{"id":25668,"date":"2020-06-09T00:29:59","date_gmt":"2020-06-09T03:29:59","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25668"},"modified":"2020-06-09T00:29:59","modified_gmt":"2020-06-09T03:29:59","slug":"ainda-sobre-manifestacoes-populares-na-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25668","title":{"rendered":"Ainda sobre manifesta\u00e7\u00f5es populares na pandemia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3fBvu7jkSrrenyl-3XqhXFrPh_cibAokO_Z9oZMBlPqtJ7JseWSh9scGQJN_E1EHQTW_5EatNgHOgOVRChaMHH0A96OfJG8chCspf3JSW7woWaOrbvCyaPyPlpHQhG_r9M5xpvkciKmxoEPPMLy4Cmp=w828-h449-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Caio Andrade*<\/p>\n<p>Interven\u00e7\u00e3o na plen\u00e1ria de movimentos sociais de Duque de Caxias \u2013 RJ (08\/6\/2020)<\/p>\n<p>Companheir@s,<\/p>\n<p>A conjuntura \u00e9 extremamente complexa, combinando crise sanit\u00e1ria, econ\u00f4mica e pol\u00edtica. Portanto, o debate sobre as t\u00e1ticas do nosso movimento frente aos desafios colocados n\u00e3o \u00e9 simples. Inicialmente, temos que reconhecer que a pol\u00eamica sobre ir \u00e0s ruas em meio a uma pandemia ou n\u00e3o \u00e9 absolutamente leg\u00edtima. Podemos tranquilamente travar essa discuss\u00e3o e, independentemente de cada posi\u00e7\u00e3o, analisar os pontos em comum para a unidade de a\u00e7\u00e3o contra o projeto dominante.<\/p>\n<p>Dito isso, penso que \u00e9 importante refletirmos sobre a hegemonia hist\u00f3rica da ideologia liberal na sociedade brasileira, inclusive no imagin\u00e1rio da assim chamada esquerda. Trata-se de um fen\u00f4meno danoso para a luta dos trabalhadores. Basta lembrarmos os acontecimentos dos \u00faltimos cinco anos. A direita tomou as ruas, promoveu um golpe e, enquanto isso, grande parte da esquerda acreditou at\u00e9 o fim que as institui\u00e7\u00f5es respeitariam o pacto social e o mandato presidencial de Dilma Rousseff. O desfecho da hist\u00f3ria todos n\u00f3s conhecemos.<\/p>\n<p>O mesmo Parlamento e o mesmo STF que chancelaram um impeachment por \u201cpedalada fiscal\u201d, mant\u00eam no poder um capit\u00e3o escancaradamente criminoso, genocida, miliciano, fascista. O que devemos aprender com isso? Que n\u00e3o s\u00e3o as leis nem as institui\u00e7\u00f5es que definem os rumos pol\u00edticos do pa\u00eds, mas sim a luta de classes.<\/p>\n<p>Diante de uma grave pandemia, por\u00e9m, vimos novamente a ideologia liberal entrando em a\u00e7\u00e3o e desarmando politicamente a classe trabalhadora. Muitos companheiros e companheiras abra\u00e7aram a ideia de que o combate ao coronav\u00edrus dependia essencialmente das \u201cescolhas\u201d de cada indiv\u00edduo e, deixando o papel do Estado em segundo plano, substitu\u00edram palavras de ordem e bandeiras pol\u00edticas por frases como \u201clave as m\u00e3os\u201d ou \u201cfique em casa\u201d. Nada mais equivocado.<\/p>\n<p>Um olhar minimamente atento para o mundo comprova isso. N\u00e3o foram as na\u00e7\u00f5es em que cada um simplesmente fez a sua parte que conseguiram controlar o coronav\u00edrus. Foram os pa\u00edses nos quais o Estado fez a sua parte que tiveram sucesso no combate ao COVID-19. Ou seja, antes de ser uma responsabilidade individual dos cidad\u00e3os, o enfrentamento efetivo \u00e0 pandemia \u00e9 uma decis\u00e3o pol\u00edtica, fruto da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as das classes sociais em luta.<\/p>\n<p>Nesse sentido, \u00e9 importante fazer uma r\u00e1pida compara\u00e7\u00e3o. As na\u00e7\u00f5es do Norte que, segundo as mentes colonizadas, seriam mais racionais e evolu\u00eddas, t\u00eam sido verdadeiros exemplos negativos na pandemia. Enquanto isso, entre os pa\u00edses que reivindicam o socialismo e o poder de Estado \u00e9 exercido de outra forma, como Vietn\u00e3, Cuba e China, temos os melhores exemplos de como conter a dissemina\u00e7\u00e3o do novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>E o Brasil? Temos um governo que, al\u00e9m de n\u00e3o trabalhar para proteger a popula\u00e7\u00e3o da praga biol\u00f3gica global, est\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas meses em campanha aberta contra as recomenda\u00e7\u00f5es da OMS. A sabotagem da renda emergencial, al\u00e9m de atrasar os pagamentos, transformou as filas nas ag\u00eancias da Caixa Econ\u00f4mica Federal em armadilhas sanit\u00e1rias. Mesmo governadores e prefeitos que at\u00e9 agora buscavam se diferenciar de Bolsonaro come\u00e7am a reabrir o com\u00e9rcio. Os patr\u00f5es, que exigem o deslocamento dos trabalhadores de segunda a s\u00e1bado, s\u00f3 criticam as aglomera\u00e7\u00f5es quando se trata dos protestos populares aos domingos.<\/p>\n<p>Grande parte do autoproclamado campo progressista, infelizmente, embarcou nesse discurso. Mas por qu\u00ea? Porque insiste-se na l\u00f3gica da responsabilidade individual, abstraindo o fato de que o Estado brasileiro nunca criou as condi\u00e7\u00f5es para que a maior parte do povo tivesse direito ao isolamento. Muitas favelas sequer t\u00eam \u00e1gua! Como se n\u00e3o bastasse, este mesmo Estado burgu\u00eas recrudesceu sua viol\u00eancia contra o povo favelado, fuzilando volunt\u00e1rios que entregavam cestas b\u00e1sicas e fam\u00edlias dentro de suas casas.<\/p>\n<p>Bolsonaro apostava que o caos poderia ser o cen\u00e1rio perfeito para avan\u00e7ar em seu projeto fascista. Mas n\u00e3o contava que os assassinatos de Jo\u00e3o Pedro, George Floyd e tantas outras v\u00edtimas do racismo estrutural pudessem despertar as massas para as consequ\u00eancias do projeto da extrema direita e para a necessidade urgente de derrot\u00e1-lo no \u00fanico terreno poss\u00edvel: as ruas.<\/p>\n<p>N\u00f3s sempre fomos a favor do isolamento sanit\u00e1rio e das recomenda\u00e7\u00f5es da OMS. Reivindicamos do Estado a ado\u00e7\u00e3o das medidas aconselhadas pelos profissionais da sa\u00fade, mas a resposta passou muito longe das nossas exig\u00eancias. A quest\u00e3o concreta \u00e9 que o poder de Estado n\u00e3o est\u00e1 conosco. A classe que det\u00e9m este poder decidiu que dever\u00edamos morrer de fome ou pelos tiros disparados contra nossas casas. E n\u00f3s fomos \u00e0s ruas porque, mais uma vez, decidimos n\u00e3o morrer sem lutar.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sobreviver ficando em casa, a luta pela vida volta a ser travada nas ruas, com restri\u00e7\u00f5es aos grupos de risco e todos os cuidados sanit\u00e1rios poss\u00edveis. Os governos a servi\u00e7o do capital n\u00e3o nos deixaram outra op\u00e7\u00e3o. A diverg\u00eancia sobre a legitimidade dos atos populares n\u00e3o \u00e9 meramente t\u00e1tica. Trata-se de uma diverg\u00eancia estrat\u00e9gica entre os que buscam ressuscitar, com diferentes nuances, o liberalismo de esquerda derrotado em 2016 e os que entendem a necessidade de se construir o poder popular e a alternativa socialista.<\/p>\n<p>Ter plena consci\u00eancia dessa diferen\u00e7a e exp\u00f4-la de forma sincera n\u00e3o implica em subestimar a necessidade de ampla unidade de a\u00e7\u00e3o em defesa das liberdades democr\u00e1ticas, contra Bolsonaro, Mour\u00e3o e Guedes. Aqueles que, se dizendo progressistas, se posicionaram contra as manifesta\u00e7\u00f5es populares no domingo (07\/06), amanh\u00e3 poder\u00e3o estar conosco em outras batalhas.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 problema, desde que tenhamos convic\u00e7\u00e3o dos nossos objetivos; desde que nossas decis\u00f5es t\u00e1ticas estejam a servi\u00e7o da nossa estrat\u00e9gia e n\u00e3o de estrat\u00e9gias estranhas aos interesses da classe trabalhadora. Se soubermos precisamente onde queremos chegar, saberemos tamb\u00e9m quem ser\u00e3o nossos aliados t\u00e1ticos em cada momento da conjuntura e comprovaremos, na pr\u00e1tica, quem s\u00e3o nossos aliados estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>* Professor da rede estadual de educa\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro e membro do Comit\u00ea Central do PCB.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25668\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[197],"tags":[221],"class_list":["post-25668","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-saude","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6G0","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25668","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25668"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25668\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25668"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25668"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25668"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}