{"id":25681,"date":"2020-06-10T22:34:41","date_gmt":"2020-06-11T01:34:41","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25681"},"modified":"2020-06-10T22:34:41","modified_gmt":"2020-06-11T01:34:41","slug":"reflexoes-fanonianas-sobre-a-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25681","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es fanonianas sobre a pandemia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2020\/06\/jones-manoel-pandemia-blog.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->A humanidade partida<\/p>\n<p>Por Jones Manoel<\/p>\n<p>Precisamos interromper o moinho de gastar gente e finalmente come\u00e7ar a pensar numa das principais tarefas da revolu\u00e7\u00e3o socialista no s\u00e9culo XXI: impedir a extin\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana a partir de um novo humanismo integral surgido das entranhas do poder popular e que conseguir\u00e1, finalmente, retirar o g\u00eanero humano do abismo da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>A pandemia \u00e9 um tempo de descobertas. V\u00e1rios analistas, jornalistas, economistas e pensadores liberais est\u00e3o descobrindo a determina\u00e7\u00e3o social do processo sa\u00fade-doen\u00e7a. Sim, pessoas da classe trabalhadora t\u00eam maior potencial de contra\u00edrem doen\u00e7as card\u00edacas, complica\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias, diabetes, hipertens\u00e3o e outros problemas. A s\u00edntese expressiva dessa realidade \u00e9 a diferen\u00e7a de expectativa de vida em bairros burgueses e bairros prolet\u00e1rios: em S\u00e3o Paulo, moradores de Cidade Tiradentes, no extremo leste do munic\u00edpio, podem viver at\u00e9 23,3 anos menos que os moradores de Moema, bairro \u201cnobre\u201d \u2013 isto \u00e9, burgu\u00eas! \u2013 da zona centro-sul. A classe n\u00e3o explica tudo, ela estrutura o todo.<\/p>\n<p>A classe, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o e no tempo. Ela tem concretude hist\u00f3rica e determinantes que fazem com que a classe trabalhadora, em pa\u00edses como a Fran\u00e7a, n\u00e3o seja exatamente a mesma no Brasil. Ambas s\u00e3o exploradas vendendo sua for\u00e7a de trabalho ao capital, por\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o iguais. Foi Marx, no livro III de O capital (editado pelas m\u00e3os de Engels), que chamou aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a mesma base econ\u00f4mica, o capitalismo, manifesta-se em \u201cinfinitas varia\u00e7\u00f5es e matizes\u201d, dadas as \u201ccircunst\u00e2ncias emp\u00edricas de diversos tipos\u201d como \u201ccondi\u00e7\u00f5es naturais, raciais, influ\u00eancias hist\u00f3ricas externas etc.\u201d (O capital, livro III, Boitempo, 2017, p. 852).<\/p>\n<p>Na particularidade hist\u00f3rica concreta do Brasil, \u00e9 imposs\u00edvel pensar o processo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista, as classes e suas lutas, sem os determinantes raciais, de g\u00eanero, s\u00f3cio-geogr\u00e1ficos e outros. As desigualdades de classe, historicamente, se concretizam a partir de uma materialidade racial e sexual. Tem raz\u00e3o Fanon ao provocar e dizer:<\/p>\n<p>\u201cNas col\u00f4nias, a infraestrutura econ\u00f4mica \u00e9 tamb\u00e9m uma superestrutura. A causa \u00e9 consequ\u00eancia: algu\u00e9m \u00e9 rico porque \u00e9 branco, algu\u00e9m \u00e9 branco porque \u00e9 rico. \u00c9 por isso que as an\u00e1lises marxistas devem ser sempre ligeiramente distendidas, a cada vez que aborda o problema colonial. At\u00e9 mesmo o conceito de sociedade pr\u00e9-capitalista, bem estudado por Marx, deveria ser respondido aqui [\u2026]. Nas col\u00f4nias, o estranho vindo de fora se imp\u00f4s com ajuda dos seus canh\u00f5es e das suas m\u00e1quinas. A despeito da domestica\u00e7\u00e3o bem sucedida, apesar da apropria\u00e7\u00e3o, o colono continua sempre sendo um estranho. N\u00e3o s\u00e3o nem as f\u00e1bricas, nem as propriedades, nem a conta que caracterizam primeiramente a \u2018classe dirigente\u2019. A esp\u00e9cie dirigente \u00e9 primeiro aquela que vem de fora, aquela que n\u00e3o se parece com os aut\u00f3ctones, \u2018os outros\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Frantz Fanon, Os condenados da terra, 3\u00b0 reimpress\u00e3o (Minas Gerais, Editora UFJF, 2015), p. 56-7.<\/p>\n<p>A provoca\u00e7\u00e3o de Fanon n\u00e3o pode ficar restrita apenas ao mundo colonial. Sim, o colonialismo, uma ocupa\u00e7\u00e3o militar reproduzida por uma burocracia civil e policial, cria um universo segmentado e segregado no qual, em todas as dimens\u00f5es, a racializa\u00e7\u00e3o \u00e9 colocada de maneira expl\u00edcita e fundamental. Desde o n\u00edvel jur\u00eddico-pol\u00edtico at\u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano, a ra\u00e7a n\u00e3o explica tudo, mas estrutura o todo. Em pa\u00edses de origem colonial e formados a partir de 300 anos ou mais de escravid\u00e3o, a ra\u00e7a e a classe s\u00e3o unidas, e a classe se expressa a partir de determinantes raciais.<\/p>\n<p>\u201cLegalmente, constitucionalmente [brancos e homens de cor] t\u00eam os mesmos direitos e oportunidades. Na pr\u00e1tica, o negro, os mulatos encontram no Brasil numerosas limita\u00e7\u00f5es. \u00c9 imposs\u00edvel dizer onde estas s\u00e3o impostas por motivos de ordem racial ou de classe. Porque a quase totalidade da popula\u00e7\u00e3o negra do Brasil pertence \u00e0s camadas prolet\u00e1rias ou semiprolet\u00e1rias\u201d<\/p>\n<p>Rui Fac\u00f3, Brasil S\u00e9culo XX (Rio de Janeiro, Editorial Vit\u00f3ria, 1960, p 23-4.<\/p>\n<p>A pandemia tamb\u00e9m \u00e9 um momento de descoberta para alguns de que o mito da democracia racial \u00e9, veja bem\u2026 um mito. Segundo o boletim epidemiol\u00f3gico da prefeitura de S\u00e3o Paulo de 30 de abril, pessoas negras t\u00eam 62% a mais de chances de morrer pela covid-19 do que as brancas. A combina\u00e7\u00e3o de mulher, negra e trabalhadora \u2013 um cruzamento dos principais complexos determinantes da realidade material \u2013 revelaria n\u00fameros ainda mais dram\u00e1ticos.<\/p>\n<p>A den\u00fancia dessa realidade, por mais fundamental que seja, n\u00e3o vai resolver o problema agora. \u00c9 um problema que s\u00f3 se resolve, ou melhor, s\u00f3 come\u00e7a a se resolver com uma revolu\u00e7\u00e3o: a constru\u00e7\u00e3o do poder popular e algumas guilhotinas para a burguesia \u2013 permita-me usar uma met\u00e1fora jacobina, j\u00e1 que essa, mesmo para o liberalismo de esquerda reinante, ainda \u00e9 aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Esse problema, que em nossa terra tem nome e sobrenome \u2013 capitalismo dependente \u2013 est\u00e1 escancarado. \u00c9 como uma ferida que sangra. Fanon afirmou que a desaliena\u00e7\u00e3o do negro, fruto da pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria, precisa de uma s\u00fabita tomada de consci\u00eancia das \u201crealidades econ\u00f4micas e sociais\u201d. Essa realidade passa por um duplo processo \u2013 \u201cinicialmente econ\u00f4mico\u201d \u2013 e \u201cem seguida pela interioriza\u00e7\u00e3o, ou melhor, pela epidermiza\u00e7\u00e3o dessa inferioridade\u201d (Frantz Fanon, Pele negra, m\u00e1scaras brancas, Bahia, ADUFBA, 2008, p. 28). As formas de ser do capitalismo dependente, assumidas como naturais, invis\u00edveis, biol\u00f3gicas, ficam expostas em momentos como este: a exce\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a pandemia, nos permite ver com mais clareza a regra da explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o cotidiana.<\/p>\n<p>As estruturas de desigualdade e domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o se explicitam apenas no n\u00edvel interno de cada pa\u00eds, tamb\u00e9m v\u00eam \u00e0 tona de maneira escancarada em n\u00edvel global. Os pa\u00edses da periferia do sistema capitalista foram destru\u00eddos por d\u00e9cadas de programas de moderniza\u00e7\u00e3o recomendados (um eufemismo para dizer \u201cempurrados goela abaixo\u201d) pelo FMI, o Banco Mundial, os doutores das faculdades de economia e os pol\u00edticos com \u201cresponsabilidade fiscal\u201d que potencializaram a pobreza, desigualdade, mis\u00e9ria, fome e precariedade de servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade, saneamento, qualidade da moradia, assist\u00eancia social. Resultado? Uma incapacidade estrutural de responder \u00e0s demandas de controle do v\u00edrus \u2013 incapacidade aumentada por uma burguesia in\u00fatil e que n\u00e3o serve para nada.<\/p>\n<p>Teremos, ao que parece, muitos cen\u00e1rios como o que temos visto em Guayaquil. A cidade equatoriana \u00e9 um filme de terror onde, depois de milhares de corpos nas ruas, com o poder p\u00fablico sem conseguir recolher adequadamente todos os mortos, urubus sobrevoam os c\u00e9us sentindo o cheiro da morte. Os Estados Unidos, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e3o satisfeitos com esse c\u00e9u de urubus. Querem muito mais. No concerto das na\u00e7\u00f5es, alguns pa\u00edses s\u00e3o plenamente soberanos e outros s\u00e3o povos racializados, dominados pelo imperialismo, amea\u00e7ados, atacados, violados e bloqueados.<\/p>\n<p>No meio da pandemia, o governo estadunidense intensificou o bloqueio econ\u00f4mico contra S\u00edria, Cuba, Venezuela, Ir\u00e3 e Coreia Popular. As autoridades internacionais, como a OMS, recomendam suspender o bloqueio. Seria um ato humanit\u00e1rio, mas quem \u00e9 ing\u00eanuo suficiente para esperar humanidade do imperialismo? O comandante Che Guevara j\u00e1 avisou que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel confiar no \u201cimperialismo nem um tantinho\u201d, e nos avisava da \u201cbestialidade do imperialismo\u201d. Mas quem, fora os comunistas acusados de \u201cradicais demais\u201d, poderia esperar ver cenas do Imp\u00e9rio estadunidense, o grande exemplo de Adolf Hitler, roubando aparelhos respiradores e de UTI e material m\u00e9dico hospitalar do mundo todo?<\/p>\n<p>S\u00f3 que tudo pode piorar. No meio da maior pandemia das \u00faltimas d\u00e9cadas, os Estados Unidos t\u00eam envolvimento direto numa tentativa de invas\u00e3o militar na Venezuela realizada por mercen\u00e1rios gringos e associados \u2013 os \u201cRambos\u201d da vida real. Os mercen\u00e1rios, numa hist\u00f3ria \u00e9pica t\u00edpica do realismo fant\u00e1stico da vida pol\u00edtica da Am\u00e9rica Latina, s\u00e3o capturados por pescadores locais membros da mil\u00edcia bolivariana. Os trabalhadores e trabalhadoras, todos negros, pardos, ind\u00edgenas, dan\u00e7am e comemoram o feito. Um gosto bom de Vietn\u00e3 e de Ba\u00eda dos Porcos vem \u00e0 mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tudo isso, quando \u00e9 noticiado, \u00e9 feito sem condena\u00e7\u00e3o moral, prega\u00e7\u00f5es sobre democracia e direitos humanos, defesa do humanismo e da solidariedade. No m\u00e1ximo, a culpa \u00e9 personalizada na figura do presidente Trump. O Imp\u00e9rio pode tudo, massacrar a todos, atuar como uma SS nazista de alcance planet\u00e1rio e, no final, assim como a destrui\u00e7\u00e3o da L\u00edbia, tudo vira apenas mem\u00f3ria de alguns poucos militantes. Os b\u00e1rbaros, os violadores dos direitos humanos e da democracia, est\u00e3o apenas no Sul do mundo.<\/p>\n<p>Por falar em Sul do mundo, muitos ainda n\u00e3o despertaram para o papel do intelectual colonizado \u2013 e eu amplio para a periferia do sistema como um todo \u2013, que \u00e9 \u201ccombater as mentiras colonialistas\u201d e \u201cmergulhar nas entranhas do seu povo\u201d (Os condenados da terra, p. 244) e continuam esperando as b\u00ean\u00e7\u00e3os e gra\u00e7as do Ocidente. Buscam ignorar, ou at\u00e9 ocultar, que China, Vietn\u00e3, Laos, Coreia Popular, Cuba e Venezuela s\u00e3o exemplos no combate \u00e0 covid-19. Ali\u00e1s, a Alemanha, mostrada como exemplo de sucesso, tem 5 mil mortes, e o Vietn\u00e3, pa\u00eds que faz fronteira com a China, tem menos de mil contaminados e at\u00e9 agora nenhuma morte.<\/p>\n<p>Essa nega\u00e7\u00e3o eurocentrada de reconhecer a fal\u00eancia do Ocidente e os m\u00e9ritos dos povos perif\u00e9ricos, em sua maioria governados por Partidos Comunistas, se apressa a partir de uma postura pseudocr\u00edtica: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel confiar nos dados desses pa\u00edses j\u00e1 que eles s\u00e3o ditaduras, n\u00e3o t\u00eam liberdade de express\u00e3o, o partido controla tudo, e viva 1984 de George Orwell. A quest\u00e3o b\u00e1sica e ignorada \u00e9 que os dados de pa\u00edses como China, Vietn\u00e3, Cuba e Coreia Popular, por exemplo, s\u00e3o atestados pela OMS e por institui\u00e7\u00f5es como a Universidade Johns Hopkins. Se os dados para esses pa\u00edses s\u00e3o falsos, por que os dados para It\u00e1lia, Fran\u00e7a e Inglaterra, s\u00f3 para ficar em alguns exemplos, seriam verdadeiros? N\u00e3o s\u00e3o as mesmas institui\u00e7\u00f5es com os mesmos crit\u00e9rios de valida\u00e7\u00e3o e checagem para todos os pa\u00edses do mundo?<\/p>\n<p>Esse princ\u00edpio da desconfian\u00e7a sem fundamento, ou tentar explicar o sucesso de pa\u00edses como China e Vietn\u00e3 pelo autoritarismo ou uma suposta cultura autorit\u00e1ria de toda \u00c1sia, \u00e9 o bom e velho racismo colonial. \u00c9 a incapacidade sistem\u00e1tica de aceitar que os pa\u00edses oriundos da periferia do capitalismo conseguem realizar um feito civilizat\u00f3rio que hoje Europa Ocidental e Estados Unidos s\u00e3o incapazes. \u00c9 inaceit\u00e1vel, para uma mente filo-ocidentalista, mesmo entre os marxistas, conceber que os herdeiros de Mao Ts\u00e9-Tung, Ho Chi Minh e Kim Il-Sung est\u00e3o melhores que os herdeiros de John Locke, Alexis de Tocqueville e o Bar\u00e3o de Montesquieu. Contudo, a realidade comprova isso a cada dia. Enquanto os Estados Unidos lutam para monopolizar e lucrar com a futura vacina da covid-19, a China j\u00e1 se comprometeu a distribuir de gra\u00e7a e universalmente qualquer vacina que desenvolver.<\/p>\n<p>A partir de tudo isso, a conclus\u00e3o que se encaminha \u00e9 inequ\u00edvoca. A humanidade, enquanto a unidade do g\u00eanero humano numa comunidade de interesses hist\u00f3rico-universais, n\u00e3o existe. \u00c9 uma potencialidade n\u00e3o realizada. A amea\u00e7a ao g\u00eanero humano como um todo, a exemplo da atual pandemia, n\u00e3o vai produzir um apagamento dessas contradi\u00e7\u00f5es dilacerantes. N\u00e3o existe coopera\u00e7\u00e3o real entre a maioria dos pa\u00edses para um enfrentamento global e coordenado ao v\u00edrus, assim como a classe dominante de cada pa\u00eds, quando n\u00e3o busca matar a for\u00e7a de trabalho sobrante, afirmando n\u00e3o querer \u201cparar a economia e preservar o emprego\u201d, adota medidas t\u00edmidas, longe do necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>O n\u00famero de mais de 300 mil mortos pela covid-19, sabidamente subnotificado, vai crescer at\u00e9 a escala dos milh\u00f5es at\u00e9 o final do ano. O Brasil, por exemplo, \u00e9 o segundo pa\u00eds com mais infectados no mundo \u2013 at\u00e9 o dia 02 de junho, 531 mil casos. Dada a aus\u00eancia de testes em massa, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que j\u00e1 podemos estar muito pr\u00f3ximos do primeiro, superando os Estados Unidos. Considerando os n\u00fameros atuais, \u00e9 l\u00edcito supor que, no final de agosto ou no meio de setembro, podemos ter uma m\u00e9dia de 10 mil mortos por dia. Quase todos negros, quase todos favelados, quase todos trabalhadores\/as. Enquanto isso, nos bairros \u201cnobres\u201d, dos nobres que escaparam de Robespierre e Toussaint Louverture, seguem-se as comemora\u00e7\u00f5es, festas chiques e o trabalho das empregadas dom\u00e9sticas negras.<\/p>\n<p>Tendo isso em mente, n\u00e3o consigo compreender o otimismo de quem imagina um mundo p\u00f3s-pandemia com a derrota do neoliberalismo ou uma realidade p\u00f3s-capitalista. Tal otimismo \u00e9 t\u00e3o irrefletido quanto o p\u00e2nico liberal, com charme foucaultiano, de um aumento do biopoder do Estado e redu\u00e7\u00e3o da liberdade \u2013 engra\u00e7ado como 30 anos de congelamento do sal\u00e1rio e destrui\u00e7\u00e3o de direitos sociais e econ\u00f4micos, na cabe\u00e7a de certos \u201cpensadores cr\u00edticos\u201d, n\u00e3o reduziu a liberdade. O que defendemos? A intransig\u00eancia cr\u00edtica de Fanon.<\/p>\n<p>Ao debater com Octave Mannoni, Fanon recusa a atitude do psicanalista franc\u00eas de buscar exemplos de uma sociedade um pouco menos racista ou dizer que a Fran\u00e7a, se comparada com os Estados Unidos, tem \u201cmenos racismo\u201d. O intelectual da Revolu\u00e7\u00e3o Argelina diz que \u201cdefendemos, de uma vez por todas, o seguinte princ\u00edpio: uma sociedade \u00e9 racista ou n\u00e3o o \u00e9. Enquanto n\u00e3o compreendermos essa evid\u00eancia, deixaremos de lado muitos problemas\u201d; e completa dizendo que \u201c\u00e9 ut\u00f3pico procurar saber em que um comportamento desumano se diferencia de outro comportamento desumano\u201d (Pele negra, m\u00e1scaras brancas, p. 85).<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de imaginar um mundo um pouco melhor, uma humanidade um pouco regenerada, um capitalismo um pouco mais igual. Essa postura \u00e9 mais que in\u00f3cua, in\u00fatil e ing\u00eanua: ela \u00e9 contrarrevolucion\u00e1ria. O risco de guerras nucleares, cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas e doen\u00e7as globais, como a covid-19 e a fome que atinge quase 1 bilh\u00e3o de pessoas no mundo, pedem uma nega\u00e7\u00e3o radical da nega\u00e7\u00e3o da humanidade. Exigem um enfrentamento s\u00e9rio, global e sistem\u00e1tico ao capitalismo, colonialismo e neocolonialismo.<\/p>\n<p>Ainda na pol\u00eamica com Mannoni, Fanon levanta-se contra o argumento do psicanalista que defendia ser a explora\u00e7\u00e3o colonial e o racismo colonial diferente de outras formas de racismo e explora\u00e7\u00e3o. Ora, s\u00e3o diferentes? Sim, claro. Assim como o plantador de cacau de Costa do Marfim n\u00e3o \u00e9 explorado do mesmo jeito que o oper\u00e1rio italiano da Fiat. Todavia, se a diferen\u00e7a \u00e9 importante, a unidade \u00e9 fundamental. E o verdadeiro pensamento cr\u00edtico, entendendo o particular, busca n\u00e3o perder de vista o universal:<\/p>\n<p>\u201cTodas as formas de explora\u00e7\u00e3o se parecem. Todas elas procuram sua necessidade em algum decreto b\u00edblico. Todas as formas de explora\u00e7\u00e3o s\u00e3o id\u00eanticas pois todas elas s\u00e3o aplicadas a um mesmo \u201cobjeto\u201d: o homem. Ao considerar abstratamente a estrutura de uma ou outra explora\u00e7\u00e3o, mascara-se o problema capital, fundamental, que \u00e9 repor o homem no seu lugar.\u201d<\/p>\n<p>Frantz Fanon, Pele negra, m\u00e1scaras brancas, p. 87.<\/p>\n<p>Temos muitos motivos para defender uma revolu\u00e7\u00e3o e est\u00e1 cada vez mais claro que o capitalismo est\u00e1 nos levando para um beco sem sa\u00edda, com consequ\u00eancias irrecuper\u00e1veis. Os desafios cada vez mais globais s\u00e3o imposs\u00edveis de serem respondidos globalmente dentro das coordenadas atuais. A humanidade est\u00e1 partida, fraturada, patol\u00f3gica. Precisamos, rapidamente, acertar as contas com a nossa classe dominante, responsabiliz\u00e1-la por cada morte da covid-19, cada morte nas favelas, cada morte no campo, cada morte chamada de \u201cacidente de trabalho\u201d. Precisamos interromper o moinho de gastar gente e finalmente come\u00e7ar a pensar numa das principais tarefas da revolu\u00e7\u00e3o socialista no s\u00e9culo XXI: impedir a extin\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana a partir de um novo humanismo integral surgido das entranhas do poder popular e que conseguir\u00e1, finalmente, retirar o g\u00eanero humano do abismo da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Jones Manoel \u00e9 pernambucano, filho da Dona Elza e comunista de carteirinha. Come\u00e7ou sua milit\u00e2ncia na favela onde nasceu e cresceu, a comunidade da Borborema, construindo um cursinho popular, o Novo Caminho, junto com seu amigo Julio Santos (ele, Julio e outro amigo, Felipe Bezerra, foram os primeiros jovens da hist\u00f3ria de Borborema a entrar em uma universidade p\u00fablica). Depois de dois anos com o cursinho popular, passou a militar no movimento estudantil em paralelo ao seu curso de hist\u00f3ria na UFPE. Pouco tempo depois, ingressou nas fileiras da UJC (a juventude do PCB). Ativo no movimento estudantil at\u00e9 2016, hoje atua no movimento sindical e na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o popular. Mestre em servi\u00e7o social, atualmente \u00e9 professor de hist\u00f3ria, mant\u00e9m um canal no YouTube e participa do podcast Revolushow. Segue militante do PCB. Escreve para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2020\/06\/02\/a-humanidade-partida-reflexoes-fanonianas-sobre-a-pandemia\/\">A humanidade partida: reflex\u00f5es fanonianas sobre a&nbsp;pandemia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25681\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[197],"tags":[225],"class_list":["post-25681","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-saude","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Gd","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25681","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25681"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25681\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25681"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25681"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25681"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}