{"id":25675,"date":"2020-06-09T23:26:05","date_gmt":"2020-06-10T02:26:05","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25675"},"modified":"2020-06-09T23:26:05","modified_gmt":"2020-06-10T02:26:05","slug":"o-bolsonarismo-e-a-banalizacao-do-fascismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25675","title":{"rendered":"O bolsonarismo e a banaliza\u00e7\u00e3o do fascismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/omundoagora.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jair-Bolsonaro-anda-a-cavalo-protestos-tera-que-depor-policia-federal-460x270.jpeg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->BRASILIA, DF, BRASIL, 31\u201305\u20132020 \u2014 (Foto: Pedro Ladeira\/Folhapress)<\/p>\n<p>Arthur Machado<\/p>\n<p>No Que Fazer?, L\u00eanin cita trechos escritos por Engels que, em 1874, defendia a necessidade de um ataque conc\u00eantrico por parte da classe trabalhadora, mostrando n\u00e3o somente importante a luta pol\u00edtica e econ\u00f4mico-pr\u00e1tica, mas tamb\u00e9m a import\u00e2ncia da luta te\u00f3rica. \u00c9 nesse trip\u00e9 que reside for\u00e7a e invencibilidade do movimento do trabalhador. Caminhando nessa dire\u00e7\u00e3o, n\u00e3o estrita ao marxismo-leninismo \u2014 de que \u2018interpretar o mundo corretamente \u00e9 t\u00e3o importante quanto mud\u00e1-lo\u2019 \u2014 deve-se acatar \u00e0 observa\u00e7\u00e3o de Zetkin: estudar clara e distintamente a natureza das coisas. \u00c9 o que este texto se prop\u00f5e.<\/p>\n<p>N\u00e3o se est\u00e1 a banalizar o terror do Fascismo ao Chamar o governo Bolsonaro de fascista?<\/p>\n<p>O historiador Emilio Gentile, um famoso professor da La Sap\u00edenza, universidade Italiana localizada em Roma, \u00e9 um dos muitos nomes que defendem a ideia de que a qualifica\u00e7\u00e3o como fascismo de movimentos pol\u00edticos de direita ou extrema direita banaliza e trivializa o terror promovido pelo partido de Mussolini. Gentile \u00e9 um dos mais importantes pesquisadores e histori\u00f3grafos especializados no fen\u00f4meno do fascismo italiano, ao menos ainda vivo. Segundo sua argumenta\u00e7\u00e3o central, o termo n\u00e3o deveria perder a significatividade hist\u00f3rica. Em outras palavras, muito embora o fascismo seja indicativo de uma identidade nacionalista e autorit\u00e1ria, segundo o historiador, apenas isto n\u00e3o pode defini-lo, ou seja: sem as caracter\u00edsticas de ter sido um partido armado que chega ao poder, imperialista e que, posterior a 1938, adquire uma pol\u00edtica racista e antissemita.<\/p>\n<p>Gentile \u00e9 um intelectual honesto e muito claro em sua proposta. Ele defende a impossibilidade de realizar abstra\u00e7\u00f5es para caracterizar o fascismo. Para o historiador, a experi\u00eancia concreta \u00e9 o que define o termo. No caso, s\u00f3 podem ser fascistas tais experi\u00eancias: o Partito Nazionale Fascista e algum ou outro evento hist\u00f3rico muito pontual. Acontece, pois, no cuidado historiogr\u00e1fico, a interpreta\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia hist\u00f3rica concreta (todos os detalhes espec\u00edficos de certa \u00e9poca) assume certo protagonismo nas conceitualiza\u00e7\u00f5es. Desse modo, na \u00e1rea de Gentile, ao &#8220;pin\u00e7armos&#8221;, pela abstra\u00e7\u00e3o, certos elementos do fascismo italiano para determinar o conceito geral de experi\u00eancias fascistas, de fato, descentralizamos a &#8216;natureza&#8217; de seu fen\u00f4meno. E sem o devido cuidado, podemos banalizar os eventos ocorridos na It\u00e1lia e, inclusive, incorrer em aventuras revisionistas \u2014 o terror de muitos historiadores \u2014, que tanto estimula nossos t\u00e3o bem conhecidos mal-entendidos.<\/p>\n<p>Entretanto, apesar de haver boas justifica\u00e7\u00f5es sobre o que deve guiar o rigor historiogr\u00e1fico, pouco importa \u00e0 Hist\u00f3ria, que n\u00e3o \u00e9 assinada por qualquer autor. Bem como tem pouca import\u00e2ncia \u00e0 cultura, ao comportamento e, consequentemente, \u00e0 linguagem. Se toda vez que um costume ou a\u00e7\u00e3o tomasse uma nova palavra para ser definido, jamais haveria possibilidade de flu\u00eancia em qualquer l\u00edngua. No entanto, precisamos nomin\u00e1-lo. Al\u00e9m do mais, a ideia de definir a experi\u00eancia fascista como algo muito pontual, dentro de limites e condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas concretas, dificulta a possibilidade de compreend\u00ea-la em seu n\u00facleo e fundamento, portanto, e por fim, impossibilita-nos combat\u00ea-la quando surgida sob seus disfarces e boas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>[\u2026] todo o proletariado deve concentrar-se na luta contra o fascismo. Ser\u00e1 muito mais f\u00e1cil derrotar o fascismo se estudarmos clara e distintamente sua natureza. At\u00e9 agora t\u00eam sido extremamente vagas as ideias sobre esse assunto, n\u00e3o apenas entre as grandes massas de trabalhadores, mas at\u00e9 no interior da vanguarda revolucion\u00e1ria do proletariado e dos comunistas. (ZETKIN, 1923).<\/p>\n<p>Uma investiga\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e, sobretudo, uma ontologia impl\u00edcita ao que pergunta a pergunta. Como sabemos, n\u00e3o existe um microsc\u00f3pio que seja capaz de focalizar as sociedades humanas e seus elementos assim como \u00e9 utilizado para verificar os componentes que constituem uma c\u00e9lula. As nossas lentes, para descrever um fen\u00f4meno t\u00e3o complexo, devem ser definidas pelo poder de abstra\u00e7\u00e3o. Podemos separar a investiga\u00e7\u00e3o em duas etapas: a investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e, n\u00e3o obstante, terminol\u00f3gica e suas decorr\u00eancias.<\/p>\n<p>Sobre a Hist\u00f3ria: a condena\u00e7\u00e3o de estar no mundo<\/p>\n<p>Muito embora aparente o contr\u00e1rio, a Hist\u00f3ria se d\u00e1 sem autoria final. Desde Plat\u00e3o estamos acostumados a conceber \u201cesp\u00edritos do mundo\u201d, \u201cm\u00e3os invis\u00edveis\u201d ou interesses de classe na confec\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria. Entretanto, sabemos, como diz Marx, que a hist\u00f3ria n\u00e3o anda com a cabe\u00e7a, tampouco podemos admitir que pensa com os p\u00e9s. Ela \u00e9 como um livro em que cap\u00edtulos s\u00e3o escritos, contraditos e sempre continuados em uma vasta varia\u00e7\u00e3o de nomes para assin\u00e1-los. Entretanto, na escrita de certos cap\u00edtulos, situa\u00e7\u00f5es promovem sujeitos espec\u00edficos como respons\u00e1veis a pontuarem pontos finais ou a escreverem uma \u00faltima frase. No escrever desses cap\u00edtulos, enquanto s\u00e3o vividos, as coisas assumem um ar de conting\u00eancia: tudo parece caminhar ao acaso, sem muita correla\u00e7\u00e3o. Logo depois, os acasos se compensam e se faz poss\u00edvel tomar posi\u00e7\u00e3o, desenhando continuidade entre os cap\u00edtulos; &#8220;Desvelando a verdade&#8221; e dando-lhes sentido.<\/p>\n<p>Porque estamos no mundo, estamos condenados ao sentido, e n\u00e3o podemos fazer nada nem dizer nada que n\u00e3o adquira um nome na hist\u00f3ria (MERLEAU-PONTY, 1999).<\/p>\n<p>Como qualquer investiga\u00e7\u00e3o de fen\u00f4meno hist\u00f3rico, a d\u00favida que permanece \u00e9 sobre o procedimento de interpreta\u00e7\u00e3o. Ou seja, em outras palavras, investigar o desenvolvimento hist\u00f3rico \u00e9 questionar como se deve compreender. A Hist\u00f3ria de um fen\u00f4meno se compreende pela economia, psicologia das massas, a partir da ideologia? Todas essas vers\u00f5es s\u00e3o verdadeiras. Por detr\u00e1s destas dimens\u00f5es pass\u00edveis de abstra\u00e7\u00e3o, permanece um n\u00facleo \u00fanico de significatividade; ou totalidade. Nosso intuito \u00e9 reconstruir o concreto partindo da investiga\u00e7\u00e3o de elementos simples e gerais. Uma vez isto feito, quer dizer, elementos complexos e contempor\u00e2neos sendo expostos em seus fundamentos, em sua natureza, a pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o do desenho hist\u00f3rico, no caso aqui examinado, do fascismo, ser\u00e1 melhor compreendida. Nos modelos mais complexos e definidos, incluem-se os menos; extraem-se leis gerais.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que o fascismo tem?<\/p>\n<p>Diferente de como interpreta Gentile, Umberto Eco, um outro pensador que se lan\u00e7a na interpreta\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno fascista, por n\u00e3o ser precisamente um historiador, aposta na possibilidade de tra\u00e7ar um conceito para definir Eles, os fascistas. Tal tarefa que n\u00e3o se d\u00e1 separada da investiga\u00e7\u00e3o do que aconteceu na It\u00e1lia de Mussolini.<\/p>\n<p>Para impedir a utiliza\u00e7\u00e3o sin\u00e9doque do termo fascismo a partir do fascismo original, da propriedade hist\u00f3rica, deveria haver uma ess\u00eancia no fascismo de Mussolini, um tipo de \u2018quintess\u00eancia\u2019 que n\u00e3o permite ao fen\u00f4meno se replicar sen\u00e3o naquelas condi\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas, como ocorre no caso do Nazismo. Pois o Nacional-Socialismo possu\u00eda uma filosofia pr\u00f3pria que, embora inspirada no fascismo italiano, \u00e9 manifestada sistematicamente em Mein Kampf, defendia um programa pol\u00edtico de luta de ra\u00e7as, superioridade do povo ariano, al\u00e9m de uma no\u00e7\u00e3o muito pontual e delimitada da arte degenerada, que pretendia combater. Enquanto que o &#8220;fascismo original&#8221; n\u00e3o possu\u00eda um sistema filos\u00f3fico complexo, mas sim uma colcha de retalhos com v\u00e1rias ideias pol\u00edticas, jamais realizadas enquanto projeto (ECO, 2018). Ou seja, bastante diferente da \u201cvers\u00e3o\u201d posterior fundada na Alemanha, que perdeu a guerra t\u00e3o mais devido \u00e0 pot\u00eancia sovi\u00e9tica inesperada do que por falta de sistematiza\u00e7\u00e3o e projeto.<\/p>\n<p>O artigo sobre o fascismo assinado por Mussolini para a Enciclop\u00e9dia Treccani foi escrito ou inspirou-se fundamentalmente em Giovanni Gentile, mas refletia uma no\u00e7\u00e3o hegeliana tardia do \u201cEstado \u00e9tico absoluto\u201d, que Mussolini nunca realizou completamente. Mussolini n\u00e3o tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma ret\u00f3rica.(ECO, 2018, p.,24)<\/p>\n<p>O fascismo italiano, ou fascismo original, no campo econ\u00f4mico, d\u00e1-se como uma resposta \u00e0 crise econ\u00f4mica na It\u00e1lia p\u00f3s primeira guerra mundial. \u00c9 uma ditadura com interesses muito bem delimitados, embora nunca alcan\u00e7ados. Da\u00ed que Thierry Maulnier escreve na esperan\u00e7a de resgatar um fascismo poss\u00edvel, em detrimento do Fascismo real, concreto, de propriedade hist\u00f3rica. A A\u00e7\u00e3o Integralista Francesa \u00e9 s\u00f3 uma das v\u00e1rias inspira\u00e7\u00f5es ao fascismo de Mussolini, que ao mesmo tempo o recusa como \u201cfascismo realizado\u201d.<\/p>\n<p>Foi somente nos anos 1930 que surgiram movimentos fascistas na Inglaterra, com Mosley, e na Let\u00f4nia, Est\u00f4nia, Litu\u00e2nia, Pol\u00f4nia, Hungria, Rom\u00eania, Bulg\u00e1ria, Gr\u00e9cia, Iugosl\u00e1via, Espanha, Portugal, Noruega e at\u00e9 na Am\u00e9rica do Sul, para n\u00e3o falar da Alemanha. (Ibidem)<\/p>\n<p>Mussolini aparece como um sujeito que pretende revolucionar o sistema econ\u00f4mico e, sobretudo, pol\u00edtico; antissist\u00eamico, em alguma medida. Seu projeto possui uma pretens\u00e3o revolucion\u00e1ria; a saber, de resolu\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o prolet\u00e1ria dos trabalhadores na quest\u00e3o nacional. Fortemente anticomunista, pretendia resolver os problemas da debilidade industrial alternativamente sem recorrer ao socialismo. Ele \u00e9 o primeiro a criar uma liturgia militar, um revisionismo hist\u00f3rico que exalta as vit\u00f3rias sangrentas do passado pretendendo conserv\u00e1-las, em conjunto a um ide\u00e1rio &#8220;revolucion\u00e1rio&#8221;. Tamb\u00e9m atrai, de modo impressionante, os olhos de muitos \u201cliberais\u201d. Pois \u00e9 ineg\u00e1vel que havia uma crise que debilitou o mercado capitalista italiano, e por esta raz\u00e3o \u00e9 que o Partito Nazionale Fascista de Mussolini conta com um brutal financiamento e apoio da alta classe. Como argumenta Clara Zetkin (1923), o Estado italiano era incapaz de dar aux\u00edlio ao capital industrial do norte da It\u00e1lia. Al\u00e9m disso, concentrava aten\u00e7\u00e3o ao capital agr\u00e1rio e ao pequeno capital financeiro. As ind\u00fastrias pesadas que, durante a guerra, com produ\u00e7\u00e3o de materiais b\u00e9licos, haviam sido alavancadas, com o findar do conflito colapsaram, e uma onda de desemprego sem precedentes se instalou, gerando infla\u00e7\u00e3o e, mais que infla\u00e7\u00e3o, o caos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da for\u00e7a do capital arruinada, a economia esfacelada, a prec\u00e1ria situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de desemprego, havia uma classe m\u00e9dia sentindo-se humilhada. O fortalecimento da na\u00e7\u00e3o, a promessa de gerar empregos, de conservar antigos valores, \u201cressuscitando\u201d a supremacia de um povo, moveram as massas. A desorganiza\u00e7\u00e3o e falta de poder na classe trabalhadora n\u00e3o sustiveram o avan\u00e7o do &#8216;Partito&#8217;.<\/p>\n<p>O &#8220;fascismo original&#8221; foi uma ditadura, muito embora n\u00e3o tenha sido \u201ctotalit\u00e1ria\u201d, como aponta Umberto Eco. N\u00e3o por sua &#8220;brandura&#8221; ou pacificidade, tendo ela sido extremamente violenta. Por\u00e9m, por n\u00e3o possuir uma filosofia sistem\u00e1tica, a n\u00e3o ser um apelo \u00e0s sobreviv\u00eancias morais, reivindicando mitos e hero\u00edsmos, deveres e sacrif\u00edcios. \u00c9 uma ideologia que deposita a resolu\u00e7\u00e3o dos problemas sociais nas fontes mais f\u00e1ceis e suspeitas de exalta\u00e7\u00e3o (MERLEAU-PONTY, 1980). \u00c9 a alternativa \u00e0 democracia recitativa*, quando esta se apresenta incapaz de assegurar privil\u00e9gios olig\u00e1rquicos e econ\u00f4micos. As experi\u00eancias fascistas inicialmente se lan\u00e7am ideologicamente como uma terceira via entre o socialismo e o capitalismo na busca de supera\u00e7\u00e3o de ambos. Em seu fim, demonstram ser uma ideologia da fal\u00eancia, que realiza-se na preserva\u00e7\u00e3o de um Estado assegurador da luta de classes em sua forma original (MERLEAU-PONTY, 1980).<\/p>\n<p>Se o terreno onde a praga do fascismo cresce gera necessariamente sua fal\u00eancia, isso diz pouco respeito \u00e0s condi\u00e7\u00f5es materiais e econ\u00f4micos que o comp\u00f5em, mas \u00e0 filosofia da hist\u00f3ria e o sistema interpretativo que o alicer\u00e7am. Ou melhor, a falta deles. As caracter\u00edsticas \u201cfilos\u00f3ficas\u201d do &#8220;fascismo original&#8221;, diferentes das do Nacional-Socialismo que, embora fascista em defini\u00e7\u00e3o, possui todo um sistema complexo e elementos engrenados, n\u00e3o podem ser reunidas sistematicamente. S\u00e3o, como diz Eco, alguns arqu\u00e9tipos emocionais e psicol\u00f3gicos. O fascismo de Mussolini era a combina\u00e7\u00e3o entre a monarquia e a revolu\u00e7\u00e3o, o ex\u00e9rcito real misturado \u00e0 mil\u00edcia pessoal, privil\u00e9gios concedidos \u00e0 Igreja e defendendo uma educa\u00e7\u00e3o estatal, exaltava o Estado e a viol\u00eancia ao mesmo tempo em que tinha como princ\u00edpio o livre mercado.<\/p>\n<p>O fascismo n\u00e3o tinha bases filos\u00f3ficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arqu\u00e9tipos. (ECO, 2018).<\/p>\n<p>Sobre os arqu\u00e9tipos, \u00e9 poss\u00edvel delinear alguns na conceitualiza\u00e7\u00e3o do termo fascismo. Entretanto, mesmo nos eventos assumidamente fascistas, em sua realiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel notar a aus\u00eancia de alguns desses elementos. Ou seja, o termo consegue se adaptar e enquadrar em v\u00e1rias experi\u00eancias hist\u00f3ricas levemente distintas, mesmo na falta de um desses elementos em tais eventos. Antes da exposi\u00e7\u00e3o de processos hist\u00f3ricos e econ\u00f4micos (terreno f\u00e9rtil ao fascismo), \u00e9 poss\u00edvel apontar arqu\u00e9tipos psicol\u00f3gicos e emocionais que o comp\u00f5e.<\/p>\n<p>Os itens s\u00e3o caracteriza\u00e7\u00f5es descritas em O Fascismo Eterno, por Umberto Eco, originalmente uma confer\u00eancia proferida em 1995. Alguns elementos fiz quest\u00e3o de transcrever, porque parecem tr\u00e1gicos demais aos enraizados brasileiros.<br \/>\nCulto \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o: a verdade j\u00e1 foi anunciada anteriormente, \u00e9 necess\u00e1rio preserv\u00e1-la, em costumes e cultura. Neste quesito, h\u00e1 a varia\u00e7\u00e3o das fontes. O Nacional-Socialismo, que era necessariamente uma adequa\u00e7\u00e3o ao conceito de fascismo, mas n\u00e3o suficientemente apenas isso, possu\u00eda suas anuncia\u00e7\u00f5es na teosofia de Helena Blavatsky sobre arianismos, e outras fontes ocultas.<br \/>\nA recusa \u00e0 modernidade: o elogio \u00e0 tecnologia surge somente ao usufruir superficialmente a ci\u00eancia t\u00e9cnica. Quando trata-se, portanto, de atributos morais e religiosos, qualquer possibilidade de avan\u00e7o cient\u00edfico \u00e9 negado em nome de uma tradi\u00e7\u00e3o obscurantista e irracionalista.<br \/>\nIrracionalismo: \u00e9 condenar os meios intelectuais e cient\u00edficos em detrimento dos valores tradicionais. Por exemplo, \u201cAs universidades s\u00e3o um ninho de comunistas\u201d, a suspeita em rela\u00e7\u00e3o ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo* (ECO, 2018, p., 39). Al\u00e9m da condena\u00e7\u00e3o anticomunista, o Fascismo \u00e9 caracter\u00edstico por sua condena\u00e7\u00e3o ao liberalismo, justamente porque este tem como ess\u00eancia romper com certos preceitos da tradi\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, um liberalismo econ\u00f4mico, mas que n\u00e3o interfira nos costumes (ECO, 2018).<br \/>\nO desacordo \u00e9 trai\u00e7\u00e3o: o esp\u00edrito cr\u00edtico essencialmente \u00e9 \u201cdistin\u00e7\u00e3o\u201d. Na significa\u00e7\u00e3o da palavra \u201ccr\u00edtica\u201d revela-se algo como \u201cdiferen\u00e7a\u201d, criticar \u00e9 distinguir. Distinguir \u00e9 sinal de modernidade, portanto, de rompimento do tradicionalismo. Criticar \u00e9 trai\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMedo da diferen\u00e7a: o primeiro apelo de um movimento fascista ou que est\u00e1 se tornando fascista \u00e9 contra os intrusos. (ECO, 2018, p., 39). O Fascismo \u00e9, portanto, discriminativo por defini\u00e7\u00e3o.<br \/>\nApelo \u00e0s classes m\u00e9dias frustradas: \u201cUma caracter\u00edstica t\u00edpica, que tem se repetido historicamente \u00e9 o apelo \u00e0s classes m\u00e9dias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econ\u00f4mica ou humilha\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, assustadas pela press\u00e3o dos grupos sociais subalternos\u201d (ECO, 2018, p., 39).<br \/>\nObsess\u00e3o por conspira\u00e7\u00e3o: a frustra\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dias e a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o de classe s\u00e3o amparadas pelo discurso de ter nascido em um mesmo pa\u00eds. Ou seja, a resolu\u00e7\u00e3o tem como fim a quest\u00e3o nacional. \u00c9 evidente que resulta no aparecimento de pol\u00edticas e conspira\u00e7\u00f5es xenof\u00f3bicas. A psicologia do fascismo fundamenta-se em alguma conspira\u00e7\u00e3o internacional.<br \/>\nOs inimigos, ao mesmo tempo, s\u00e3o fortes e fracos demais: os adeptos devem se sentir prejudicados por privil\u00e9gios que n\u00e3o possuem, humilhados pela riqueza e organiza\u00e7\u00e3o dos inimigos. A necessidade de conspira\u00e7\u00e3o estipula que os \u201cinimigos\u201d estejam fortemente organizados em seu sistema. Mas, ao mesmo tempo, a ret\u00f3rica fascista prop\u00f5e que, devido \u00e0 degenera\u00e7\u00e3o, o inimigo pode ser derrotado.<br \/>\nA nega\u00e7\u00e3o do pacifismo: o pacifismo \u00e9 sinal de conspira\u00e7\u00e3o com o inimigo. H\u00e1 a necessidade, por parte do fascismo, de exaltar e promover um contexto c\u00eanico de guerra a algo, uma emula\u00e7\u00e3o de combate eterno contra a estrutura inimiga. Um psicologia moldada sobre a atmosfera de batalha eterna. O Armagedon, que, no entanto, preceder\u00e1 contraditoriamente a paz.<br \/>\nDesprezo pelo fraco: o fascismo tem, como aspecto t\u00edpico, assim como qualquer ideologia reacion\u00e1ria e aristocr\u00e1tica, o desprezo pelos fracos. No entanto, o modo de proceder na promo\u00e7\u00e3o de seu elitismo \u00e9 \u201cpopulista\u201d. Todos os cidad\u00e3os adeptos do fascismo e da quest\u00e3o nacional pertencem ao melhor povo do mundo. Al\u00e9m disso, o modo hier\u00e1rquico \u00e9 militar, ou seja, de subordina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nHero\u00edsmo perante a morte: mitos vagos, como o mito do her\u00f3i, s\u00e3o decorr\u00eancias do desprezo pelo fraco. A \u201ceduca\u00e7\u00e3o fascista\u201d dirige o sujeito para que assuma a personagem de her\u00f3i, que, se necess\u00e1rio for, parta para o sacrif\u00edcio em nome da pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o. A morte \u00e9 um alcance dessa plenitude heroica, seus adeptos t\u00eam como fim o mart\u00edrio pela na\u00e7\u00e3o. O her\u00f3i Fascista espera impacientemente pela morte. Note-se, por\u00e9m, que sua impaci\u00eancia provoca com maior frequ\u00eancia a morte dos outros (ECO, 2018, p., 41).<br \/>\nMachismo: o estado de guerra e viol\u00eancia permanente, assim como o de hero\u00edsmo diante da morte trazem riscos demais quando assumidos al\u00e9m da ret\u00f3rica. O fascista \u201c (\u2026) transfere sua vontade de poder para quest\u00f5es sexuais. Esta \u00e9 a origem de seu machismo (que implica desd\u00e9m pelas mulheres e uma condena\u00e7\u00e3o intolerante de h\u00e1bitos sexuais n\u00e3o conformistas, da castidade \u00e0 homossexualidade.\u201d (ECO, 2018, p., 42). Como o jogo da sexualidade tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil de jogar de modo afirmativo, a ret\u00f3rica sempre \u00e9 de nega\u00e7\u00e3o, condenando diversas formas de manifesta\u00e7\u00e3o da sexualidade, a partir, claro, da \u00f3tica f\u00e1lica. A exalta\u00e7\u00e3o \u00e0s armas representa, na superf\u00edcie, os valores de guerra e de hero\u00edsmo, mas esconde na psicologia a inabilidade no jogo sexual. Quanto maior a arma ostentada, mais manifesta est\u00e1 a \u201cinvidia penis\u201d permanente.<br \/>\nPopulismo qualitativo: por \u00faltimo, em compara\u00e7\u00e3o com a democracia, que tem como base moral uma liberdade j\u00e1 dada, uma identidade fundamentada sobre o direito quantitativo (a decis\u00e3o da maioria), j\u00e1 o fascismo menospreza as liberdades individuais. A vontade de uma maioria comum \u00e9 interpretada e representada por seu l\u00edder, defendida em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vontade da minoria. Os indiv\u00edduos enquanto indiv\u00edduos n\u00e3o t\u00eam direitos, e \u201co povo\u201d \u00e9 concebido como uma qualidade, uma entidade monol\u00edtica que exprime \u201ca vontade comum\u201d (ECO, 2018, p.,42).<\/p>\n<p>A cadela do fascismo est\u00e1 sempre no cio<\/p>\n<p>Com a exposi\u00e7\u00e3o feita anteriormente, em formas de caracter\u00edsticas pseudo-filos\u00f3ficas, psicol\u00f3gicas e emocionais, a d\u00favida inicial se torna mais clara, pass\u00edvel de vestir-se como perguntas. Qual a rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-econ\u00f4mica com a possibilidade de denomina\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias fascistas?A falta de alguns destes &#8216;elementos arqu\u00e9tipos&#8217; n\u00e3o seria fruto da m\u00e1 utiliza\u00e7\u00e3o do termo?<\/p>\n<p>A respeito da primeira quest\u00e3o, \u00e9 vi\u00e1vel compreender da seguinte maneira: \u00e9 imposs\u00edvel que seja reprisado o evento do Nazismo sem que as condi\u00e7\u00f5es pontuais da filosofia nazista e seus objetivos muito espec\u00edficos sejam replicados. Desse modo, fora da Alemanha, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de repeti\u00e7\u00e3o deste fen\u00f4meno; s\u00f3 existiu um nazismo. As experi\u00eancias fascistas da Ucr\u00e2nia, ou de supremacistas brancos ao redor do mundo, n\u00e3o podem, por isso, admitir o car\u00e1ter nazista, sen\u00e3o como neonazismo \u2014 a ent\u00e3o defini\u00e7\u00e3o usada \u2014; uma adapta\u00e7\u00e3o de conceitos muito espec\u00edficos. O que n\u00e3o ocorre com o fen\u00f4meno simples do fascismo.<\/p>\n<p>\u201cO fascismo tem caracter\u00edsticas diversas em diferentes pa\u00edses. No entanto, tem duas caracter\u00edsticas distintivas em todos os pa\u00edses, a saber, a pretens\u00e3o de um programa revolucion\u00e1rio, que \u00e9 habilmente adaptado aos interesses e demandas das grandes massas, e, por outro lado, a aplica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia mais brutal.\u201d (Zetkin, 1923).<\/p>\n<p>Quer dizer, \u00e9 poss\u00edvel jogar com o termo de muitas maneiras sem que mude o nome. Na no\u00e7\u00e3o de \u201cFascismo\u201d ocorre algo semelhante \u00e0 no\u00e7\u00e3o de jogo (ECO, 2018).<\/p>\n<p>Qual a defini\u00e7\u00e3o de jogo? Existem muitas qualidades de jogos, jogos que s\u00e3o jogados individualmente, em duplas, em grupos limitados ou n\u00e3o. Podem existir objetivos particulares preestabelecidos ou nenhum, pode vir a ser competitivo ou nem isso. Podem vencer, obtendo-se pr\u00eamios, somente risadas, ou a morte. H\u00e1 jogos em que \u00e9 melhor n\u00e3o vencer. Seriam &#8220;[&#8230;] os jogos, assim como o fascismo, uma s\u00e9rie de atividades diversas que apresentam apenas alguma \u201csemelhan\u00e7a de fam\u00edlia\u201d?<\/p>\n<p>Vejamos. Suponhamos que exista uma s\u00e9rie de grupos pol\u00edticos. Estes grupos s\u00e3o caracterizados pelos aspectos emocionais e psicol\u00f3gicos, semelhante \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o que fiz acima.<br \/>\nO evento 1 \u00e9 caracterizado pelos \u201caspectos pol\u00edticos e hist\u00f3ricos\u201d abc;<br \/>\no evento 2 pelos \u201caspectos pol\u00edticos e hist\u00f3ricos\u201d bcd;<br \/>\no evento 3 possui \u201caspectos pol\u00edticos e hist\u00f3ricos\u201d cde;<br \/>\no evento 4, do mesmo modo, def.<\/p>\n<p>Vejamos que o evento 2 possui semelhan\u00e7a ao evento 1 na medida em que tem dois \u201caspectos pol\u00edticos e hist\u00f3ricos\u201d em comum, ou seja, b, c. O grupo 3 \u00e9 semelhante ao 2 em c, d; e o 4 \u00e9 semelhante ao 3 pela mesma raz\u00e3o: e, f. O evento 3 tamb\u00e9m \u00e9 semelhante, em \u201caspectos pol\u00edticos e hist\u00f3ricos\u201d ao 1, t\u00eam em comum o aspecto c. O caso mais curioso \u00e9 dado pelo evento 4, obviamente semelhante ao evento 3 e ao evento 2, mas sem nenhuma caracter\u00edstica em comum com o evento 1. Apesar desta n\u00e3o contiguidade entre o evento 1 e o evento 4, em virtude da ininterrupta s\u00e9rie de similaridades entre os eventos 1 e 4 \u00e9 poss\u00edvel estabelecer uma esp\u00e9cie de \u201ctransitoriedade ilus\u00f3ria\u201d, um ar de familiaridade entre o 4 e o 1. Que faz com que Nacional-Socialismo e o Franquismo sejam semelhantemente fascistas, embora diferentes em sua configura\u00e7\u00e3o interna. Sendo as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, sociais e econ\u00f4micas que promovem estas modifica\u00e7\u00f5es no n\u00facleo interno do \u201cjogo fascista\u201d.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a no\u00e7\u00e3o de fascismo enquanto jogo de linguagem, inspirada no segundo Wittgenstein, incorre em duas problem\u00e1ticas. A saber: em primeiro lgar, assim como \u201cjogo\u201d, o termo \u201cfascismo\u201d n\u00e3o \u00e9 um ju\u00edzo secreto, que \u00e9 compreendido por ser utilizado. Ele torna-se semelhante \u00e0 no\u00e7\u00e3o wittgensteiniana de jogo apenas quando incorporado \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de fen\u00f4meno de car\u00e1ter \u201ceterno\u201d, de ferramenta, que sempre pode manifestar-se \u2014 como na frase de Brecht que titula esta parte. O uso da linguagem e o funcionamento da totalidade social s\u00e3o igualmente simb\u00f3licos e convencionais, e n\u00e3o naturalmente assentados. Lembremo-nos que o grande trabalho de Marx \u00e9 tamb\u00e9m o de demonstrar o equ\u00edvoco em compreender fen\u00f4menos sociais como naturais.<\/p>\n<p>A segunda problem\u00e1tica surge quando, ao incorporar o fen\u00f4meno de \u201cno\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia\u201d, procede que muitos ou todos os eventos pol\u00edticos podem vir a compartilhar da denomina\u00e7\u00e3o de fascista; mas isso s\u00f3 ocorre quando uma abstra\u00e7\u00e3o muito geral, de aspectos emocionais, torna-se a conclus\u00e3o da ideia, ou seja, ocorre sem verificar as bases hist\u00f3ricas que fundam a natureza do fen\u00f4meno. Tais que s\u00e3o tr\u00eas muito b\u00e1sicas e j\u00e1 referenciadas anteriormente acima, al\u00e9m dos aspectos psicol\u00f3gicos e emocionais apresentados.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es materiais do despertar fascista, em que manifestam-se os aspectos emocionais e psicol\u00f3gicos, analisando os diversos casos hist\u00f3ricos, t\u00eam sua natureza, sobretudo, em uma burguesia que oferece todas as for\u00e7as sob seu comando a servi\u00e7o do fascismo, pois mesmo a democracia recitativa, fundada na desigualdade social, j\u00e1 n\u00e3o pode preservar uma alternativa ao capital.<br \/>\nUm ideal autorit\u00e1rio de aparelhamento estatal a servi\u00e7o de um l\u00edder, que, apesar das reivindica\u00e7\u00f5es de uni\u00e3o do trabalhador com o capitalista, na tentativa de estabelecer um Estado que transcenda a quest\u00e3o de luta de classes, inevitavelmente caminha para o \u201cfascismo existente\u201d. &#8220;O antagonismo de classes come\u00e7a a permear at\u00e9 mesmo as fileiras dos fascistas. Os fascistas n\u00e3o conseguem cumprir as promessas que fizeram aos trabalhadores e aos sindicatos fascistas. Redu\u00e7\u00f5es salariais e demiss\u00f5es de trabalhadores est\u00e3o na ordem do dia. Assim acontece que o primeiro protesto contra o movimento sindical fascista veio das fileiras dos pr\u00f3prios fascistas (Zetkin 1923).<br \/>\nE, por \u00faltimo, que tenha como fundamento e fim o nacionalismo e o combate ao socialismo \u2014 por isso o Nacional-Socialismo deixa de ser \u201csocialismo\u201d quando \u00e9 \u201cNacional\u201d, fato compreendido muito bem pelos burgueses que acrescentaram esse prefixo (PONTY, 1980).<\/p>\n<p>\u201cO velho italiano resumiu o que passamos nos dias de hoje\u201d<\/p>\n<p>Gramsci, em suas interpreta\u00e7\u00f5es sobre as coisas, descreve o fascismo, que o prendeu at\u00e9 a morte, como n\u00e3o propriamente distante do estado democr\u00e1tico. Segundo ele, \u201c(\u2026) democracia e fascismo s\u00e3o dois aspectos de uma mesma realidade, duas formas distintas de uma mesma a\u00e7\u00e3o, a a\u00e7\u00e3o de classe que a burguesia empreende para conter o avan\u00e7o da classe trabalhadora (\u2026) Somente a hist\u00f3ria italiana dos \u00faltimos anos oferece uma demonstra\u00e7\u00e3o desta tese sem erros. (GRAMSCI, 1977, p., 163 \u2014 tradu\u00e7\u00e3o minha)\u201d. Quer dizer, a apar\u00eancia democr\u00e1tica n\u00e3o impede, tampouco assegura, a estabilidade estrutural da liberdade civil e da igualdade. Acaba sendo, como concluiu Merleau-Ponty, muito mais uma posi\u00e7\u00e3o moral de defesa de alguma liberdade naturalmente dada do que propriamente uma investida estrutural em rela\u00e7\u00f5es de desigualdade.<\/p>\n<p>Gramsci tamb\u00e9m n\u00e3o somente define a natureza cancer\u00edgena da democracia, que tende como uma c\u00e9lula a autodestruir-se, mas tamb\u00e9m conclui, sobre a complexidade hist\u00f3rica, que \u201c(\u2026) no movimento hist\u00f3rico n\u00e3o se volta nunca atr\u00e1s\u201d, ou ao menos \u201cn\u00e3o h\u00e1 restaura\u00e7\u00e3o \u2018in toto\u2019\u201d (GRAMSCI, 1977).<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, com a ofensiva bolsonarista aos fr\u00e1geis pilares da democracia brasileira, uma s\u00e9rie de contrarrespostas tem aparecido. Amea\u00e7as de velhos fantasmas, o partido fardado que conclama poder sobre outros poderes e manifesta\u00e7\u00f5es apoiadas pelo pr\u00f3prio presidente da rep\u00fablica desencadearam no autoproclamado movimento antifascista. A internet, maior representante da racionalidade tecnol\u00f3gica em tempos atuais, n\u00e3o deixou de memeficar essa luta. Tanto de um lado quanto de outro. Junto disso tudo, a incompreens\u00e3o se faz presen\u00e7a. Assim, como nos dizeres de Clara Zetkin, agora \u00e9 escancarada a nossa \u201cvagueza de ideias\u201d \u2014 qui\u00e7\u00e1 mais que em 1923. E convenhamos: n\u00e3o \u00e9 muito cauteloso brigar com os olhos fechados.<\/p>\n<p>Acredito que seria n\u00e3o s\u00f3 fr\u00e1gil, bem como insuficiente, cientificamente, apontar como atitudes efetivamente fascistas a &#8220;encena\u00e7\u00e3o \u00e0 Goebbels&#8221; por parte do ex-secret\u00e1rio da cultura; interpretar os copos de leite como alus\u00e3o \u00e0 Alt-Rigth; ou utilizar do fato de o presidente ter compartilhado a frase do Mussolini nestas \u00faltimas semanas. Me parece que o \u00f3bvio \u00e9 mais evidente que isto. Estas demonstra\u00e7\u00f5es e, talvez, ocasionalidades, interpretadas como atitudes perversas e reveladoras n\u00e3o se oferecem como a caracteriza\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno fascista presente no governo Bolsonaro. S\u00e3o, e somente podem ser, sintomas de um espec\u00edfico modo de organiza\u00e7\u00e3o social, contiguidades de um fundamento velado; realiza\u00e7\u00e3o de algo que j\u00e1 trazia consigo. Somente com elas n\u00e3o abrimos as cortinas para apontar qual \u00e9 o terreno que precede a assun\u00e7\u00e3o da identidade fascista. Consequentemente n\u00e3o conseguiremos combat\u00ea-lo por completo.<\/p>\n<p>Enquanto escrevo esse artigo, o presidente da rep\u00fablica \u201cchama manifestantes pr\u00f3-democracia de \u2018marginais, terroristas, desocupados e maconheiros&#8217;\u201d. Ele identifica os &#8220;pr\u00f3-democratas&#8221; como conspiracionistas, que &#8220;p\u00f5em suas mangas para fora&#8221;. Sua base pol\u00edtica busca aprovar a tipifica\u00e7\u00e3o do movimento \u201cantifa\u201d como terrorismo atrav\u00e9s da PL 3019\/2020. Ademais, o seu guru filos\u00f3fico classifica sua &#8220;brandura&#8221; como covardia, pressionando-o e requerendo dele mais firmeza. Apesar de uma est\u00e9tica que n\u00e3o deixa por adequar-se \u00e0s particularidade hist\u00f3ricas, sem jamais cometer o erro de reproduzir um outro passado, sen\u00e3o como farsa, o bolsonarismo \u00e9 uma nova m\u00e1scara de um velho rosto. Apenas um pouco variado culturalmente no modo de express\u00e3o dos semelhantes arqu\u00e9tipos psicol\u00f3gicos e emocionais expostos acima. Economicamente, apoia libera\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos aos empres\u00e1rios, reabertura do com\u00e9rcio durante uma das maiores crises de sa\u00fade dos \u00faltimos tempos, inclusive recontando oficialmente os dados de morte e infec\u00e7\u00e3o. A natureza desvelada do fen\u00f4meno pol\u00edtico do governo Bolsonaro encontra-se em uma ant\u00edtese que n\u00f3s, comunistas, estudamos h\u00e1 muitos anos, cristalizada sob a convic\u00e7\u00e3o do presidente: que o que mais lhe preocupa \u00e9 a morte de CNPJs. Em outras palavras, uma frente econ\u00f4mica preparada a amparar os que mais t\u00eam sobre os que quase nada possuem, n\u00e3o importando quais sejam os custos.<\/p>\n<p>Perdoado e jamais esquecido<\/p>\n<p>\u201cBolsonarismo\u201d n\u00e3o merece ser recordado como terminologia. N\u00e3o tem dignidade, import\u00e2ncia e grandeza dentre as trag\u00e9dias humanas para ser distinguido; \u00e9 um grande erro da democracia suicida, que n\u00e3o necessariamente merece uma p\u00e1gina pr\u00f3pria na hist\u00f3ria. Merece apenas desaparecer. Nomear alguma coisa significa marcar algo ou ser marcado. Bolsonarismo \u00e9 um movimento que marcha assumindo-se id\u00eantico ao fascismo eterno, sempre cuidadoso. Mais uma express\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es materiais, das falhas e do que n\u00e3o se pode segurar. Que, por este motivo, deve ser perdoado, mas n\u00e3o esquecido da hist\u00f3ria. \u00c9 um exemplo da terribilidade nas coisas que n\u00e3o deveriam ser. N\u00e3o que o que tudo o que nela aconte\u00e7a mere\u00e7a ser, mas o que desaparece merece desaparecer (PONTY, 1980).<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil determinar e intuir o que pode ocorrer, o exerc\u00edcio pol\u00edtico n\u00e3o funciona com clarivid\u00eancia. Muito embora, a cada dia, caminhemos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do que j\u00e1 parecia estar realizado, em germe, em-si. Em maio de 1948, Marcuse, em uma carta endere\u00e7ada a Heidegger, criticando o posicionamento de seu antigo mestre de que n\u00e3o se deve justificar o in\u00edcio de um movimento pelo seu fim, afirma: &#8220;Sab\u00edamos, e eu mesmo vi, que no princ\u00edpio j\u00e1 continha o seu fim.&#8221; E \u00e9 assim, certas coisas carregam descaradamente em si o seu cruel desfecho.<\/p>\n<p>NOTAS REFERENCIAIS<\/p>\n<p>* Democracia Recitativa: \u00e9 um termo do pr\u00f3prio Emilio Gentile. Com isso, segundo ele, quer dizer: democracia de &#8220;recita&#8221;, Democracia de fachada, encena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>**Ur-fascismo \u00e9 o termo empregado por Umberto Eco para identificar uma certa natureza, um conceito de defini\u00e7\u00e3o nebulosa, do chamado fascismo eterno, ainda sobrevivente na contemporaneidade e diferente do fascismo original, por\u00e9m que n\u00e3o deixa de ser fascismo.<\/p>\n<p>Bibliografia<br \/>\nSobre a banaliza\u00e7\u00e3o do termo, segundo Emilio Gentile. https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2018\/10\/uso-banalizado-do-termo-fortalece-o-fascismo-afirma-historiador-italiano.shtml?aff_source=56d95533a8284936a374e3a6da3d7996<\/p>\n<p>ARENDT, H. Origens do Totalitarismo, 1989.<\/p>\n<p>ECO, U. O Fascismo Eterno, 2018.<\/p>\n<p>GRAMSCI, A. Cadernos do C\u00e1rcere, 1977.<\/p>\n<p>__________. Sobre el fascismo, 1977.<\/p>\n<p>Lenin, Que Fazer? Obras Escolhidas, 1986.<\/p>\n<p>MARCUSE, Correspondence with Martin Heidegger, 1947\u201348.<\/p>\n<p>MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da Percep\u00e7\u00e3o, 1999<\/p>\n<p>_________________. Os pensadores, 1980.<\/p>\n<p>ZETKIN, C. Fascim. In Labour Monthly, August 1923. &#8211; Vers\u00e3o em portugu\u00eas dispon\u00edvel em: https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/zetkin\/1923\/08\/fascismo.htm<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25675\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[222],"class_list":["post-25675","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6G7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25675","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25675"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25675\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25675"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25675"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25675"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}