{"id":25672,"date":"2020-06-09T23:21:55","date_gmt":"2020-06-10T02:21:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25672"},"modified":"2020-06-09T23:21:55","modified_gmt":"2020-06-10T02:21:55","slug":"as-revolucoes-coloridas-e-a-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25672","title":{"rendered":"As Revolu\u00e7\u00f5es Coloridas e a China"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/2014\/06\/02\/6jun1989---soldados-do-exercito-chines-posicionam-se-na-avenida-changna-para-evitar-aglomeracoes-de-manifestantes-na-praca-tiananmen-1401757141875_300x200.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Da Pra\u00e7a da Paz Celestial a Hong Kong<\/p>\n<p>por Domenico Losurdo (tradu\u00e7\u00e3o de Maria Lua)<\/p>\n<p>&#8220;Atualmente, a imprensa ocidental, mesmo a de \u2018esquerda\u2019, expressa seu apoio entusiasta aos manifestantes de Hong Kong e evoca novamente a Pra\u00e7a da Paz Celestial. Na verdade, \u00e9 melhor utilizar essa trag\u00e9dia como ponto de partida para analisarmos as manobras realizadas pelo imperialismo contra a Rep\u00fablica Popular da China. Reproduzimos aqui, com a gentil permiss\u00e3o do autor, algumas p\u00e1ginas de um livro de Domenico Losurdo rec\u00e9m publicado por Carocci&#8221;. Com essa premissa de uma atualidade vergonhosa, Marx 21 em 2014 republicou um extrato fundamental do intelectual marxista que estamos sugerindo novamente hoje, no dia do anivers\u00e1rio dos eventos da Pra\u00e7a da Paz Celestial em 4 de junho de 1989. \u00c9 a melhor resposta poss\u00edvel \u00e0s centenas de fake news sinof\u00f3bicas que voc\u00ea l\u00ea hoje em dia &#8211; quando o cora\u00e7\u00e3o do imperialismo est\u00e1 em chamas.<\/p>\n<p>1. Um terrorismo da indigna\u00e7\u00e3o conjugado no passado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de no presente, o terrorismo da indigna\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser conjugado no passado. \u00c9 poss\u00edvel, por assim dizer, enforcar um concorrente, um inimigo em potencial, um inimigo a ser desacreditado ou, mais precisamente, apontar ao p\u00fablico, \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica da m\u00eddia internacional, algu\u00e9m ser enforcado por uma imagem, verdadeira ou falsa e, mais precisamente, cuidadosa e instrumentalmente selecionada. Ao recordar, anualmente, a trag\u00e9dia da Pra\u00e7a da Paz Celestial, no in\u00edcio de junho, a m\u00eddia ocidental reproduziu, sem falta, a imagem do jovem chin\u00eas que, desarmado, corajosamente enfrenta um tanque do ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>A mensagem que quer ser transmitida \u00e9 clara: o Ocidente nunca se cansa de prestar homenagem a quem foi capaz de desafiar a arrog\u00e2ncia e o despotismo, um combatente da liberdade que somente pode ser encontrada em sua terra natal, no Ocidente. Mas \u00e9 tudo realmente assim t\u00e3o \u00f3bvio? N\u00e3o h\u00e1 realmente espa\u00e7o para d\u00favidas e nuances? Querer refletir um pouco, antes de introjetar e abra\u00e7ar a mensagem manique\u00edsta proposta ou que se tenta impor, \u00e9 apenas sin\u00f4nimo de extravag\u00e2ncia e surdez pelas raz\u00f5es da moralidade? O terrorismo da percep\u00e7\u00e3o imediata e da indigna\u00e7\u00e3o est\u00e1 \u00e0 espreita. Qualquer um que deseje evitar cair numa armadilha faria bem em hesitar por um momento e fazer a si pr\u00f3prio algumas perguntas, antes de chegar a uma conclus\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 apenas apressada, mas sobretudo imposta por uma for\u00e7a externa.<\/p>\n<p>Mesmo se quis\u00e9ssemos nos manter alertas nos \u00faltimos anos, in\u00fameras s\u00e3o as fotos que podem surgir como s\u00edmbolo de viol\u00eancia e crueldade. A grande m\u00eddia envolvida na busca de imagens suscet\u00edveis a despertar ou manter a consci\u00eancia moral da humanidade poderiam ter escolhido recordar as humilha\u00e7\u00f5es, ass\u00e9dio e tortura sofridos pelos iraquianos detidos na pris\u00e3o americana de Abu Ghraib ou recuperar a face abatida dos detidos de Guant\u00e1namo (sem julgamento), envolvidos em uma greve de fome quebrada pelas autoridades penitenci\u00e1rias com uma alimenta\u00e7\u00e3o for\u00e7ada degradante, situa\u00e7\u00f5es estas que foram amplamente ignoradas pela m\u00eddia ocidental. Ou, ainda, se \u00e9 desejo lembrar um exemplo mais forte, por que n\u00e3o dar espa\u00e7o \u00e0 imagem do &#8220;rebelde&#8221; que, na S\u00edria, prova o f\u00edgado extra\u00eddo do cad\u00e1ver do soldado do regime odiado e combatido pelo Ocidente?<\/p>\n<p>Querem se concentrar exclusivamente nos eventos na Pra\u00e7a da Paz Celestial? Observemos, ent\u00e3o, que uma primeira sele\u00e7\u00e3o j\u00e1 ocorreu. Mas logo depois vem uma segunda. Novamente em rela\u00e7\u00e3o a esses eventos, a foto, circulando na Internet, do soldado chin\u00eas queimado vivo pelos manifestantes e depois enforcado em uma treli\u00e7a poderia ser usada. Renunciando ao uso de imagens visuais, a fim de permitir um m\u00ednimo de espa\u00e7o para reflex\u00e3o, pode-se confiar nas descri\u00e7\u00f5es contidas nos Documentos da Pra\u00e7a da Paz Celestial, publicados no Ocidente com grande alarde e fruto de uma suposta opera\u00e7\u00e3o clandestina, os quais foram celebrados como a revela\u00e7\u00e3o final das inf\u00e2mias que o regime chin\u00eas tenta em v\u00e3o ocultar. Gra\u00e7as \u00e0 leitura, encontramos detalhes e circunst\u00e2ncias inesperados:<\/p>\n<p>\u201cDe repente, um jovem veio correndo, jogou algo em um carro blindado e fugiu. Alguns segundos depois, a mesma fuma\u00e7a verde-amarelada foi vista saindo do ve\u00edculo, enquanto os soldados se arrastavam e se estendiam no ch\u00e3o, na rua, segurando, em agonia, a garganta. Algu\u00e9m grita que havia inalado g\u00e1s venenoso. Mas os oficiais e soldados, apesar da raiva, conseguiram manter o autocontrole&#8221;.<\/p>\n<p>Seria suficiente focar a aten\u00e7\u00e3o nos espasmos e agonia dos soldados afetados pelo g\u00e1s venenoso para mudar radicalmente a dire\u00e7\u00e3o das correntes de emo\u00e7\u00e3o e indigna\u00e7\u00e3o: primeiramente, ao abordar o Ex\u00e9rcito Popular de Liberta\u00e7\u00e3o (que, apesar de tudo, consegue &#8220;manter o &#8216;autocontrole&#8217;), em segundo, ao envolver os manifestantes, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o desarmados, como prontos para recorrer \u00e0s armas qu\u00edmicas. Continuemos a ler:<\/p>\n<p>&#8220;Mais de quinhentos caminh\u00f5es do ex\u00e9rcito foram incendiados em dezenas de cruzamentos [&#8230;] Na Avenida Chang&#8217;an, um caminh\u00e3o do ex\u00e9rcito parou por falha do motor e duzentos manifestantes atacaram o motorista e o espancaram at\u00e9 a morte [&#8230;] No cruzamento de Cuiwei, um caminh\u00e3o carregando seis soldados diminuiu a velocidade para evitar atingir a multid\u00e3o. Ent\u00e3o, um grupo de manifestantes come\u00e7ou a atirar pedras, coquet\u00e9is molotov e tochas contra ele naquele momento, que a certa altura se inclinou para o lado esquerdo porque um dos pneus foi perfurado por causa dos pregos que os manifestantes haviam espalhado. Em seguida, os manifestantes atearam fogo a alguns objetos e os jogaram contra o ve\u00edculo, cujo tanque explodiu. Todos os seis soldados morreram nas chamas\u201d. (Nathan, Link 2001, pp. 435 e 444-45).<\/p>\n<p>Paremos um pouco neste \u00faltimo epis\u00f3dio: soldados se veem condenados \u00e0 morte ao mesmo tempo em que tentam salvar a vida e a sa\u00fade de seus agressores. Est\u00e1 a\u00ed outro poss\u00edvel s\u00edmbolo da crueldade humana, que, no entanto, seria representado n\u00e3o pelo Partido Comunista no poder na China, mas pelos &#8220;dissidentes&#8221; mimados e apoiados pelo Ocidente. Mas vamos supor que, por qualquer motivo que seja, a imagem do jovem chin\u00eas que confronta o tanque seja considerada particularmente emblem\u00e1tica. Bem, essa imagem faz parte de uma sequ\u00eancia. Como o motorista reage ao jovem desarmado que o desafia: ele o arrasta e o esmaga, mata-o com a metralhadora ou, em vez disso, esquiva-se dele? Sobre isso, os documentos da Pra\u00e7a da Paz Celestial d\u00e3o a palavra a um membro da lideran\u00e7a de Pequim:<\/p>\n<p>\u201cTodos n\u00f3s vimos fotos do rapaz jovem bloqueando o tanque. Nosso tanque reduziu o passo diversas vezes, mas o rapaz estava sempre l\u00e1 no meio da estrada e, mesmo quando ele tentava subir no tanque, os soldados se contiveram e n\u00e3o atiravam nele. Isso fala muito! Se os militares tivessem disparado, as repercuss\u00f5es teriam sido muito diferentes. Nossos soldados cumpriram as ordens do Partido Central com perfei\u00e7\u00e3o. \u00c9 incr\u00edvel que eles tenham conseguido manter a calma em tal situa\u00e7\u00e3o!\u201d (Nathan, Link 2001, p. 486).<\/p>\n<p>Se soub\u00e9ssemos que a obstina\u00e7\u00e3o que o jovem desarmado tinha em desafiar o motorista era a mesma obstina\u00e7\u00e3o que este tinha em se comprometer a salvar a vida e a seguran\u00e7a do desafiante, talvez, neste caso, o respeito, simpatia e admira\u00e7\u00e3o do espectador ideal n\u00e3o se dirigiria apenas a uma dire\u00e7\u00e3o. Uma coisa \u00e9 certa: ao propor novamente a imagem do jovem que desafia o tanque e eliminar a imagem do motorista comprometido em evitar atropel\u00e1-lo, a m\u00eddia ocidental faz uma terceira sele\u00e7\u00e3o. E, portanto, longe de ser sin\u00f4nimo de evid\u00eancia imediata, a imagem que se tornou o emblema da trag\u00e9dia da Pra\u00e7a da Paz Celestial n\u00e3o \u00e9 imediata nem tem um significado \u00f3bvio em si. N\u00e3o \u00e9 imediata, porque \u00e9 o resultado de uma sele\u00e7\u00e3o t\u00e3o precisa que \u00e9 feita tr\u00eas vezes. Ela n\u00e3o tem um significado \u00f3bvio em si porque, apesar da sele\u00e7\u00e3o cuidadosa e m\u00faltipla por tr\u00e1s dela, ela pode ter um significado muito diferente e at\u00e9 oposto ao que \u00e9 visto ou bem enquadrado em compara\u00e7\u00e3o ao que a ideologia dominante lhe atribui: em circunst\u00e2ncias semelhantes, nos territ\u00f3rios palestinos ocupados, o motorista de tanque israelense (e ocidental) demonstra o mesmo autocontrole que o motorista de tanque chin\u00eas?<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, vozes de autoridades insuspeitas forneceram uma nova luz sobre os eventos da Pra\u00e7a da Paz Celestial. O ex-chanceler alem\u00e3o Helmut Schmidt lembrou que a interven\u00e7\u00e3o militar em Pequim foi decidida devido ao prolongamento indefinido de uma situa\u00e7\u00e3o intoler\u00e1vel (manifestantes bloquearam a atividade do governo e rejeitaram qualquer compromisso). Acima de tudo: os soldados chamados para restaurar a ordem &#8220;primeiro resistiram, mas foram atacados com pedras e coquet\u00e9is molotov e se defenderam com as armas que possu\u00edam&#8221; (Schmidt 2012). E essa vers\u00e3o dos eventos \u00e9 indiretamente confirmada pelo ent\u00e3o embaixador dos EUA em Pequim: o uso de tropas foi decidido apenas quando &#8220;o governo j\u00e1 estava sem op\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o fosse o ataque militar&#8221;. Mas foi uma decis\u00e3o claramente tomada de maneira contrariada: os primeiros soldados enviados para limpar a pra\u00e7a &#8220;pareciam muito mais uma cruzada de crian\u00e7as do que um grupo de estrat\u00e9gia militar&#8221;. Eram &#8220;tropas desarmadas&#8221;. Por outro lado, &#8220;uma multid\u00e3o enfurecida destruiu dez ve\u00edculos militares&#8221;. Os soldados foram for\u00e7ados a se retirar.<\/p>\n<p>O adido militar dos EUA, general Jack Leide, poderia comentar com satisfa\u00e7\u00e3o profissional: o fiasco do Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Popular foi &#8220;uma vers\u00e3o chinesa da retirada de Napole\u00e3o de Moscou&#8221; (Lilley 2004, pp. 309 e 311-12). \u00c9 inevit\u00e1vel que foi uma nova tentativa de limpar a pra\u00e7a, mas \u00e9 bom n\u00e3o perder de vista um ponto essencial: &#8220;Deng n\u00e3o ordenou um massacre&#8221;. Na medida do poss\u00edvel, ele tentou evitar derramamento de sangue ou reduzi-lo ao m\u00e1ximo. Na verdade, as cenas descritas pelo ent\u00e3o embaixador dos EUA s\u00e3o reveladoras: aqui est\u00e1 um soldado pulando de seu ve\u00edculo para evitar ser &#8220;queimado vivo&#8221;. Ou ainda: estudantes &#8220;que trouxeram latas de gasolina tentaram, no canto norte da pra\u00e7a, incendiar ve\u00edculos do ex\u00e9rcito, mas foram presos pelos soldados&#8221; (Lilley 2004, pp. 316, 318 e 320).<\/p>\n<p>Quando a m\u00eddia ocidental divulga, pelo menos uma vez por ano, a imagem com a qual estamos lidando, denuncia a censura exercida pelas autoridades chinesas. Na verdade, eles est\u00e3o se esfor\u00e7ando desesperadamente para tentar banir as imagens do &#8220;incidente na Pra\u00e7a da Paz Celestial&#8221;. S\u00f3 que, nesse ponto, surge a pergunta talvez mais perturbadora: quem est\u00e1 manipulando a verdade cada vez de forma mais profunda \u00e9 a censura chinesa ou a aparente falta de censura de que o Ocidente tanto se gaba? No primeiro caso, estamos, sem d\u00favida, lidando com uma mutila\u00e7\u00e3o da verdade: uma pe\u00e7a \u00e9 apagada. No segundo caso, longe de ser apagada, essa pe\u00e7a ou essa imagem, resultado de um processo de sele\u00e7\u00e3o tripla, \u00e9 obsessivamente mostrada e exibida e, no entanto, agora essa verdade \u00e9 apenas um momento da farsa geral. Pior, essa verdade \u00e9 agora parte integrante n\u00e3o apenas da falsifica\u00e7\u00e3o, mas de uma falsifica\u00e7\u00e3o que visa inibir a reflex\u00e3o e a argumenta\u00e7\u00e3o racionais e produzir, como uma esp\u00e9cie de reflexo condicionado, uma indigna\u00e7\u00e3o manipulada e pass\u00edvel de ser explorada para fins inconfess\u00e1veis.<\/p>\n<p>A primeira fun\u00e7\u00e3o militar da sociedade do espet\u00e1culo j\u00e1 est\u00e1 sendo operada (a demoniza\u00e7\u00e3o do inimigo ou do inimigo em potencial), enquanto a segunda est\u00e1 \u00e0 espreita: a redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia ao espet\u00e1culo &#8211; viol\u00eancia essa exercida em nome da causa humanit\u00e1ria dos direitos humanos. Talvez um futuro historiador coloque a imagem do jovem chin\u00eas de frente para o tanque ao lado das imagens ou &#8220;not\u00edcias&#8221; relacionadas ao naufr\u00e1gio do cruzador do Maine, do navio a vapor Lusit\u00e2nia e dos navios afundados em Pearl Harbor ou &#8220;atacados&#8221; no Golfo de Tonkin; e talvez o futuro historiador questione a acusa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia inerente a uma imagem que afirma querer retratar a condena\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia em si.<\/p>\n<p>2. O \u201cdespotismo iluminado\u201d na Pra\u00e7a da Paz Celestial<\/p>\n<p>Sim, a verdade da imagem do jovem de frente para o tanque \u00e9 apenas um momento da farsa geral. Por meio do terrorismo de percep\u00e7\u00e3o e indigna\u00e7\u00e3o imediatas, visa-se impedir a reflex\u00e3o e a pergunta: se n\u00e3o a causa da n\u00e3o-viol\u00eancia, o movimento da Pra\u00e7a da Paz Celestial representa, de modo inequ\u00edvoco, a causa da democracia? Numerosos manifestantes olhavam com simpatia e admira\u00e7\u00e3o para Zhao Ziyang. Antes de ascender ao topo da lideran\u00e7a chinesa, ele &#8220;era conhecido por haver reprimido as mais recentes turbul\u00eancias da esquerda radical&#8221; em Sichuan; na \u00e9poca da crise, na primavera de 1989, ele defendia \u201cuma solu\u00e7\u00e3o \u2018neoautorit\u00e1ria\u2019, paternalista e tecnocr\u00e1tica\u201d (Domenach, Richer 1995, pp. 697 e 550). Ele era um executivo bem conhecido e apreciado (em alguns c\u00edrculos chineses e internacionais) como campe\u00e3o de um &#8220;despotismo esclarecido&#8221; (Minqi Li 2008, p. XI). N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: \u201cZhao n\u00e3o era democrata. Naqueles anos, ele pretendia promover a economia de mercado com punho de ferro\u201d. Nos tumultos em andamento, ele viu e buscou sua grande oportunidade:<\/p>\n<p>&#8220;A maioria das \u2018massas\u2019 foi autorizada pelos reformistas do PCC a se manifestar e foi levada \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es por caminh\u00f5es e \u00f4nibus das f\u00e1bricas, dos escrit\u00f3rios p\u00fablicos e dos minist\u00e9rios. Da mesma forma, o apoio log\u00edstico para estudantes havia sido oferecido por funcion\u00e1rios e empres\u00e1rios privados pr\u00f3ximos a Zhao Ziyang.\u201d (Ferraro 2001).<\/p>\n<p>Este \u00faltimo &#8211; enfatizam dois autores americanos &#8211; deveria ser considerado &#8220;provavelmente o l\u00edder chin\u00eas mais pr\u00f3-americano da hist\u00f3ria recente&#8221; (Bernstein, Munro 1997, p. 39). Mas o que ele admirava nos Estados Unidos e o que a lideran\u00e7a dos EUA admirava nele? O amor \u00e0 liberdade estimulou a rela\u00e7\u00e3o de simpatia entre os dois lados ou, melhor, o decisionismo neoliberal pronto, se necess\u00e1rio, para recorrer a medidas &#8220;neoautorit\u00e1rias&#8221; e at\u00e9 mesmo &#8220;desp\u00f3ticas&#8221;?<\/p>\n<p>Nesse ponto, uma nova pergunta pode surgir: o levante da Pra\u00e7a da Paz Celestial foi um evento inteiramente interno \u00e0 China? Uma entrevista \u00e9 reveladora. Quando, algum tempo ap\u00f3s a trag\u00e9dia, os enviados do presidente Bush foram a Pequim para conversar com Deng Xiaoping, este reclamou com eles de que os EUA estavam &#8220;profundamente envolvidos&#8221; nos eventos da Pra\u00e7a Tiananmen e acrescentou: &#8220;Para ser sincero, isso poderia ter levado at\u00e9 \u00e0 guerra&#8221; (Kissinger 2011, pp. 418-19). Essa foi a fala de um estadista conhecido por seu pragmatismo e prud\u00eancia, um te\u00f3rico de &#8220;perfil discreto&#8221; no cen\u00e1rio internacional que, al\u00e9m disso, naquela \u00e9poca tinha todo interesse em reabrir as rela\u00e7\u00f5es com Washington, tamb\u00e9m com o objetivo de escapar do isolamento diplom\u00e1tico e comercial. E quem relata essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 um campe\u00e3o da Realpolitik que n\u00e3o sente a necessidade de descartar uma acusa\u00e7\u00e3o t\u00e3o dura e que tamb\u00e9m n\u00e3o documenta nenhuma resposta pol\u00eamica dos interlocutores estadunidenses ao l\u00edder chin\u00eas.<\/p>\n<p>Deng n\u00e3o somente n\u00e3o foi desmentido, como sua leitura dos fatos tamb\u00e9m foi indiretamente confirmada por uma testemunha autorizada. Trata-se do ent\u00e3o embaixador dos EUA na China. Ele lembra que naqueles dias &#8220;dez apartamentos da Embaixada foram atingidos por mais de cem balas&#8221; disparadas pelo ex\u00e9rcito chin\u00eas comprometido em ca\u00e7ar &#8211; esta \u00e9 a vers\u00e3o das autoridades de Pequim &#8211; &#8220;um atirador que matou um soldado de uma coluna em retirada\u201d. O embaixador dos EUA menciona haver comentado imediatamente ap\u00f3s o tiroteio: &#8220;Acho que os chineses est\u00e3o tentando nos enviar uma mensagem&#8221; (Lilley 2004, p. XII). Sim, mas qual?<\/p>\n<p>Podemos deduzi-la de outros detalhes deste testemunho. \u00c0 medida que o confronto entre estudantes e o governo chin\u00eas aumenta, eis o &#8220;adido militar&#8221; da embaixada dos EUA em Pequim fazendo acordos e trabalhando lado a lado &#8220;com suas contrapartes nas embaixadas australiana, brit\u00e2nica, canadense, francesa, alem\u00e3 e japonesa&#8221;. Com que objetivo? Podemos deduzi-lo de outros detalhes deste testemunho:<\/p>\n<p>\u201cEles dividiram a cidade em setores e trocaram informa\u00e7\u00f5es obtidas por meio de patrulhas. No final de maio, em resposta ao abrandamento da crise, adidos militares de v\u00e1rias embaixadas montaram postos de escuta em tempo integral em locais previamente escolhidos na cidade. Numa atitude vision\u00e1ria, o general Jack Leide, adido militar da embaixada dos EUA, ficou encarregado e obteve permiss\u00e3o para alugar quartos de hotel para controladores americanos. Al\u00e9m de um quarto no Hotel Fuxingmen, na parte oeste da cidade, reservamos dois quartos no Peking Hotel, imediatamente a nordeste da pra\u00e7a da Paz Celestial, o que nos permitiu uma vis\u00e3o clara da pra\u00e7a. Al\u00e9m disso, Leide equipou seus homens com telefones de r\u00e1dios port\u00e1teis (walkie-talkies) contrabandeados do exterior. Foi uma viola\u00e7\u00e3o do protocolo diplom\u00e1tico, devido ao fato de que, nas miss\u00f5es diplom\u00e1ticas na China, n\u00e3o se pode manter r\u00e1dio de comunica\u00e7\u00e3o privada, mas, ao cometer essa viola\u00e7\u00e3o, no entanto, me senti \u00e0 vontade.\u201d (Lilley 2004, p. 306)<\/p>\n<p>A atividade promovida pelos adidos militares das embaixadas dos pa\u00edses mais importantes (ocidentais ou pr\u00f3-ocidentais), implementada gra\u00e7as a instrumentos proibidos e contrabandeados ilegalmente e dirigida por um general &#8220;vision\u00e1rio&#8221; dos Estados Unidos, era destinada apenas a acompanhar a crise ao vivo ou tamb\u00e9m a influenci\u00e1-la? Com base no conhecimento &#8220;excelente&#8221; do &#8220;mandarim&#8221; de alguns de seus membros, \u201cnossa equipe diplom\u00e1tica [estadunidense] em Pequim estabeleceu rela\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas com membros do ex\u00e9rcito, do movimento estudantil e da classe intelectual&#8221;; e tais rela\u00e7\u00f5es provavelmente renderiam &#8220;dividendos&#8221; consider\u00e1veis (Lilley 2004, pp. 314 e 306). Quais podem ser os &#8220;dividendos&#8221; resultantes do relacionamento entre os membros estadunidenses e setores do ex\u00e9rcito chin\u00eas?<\/p>\n<p>Como a capa de seu livro deixa claro, o autor deste testemunho &#8220;serviu por cerca de trinta anos na CIA em T\u00f3quio, Taiwan, Hong Kong, Laos, Bangcoc, Camboja e Pequim antes de iniciar uma brilhante carreira diplom\u00e1tica no in\u00edcio dos anos 80 no Departamento de Estado.\u201d Era apenas uma coincid\u00eancia que um diplomata com experi\u00eancia consolidada como agente da CIA nas suas costas estivesse liderando a fren\u00e9tica atividade que acabamos de ver? Naquela \u00e9poca, Gene Sharp (Engdahl 2009, p. 93), o te\u00f3rico das Revolu\u00e7\u00f5es Coloridas, tamb\u00e9m estava presente na capital chinesa. Seria isso uma outra coincid\u00eancia aleat\u00f3ria? E como podemos explicar ent\u00e3o que, ainda neste per\u00edodo, Winston Lord, ex-embaixador em Pequim e principal assessor do futuro presidente Clinton, nunca se cansou de repetir que a queda do regime comunista na China era &#8220;uma quest\u00e3o de semanas ou meses\u201d (Bernstein, Munro 1997, p. 95)? E qual era o objetivo da falsifica\u00e7\u00e3o do &#8220;Jornal do Di\u00e1rio do Povo&#8221;, o \u00f3rg\u00e3o oficial do Partido Comunista Chin\u00eas (Nathan, Link 2001, p. 324), que era respons\u00e1vel por uma opera\u00e7\u00e3o t\u00e3o sofisticada e suscet\u00edvel de rasgar em duas fac\u00e7\u00f5es opostas o Partido no poder e o Estado em si?<\/p>\n<p>Lembremos do aviso de Deng Xiaoping, n\u00e3o contraditado por Kissinger ou por qualquer membro da delega\u00e7\u00e3o dos EUA, segundo o qual os EUA foram respons\u00e1veis por uma opera\u00e7\u00e3o que poderia &#8220;levar \u00e0 guerra&#8221;. E o que poderia ter sido essa opera\u00e7\u00e3o, esse casus belli\u00b9, sen\u00e3o uma tentativa de golpe externamente pilotada, que visava talvez levar ao poder &#8220;o l\u00edder chin\u00eas mais pr\u00f3-americano&#8221;, aquele pronto para recorrer ao &#8220;despotismo iluminado&#8221; por uma perspectiva neoliberal? Vistos em retrospectiva, os incidentes da Pra\u00e7a da Paz Celestial de 1989 apresentam-se como ensaio geral do golpe de Estado disfar\u00e7ado ou das &#8220;Revolu\u00e7\u00f5es Coloridas&#8221; que se seguiriam nos anos seguintes.<\/p>\n<p>\u00b9locu\u00e7\u00e3o latina que significa &#8220;caso de guerra&#8221;. Dicion\u00e1rio Priberam da L\u00edngua Portuguesa.<br \/>\nhttps:\/\/dicionario.priberam.org\/casus+belli [consultado em 08-06-2020].<\/p>\n<p>Revis\u00e3o: Jornal O Poder Popular<\/p>\n<p>Fonte:<br \/>\nhttps:\/\/sinistrainrete.info\/estero\/17974-domenico-losurdo-le-rivoluzioni-colorate-e-la-cina-da-tienanmen-a-hong-kong-2.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25672\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[350],"tags":[234],"class_list":["post-25672","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-china","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6G4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25672","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25672"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25672\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25672"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25672"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25672"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}