00f5es imperialistas a pa\u00edses perif\u00e9ricos e disputa por recursos naturais j\u00e1 fazem parte da administra\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie produzida pelo capitalismo. Embora concordemos sobre a validez e atualidade da queda tendencial da taxa de lucro como um dos principais determinantes da atual crise capitalista, o argumento de Husson \u00e9 v\u00e1lido para melhor compreendermos, por exemplo, a reconfigura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica do sistema imperialista como um gestor do caos e da barb\u00e1rie provocadas pelo capitalismo.<\/p>\n<p>Os acontecimentos catastr\u00f3ficos devido \u00e0 pandemia tendem a ter um fun\u00e7\u00e3o de queima de capitais, sejam eles fict\u00edcios ou produtivos, al\u00e9m de vidas humanas, como uma forma de garantir breves recupera\u00e7\u00f5es da economia capitalista. Numa \u00e9poca de putrefa\u00e7\u00e3o do capitalismo sem a exist\u00eancia de for\u00e7as revolucion\u00e1rias alternativas, a vida desse modo de produ\u00e7\u00e3o tende a se alongar e rastejar atrav\u00e9s da barb\u00e1rie, do fascismo e da administra\u00e7\u00e3o do caos pelo imperialismo. Cabe destacar que, em nenhuma \u00e9poca hist\u00f3rica, a civiliza\u00e7\u00e3o caminhou para o seu colapso sem luta e resist\u00eancia. A luta de classes e o poder de organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores \u00e9 mais uma vez o decisivo para a defesa da humanidade.<\/p>\n<p>No entanto, os imensos desafios e dificuldades n\u00e3o devem gerar uma perplexidade imobilista e acovardada. Conforme Jos\u00e9 Paulo Netto nos lembrou, parafraseando o final do \u201cManifesto Comunista\u201d em sua mais recente interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica comemorando os 202 anos de Karl Marx, cabe aos comunistas, sumariamente, lutar pela unidade pr\u00e1tica das for\u00e7as democr\u00e1ticas, apoiar todos os movimentos que se chocam com a ordem capitalista e sempre p\u00f4r em destaque a quest\u00e3o da propriedade.<\/p>\n<p>*Professor de Hist\u00f3ria do IFSP e membro do Comit\u00ea Central do PCB<\/p>\n<p>Bilbiografia:<\/p>\n<p>Chesnais, F. Finance Capital Today. Corporations and Banks in the Lasting Global Slump, Brill, Leiden, 2016.<\/p>\n<p>___________.\u201cLe capitalisme a-t-il rencontr\u00e9 des limites infranchissables\u201d A l\u2019encontre, 4\/02\/2017.<\/p>\n<p>Michel Husson: http:\/\/alencontre.org\/economie\/stagnation-seculaire-le-capitalisme-embourbe.html<\/p>\n<p>https:\/\/vientosur.info\/spip.php?article12248<\/p>\n<p>Michael Roberts: https:\/\/eleuterioprado.blog\/2012\/10\/16\/crise-ou-colapso\/<\/p>\n<p>Andrew Kliman: http:\/\/outubrorevista.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/3_Andrew-Kliman.pdf<\/p>\n<p>DUM\u00c9NIL, G\u00e9rard; L\u00c9VY, Dominique. A Crise do Neoliberaismo. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2014.<\/p>\n<p>FOSTER J. B.; MAGDOFF, F. The Great Financial Crisis: Causes and Consequences. New York: Monthly Review Press, 2009<\/p>\n<p>MANDEL, Ernest. O capitalismo Tardio. S\u00e3o Paulo: Abril, 1982.<\/p>\n<p>PRADO, Eleut\u00e9rio. A estagna\u00e7\u00e3o secular e o futuro do capitalismo, Marx e o Marxismo \u2013 Revista do NIEP, vol. 2 (3), jul\/dez de 2014a.<\/p>\n<p>Artigos acad\u00eamicos sobre o tema:<\/p>\n<p>Notas sobre o debate acerca dos limites hist\u00f3ricos do capital:<\/p>\n<p>http:\/\/www.revistasep.org.br\/index.php\/SEP\/issue\/view\/20<\/p>\n<p>A crise mundial e suas consequ\u00eancias: um debate te\u00f3rico:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.ifch.unicamp.br\/criticamarxista\/arquivos_biblioteca\/artigo2017_02_15_10_47_57.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Clique para acessar o artigo2017_02_15_10_47_57.pdf<\/a><\/p>\n<p>1 Em artigo publicado na revista brasileira de economia pol\u00edtica por Maur\u00edcio Sabini, Gustavo Mello e Henrique Pereira Braga, os autores fazem um apanhado mais amplo sobre esse debate e revisitam outros estudos cl\u00e1ssicos sobre a natureza da crise capitalista em autores j\u00e1 tidos como \u201ccl\u00e1ssicos\u201d como David Harvey, Istav\u00e1n Metz\u00e1ros e Robert Kurz. Ver: SABINI,MELLO, BRAGA, 2018).<br \/>\n2 Sobre essa diverg\u00eancia de dados, segundo Andrade e Palludeto(2017): \u201cDe fato, trata-se de uma importante distin\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que se expressa no modo de mensura\u00e7\u00e3o da taxa de lucro, particularmente quanto ao estoque de capital. Aqui se confrontam duas interpreta\u00e7\u00f5es distintas sobre a teoria marxista do valor, particularmente sobre aquilo que ficou conhecido na literatura como o \u201cproblema da transforma\u00e7\u00e3o\u201d. De um lado, aquela que se pode considerar a interpreta\u00e7\u00e3o convencional, cuja formaliza\u00e7\u00e3o se baseia em equa\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas, e, de outro, a interpreta\u00e7\u00e3o do \u201csistema \u00fanico temporal\u201d (ISUT) \u2013 do ingl\u00eas, Temporal Single-System Interpretation. [&#8230;] A partir desta abordagem (ISUT), Kliman analisa detidamente o movimento da taxa de lucro da economia norte-americana. Ao adotar uma perspectiva centrada no tempo hist\u00f3rico, como visto acima, o autor utiliza como dados para o estoque de capital os ativos fixos avaliados a custos hist\u00f3ricos e n\u00e3o a custos correntes (ou de reposi\u00e7\u00e3o) como em geral \u00e9 utilizado pelos adeptos da interpreta\u00e7\u00e3o convencional do valor de Marx. Assim, tomando sua medida de lucro mais abrangente, denominada \u201crenda da propriedade\u201d (property income), Kliman observa que, de 1982 a 2001, per\u00edodo para o qual \u00e9 comum se afirmar que a taxa de lucro se recuperou e iniciou uma trajet\u00f3ria sustentada de eleva\u00e7\u00e3o, a rentabilidade reduziu-se 26,9%. No entanto, se se avalia o estoque de capital a custos correntes, o movimento da taxa de lucro inverte-se. Observe que \u00e9 aquela distin\u00e7\u00e3o te\u00f3rica anteriormente mencionada que, ao se expressar na mensura\u00e7\u00e3o do estoque de capital, leva a conclus\u00f5es absolutamente divergentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 din\u00e2mica da taxa de lucro nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25569\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[225],"class_list":["post-25569","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Ep","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25569","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25569"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25569\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25569"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25569"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25569"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}