{"id":25603,"date":"2020-05-28T21:57:01","date_gmt":"2020-05-29T00:57:01","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25603"},"modified":"2020-05-28T21:57:01","modified_gmt":"2020-05-29T00:57:01","slug":"faca-o-que-eu-digo-mas-nao-faca-o-que-eu-faco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25603","title":{"rendered":"Fa\u00e7a o que eu digo, mas n\u00e3o fa\u00e7a o que eu fa\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/katehon.com\/sites\/default\/files\/styles\/natural\/public\/tv_besa_dinero.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->O jornalismo e os limites da ideologia liberal<\/p>\n<p>Por Antonio Lima J\u00fanior, diretor da Associa\u00e7\u00e3o Cearense de Imprensa (ACI), militante do PCB e da Unidade Classista<\/p>\n<p>Recentemente, circulou na imprensa o boato acerca da morte de Kim Jong-Un, aquele que costumam chamar de \u201cl\u00edder supremo\u201d da Coreia do Norte, ignorando totalmente seu sistema pol\u00edtico interno. Confiando em fontes \u201cinfal\u00edveis\u201d, os meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais jogaram at\u00e9 a probabilidade de que Kim estivesse morto e o governo norte-coreano tentasse colocar a situa\u00e7\u00e3o debaixo do tapete. Outros ve\u00edculos ousaram mais, supondo uma poss\u00edvel sucess\u00e3o atrav\u00e9s da irm\u00e3 de Kim, expondo-a nos piores casos de misoginia que a imprensa ousou criar nos \u00faltimos tempos desde o \u201cbela, recatada e do lar\u201c [1].<\/p>\n<p>Eis que, depois de dias de especula\u00e7\u00e3o e tentativas de transformar a pol\u00edtica norte-coreana numa vers\u00e3o do Game of Thrones, Kim Jong-Un reaparece, para espanto da imprensa, que anunciou de forma t\u00edmida sua apari\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio do bombardeio de not\u00edcias que especularam sua morte. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que, a partir de \u201cfontes confi\u00e1veis\u201c, a imprensa ocidental comete deslizes com a vida de pessoas da Coreia Popular. V\u00e1rios s\u00e3o os casos de figuras pol\u00edticas ou militares que morrem, somem e misteriosamente reaparecem, al\u00e9m dos diversos casos de not\u00edcias que buscam criar falsidades sobre o cotidiano da Coreia do Norte, a exemplo das tentativas xenof\u00f3bicas nos Jogos Ol\u00edmpicos do Rio de Janeiro em 2016 [2].<\/p>\n<p>A forma como os meios de comunica\u00e7\u00e3o se apegam \u00e0s suas fontes sem a devida checagem nos levam, inicialmente, ao problema da submiss\u00e3o \u00e0s agencias de noticias, que ocupam boa parte dos notici\u00e1rios. Essas ag\u00eancias envolvem tamb\u00e9m o interesse das grandes pot\u00eancias, disseminando informa\u00e7\u00e3o. Mas esses deslizes n\u00e3o s\u00e3o cometidos somente pelos jornais tradicionais. At\u00e9 ve\u00edculos considerados progressistas, como El Pa\u00eds, reproduzem esse efeito danoso, a exemplo do caso em que o ve\u00edculo em quest\u00e3o chegou a questionar a autonomia das universidades venezuelanas quando (pasmem!) a Justi\u00e7a daquele pa\u00eds resolveu por acatar o voto universal para reitor das universidade, pauta hist\u00f3rica que garante a participa\u00e7\u00e3o de todo o universo da institui\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, incluindo os trabalhadores da universidade. Na \u00e2nsia de criticar Maduro, o jornal explicou como retrocesso um avan\u00e7o de invejar muitos pa\u00edses ditos democr\u00e1ticos [3].<\/p>\n<p>Voltando para o caso da Coreia Popular, a atitude da m\u00eddia ocidental exp\u00f5e uma contradi\u00e7\u00e3o no seu modus operandi: a mesma imprensa que combate a desinforma\u00e7\u00e3o bolsonarista, atrav\u00e9s das fake news, reproduz as mentiras quando conv\u00e9m. Utilizam o termo americanizado para confrontar a extrema-direita, mas relativizam suas a\u00e7\u00f5es semelhantes, esquecendo que tudo \u00e9 desinforma\u00e7\u00e3o e mentira da mesma maneira. O que os jornais buscam nisso \u00e9 varrer para debaixo do tapete a sua vincula\u00e7\u00e3o com a ideologia liberal, ideologia esta que at\u00e9 pouco tempo flertou com o protofascismo bolsonarista, n\u00e3o tremendo a cara ao dizer que era uma escolha \u201cmuito dif\u00edcil\u201c optar entre a extrema-direita e o reformismo conciliador no segundo turno em 2018 [4].<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do caso norte-coreano, o tema das fake news mostra a superficialidade em que o problema \u00e9 abordado. Nelson Werneck Sodr\u00e9, ao falar da necessidade de combater uma vis\u00e3o da hist\u00f3ria como mera sucess\u00e3o de acontecimentos, exemplifica uma fake news realizada no per\u00edodo entreguerras do s\u00e9culo passado, com a carta falsa assinada supostamente por Artur Bernardes para coloc\u00e1-lo contra os militares durante sua campanha presidencial em 1922. Mas a carta \u00e9 apenas o estopim de acontecimentos conjunturais, da\u00ed o erro de hoje associar a vit\u00f3ria eleitoral de Bolsonaro simplesmente ao mecanismo de disparo de fake news, sem esquecer o processo de fascistiza\u00e7\u00e3o que atravessa o jogo pol\u00edtico, lembrando das alian\u00e7as golpistas que os governos petistas mantiveram (quem n\u00e3o lembra da negociata envolvendo a presid\u00eancia da comiss\u00e3o de direitos humanos da C\u00e2mara em 2013, liderada por Marco Feliciano com aval do PT?) e o desenrolar do contexto geopol\u00edtico e das fra\u00e7\u00f5es burguesas que sustentam a pol\u00edtica ultraliberal conservadora.<\/p>\n<p>Em paralelo, governos estaduais tentam suprir o problema das fake news com projetos de leis, verdadeiros fiascos, onde penalizam o compartilhamento de mat\u00e9rias falsas, sem problematizar a produ\u00e7\u00e3o e a fonte das mentiras, responsabilizando o indiv\u00edduo que muitas vezes cai na anedota. Apesar de muitos saudarem a atitude como uma forma de desmascarar o bolsonarismo, esses projetos podem trazer al\u00edvio aos ve\u00edculos que j\u00e1 adotam a mentira como um modus operandi, deixando a batata assada na m\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o desacredita nos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todos esses elementos s\u00e3o insuficientes de serem abordados nos marcos do jornalismo liberal que \u00e9 exercido hoje. Mais do que nunca \u00e9 tempo de apontar os limites de uma imprensa que se agarra \u00e0 crise do impresso com uma simples crise de mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e evita, de certa maneira proposital, avan\u00e7ar na raiz do problema. A forma\u00e7\u00e3o do jornalismo como vemos hoje est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da sociedade burguesa. Entretanto, como aponta a teoria marxista, ou seja, cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, \u00e9 preciso desmantelar essa estrutura liberal da imprensa, n\u00e3o pelo fim do jornalismo, mas para a constru\u00e7\u00e3o de uma teoria marxista da comunica\u00e7\u00e3o, submetida \u00e0 uma pr\u00e1xis, lembrando as palavras de Adelmo Genro Filho sobre a necessidade de construir \u201cum jornalismo informativo com outro car\u00e1ter de classe\u201c.<\/p>\n<p>Cabe aos jornalistas, oper\u00e1rios da palavra, o papel de assumir uma posi\u00e7\u00e3o de classe e combater a ideologia dominante nas reda\u00e7\u00f5es, sem esquecer que essa guerra estar\u00e1 fadada \u00e0 inconclus\u00e3o se n\u00e3o estiver ligada ao processo macro de revolu\u00e7\u00e3o, que aponte para uma sociedade sem patr\u00f5es gatekeepers, que determinam o valor da not\u00edcia. Jornalistas prolet\u00e1rios, uni-vos!<\/p>\n<p>[1] https:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/mundialista\/linda-brava-e-malvada-a-irmazinha-poderosa-de-kim-jong-un\/<\/p>\n<p>[2] https:\/\/gz.diarioliberdade.org\/mundo\/item\/50533-cinco-mentiras-olimpicas-sobre-a-coreia-do-norte.html<\/p>\n<p>[3] https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/08\/28\/internacional\/1566946880_854966.html<\/p>\n<p>[4] https:\/\/opiniao.estadao.com.br\/noticias\/geral,uma-escolha-muito-dificil,70002538118<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25603\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[223],"class_list":["post-25603","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6EX","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25603","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25603"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25603\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25603"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25603"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25603"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}