{"id":25625,"date":"2020-06-03T00:15:18","date_gmt":"2020-06-03T03:15:18","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25625"},"modified":"2020-06-03T00:15:58","modified_gmt":"2020-06-03T03:15:58","slug":"deixar-matar-deixar-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25625","title":{"rendered":"&#8220;Deixar matar, deixar morrer&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"245\" width=\"326\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.republicadecuritiba.net\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/bolsonaromanifesta%25C3%25A7%25C3%25A3o-326x245.jpg?resize=326%2C245&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->A l\u00f3gica liberal do exterm\u00ednio sob o fascismo brasileiro<\/p>\n<p>Por Lucas Andreto<\/p>\n<p>Clausewitz demonstrou que uma guerra se resume em boa parte em impedir e anular o objetivo estrat\u00e9gico do inimigo enquanto faz o pr\u00f3prio objetivo estrat\u00e9gico triunfar. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a nossa atual direita fascist\u00f3ide come\u00e7ou e teve como um dos pilares de sua propaganda de terrorismo virtual o ataque ao socialismo como ideia e como realiza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Usou ad nauseam o Livro Negro do Comunismo para gritar aos cinco ventos as falsas \u201c100 milh\u00f5es de mortes causadas pelo terror vermelho\u201d, n\u00e3o tendo pudor nenhum de colocar na conta da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica os assassinatos cometidos pelos invasores nazistas na Segunda Guerra Mundial. Em boa parte, devemos \u00e0 m\u00e1quina de agita\u00e7\u00e3o e propaganda do neofascismo o m\u00e9rito de ter reduzido o debate pol\u00edtico ao limite de um mesquinho concurso de carnificina.<\/p>\n<p>O camarada Jones Manoel j\u00e1 bem indicou como as mesmas pessoas que se horrorizam com o terror vermelho sequer enxergam o sofrimento daqueles que penam na mis\u00e9ria no presente de seu pr\u00f3prio pa\u00eds, quantos morreram de fome ou por outras raz\u00f5es decorrentes de nossa organiza\u00e7\u00e3o social. Fez muito bem em denunciar a \u201ceconomia pol\u00edtica do exterm\u00ednio\u201d presente na sociedade capitalista. E de fato temos que denunciar que a pol\u00edtica de exterm\u00ednio \u00e9 inerente \u00e0 economia pol\u00edtica burguesa. Algumas passagens da Situa\u00e7\u00e3o da Classe Trabalhadora na Inglaterra de Friedrich Engels retornam a ser esclarecedoras a esse respeito. Ap\u00f3s citar uma passagem de Adam Smith em que o c\u00e2none do liberalismo explica que a demanda da mercadoria \u201ctrabalhadores\u201d, \u201cassim como qualquer outra mercadoria\u201d, regula a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a exist\u00eancia de sujeitos que trabalham, Engels acrescenta:<\/p>\n<p>Assim como a demanda de qualquer outra mercadoria! Se h\u00e1 poucos trabalhadores, o pre\u00e7o (isto \u00e9, o sal\u00e1rio) sobe, os oper\u00e1rios vivem melhor, os casamentos se multiplicam, aumentam os nascimentos, cresce o contingente de crian\u00e7as, at\u00e9 que se produza o n\u00famero suficiente de oper\u00e1rios; se h\u00e1 muitos trabalhadores, o pre\u00e7o cai, vem o desemprego, a mis\u00e9ria, a fome e, em consequ\u00eancia, as epidemias, que varrem a \u201cpopula\u00e7\u00e3o sup\u00e9rflua\u201d.<\/p>\n<p>Ler a passagem de Engels durante um per\u00edodo de funcionamento comum da sociedade brasileira nos faz perceber que a m\u00e3o invis\u00edvel do mercado usa como uma de suas ferramentas de regula\u00e7\u00e3o um punhal de assassino. Ler esta passagem enquanto o Brasil enfrenta uma pandemia que mata principalmente os idosos para quem nossos governantes liberais afirmam h\u00e1 um bom tempo n\u00e3o ter mais dinheiro para pagar aposentadoria, que, portanto, eles seriam um custo muito alto para o Estado etc. escancara escandalosamente a l\u00f3gica genocida do livre mercado diante de nossos olhos!<\/p>\n<p>Em outra passagem muitas p\u00e1ginas depois, Engels descreve o Estado Pol\u00edtico que corresponde \u00e0 sociedade civil liberal, autorregulada pelo mercado:<\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo em que permaneci na Inglaterra, a causa direta da morte de vinte ou trinta pessoas foi a fome, em circunst\u00e2ncias as mais revoltantes; mas, quando dos inqu\u00e9ritos, raramente se encontrou um j\u00fari que tivesse a coragem de atest\u00e1-lo em p\u00fablico. Os depoimentos das testemunhas podiam ser os mais claros e inequ\u00edvocos, mas a burguesia \u2013 \u00e0 que pertenciam os membros do j\u00fari \u2013 encontrava sempre um pretexto para escapar ao terr\u00edvel veredicto: morte por fome. Nesses casos, a burguesia n\u00e3o deve dizer a verdade: pronunci\u00e1-la equivaleria a condenar a si mesma. Muito mais numerosas foram as mortes causadas indiretamente pela fome, porque a sistem\u00e1tica falta de alimenta\u00e7\u00e3o provoca doen\u00e7as mortais: as v\u00edtimas viam-se t\u00e3o enfraquecidas que enfermidades que, em outras circunst\u00e2ncias, poderiam evoluir favoravelmente, nesses casos determinaram a gravidade que levou \u00e0 morte. A isso chamam os oper\u00e1rios ingleses de assassinato social e acusam nossa sociedade de pratic\u00e1-lo continuamente. Estar\u00e3o errados?<\/p>\n<p>Em outras palavras, o direito burgu\u00eas n\u00e3o reconhece a viol\u00eancia social: a mis\u00e9ria, a morte por fome e pelas&#8230; epidemias! Para o Estado burgu\u00eas as v\u00edtimas de tal barb\u00e1rie ca\u00edram em azar, suas mortes se devem ao acaso. Se o coronav\u00edrus atingir as favelas brasileiras e dizimar uma parte significativa de sua popula\u00e7\u00e3o, que culpa t\u00eam os especuladores imobili\u00e1rios, os moradores de palacetes, as empresas de sa\u00fade privada e farmac\u00eauticas ou ent\u00e3o os revoltosos patr\u00f5ezinhos do varejo? Nenhuma. E o Estado, o que deveria fazer perante isso? Absolutamente nada, \u00e9 claro. Deixai matar, deixai morrer. A m\u00e3o invis\u00edvel cuidar\u00e1 de ceifar a quantidade de almas necess\u00e1rias para regular o mercado, aliviar o d\u00e9ficit p\u00fablico, salvar o or\u00e7amento do Estado. Eliminar a \u201cpopula\u00e7\u00e3o sup\u00e9rflua\u201d atrav\u00e9s do assassinato social.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica levada a cabo por Bolsonaro, nesse sentido, \u00e9 liberalismo puro e erram aqueles que pensam que Paulo Guedes \u00e9 um \u201cdemocrata\u201d, pois \u201cliberal\u201d, em meio a fascistas. Nos nossos tempos, o liberalismo defendido por Paulo Guedes se objetiva como a forma econ\u00f4mica adequadamente correspondente ao fascismo, uma vez que \u00e9 a melhor maneira de instaurar um experimento de darwinismo social que cumpre o papel de Auschwitz sem chamar aten\u00e7\u00e3o, visto que o \u201ccampo de exterm\u00ednio\u201d atual n\u00e3o tem paredes e grades com arame farpado. Bolsonaro e Paulo Guedes est\u00e3o sendo fieis \u00e0 sua religi\u00e3o, pagando tributos ao Deus Mercado, chamando os sumo sacerdotes da FIESP, FIRJAN e cong\u00eaneres para serem consultados, garantindo assim que a pol\u00edtica n\u00e3o cometa nenhum desvio, por m\u00ednimo que seja, dos sagrados interesses da burguesia. O fascismo brasileiro n\u00e3o \u00e9 atributo de mentes tresloucadas, como muitos afirmam, mas sim express\u00e3o pol\u00edtica dos interesses econ\u00f4micos de uma classe dominante que, para continuar existindo como classe, precisa instaurar a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Quem ir\u00e1 fazer a conta do assassinato social no Brasil, juntando os n\u00fameros de mortos na epidemia ao n\u00famero de mortos pela viol\u00eancia de Estado nos bairros prolet\u00e1rios e aos mortos de fome? Bolsonaro, na \u00e2nsia de ser um messias, conseguiu ao menos trazer consigo os cavaleiros do apocalipse: a fome, a peste, a morte, falta apenas&#8230; a guerra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25625\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[226],"class_list":["post-25625","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Fj","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25625","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25625"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25625\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25625"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25625"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25625"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}