{"id":25657,"date":"2020-06-07T19:26:40","date_gmt":"2020-06-07T22:26:40","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25657"},"modified":"2020-06-07T19:26:40","modified_gmt":"2020-06-07T22:26:40","slug":"a-brutalidade-do-racismo-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25657","title":{"rendered":"A brutalidade do racismo no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3eLxENj_2DIsTAHU_n8xJftU9hv6jsJjMCRt3l-ElQ3ux-BjkZ6LalqC38NT2cEVzLqzxsZsZoibdwvMDiDI56U4em814F7lq-EubwtotUrOSDqH9-zeRPVEfvD220dNxLDt8biB3zaqboNC_FCI-BL=s638-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro | Bahia<\/p>\n<p>Coletivo Negro Minervino de Oliveira | Bahia<\/p>\n<p>\u201cMais uma crian\u00e7a preta morre v\u00edtima do racismo\u201d. N\u00e3o pode e nem vai ser assim esse texto. Precisamos come\u00e7ar a estampar nomes e fotos dessas pessoas que t\u00eam sua vida ceifada por esse projeto de sociedade que explora e descarta vidas como se fossem mercadorias.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas temos acompanhado o grito de indigna\u00e7\u00e3o crescente ao assassinato de pessoas pretas ao redor do mundo. O estopim com o assassinato de George Floyd acende em meio a uma crise econ\u00f4mica e epid\u00eamica, em que a popula\u00e7\u00e3o mais pobre e negra segue pagando com suas vidas em detrimento dos bancos. Enquanto, no Brasil, a ind\u00fastria e o presidente querem o retorno das atividades, \u201cpara a vida seguir como antes\u201d, independentemente das mortes e das vidas da juventude negra sendo ceifadas em nosso pa\u00eds nas \u00faltimas semanas.<\/p>\n<p>Perdemos Jo\u00e3o Pedro, v\u00edtima de opera\u00e7\u00f5es policiais enquanto brincava com os primos; perdemos Iago, tamb\u00e9m na mesma opera\u00e7\u00e3o; perdemos Jo\u00e3o Pedro enquanto entregava cestas b\u00e1sicas para fam\u00edlias da comunidade em que morava. Eles se somam a crian\u00e7as e jovens negras e negros que n\u00e3o ter\u00e3o seus sonhos concretizados e carregam as marcas do racismo, que amea\u00e7a as fam\u00edlias que temem pela vida de seus filhos enquanto precisam garantir sua sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Essa semana foi Miguel quem morreu. Miguel que tinha apenas cinco anos de idade e naquele dia precisou, como muitas crian\u00e7as pretas, ir trabalhar com sua m\u00e3e em plena pandemia. Esse dado por si s\u00f3 j\u00e1 aponta a brutalidade a qual a mulher negra \u00e9 submetida na nossa sociedade, sendo ela respons\u00e1vel tanto pelo sustento quanto pelo cuidado, demonstrando o quanto ra\u00e7a, classe e g\u00eanero est\u00e3o entrela\u00e7ados no racismo \u00e0 brasileira e consequentemente na estrutura\u00e7\u00e3o do capitalismo por aqui.<\/p>\n<p>A vida de Miguel teve fim enquanto sua m\u00e3e garantia o lazer de um animal dom\u00e9stico, para poder colocar comida \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>A vida de Miguel teve fim enquanto enfrentamos uma pandemia sanit\u00e1ria sem precedentes e sua m\u00e3e continuou trabalhando fora de casa para tentar garantir a sobreviv\u00eancia da fam\u00edlia. Assim como dezenas de mulheres, que n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de ficar em quarentena, tendo o racismo como fator fundamental dessa impossibilidade, tanto na perspectiva da heran\u00e7a escravagista que mant\u00e9m as trabalhadoras dom\u00e9sticas trabalhando durante a pandemia, quanto na estrutura genocida do Estado que n\u00e3o garante um aux\u00edlio digno para parte dessas trabalhadoras e nega o parco aux\u00edlio para outra parcela significativa.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos o que d\u00f3i mais: ver que a vida de Miguel custou um passeio de um cachorro ou imaginar a dor dessa m\u00e3e que se sacrificou ao longo desses cinco anos para garantir a sobreviv\u00eancia dessa crian\u00e7a e teve de ver sua patroa, Sar\u00ed C\u00f4rte Real (primeira dama \u2013 e o melhor termo \u00e9 esse mesmo para n\u00e3o esquecermos que as marcas escravocratas ainda vivem em nosso cotidiano &#8211; de Tamandar\u00e9\/PE), colocar uma crian\u00e7a dentro do elevador para que a crian\u00e7a ca\u00edsse de 35 metros de altura. E n\u00e3o tem como medir palavras para essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa que essa m\u00e3e preta conseguiu expressar foi sua frustra\u00e7\u00e3o em ter se dedicado a cuidar dos filhos de Sar\u00ed, de sua m\u00e3e ter cuidado de outras crian\u00e7as da fam\u00edlia C\u00f4rte Real e, quando seu filho precisou de alguns minutos de cuidado, Sar\u00ed o empurrou para a morte.<\/p>\n<p>Em mat\u00e9ria divulgada pela Folha de S\u00e3o Paulo no dia 04\/06, no mesmo dia em que a morte de Miguel foi amplamente divulgada nos notici\u00e1rios, o IBGE apontou que 39,6% das mulheres pretas est\u00e3o em atividade remuneradas de cuidado de outras pessoas. Al\u00e9m disso, 94,1% das mulheres pretas tamb\u00e9m precisam realizar os afazeres dom\u00e9sticos, e a renda m\u00e9dia de um trabalhador branco, que faz menos trabalho dom\u00e9stico, \u00e9 73,9% maior que o sal\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<p>S\u00e3o dados que nos fazem entender por que Miguel estava com a m\u00e3e no trabalho e por que a m\u00e3e estava trabalhando na pandemia. A popula\u00e7\u00e3o negra precisa trabalhar muito mais, dentro e fora de casa, para receber muito menos.<\/p>\n<p>A patroa, Sar\u00ed C\u00f4rte Real, que teve seu nome preservado pela Justi\u00e7a, est\u00e1 respondendo em liberdade por homic\u00eddio culposo. O Estado justificou esse assassinato e vendeu essa liberdade por 20 mil reais, al\u00e9m de resguardar seus dados, mesmo se sabendo quem \u00e9 ela e que seu marido \u00e9 prefeito. Enquanto isso, h\u00e1 alguns anos aquela m\u00e3e que expropriou uma lata de leite para alimentar seu filho teve a liberdade negada pelo STF e fotos estampadas pelos jornais. O mesmo Estado Brasileiro que continua condenando, com seus crit\u00e9rios raciais e de classe, pessoas negras que precisam sobreviver nesse pa\u00eds que n\u00e3o se importa com a vida.<\/p>\n<p>Enquanto o coordenador da Funda\u00e7\u00e3o Zumbi dos Palmares considera que o racismo que h\u00e1 no Brasil \u00e9 \u201cnutela\u201d e chama o movimento negro de \u201cesc\u00f3ria maldita\u201d, vidas negras continuam sendo ceifadas de todas as formas nesse pa\u00eds, enquanto h\u00e1 toda a prote\u00e7\u00e3o do Estado para aqueles que cometem esses crimes. Quer dizer, at\u00e9 inventaram um nome para n\u00e3o chamar de crime, quando vem das m\u00e3os do pr\u00f3prio Estado: auto de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>O racismo estrutural \u00e9 imposto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra desde seu nascimento at\u00e9 os \u00faltimos momentos de suas vidas, infligindo um permanente processo de viol\u00eancia que se materializa das mais variadas formas. Miguel, em seus cinco anos de vida, com certeza precisou ser privado da afetividade da m\u00e3e para que a mesma pudesse lhe garantir uma casa, alimenta\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. Mulheres pretas seguem trabalhando nessa pandemia, nos feriados e nas madrugadas, cuidando dos filhos das brancas, que \u00e0s vezes at\u00e9 lutam pelo empoderamento da mulher e esquecem da cuidadora de seus filhos, que foi transformada at\u00e9 em propriedade da fam\u00edlia, assim como seus filhos. Como foi o caso de Mirtis, m\u00e3e de Miguel, que \u00e9 neto de outra mulher que trabalhou para a fam\u00edlia C\u00f4rte Real.<\/p>\n<p>Em outros casos, tentando negar a realidade latente, fingem acreditar que as mulheres negras idosas n\u00e3o se aposentam por escolha ou pelo sentimento de estar naquele lar e esquecem que a centralidade \u00e9 o sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>Enquanto isso, os filhos das mulheres negras crescem muitas vezes sozinhos, privados da afetividade materna que foi roubada em troca de sobreviv\u00eancia nessa sociedade. O racismo est\u00e1 t\u00e3o impregnado que s\u00e3o capazes de transformar trabalhos resultantes da heran\u00e7a de um mundo escravocrata em afetividade. Aquilo que finge ser amor &#8211; ela parece at\u00e9 da fam\u00edlia &#8211; \u00e9 mais uma brutal viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Ser negro no Brasil significa n\u00e3o ter um minuto de paz, se manter vigilante a todo momento. Ao longo de mais de quinhentos anos de hist\u00f3ria do nosso pa\u00eds, a vida das pessoas negras que constru\u00edram essa terra foi marcada com viol\u00eancia e resist\u00eancia, em todos os momentos. Historicamente negros e negras trabalham para garantir minimamente sua sobreviv\u00eancia e a dos seus e t\u00eam suas culturas criminalizadas, corpos animalizados, nega\u00e7\u00e3o de direitos. Crian\u00e7as negras n\u00e3o t\u00eam o direito de sonhar nesse pa\u00eds.<\/p>\n<p>Faz-se cada vez mais necess\u00e1rio que o \u00f3dio e a indigna\u00e7\u00e3o que crescem nesse momento sejam postos na forma de resist\u00eancia. Como a popula\u00e7\u00e3o negra neste pa\u00eds vem fazendo h\u00e1 quase quinhentos anos, assim como os movimentos populares da cidade e do campo. Os filhos da nossa classe precisam sonhar e crescer em um mundo que n\u00e3o mais seja uma amea\u00e7a para eles. Os nossos jovens precisam de um mundo em que eles possam desejar um futuro, saber que \u00e9 poss\u00edvel construir algo novo, para todos n\u00f3s. Para isso, derrubar o que est\u00e1 posto e ter os nossos vivos devem ser bandeiras centrais de luta, para todos os dias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25657\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[22,124],"tags":[226],"class_list":["post-25657","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c3-coletivo-ana-montenegro","category-c137-coletivo-minervino-de-oliveira","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6FP","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25657","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25657"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25657\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25657"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25657"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25657"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}