{"id":25613,"date":"2020-05-30T00:15:22","date_gmt":"2020-05-30T03:15:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25613"},"modified":"2020-05-30T00:15:22","modified_gmt":"2020-05-30T03:15:22","slug":"tempos-atrozes-a-dominacao-de-classes-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25613","title":{"rendered":"Tempos atrozes: a domina\u00e7\u00e3o de classes no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/leh1c7GfOc2FqDqKBL9TLLcAODhYlJwXpKBsjj52a_cJf8lRQfHzWiTdhGDZ9pvInWzIEG3l_txx478dQ35D0I34699bo6k2DK2FA-ipPh-twqmnsgofqtwusiGHQQh7yxpiVOTsBZmDcBcg5Vtty6_WsqYUsDe_Byuns70wd4E5cx69yp3fbMcY_uTwdsBvA7p57YgOIVx-KscEZQNTYUhtaXNP8dvLILpdlU0Dc69QeeE6W93C-lEYXlSyATXXC933qj0Ejqei5MuarNAbFC4IOU6rOaqBm2cbamTuPFXuXuJczmB6Z57ETZeeedEVG5q-W3Dc0zT2lWUqlB6lSuZnmre9fs2aM2JskkatIaiY9ETRSdLyVQtKcNhqHN6qbiYkTNG7zuvPHZfq6djSC0IACD8lnVkxnjgi0hDjBEtDG-nUMejoWFuWQPkcJhpPTMUQ3jLRCETHm1vkAWB_jYElRuyMfgoD2OJ5Jre46ZiBBdorRbvvhp3cc61poUD-3S-giMmNEAY8zqQh0CHtzfO0a9G18trliiAG5YnMXbtPxgTgK7wfFgLPRyPy3qj--cc23lyj3U4ssYjVZ7Z4qQAZeVbY2N9_BLmCYLLLJUJ8ig4CYfZZ8uMCqHRW9s6RV_qw-gW_f-XygViWnZ-yNTiQg7YizDWU4yEHQv046zcgXa9y-u4jtKKbzh_i=w1131-h638-no?authuser=0\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Tempos atrozes: a domina\u00e7\u00e3o de classes no Brasil<\/p>\n<p>Marcos Corr\u00eaa\/PR<br \/>\nEmpres\u00e1rios saem de reuni\u00e3o com Bolsonaro e v\u00e3o juntos ao STF<\/p>\n<p>Por: Virg\u00ednia Fontes<\/p>\n<p>ESQUERDA ONLINE<\/p>\n<p>Tempos atrozes (1): fios hist\u00f3ricos da domina\u00e7\u00e3o de classes no Brasil e contradi\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Este \u00e9 um texto para debate e n\u00e3o possui o formato acad\u00eamico, desprovido das cl\u00e1ssicas notas de rodap\u00e9. Foi redigido \u00e0s pressas, diferente do tempo da escrita refletida, em fun\u00e7\u00e3o de conversa com o grande amigo Roberto Leher. Resulta por\u00e9m de muitos anos de pesquisa e de reflex\u00e3o e se nutre da conviv\u00eancia com pesquisadores aguerridos do Grupo de Trabalho e Orienta\u00e7\u00e3o-GTO. Est\u00e1 aberto \u00e0 cr\u00edtica e \u00e9 mais perme\u00e1vel ao erro. Esse \u00e9 o tempo em que vivemos, temos pressa.<br \/>\nDesde a d\u00e9cada de 1990 \u2013 n\u00e3o por acaso coincidindo com a chamada redemocratiza\u00e7\u00e3o \u2013 o empresariado brasileiro come\u00e7ou um trabalho de \u2018moderniza\u00e7\u00e3o\u2019 de suas formas de atua\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, continuando sua a\u00e7\u00e3o j\u00e1 cl\u00e1ssica, setorial, junto ao Estado brasileiro, mas ampliando o escopo de sua interven\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de APHEs (aparelhos privados de hegemonia empresariais) voltados para convencer e capturar segmentos das classes trabalhadoras. Tiveram a b\u00ean\u00e7\u00e3o externa, como da AMCHAM-Br (C\u00e2mara Americana de Com\u00e9rcio-Brasil). Contavam com a experi\u00eancia anterior do Instituto de Pesquisas Sociais e do Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica-IPES-IBAD, polos centrais do golpe empresarial-militar de 1964. Essa moderniza\u00e7\u00e3o p\u00f3s-Constituinte apresentava-se como \u2018democratizadora\u2019 da vida social brasileira, pela dinamiza\u00e7\u00e3o da \u2018sociedade civil\u2019 que a m\u00eddia corporativa ecoava. Muitos integrantes das esquerdas, com baixos teores cr\u00edticos e enorme fasc\u00ednio pelo institucionalismo, simplesmente fecharam os olhos para o fato de que a sociedade civil \u00e9 \u00e2mbito \u2013 e dos mais s\u00e9rios \u2013 das lutas de classes e que, portanto, n\u00e3o est\u00e1 nem fora nem acima do mercado ou do Estado. Os cr\u00edticos que desconfiavam das formula\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas \u2013 e com raz\u00e3o \u2013 muitas vezes se barricaram atr\u00e1s unicamente da an\u00e1lise de dados econ\u00f4micos, recusando-se a analisar esse \u00e2mbito estranho e complexo. Perdiam de vista parcela fundamental da atividade das classes dominantes.<\/p>\n<p>As entidades da sociedade civil \u2013 ou aparelhos privados de hegemonia \u2013 se enra\u00edzam nos interesses materiais das classes dominantes e das dominadas, penetram o Estado por diversas modalidades e atuam como formadoras de sociabilidades, sobretudo refor\u00e7ando os setores hegem\u00f4nicos, mas tamb\u00e9m contestando e criando contra-hegemonias. Podem ser clubes, jornais, escolas, grupos de estudos, partidos, associa\u00e7\u00f5es diversas, religi\u00f5es, etc. Esse \u00e9 um aporte fundamental de Antonio Gramsci para a compreens\u00e3o do Estado capitalista. Ora, desde a d\u00e9cada de 1990 no Brasil o setor empresarial est\u00e1 no ataque e \u00e9 preciso reconhecer que venceram. Mas tamb\u00e9m foram derrotados. Vejamos de perto.<\/p>\n<p>O primeiro ataque aos setores populares, iniciado sobretudo ao longo dos governos Fernando Henrique Cardoso, se deu exatamente nos \u00e2mbitos onde fermentavam mais lutas populares. Ocorreu pela implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas compensat\u00f3rias semiprivadas (cujo maior exemplo foi o Comunidade Solid\u00e1ria) e pela contrarreforma do Estado, abrindo as porteiras para as pr\u00e1ticas privadas maquiadas de p\u00fablicas, financiadas por recursos p\u00fablicos, como as Parcerias P\u00fablico-Privadas, as PPPs. Do lado da base material, reestrutura\u00e7\u00f5es produtivas contaram com apoio resoluto ao setor privado e aprofundaram o desemprego, o que enfraqueceu as organiza\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas sindicais e outras. Tais pr\u00e1ticas vieram recobertas pelo p\u00f3s-modernismo, que com muitos passes de m\u00e1gica pretendia eliminar a verdade dos processos sociais, desvinculando a economia e, sobretudo, a exist\u00eancia de classes sociais das reflex\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o. O resultado? Plugar a economia de forma direta ao empresariado, blindando-a.<\/p>\n<p>Desgra\u00e7adamente, parcela das entidades populares acreditou na m\u00e1gica apregoada pela m\u00eddia corporativa e por muitos \u2018intelectuais\u2019 de uma \u2018sociedade civil angelical\u2019. Do lado do convencimento, os APHEs incidiram diretamente sobre:<\/p>\n<p>\u2013 inf\u00e2ncia e juventude, e pulularam APHEs voltados para \u2018mudar a vida\u2019 da juventude brasileira, contrapondo-se \u00e0s propostas de pol\u00edticas universais. Na sua ponta mais pr\u00e1tica \u2013 e pragm\u00e1tica \u2013 investiram pouco em dinheiro, mas bastante em propaganda para abrigos, ado\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as, cuidados de crian\u00e7as e adolescentes, at\u00e9 chegarem nas escolas p\u00fablicas. Doravante n\u00e3o apenas realizariam convencimento, mas tamb\u00e9m capturariam uma parcela crescente dos recursos p\u00fablicos atrav\u00e9s da venda de sistemas, de materiais diversos, de telecursos, etc.<\/p>\n<p>\u2013 mulheres e feminismo; lutas antirracistas \u2013 outros APHEs mais experimentados no cen\u00e1rio internacional (como as Funda\u00e7\u00f5es Ford e Rockefeller, mas se criaram in\u00fameras entidades brasileiras para isso) tomaram a iniciativa nos dois focos fundamentais de lutas contra opress\u00e3o, e traziam a novil\u00edngua dos empoderamentos de maneira a contornar a luta pela igualdade, impondo o tema da diferen\u00e7a. Agiram como se fosse poss\u00edvel haver diferen\u00e7a na aus\u00eancia da igualdade. A desigualdade gera hierarquia subordina\u00e7\u00e3o, enquanto o terreno da verdadeira diferen\u00e7a precisa da igualdade. Tratava-se de elaborar e implantar pol\u00edticas semip\u00fablicas para que tais recursos pudessem ser capturados, al\u00e9m de abocanhar parcela dos recursos de APHEs internacionais atrav\u00e9s de entidades intermediadoras. S\u00e3o temas explosivos, e n\u00e3o podiam sufoc\u00e1-los, pois pretendiam \u2018convert\u00ea-los\u2019, transformando-os de lutas reivindicativas em formas de \u2018solicita\u00e7\u00e3o e demandas\u2019, apassivando-os. Muitos movimentos aprenderam, na pr\u00f3pria luta, o quanto tais \u2018amigos\u2019 podem dar abra\u00e7os de urso; aprenderam a tamb\u00e9m \u2018reconverter\u2019 o sentido da novil\u00edngua, recolocando-a no terreno do enfrentamento ao capital, mas \u00e9 uma tarefa permanente e cansativa;<\/p>\n<p>\u2013 quest\u00e3o ambiental \u2013 novamente, terreno de acirradas lutas de popula\u00e7\u00f5es locais em processo de expropria\u00e7\u00e3o e da cria\u00e7\u00e3o de novas modalidades de valoriza\u00e7\u00e3o do capital atrav\u00e9s da apropria\u00e7\u00e3o das terras ou do aparentemente discreto mercado de carbono. As lutas aqui eram m\u00faltiplas, locais, nacionais e internacionais. Outra novil\u00edngua, a da \u2018sustentabilidade\u2019;<\/p>\n<p>\u2013 por fim, mas n\u00e3o menos importante, parcela n\u00e3o desprez\u00edvel dos \u2018novos intelectuais\u2019 entraria agora a servi\u00e7o de tais APHEs, nova \u00e1rea de empregos prec\u00e1rios para os \u2018volunt\u00e1rios\u2019, mas melhor remunerados para suas dire\u00e7\u00f5es e franqueadora de contatos nacionais e internacionais. A sociedade civil, ou os aparelhos de hegemonia n\u00e3o s\u00e3o apenas empresariais, e muitas organiza\u00e7\u00f5es se originaram na luta das classes trabalhadoras. Neste texto, destacamos sobretudo a atua\u00e7\u00e3o empresarial e seu ataque de longa dura\u00e7\u00e3o \u00e0s conquistas populares no Brasil.<\/p>\n<p>Evidentemente essa atua\u00e7\u00e3o burguesa n\u00e3o se limitava a convencer a popula\u00e7\u00e3o. Ela tamb\u00e9m formava seus quadros e lideran\u00e7as e uma s\u00e9rie de APHEs de forma\u00e7\u00e3o burguesa se consolidou e se expandiu \u2013 Instituto de Estudos Empresariais (1984) e seu filhote, o Instituto Liberdade (2003); GIFE \u2013 Grupo de Institutos e Funda\u00e7\u00f5es Empresariais (iniciado em 1989,formalizado em 1995); Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial-IEDI (1989); Millenium (2005); Instituto von Mises (2009); Instituto de Estudos de Pol\u00edtica Econ\u00f4mica \u2013 IEPE\/Casa das Gar\u00e7as (2003); dentre centenas de outros, inclusive entidades educativas sem fins lucrativos, como o Insper. Esse ativismo, \u00e9 sempre bom n\u00e3o esquecer, se soma \u00e0s entidades mais diretamente setoriais (como as \u2018associa\u00e7\u00f5es brasileiras\u2019 de diversos setores, tal como a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira do Agroneg\u00f3cio-ABAG) e sindicais patronais, como os sindicatos, federa\u00e7\u00f5es e confedera\u00e7\u00f5es, cujas precursoras existem h\u00e1 mais de um s\u00e9culo. \u00c0 sombra dessa atua\u00e7\u00e3o que se autoproclamava \u2018solid\u00e1ria\u2019, cresciam entidades de extrema-direita, muitas financiadas inclusive por empres\u00e1rios que apoiaram o governo PT.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos finais da d\u00e9cada de 1990 e na perspectiva da vit\u00f3ria do PT, se intensifica a a\u00e7\u00e3o de \u2018APHEs de APHEs\u2019, ou agregadores de entidades sem fins lucrativos empresariais, tais como o GIFE \u2013 Grupo de Institutos e Funda\u00e7\u00f5es Empresariais (1995), seguido pelo Todos pela Educa\u00e7\u00e3o (2006), etc., procurando atuar como p\u00f3los direcionadores da dispers\u00e3o causada pela fragmenta\u00e7\u00e3o das atividades de tais APHEs empresariais.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria nomenclatura se modificar\u00e1 e deixaram de ser entidades \u2018filantr\u00f3picas\u2019 para se autodenominarem Investimento Social Privado, ou pelas \u00e1reas de Sustentabilidade das empresas e de suas Funda\u00e7\u00f5es. Esse conjunto de entidades empresariais sem fins lucrativos revelou-se extremamente engordativo e deu margem a uma extensa cria\u00e7\u00e3o de novos filhotes \u2013 tamb\u00e9m sem fins lucrativos \u2013 voltados para a gest\u00e3o, para a confec\u00e7\u00e3o de programas de educa\u00e7\u00e3o para todos as \u00e1reas, de advocacia e consultoria, vendendo servi\u00e7os umas \u00e0 outras. Todas com imunidade fiscal, o que permitia pagar muito mal a seus trabalhadores \u2013 preferencialmente volunt\u00e1rios, remunerados a conta-gotas \u2013 e assegurar bons rendimentos para seus dirigentes e bons contratos para elas pr\u00f3prias ou suas mantenedoras.<\/p>\n<p>Parecem startups? N\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia. O ponto de uni\u00e3o ideol\u00f3gico foi o empreendedorismo, que todos os APHEs pregavam e exigiam. Mas \u00e9 sua pr\u00e1tica o ponto nodal: fomentar pelo desemprego, pela legisla\u00e7\u00e3o e pelo exemplo \u2018volunt\u00e1rio\u2019 uma classe trabalhadora desprovida de direitos, de um lado; de outro, transformar recursos e pol\u00edticas p\u00fablicas em processos de enriquecimento e lucratividade. N\u00e3o por acaso, essas pr\u00e1ticas os aproximaram das variadas teologias da prosperidade (cat\u00f3licas e protestantes), onde a f\u00e9 tornou-se empreendimento altamente lucrativo e gerou um empresariado extremamente ativo, inclusive na comunica\u00e7\u00e3o, com redes de TV e jornais.<\/p>\n<p>O resultado, por\u00e9m, foi mais \u2018moderno\u2019 do que gostariam. Essa atividade fren\u00e9tica empresarial deslocou os recursos p\u00fablicos para \u00e1reas privadas, imp\u00f4s a gest\u00e3o privada no pr\u00f3prio Estado, quando estabelecia parcerias ou pelo convencimento de que era a \u2018\u00fanica alternativa\u2019 e rapidamente aprofundou o desmantelamento das estruturas p\u00fablicas herdadas da Constitui\u00e7\u00e3o, assim como devastaram os partidos pol\u00edticos \u2013 inclusive aqueles nos quais se reconheciam. Como o fizeram? Pela aniquila\u00e7\u00e3o do papel desses partidos na defini\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas a adotar ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es, o que j\u00e1 estava pr\u00e9-determinado tanto por contratos passados por governos anteriores, como por redes de rela\u00e7\u00f5es criadas nos processos eleitorais e nos primeiros momentos p\u00f3s-eleitorais. APHEs com forte assessoria jur\u00eddica sabiam como fazer as leis, que leis precisavam, com quem se coligar no pa\u00eds e contavam com o benepl\u00e1cito \u2013 sob o manto filantr\u00f3pico \u2013 do empresariado local.<\/p>\n<p>Venceram, mas a custa de abalarem as estruturas burguesas de agrega\u00e7\u00e3o e de concerta\u00e7\u00e3o entre interesses diversos e contradit\u00f3rios. S\u00f3 eram admitidas as varia\u00e7\u00f5es da mesma m\u00fasica, em defesa do capital em todas as suas dimens\u00f5es (brasileiro ou estrangeiro). As decis\u00f5es se deslocavam para as c\u00fapulas dos Executivos (tamb\u00e9m no n\u00edvel infranacional, em estados e munic\u00edpios), como acertos entre \u2018empres\u00e1rios\u2019: os da pol\u00edtica, os das empresas e aqueles dos APHEs, inclusive religiosos. Restava \u00e0 boa parte dos parlamentares fisiol\u00f3gicos empreenderem de maneira similar, e aprofundarem iniciativas de apropria\u00e7\u00e3o privada de setores p\u00fablicos, pr\u00e1tica que j\u00e1 caracterizava de longa data boa parte dos partidos pol\u00edticos oficiais, haja visto o cl\u00e1ssico \u2018Centr\u00e3o\u2019. Infelizmente, empurrados pela onda empreendedora, acalentados pela aura da filantropia empresarial e pela pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o brasileira de apropria\u00e7\u00e3o privada do \u00e2mbito p\u00fablico, quase todos os partidos enveredaram pelo mesmo caminho, inclusive alguns da assim chamada esquerda.<\/p>\n<p>Em que p\u00e9 ficava o ch\u00e3o material? Sob os governos Lula e Dilma, prosseguia o livre tr\u00e2nsito dos APHEs no Estado, que chegaram a formular muitas de suas pol\u00edticas. N\u00e3o obstante, o grosso dos recursos p\u00fablicos destinou-se a um projeto de desenvolvimento que envolvia diretamente o mega-empresariado (n\u00e3o por acaso tamb\u00e9m patrocinador de v\u00e1rios APHEs), especialmente aquele voltado para a exporta\u00e7\u00e3o de capitais, que, sem nenhum pejo, replicou as pr\u00e1ticas internas hist\u00f3ricas de trucul\u00eancia em outros pa\u00edses e outras culturas. Isso aprofundou tens\u00f5es intra-burguesas, pela enorme desigualdade de distribui\u00e7\u00e3o de recursos governamentais.<\/p>\n<p>Os resultados da precariza\u00e7\u00e3o massiva come\u00e7aram a aparecer. As manifesta\u00e7\u00f5es populares de 2013 exigiam padr\u00e3o Fifa nas pol\u00edticas p\u00fablicas. N\u00e3o havia partido que as representasse, e desconfiavam dos partidos existentes \u2013 n\u00e3o sem raz\u00e3o. As esquerdas se animaram e se assustaram. Com raz\u00e3o. Mas tamb\u00e9m as direitas se davam conta de que n\u00e3o tinham os instrumentos cl\u00e1ssicos patronais para conten\u00e7\u00e3o daquele tipo de massas populares, desprovidas de contratos, sem expectativas outras al\u00e9m de direitos sociais (hospitais, escolas, transporte). Direitos que continuariam negados por defini\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s.<\/p>\n<p>Se aprofundava o papel da extrema-direita, que de coadjuvante antiga passaria a pautar as direitas seja no embate f\u00edsico, seja nos slogans antipetistas (anticomunistas, na verdade) e a tentar direcionar o comportamento dessa conjunto m\u00faltiplo e disperso de APHEs empresariais (setoriais, think tanks, de pol\u00edticas p\u00fablicas, etc.). Arribavam tamb\u00e9m as cong\u00eaneres estrangeiras e seus recursos, bases da ascens\u00e3o da extrema direita internacional, europeias e principalmente estadunidenses. O foco da reorganiza\u00e7\u00e3o empresarial foi a Rede Globo, coparticipante de in\u00fameros APHEs, assim como sua entidade Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho. N\u00e3o houve rea\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Partido dos Trabalhadores, que ainda era o maior partido de \u2018esquerda\u2019, e sua passividade contribuiu para afast\u00e1-lo ainda mais das massas endividadas por suas pol\u00edticas (consignados, FIES, etc.) e horrorizadas pelo espet\u00e1culo da corrup\u00e7\u00e3o, submetidas \u00e0s viol\u00eancias militares, policiais e milicianas\u2026 Come\u00e7ava a naturaliza\u00e7\u00e3o do horror.<\/p>\n<p>A Lava-Jato operaria a divis\u00e3o cir\u00fargica entre os diferentes setores burgueses, segmentando os megaempres\u00e1rios sob risco (investiga\u00e7\u00e3o) dos demais, cujas pr\u00e1ticas corruptas n\u00e3o estavam investigadas e satanizando a Petrobras. O megaempresariado, que at\u00e9 ent\u00e3o nadava de bra\u00e7ada entre a compra eleitoral de partidos inteiros ou de candidatos, se viu enredado e n\u00e3o contaria com o apoio de suas cong\u00eaneres concorrentes. Nem suas entidades associativas nem as empresas de mega concentra\u00e7\u00e3o de capitais desapareceram, como parecem supor os que imaginam que s\u00f3 a Odebrecht era multinacional de origem brasileira. Apenas tornaram-se mais discretas para o grande p\u00fablico. Alguns APHEs continuam a reagrup\u00e1-las, como o IEDI e a Funda\u00e7\u00e3o Dom Cabral. O peso crescente da alian\u00e7a Sergio Moro-Rede Globo e a ascens\u00e3o da pauta da extrema direita calcada no tema da corrup\u00e7\u00e3o redirecionava o conjunto da pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n<p>A meu ver, o golpe de 2016 n\u00e3o resulta de uma programa\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, mas de um embate de for\u00e7as desencontradas. \u00c9 claro, toda a parafern\u00e1lia \u2018legisferante\u2019 e o pr\u00f3prio golpe tiveram o aval dos EUA de Barack Obama, ent\u00e3o em campanha por Hillary Clinton. A vit\u00f3ria de Trump levou Temer a realizar cenas expl\u00edcitas de subalternidade e humilha\u00e7\u00e3o, por ter apoiado Hillary. A ascens\u00e3o da extrema direita nos EUA teria impactos no Brasil, por canais diversos. Vale observar que os contatos desses diferentes setores empresariais, do universo pol\u00edtico, jur\u00eddico, militar e policial com o cerne do imperialismo estadunidense parecem ser muito variados (diferentes setores e \u00f3rg\u00e3os dos Estados Unidos), intensos e de longa dura\u00e7\u00e3o. A crise econ\u00f4mica se tornou expl\u00edcita desde 2014 e acelerou em 2015 \u2013 era pequena ainda, mas suficiente para que as exig\u00eancias de recursos p\u00fablicos para o andar de cima se tornassem mais imperativas. Todos os setores e escalas empresariais queriam as mesmas benesses at\u00e9 ent\u00e3o reservadas aos maiores. Megaempres\u00e1rios amorda\u00e7ados e com os bolsos contidos; parlamentares mergulhados at\u00e9 o pesco\u00e7o em m\u00faltiplas den\u00fancias, da corrup\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia; Lava-Jato a pleno vapor para atingir o PT. Todos estes apoiaram a ascens\u00e3o p\u00fablica da extrema direita e sua intensa dissemina\u00e7\u00e3o. Entre os militares das For\u00e7as Armadas, o cora\u00e7\u00e3o batia do lado da extrema direita e o bolso (inclusive institucional) estava ainda em d\u00favida quanto ao que seria a melhor oferta.<\/p>\n<p>O golpe sobre Dilma resulta da tentativa de estancar a sangria, pavimentando a estrada para a entrada triunfal do PSDB de A\u00e9cio Neves. N\u00e3o foi entretanto o que ocorreu. Foi um golpe e todos sabiam. Isso significa que burguesias, parlamentares, legislativos, for\u00e7as armadas e partidos nos impuseram trilhar uma estrada sem retorno. Como uma bola de neve lan\u00e7ada de uma montanha, sabe-se que dire\u00e7\u00e3o nela imprimiram \u2013 o ataque concertado aos fundos p\u00fablicos e aos trabalhadores. Mas, bolas de neve facilmente se transformam em avalanches, onde a dire\u00e7\u00e3o segue a mesma, mas a devasta\u00e7\u00e3o \u00e9 crescente e n\u00e3o h\u00e1 quem controle.<\/p>\n<p>Praticamente todos os APHEs de convencimento silenciaram. Toda a sua verborragia novil\u00edngua de \u2018mudar tudo\u2019, de contribuir para uma \u2018mudan\u00e7a\u2019 servia agora como a velha l\u00edngua autocr\u00e1tica, onde o que macaqueavam antes tornava-se uma face tem\u00edvel. Restava uma casca institucional. A moeda de ades\u00e3o megaempresarial foi coparticipar da bola de neve: extorquir direitos dos trabalhadores, conter qualquer veleidade de manifesta\u00e7\u00f5es massivas, reprimir a fundo (e isso foi vis\u00edvel nos p\u00f3s-2016, com o aumento brutal da viol\u00eancia nos Estados, onde as lutas n\u00e3o cessavam). Mas foram mais longe, assegurando o avan\u00e7o da expropria\u00e7\u00e3o de bens p\u00fablicos (privatiza\u00e7\u00f5es) e da natureza (sobretudo tentando a legaliza\u00e7\u00e3o da grilagem\u2013 feita de maneira incompleta sob Temer), a garantia da manuten\u00e7\u00e3o do pagamento da d\u00edvida p\u00fablica e do austeric\u00eddio, na expectativa de que assegurariam o jorro de d\u00f3lares do exterior e, enfim, o crescimento econ\u00f4mico e maiores lucros. Tampouco foi o que aconteceu.<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro \u00e9 resultante dessas contradi\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o parece resultar de um projeto longamente maturado. O fascismo de Bolsonaro resultou dessa avalanche. N\u00e3o era o desejado, mas o poss\u00edvel para o andar de cima. Sem d\u00favida, tinha apoiadores antes e, tamb\u00e9m sem d\u00favida, sua base social crescia exatamente no mesmo compasso do capitalismo brasileiro: de um lado a extrema concentra\u00e7\u00e3o de renda e de capitais inaugura uma filantropia empresarial destinada a jugular as pol\u00edticas sociais; de outro, enorme quantidade de bra\u00e7os armados, com ou sem hierarquia, prontos para trucidar os setores populares: militares, mil\u00edcias, policiais militares, civis, seguran\u00e7as armados urbanos e rurais, madeireiros, garimpeiros, etc.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o anti-corrup\u00e7\u00e3o de uma massa de pequenos capitalistas corruptos \u00e9 impressionante. A avalanche seguia seu curso e os que apostavam em controlar Bolsonaro se dariam conta de que n\u00e3o era poss\u00edvel, pois n\u00e3o havia retorno. Isso vale, por exemplo, para a Rede Globo, que pretende ainda control\u00e1-lo, e silenciou sobre suas pr\u00e1ticas e suas interven\u00e7\u00f5es de cunho fascista durante a campanha eleitoral. N\u00e3o havia sequer polariza\u00e7\u00e3o de fato, pois o voto no PT n\u00e3o expressou desde os anos 1990 nenhum contesta\u00e7\u00e3o ao capital, mas a tentativa de amans\u00e1-lo, de humaniz\u00e1-lo. A novil\u00edngua do \u2018mudar tudo isso a\u00ed\u2019 dos APHEs chegava enfim \u00e0 sua face tr\u00e1gica: convertera a fala popular da necessidade de mudar o capitalismo em sustenta\u00e7\u00e3o do fascismo.<\/p>\n<p>Jair Bolsonaro teve apoio eleitoral aberto (e discreto) do empresariado, da m\u00eddia propriet\u00e1ria em sua integralidade, das FFAA, de sua base social armada (milicianos e policiais), dos setores mais conservadores das igrejas (cat\u00f3lica e protestantes), de setores das classes m\u00e9dias e de setores populares.<\/p>\n<p>Tempos atrozes (2): as contradi\u00e7\u00f5es atuais<\/p>\n<p>Como afirmamos na parte 1 deste artigo, o fascista Jair Bolsonaro teve apoio eleitoral aberto (e discreto) do empresariado, da m\u00eddia propriet\u00e1ria em sua integralidade, das For\u00e7as Armadas, de sua base social armada (milicianos e policiais), dos setores mais conservadores das igrejas (cat\u00f3lica e protestantes), de setores das classes m\u00e9dias e de setores populares.<\/p>\n<p>Os empres\u00e1rios apoiavam de fato o fascismo ou a trajet\u00f3ria de m\u00e3o \u00fanica que entraram n\u00e3o permitia altera\u00e7\u00f5es? Imposs\u00edvel ter certeza, e h\u00e1 muitas interpreta\u00e7\u00f5es. Sua base empresarial inicial era composta sobretudo por burguesias grandes e m\u00e9dias, enquanto as megaburguesias, com escassas exce\u00e7\u00f5es estavam ausentes, ao menos publicamente. Seus apoiadores eram principalmente oriundos do com\u00e9rcio varejista, como Localiza, Havan, Coco Bambu, etc. Alguns megacapitalistas o apoiaram publicamente, como Rubens Ometto, da Ra\u00edzen-Cosan, associa\u00e7\u00e3o entre grande empresa brasileira e a multinacional Shell. Rapidamente Bolsonaro teve o apoio da UDR e, com ela, da Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria, mas n\u00e3o teve o endosso expl\u00edcito da Abag. Os bancos foram os \u00faltimos a entrar na prociss\u00e3o empresarial bolsonarista. Uma vez eleito, toda a burguesia brasileira passou a fazer bloco com Bolsonaro, mas n\u00e3o a fazer declara\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas de apoio.<\/p>\n<p>Bolsonaro teve ainda apoio da extrema direita brasileira e estadunidense, especialmente aquela ligada a Donald Trump. Teve apoio de grupos internacionais para a montagem de sua \u2018comunica\u00e7\u00e3o\u2019 e forma\u00e7\u00e3o das bolhas pelo whatsapp, mantendo o sequestro de milhares de informa\u00e7\u00f5es \u00e0 venda por variadas empresas de telefonia e outras. Sua fonte intelectual? Olavo de Carvalho, que rapidamente passou a oferecer cursos gratuitos para os policiais no Brasil, al\u00e9m de lan\u00e7ar filmes, jornal e programas de TV. Est\u00e1 em ativismo fren\u00e9tico. Soma-se a ele o ran\u00e7o militar truculento de 1964, que se conservou e jamais foi desalojado de seus nichos. E o apoio aberto e interessado de Donald Trump, sobretudo com olhos para o petr\u00f3leo e a Venezuela.<\/p>\n<p>E finalmente, e o mais importante, teve apoio popular \u2013 Gramsci lembra que, quando os subalternos perdem sua dire\u00e7\u00e3o, ficam desnorteados e s\u00e3o presas exatamente dos ensandecidos que apregoam ser \u2018contra tudo\u2019\u2026 e falsificam a ira popular (parafraseando Francisco de Oliveira, quando denunciou Collor de Mello).<\/p>\n<p>Todos imagin\u00e1vamos que imediatamente ap\u00f3s a posse (e muitos, at\u00e9 mesmo logo ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o) come\u00e7aria a persegui\u00e7\u00e3o imediata a toda a esquerda. N\u00e3o foi o que ocorreu. O que houve foi a devasta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e fren\u00e9tica \u2013 por mudan\u00e7as constitucionais, leis, medidas provis\u00f3rias e o intenso uso de medidas administrativas para devastar por dentro toda a institucionalidade vigente. A casca perdurava, seu conte\u00fado e teor j\u00e1 s\u00e3o outros. Legislativo e Judici\u00e1rio parecem lutar apenas pela casca, desdenhando completamente de seu conte\u00fado. Ou pior, concordando com o novo baixo teor, em especial a desidrata\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica promovida por Paulo Guedes.<\/p>\n<p>Numa das primeiras medidas, Bolsonaro fechou conselhos \u2013 e aqui, houve pequena rea\u00e7\u00e3o de alguns APHEs. Em mais de 3 mil assinaturas de entidades associativas populares em abaixo assinado contra o fechamento dos conselhos por Bolsonaro, figuravam mais ou menos 60 APHEs, dos quais uns 10 eram significativos (como o Instituto Alana ou o Instituto Ethos, ambos integrantes do GIFE). De resto, not\u00edcias divulgadas pelo GIFE fazem discretas cr\u00edticas ao comportamento de Bolsonaro, sempre silenciando totalmente sobre seu projeto econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A revista Piau\u00ed escancarou a cr\u00edtica. Ela \u00e9 de um dos irm\u00e3os artistas da fam\u00edlia Moreira Salles, o outro sendo o criador da Serrapilheira, APHE criadora de Fundo Patrimonial para a produ\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia b\u00e1sica, que \u00e9 uma as formas de privatizar a decis\u00e3o sobre a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. A Serrapilheira atualmente apoia a divulga\u00e7\u00e3o dos v\u00eddeos de Atila Iamarino. Mas os irm\u00e3os artistas n\u00e3o participam da gest\u00e3o do Unibanco-Ita\u00fa\u2026 e \u00e9 dif\u00edcil deduzir de suas posi\u00e7\u00f5es algo sobre o andar de cima.<\/p>\n<p>Quais as contradi\u00e7\u00f5es mais imediatas?<br \/>\n1) A fraqueza de Bolsonaro \u2013 fraqueza de sua sustenta\u00e7\u00e3o institucional, de aus\u00eancia de partido, incapacidade de entregar o crescimento econ\u00f4mico prometido, etc. \u2013 se converte na principal for\u00e7a de impulso do movimento da avalanche iniciada h\u00e1 4 anos. A convers\u00e3o de fraqueza em for\u00e7a aumenta com a pandemia, que passa a ser responsabilizada pela crise, como se o v\u00edrus n\u00e3o atingisse outros pa\u00edses e \u2018esquecendo\u2019 que o crescimento econ\u00f4mico rasteja h\u00e1 v\u00e1rios anos. A demiss\u00e3o de Mandetta, que ca\u00edra no gosto popular, e a de Sergio Moro, o \u2018paladino lavajatista\u2019 n\u00e3o provocaram o rep\u00fadio imediato a Bolsonaro e levaram a uma divis\u00e3o entre seus apoiadores que, entretanto, continuam a sustentar Bolsonaro. Por outro lado, os bandos armados d\u00edspares da base bolsonarista n\u00e3o tiveram at\u00e9 aqui atividade pol\u00edtica relevante expl\u00edcita (salvo o motim dos policiais em Fortaleza e o recente e caricato grupo dos 300, acampados em Bras\u00edlia sob barracas padronizadas vendidas pela Havan, de propriedade do v\u00e9io da Havan, fervoroso adepto de Bolsonaro). Seguem comprando e traficando armas e t\u00eam direito \u2013 apesar da tentativa de controle do Ex\u00e9rcito, vetada por Bolsonaro \u2013 a uma grande quantidade de muni\u00e7\u00f5es. As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o escassas nesse terreno. Jagun\u00e7os e mil\u00edcias continuam atuando principalmente nos campos e cidades, aumentando a trucul\u00eancia propriet\u00e1ria no pa\u00eds. Sob a pandemia, mostrou-se cruamente a incapacidade de coordena\u00e7\u00e3o nacional do governo Bolsonaro, levando-o \u00e0 exaspera\u00e7\u00e3o da convoca\u00e7\u00e3o de seus aliados e ao desgaste dele decorrente.<\/p>\n<p>2) Sua base social \u2013 famil\u00edcia e bandos armados, incluindo as FFAA \u2013 segue a seu lado. Essa \u00e9 sua for\u00e7a real, sua base efetiva. Diferentemente de 1964, quando a hierarquia militar atacou o pr\u00f3prio Ex\u00e9rcito, amputando sua base legalista, dessa vez um capit\u00e3o poderia subordinar a alta hierarquia, pela ades\u00e3o ou\u2026 pela viol\u00eancia. Ao que tudo indica, as FFAA aderiram e se mant\u00e9m pr\u00f3ximas do ide\u00e1rio bolsonarista \u2013 como visto pelo texto do vice-presidente Mour\u00e3o divulgado dia 15\/5\/20 no Estad\u00e3o, que reafirma seu compromisso com todas \u2013 TODAS \u2013 as linhas principais de enfrentamento que Bolsonaro est\u00e1 realizando. \u00c9 essa base social de proposta, teor e comportamento fascistas \u2013 engordada por comerciantes e alguns empres\u00e1rios bolsonaristas \u2013 que promove carreatas da morte. Barulhentas, desagrad\u00e1veis, n\u00e3o s\u00e3o muito numerosas. N\u00e3o temos pesquisas mais claras da composi\u00e7\u00e3o desses grupos, e muitos se vestem e se apresentam como militares, mas n\u00e3o sabemos a que setores pertencem, pois tendem a ocultar a informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sob a pandemia, essa base social \u00e9 incompetente, preparada que est\u00e1 apenas para atacar e n\u00e3o para assegurar solidariedade. Mil\u00edcias atuaram no Rio de Janeiro nas carreatas da morte e promoveram amea\u00e7as \u00e0s popula\u00e7\u00f5es, para impor a retomada das atividades econ\u00f4micas. Defrontaram-se, em alguns casos, com comandos do tr\u00e1fico, que ao contr\u00e1rio, chegaram a impor toque de recolher em algumas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>3) O empresariado est\u00e1 construindo novas entidades, provis\u00f3rias, a cada dia, como o Conselho Superior Di\u00e1logo pelo Brasil, substituto bolsonariano do CDES do governo Lula, montado \u00e0s pressas em mar\u00e7o de 2020, filhote do ativismo bolsonarista de Paulo Skaf na FIESP que lan\u00e7ou em finais de 2019 o Di\u00e1logo pelo Brasil. Ou ainda o Coaliz\u00e3o Brasil constitu\u00edda por entidades associativas (APHEs) de defesa dos interesses setoriais, aparentemente em disputa com a FIESP, que esteve com Bolsonaro na semana passada e foi com ele ao STF, para lamentar a morte de CNPJs e despreocupar-se com os CPFs\u2026 Na semana seguinte, dia 14 de maio de 2020, outra visita espalhafatosa de empres\u00e1rios a Bolsonaro, dessa vez em nome direto de suas pr\u00f3prias empresas (e n\u00e3o de entidades associativas), acompanhados de Skaf, sempre para exigir mais e mais recursos e aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica para seus interesses particulares.<\/p>\n<p>As declara\u00e7\u00f5es empresariais, entretanto, foram de apoio a Paulo Guedes, \u00e0 sua pol\u00edtica e, sobretudo, \u00e0 retomada do trabalho em curto prazo e ao austeric\u00eddio anterior. H\u00e1 diferen\u00e7as entre eles? Seguramente e h\u00e1 declara\u00e7\u00f5es com posi\u00e7\u00f5es diversas vindas de personalidades ligadas a banqueiros e a setores econ\u00f4micos, como Arm\u00ednio Fraga ou P\u00e9rsio Arida. Tamb\u00e9m a campanha levada adiante pela Rede Globo ou pelos jornais Folha e, com menor \u00edmpeto, Estad\u00e3o, mostra severas diverg\u00eancias com Bolsonaro e\u2026 apoio \u00e0 sua pol\u00edtica econ\u00f4mica. Nas organiza\u00e7\u00f5es empresariais setoriais n\u00e3o est\u00e3o imediatamente vis\u00edveis maiores diferen\u00e7as e, at\u00e9 onde \u00e9 poss\u00edvel enxergar, ainda est\u00e3o com Bolsonaro. H\u00e1 diferen\u00e7as no agroneg\u00f3cio, que h\u00e1 muitos anos n\u00e3o \u00e9 mais apenas agro, mas reuni\u00e3o de ind\u00fastrias diversas (mec\u00e2nica, qu\u00edmica, produ\u00e7\u00e3o alimentar), propriet\u00e1rios de terra e grandes investidores. De um lado, a Abag representa os mega e conta com a Globo e, de outro, a UDR, que expressa o lado mais atrasado e cl\u00e1ssico da trucul\u00eancia rural brasileira, na figura de Nabhan Garcia. Mas, apesar das diferen\u00e7as, seguem juntos na Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria\u2026<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui uma caracter\u00edstica a a ressaltar: nos anos recentes o empresariado apoiou abertamente movimentos de mobiliza\u00e7\u00e3o popular de extrema direita, de um anticomunismo primitivo e feroz, antidemocr\u00e1ticos na forma e no conte\u00fado. Historicamente, sua tend\u00eancia era evitar sequ\u00eancias de manifesta\u00e7\u00f5es. Em 1964, a Igreja Cat\u00f3lica liderou a marcha das mulheres e, ap\u00f3s o golpe, houve a campanha de doa\u00e7\u00e3o \u2018ouro para o Brasil\u2019 e, em seguida, a ditadura empresarial-militar evitou mobiliza\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es, como fizeram os empres\u00e1rios entre 2015 e 2016 e como prossegue fazendo Bolsonaro. Sua hist\u00f3rica trucul\u00eancia, mesmo se envelopada de filantropia, aproxima parcela do empresariado na atualidade de manifesta\u00e7\u00f5es fascistas.<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica aprofundada pela pandemia abre enorme inc\u00f3gnita pela frente, uma vez que o isolamento social impossibilita as manifesta\u00e7\u00f5es populares e deixa a suposi\u00e7\u00e3o de que somente bolsonaristas se exp\u00f5em \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o, por n\u00e3o acreditarem nela. No entanto, amplos setores de trabalhadores est\u00e3o \u00e0 frente do enfrentamento \u00e0 covid-19, a come\u00e7ar por todos os trabalhadores da sa\u00fade e pelos que asseguram produ\u00e7\u00e3o essencial e abastecimento.<\/p>\n<p>4) E as entidades empresariais sem fins lucrativos, de teor mercantil-filantr\u00f3pico? Esses APHEs continuam a fazer o mesmo de antes, agora intensificadamente com a pandemia \u2013 j\u00e1 recolheram, em campanhas de doa\u00e7\u00e3o, mais de 4 bilh\u00f5es de reais, que n\u00e3o se sabe exatamente ao que se destinar\u00e3o. Est\u00e3o atuando, junto com algumas prefeituras, governos de Estado, igrejas e entidades populares, no miolo dos bairro populares, fazendo doa\u00e7\u00f5es de cestas b\u00e1sicas, m\u00e1scaras e \u00e1lcool gel. Prosseguem, portanto, devastando o que ainda resta de possibilidade de uma pol\u00edtica unificada para os setores populares, fragmentando e dispersando os recursos que amealham de grande parte da popula\u00e7\u00e3o, para garantir suas bases espec\u00edficas de atua\u00e7\u00e3o (muitos atuam no entorno de suas empresas ou em regi\u00f5es pr\u00f3ximas da moradia de seus trabalhadores) e tentar impedir que saques e rebeli\u00f5es ocorram. Numa m\u00e3o, a filantropia interessada que se nutre de fundos p\u00fablicos e devasta pol\u00edticas universais; na outra m\u00e3o, a press\u00e3o genocida da volta r\u00e1pida ao trabalho, da rapina sobre direitos, sobre a propriedade p\u00fablica (especialmente a terra) e sobre os fundos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>5) GOLPE? \u00c9 poss\u00edvel um golpe, seja de Bolsonaro, seja das FFAA, com ou sem Bolsonaro? Sim. No entanto, o golpe retiraria exatamente esse elemento de fraqueza convertida em for\u00e7a de Bolsonaro, caso seja desencadeado pelas FFAA contra Bolsonaro. Caso seja desencadeado por Bolsonaro, ao que tudo indica por enquanto, contaria com o apoio das FFAA e introduziria elementos fascistizantes no pr\u00f3prio regime, e n\u00e3o apenas em suas declara\u00e7\u00f5es de inten\u00e7\u00f5es. Todas as previs\u00f5es ser\u00e3o v\u00e3s, embora tr\u00e1gicas, neste caso. Assim, o mais prov\u00e1vel \u00e9 a continuidade da devasta\u00e7\u00e3o da democracia e dos direitos de toda a sociedade atrav\u00e9s da associa\u00e7\u00e3o Bolsonaro+FFAA. Tudo depender\u00e1 das condi\u00e7\u00f5es de sa\u00edda da pandemia e da impossibilidade j\u00e1 evidente de que este governo \u2013 e Paulo Guedes \u2013 de assegurar o crescimento e o mundo m\u00e1gico dos investimentos e do crescimento dos lucros.<\/p>\n<p>6) A base eleitoral de Bolsonaro segue alta \u2013 n\u00e3o foram desmontados os esquemas de convencimento via bolhas e via whatsapp, apesar de intensas campanhas contra fake news, n\u00e3o se desmantelaram as redes e contida a replica\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica. Os debates parlamentares continuam agindo na \u201ccasca\u201d, sem atacar o cerne do problema. Pior ainda, a famil\u00edcia montou eficiente esquema de divulga\u00e7\u00e3o, com lives semanais, encontros na porta do Planalto, reuni\u00f5es e cultos com pastores e padres que mant\u00eam a proximidade de Bolsonaro com boa parte de seus eleitores. A pandemia, ao trazer a exig\u00eancia de recursos para os vulner\u00e1veis, torna Bolsonaro o \u201cpai\u201d dessa nova renda\u2026 N\u00e3o obstante, h\u00e1 mudan\u00e7as importantes no cen\u00e1rio pol\u00edtico, uma vez que grande parcela dos governadores desconsiderou as prega\u00e7\u00f5es genocidas de Bolsonaro e tentou agir para enfrentar a pandemia, apesar da descoordena\u00e7\u00e3o federal. Rupturas importantes, como a do governador-empres\u00e1rio Jo\u00e3o D\u00f3ria (SP), e do candidato a fascista substituto Wilson Witzel (RJ) indicam reposicionamentos empresariais n\u00e3o expl\u00edcitos. O governo Bolsonaro declarou guerra aos dois, seja no plano eleitoral e econ\u00f4mico, caso de SP, seja acrescido do uso de mil\u00edcias efetivas, com digitais judici\u00e1rias, no caso do Rio de Janeiro. Crescem tens\u00f5es no interior das direitas pol\u00edticas, e h\u00e1 de incluir o comportamento de Ronaldo Caiado (GO), explicitando diferen\u00e7as mesmo sem romper abertamente com Bolsonaro. Ainda aqui, os programas econ\u00f4micos se mant\u00eam similares.<\/p>\n<p>7) O apoio popular \u2013 nazismo e fascismo n\u00e3o cresceram por serem os alem\u00e3es e italianos especialmente inclinados ao racismo e ao horror, mas porque encontraram solo devastado, em que per\u00edodos de intensa crise econ\u00f4mica e social ocorreram em paralelo \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o violenta da esquerda ou de seu transformismo, quando grupos inteiros mudaram de posi\u00e7\u00e3o na guerra de classes, como mostrou Gramsci. O nazifascismo excita a que os subalternos, em vez de enfrentarem as condi\u00e7\u00f5es que criam a desigualdade, atuem como aqueles que os violentam no cotidiano. Tortura e assassinatos de jovens, negros e mulheres populares jamais foram efetivamente enfrentadas. Ainda que persista apoio popular n\u00e3o desprez\u00edvel a Bolsonaro, ele n\u00e3o se elevou ao longo do seu governo e a resist\u00eancia a ele cresceu em todos os setores sociais. A proposta genocida de Bolsonaro atinge duramente os setores populares, que t\u00eam seus familiares e pr\u00f3ximos atingidos (e mortos) pela covid, al\u00e9m de ficarem inteiramente desprovidos de servi\u00e7os de sa\u00fade nas capitais com superlota\u00e7\u00e3o de hospitais e enormes filas. Vivem na pele o crescimento das crises sanit\u00e1ria, funer\u00e1ria e dos cemit\u00e9rios. E n\u00e3o contam com um pol\u00edtica \u00e1gil e consistente de apoio econ\u00f4mico. O p\u00f3s-pandemia provavelmente trar\u00e1 intensas lutas sociais.<\/p>\n<p>8) Tampouco os partidos de esquerda conseguem se tornar verdadeiros partidos, com atua\u00e7\u00e3o social intensa como os tempos exigem, e atua\u00e7\u00e3o parlamentar consistente. Os bons parlamentares com que contam os partidos t\u00eam de enfrentar praticamente sozinhos o bolsonarismo, sem trabalho coletivo, resultando em excesso de atividades parlamentares que os devora. Mesmo assim, movimentos sociais e partidos de esquerda desenvolvem intensas atividades de solidariedade, premidos pelas urg\u00eancias. J\u00e1 a direita e extrema-direita, ambas tamb\u00e9m integrando o centr\u00e3o, continuam agindo no balc\u00e3o de neg\u00f3cios (que est\u00e1 longe de se limitar ao imediato toma-l\u00e1-d\u00e1-c\u00e1 imediato, e envolve tamb\u00e9m empresariados de diversos portes, em escala nacional, estadual e municipal). Enfrentam Bolsonaro, por vezes, mas para assegurar a mesma pol\u00edtica econ\u00f4mica. As tens\u00f5es estaduais ainda n\u00e3o se encaminharam para recomposi\u00e7\u00f5es parlamentares ou partid\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u00c0 guisa de conclus\u00e3o inconclusa, pois falta uma avalia\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es internacionais \u2013 as contradi\u00e7\u00f5es crescem, e perdura o espectro de fascismo. As divis\u00f5es entre grupos de extrema direita e direita seguem aprofundando a devasta\u00e7\u00e3o da avalanche que provocaram. Somente Bolsonaro, a meu ju\u00edzo, tem condi\u00e7\u00f5es de escalar para o fascismo, enquanto as For\u00e7as Armadas tendem a uma autocracia ditatorial brutal, abafando os movimentos mesmo que de apoio. Embora o enfrentamento do fascismo seja o mais urgente, n\u00e3o pode haver contempla\u00e7\u00e3o com as possibilidades ditatoriais declaradas por militares.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25613\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[222],"class_list":["post-25613","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6F7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25613","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25613"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25613\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25613"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25613"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25613"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}