{"id":25689,"date":"2020-06-12T00:41:03","date_gmt":"2020-06-12T03:41:03","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25689"},"modified":"2020-06-12T00:41:03","modified_gmt":"2020-06-12T03:41:03","slug":"os-tres-espelhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25689","title":{"rendered":"Os tr\u00eas espelhos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2020\/06\/bandeira-neonazista-1.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>\u201cA treva enorme fitando, fiquei perdido receando,<br \/>\nD\u00fabio e tais sonhos sonhando que os ningu\u00e9m sonhou iguais.<br \/>\nMas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,<br \/>\nE a \u00fanica palavra dita foi um nome cheio de ais \u2013<br \/>\nEu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,<br \/>\nIsto s\u00f3 e nada mais.\u201d<\/p>\n<p>EDGAR ALLAN POE<\/p>\n<p>N\u00e3o se deve culpar o espelho pelas invers\u00f5es que ele nos mostra. Como disse Marx, a religi\u00e3o e o Estado s\u00e3o uma consci\u00eancia invertida porque s\u00e3o a consci\u00eancia de um mundo invertido.<\/p>\n<p>Por tr\u00eas vezes o espelho nos mostrou, mas seguimos fazendo a mesma pergunta que poetas e escritores ilustres j\u00e1 fizeram: quem \u00e9 esse estranho que me olha desde o espelho? N\u00e3o se deve culpar o espelho pelas invers\u00f5es que ele nos mostra. Nos espelhos, assim como na religi\u00e3o e na ideologia, o reflexo s\u00f3 pode ser constru\u00eddo a partir daquilo que no real se apresenta. Como j\u00e1 disse Marx, a religi\u00e3o e o Estado s\u00e3o uma consci\u00eancia invertida porque s\u00e3o a consci\u00eancia de um mundo invertido.<\/p>\n<p>Em 2016 o espelho mostrou, diante de um pais estarrecido, o Congresso cassando o mandato da presidente eleita em 2014 nos marcos da normalidade democr\u00e1tica \u2013 isto \u00e9, em uma elei\u00e7\u00e3o marcada pelo financiamento privado de campanha (naquele ano, ainda financiamento empresarial), com distribui\u00e7\u00e3o desigual de recursos e impedimentos ao acesso ao tempo de televis\u00e3o, constru\u00eddo sobre promessas e mentiras, com o descarado uso da m\u00e1quina governamental e a distribui\u00e7\u00e3o de cargos, favores e recursos. Vimos no espelho os deputados envoltos na bandeira nacional pronunciarem irracionalidades e preconceitos, elogiar torturadores e carrascos \u2013 tudo embrulhado grotescamente em sauda\u00e7\u00f5es \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0 moral e aos bons costumes.<\/p>\n<p>Ali estava o poder judici\u00e1rio, na figura do presidente do STF (l\u00e1 colocado por aqueles que seriam derrubados), garantindo que se cometeria o casu\u00edsmo e a ilegalidade na forma correta do rito legal. Ali estavam os poderosos meios de comunica\u00e7\u00e3o construindo narrativas sob a ditadura editorial que apenas faz aquilo que seus propriet\u00e1rios ordenam, filtrando a voz das ruas raivosas para que digam aquilo que a pauta determinava calmamente.<\/p>\n<p>Aquilo que aparecia na imagem grotesca foi, entretanto, pacientemente constru\u00eddo. Foram anos de pactos e concilia\u00e7\u00f5es, acordos e recuos: recuos para conciliar e concilia\u00e7\u00f5es para recuar ainda mais. Agora as v\u00edtimas oravam no altar do Estado democr\u00e1tico de direito que lhes respondia, como toda divindade que sai dos seres humanos e depois volta de forma estranhada e hostil, exigindo o sacrif\u00edcio de seus criadores para salvar a incorp\u00f3rea criatura.<\/p>\n<p>Em 2018 o espelho mais uma vez nos mostrou um pa\u00eds fraturado, violento, preconceituoso, irracional. Hordas marchavam pelas ruas com as camisas que um dia foram de sele\u00e7\u00f5es de artistas, que constru\u00edram sonhos e poemas com os p\u00e9s, mas agora serviam \u00e0 barb\u00e1rie e ao passado sangrento. Ali, tamb\u00e9m, estavam os ju\u00edzes, tramando ilegalidades, negando habeas corpus em nome da liberdade e rasgando a Constitui\u00e7\u00e3o enquanto a citavam \u2013 tudo \u00e0 maneira de um fluir de doutos discursos infind\u00e1veis, fundamentados em juristas famosos que citaram juristas famosos, na melhor tradi\u00e7\u00e3o da dogm\u00e1tica jur\u00eddica: conjurando a metaf\u00edsica de uma justi\u00e7a inexistente, como sacerdotes eg\u00edpcios que na sagrada pir\u00e2mide kelseniana, oficiam a morte como fosse o portal da vida eterna.<\/p>\n<p>Ali, tamb\u00e9m, as televis\u00f5es exerciam seu of\u00edcio. Mat\u00e9rias especiais, reportagens, debates de perguntas e respostas vazias, assim como a cadeira de que j\u00e1 dizia o que pensava de debates. Confundindo a nobre profiss\u00e3o de jornalistas com a da mera leitura de teleprompter, de especialistas em an\u00e1lise pol\u00edtica cuja \u00fanica especialidade \u00e9 parasitar bastidores, como pulgas no carpete do poder em busca de migalhas de mentiras com que esperam construir o p\u00e3o da verdade que apresentar\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi ali que vi as pulgas do carpete do poder central, vivendo no centro do Imp\u00e9rio nos EUA, perderem a compostura festejando aos gritos a vit\u00f3ria do fascismo diante dos sorrisos d\u00e9beis dos \u00e2ncoras de um navio encalhado na praia seca esperando a mar\u00e9 voltar.<\/p>\n<p>O deus democr\u00e1tico e de direito ungiria de legitimidade o vencedor, oriundo dos esgotos de um passado grotesco e alimentado pelo ressentimento de um presente incapaz de apresentar um futuro. O jogo de espelhos produziria mentiras pelas m\u00e3os digitais de milhares de rob\u00f4s tecendo os fios de pulsos construindo realidade paralelas. Mas quem \u00e9 o espelho para dizer de realidades constru\u00eddas que se imp\u00f5em ao real, sufocando-o e substituindo-o pela mentira? Alice, raivosa, sentencia que n\u00e3o pode ser real uma lebre tomando ch\u00e1 \u00e0 mesa do chapeleiro \u2013 justo ela, uma menina que cai pelo buraco atr\u00e1s de coelhos escravos de rel\u00f3gios, atravessa espelhos e divide o narguil\u00e9 com lagartas.<\/p>\n<p>Agora, tamb\u00e9m, vemos ju\u00edzes desconcertados escondidos sobre suas capas escuras como as suas almas vendidas, temerosos da vingan\u00e7a dos fantasmas que ajudaram a conjurar. Apresentadores apresentando suas desculpas, analistas analisando aquilo que suas an\u00e1lises ocultaram. \u00c2ncoras atordoados procurando no teleprompter o que dizer, mas um funcion\u00e1rio terceirizado digitou, como vingan\u00e7a, um poema de Edgar Alan Poe.<\/p>\n<p>De nada adianta renegar o espelho, como o b\u00eabado que tenta em v\u00e3o assentar o cabelo e lavar a noite insone que carrega nas l\u00e1grimas de seus olhos injetados. O pa\u00eds segue olhando assustado para o espelho e seu reflexo distorcido, n\u00e3o reconhece as cicatrizes e as rugas que colecionou e culpa a imagem.<\/p>\n<p>Enquanto isso, aqui do lado de fora do espelho, segue a macabra constru\u00e7\u00e3o. Feitores fazem estalar seus chicotes sobre os ombros de milhares de escravos sem direitos e aposentadoria, que arrastam os enormes blocos de pedra em suas bicicletas enquanto seus deuses de barro, aqueles nos quais haviam exilado sua for\u00e7a coletiva, se transformam em poeira impotente. As paredes continuam se erguendo cimentadas por corpos de mulheres assassinadas, de \u00edndios queimados, crian\u00e7as violadas e mortas por balas perdidas, meninos e meninas que o amor e o sexo indefinido assombram e precisaram ser purificadas e espancadas pela sagrada ira vingativa do Senhor, de multid\u00f5es de pessoas invis\u00edveis e cinzas que perambulam pelas ruas, dormem sob as pontes e se aglomeram na pra\u00e7a no escuro de uma noite sem fim.<\/p>\n<p>Agora o espelho nos mostra pela terceira vez o pa\u00eds. Ao fundo, a enorme constru\u00e7\u00e3o maligna toma suas formas quase finais. As paredes que cobrem os alicerces de ossos s\u00e3o naturalmente negras: forradas com a pele de ancestrais guerreiros, mat\u00e9ria prima barata do genoc\u00eddio di\u00e1rio e milenar. Suas torres, como minaretes, desafiam o c\u00e9u de um cinza chumbo e agourento.<\/p>\n<p>No ch\u00e3o se v\u00ea pentagramas e rabiscos, mapas e planos, um planisf\u00e9rio desenhado com giz de cera e uma ampulheta quebrada. Imagens de santos aos peda\u00e7os, animais mortos e dependurados ao lado de esqueletos humanos e \u00e1rvores calcinadas. Pela janela ao fundo vemos inc\u00eandios e numerosos ex\u00e9rcitos que marcham. Os estandartes que decoram as paredes trazem s\u00edmbolos que lembram uma conhecida marca roubada da tradi\u00e7\u00e3o hindu\u00edsta, al\u00e9m de frases em runas, s\u00e2nscrito e hebraico. A b\u00edblia sagrada descansa sobre a mesa ao lado de um saco de moedas com um punhal de prata enterrado em sua capa de couro de ovelha.<\/p>\n<p>No centro da imagem, Belzebu, cercado por asseclas insanos, ri.<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25689\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[7],"tags":[223],"class_list":["post-25689","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Gl","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25689","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25689"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25689\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25689"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25689"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25689"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}