{"id":25691,"date":"2020-06-12T00:44:08","date_gmt":"2020-06-12T03:44:08","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25691"},"modified":"2020-06-12T00:44:08","modified_gmt":"2020-06-12T03:44:08","slug":"quando-as-ruas-mostram-o-caminho-da-organizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25691","title":{"rendered":"Quando as ruas mostram o caminho da organiza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/pw\/ACtC-3dm7omXK_kXA0_1KqJmefW2CPQZHNvtq-sse0xB1FVxOtBtWSKAWgeDu6awd85ylVwF5FuRWlh9UvIU_k9jQQUHXF2cg6uDHbZBUDpjRaS9jH5Pn8BceSqya2wlF4G7xY8CiBSpSKdnMQU-6tkiDt2B=w958-h638-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Antonio Lima J\u00fanior*<\/p>\n<p>\u201cA rebeli\u00e3o de velho estilo, a luta de ruas com barricadas, que at\u00e9 1848 tinha sido decisiva em toda a parte, tornou-se consideravelmente antiquada.\u201d<br \/>\n(Friedrich Engels &#8211; Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o de 1895 de As Lutas de Classes em Fran\u00e7a de 1848 a 1850)<\/p>\n<p>Quem acompanhou os atos realizados no \u00faltimo domingo (07), marcados em todo o pa\u00eds contra o fascismo e em defesa da democracia, se impressionou com as cenas ocorridas em Fortaleza: um enorme aparato policial, t\u00edpico de uma guerra, para conter um pequeno n\u00famero de manifestantes que sequer conseguiu chegar, em sua maioria, ao local marcado, devido ao policiamento ostensivo no entorno, chegando a prender alguns dos que tentavam exercer seu direito de protesto, antes mesmo do ponto de in\u00edcio da manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das cenas mais chocantes \u00e9 de um grupo de manifestantes acuados numa rua, com policiais fortemente armados nos dois lados, munidos de seus escudos, praticamente prontos para um exterm\u00ednio do inimigo. As cenas mostram para que veio a pol\u00edtica do governo Camilo Santana (PT) em fortalecer o aparato repressor do Estado, aparato este que est\u00e1 constantemente nas periferias, tanto que, nos \u00faltimos meses, o Cear\u00e1 bateu recordes de mortes por interven\u00e7\u00e3o policial, com 35 mortes registradas em abril, em meio ao per\u00edodo de isolamento.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o governo do Partido dos Trabalhadores, que entrega um plano de retomada da economia para atender \u00e0s demandas dos empres\u00e1rios e repele um ato pr\u00f3-democracia com o maior aparato policial poss\u00edvel, digno dos tempos de ditadura militar. Mas aqui viemos para refletir exatamente sobre as t\u00e1ticas de luta diante de tal aparato, visto que ficou percept\u00edvel a fragilidade do movimento, pequeno, de resistir diante da repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Voltemos ent\u00e3o ao ano de 1895, quando Friedrich Engels, ao escrever a introdu\u00e7\u00e3o da nova edi\u00e7\u00e3o do livro \u201cAs lutas de classes na Fran\u00e7a\u201d de Marx, que analisa o per\u00edodo de movimenta\u00e7\u00e3o social entre 1848 a 1850, refletiu sobre a fragilidade das lutas de barricadas travadas pelos insurgentes contra o aparato do Estado. Engels j\u00e1 apontava como \u201co armamento deste n\u00famero enormemente refor\u00e7ado de tropas torna-se incomparavelmente mais eficaz\u201d diante das prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de rea\u00e7\u00e3o por parte dos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Engels mostra como a \u201cburguesia se tinha passado para o lado dos governos\u201d e por isso mesmo armava os soldados contra as insurrei\u00e7\u00f5es, perdendo qualquer apre\u00e7o pelas barricadas. Assim, &#8220;o soldado j\u00e1 n\u00e3o via atr\u00e1s dela o povo, mas sim rebeldes, agitadores, saqueadores, partilhadores, esc\u00f3ria da sociedade&#8221;. Nada diferente do policial de hoje que, acostumado a entrar na favela de caveir\u00e3o, trata os manifestantes da mesma maneira, mostrando sua posi\u00e7\u00e3o de servi\u00e7al da classe burguesa e do Estado.<\/p>\n<p>Diante da diferen\u00e7a abissal no enfrentamento entre o povo e a guarda, Engels coloca em quest\u00e3o a luta de rua. &#8220;Quer isto dizer que no futuro a luta de ruas deixar\u00e1 de ter import\u00e2ncia? De modo nenhum. Significa apenas que desde 1848 as condi\u00e7\u00f5es se tornaram muito mais desfavor\u00e1veis para os combatentes civis, muito mais favor\u00e1veis para a tropa&#8221;. Tal argumenta\u00e7\u00e3o, completada no resto do texto sobre as formas de luta, foi utilizada pelos reformistas para defender a inefic\u00e1cia da revolu\u00e7\u00e3o e a sa\u00edda estritamente parlamentar. Entretanto, o que Engels aponta \u00e9 a necessidade de repensar a estrat\u00e9gia da luta de rua de uma outra maneira, para n\u00e3o perdermos mais dos nossos diante da guerra contra o fortemente armado Estado.<\/p>\n<p>O que vemos com o ocorrido em Fortaleza \u00e9 como um ato pode ser mantido ou superado conforme a for\u00e7a do aparato repressor do Estado. Na capital cearense, os militantes sequer conseguiram chegar no local de encontro, numa megaopera\u00e7\u00e3o policial no entorno do local, dificultando o acesso das pessoas. A fragilidade das organiza\u00e7\u00f5es ao construir o ato e a falta de ades\u00e3o mostram que o Estado, quando quer, pode impedir uma manifesta\u00e7\u00e3o sem sequer chegar ao confronto. Num cen\u00e1rio de ades\u00e3o das massas e de poss\u00edvel enfrentamento, a emenda pode sair pior que o soneto, com uma repress\u00e3o tamanha. N\u00e3o podemos esquecer as possibilidades do cen\u00e1rio da conjuntura, onde uma Garantia da Lei e da Ordem pode desmontar um ato antes mesmo de ele acontecer, jogando a conta nos organizadores. A lista apresentada pelo deputado bolsonarista \u00e9 uma amea\u00e7a, com a Pol\u00edcia Federal a servi\u00e7o da criminaliza\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Para Engels, &#8220;uma futura luta de ruas s\u00f3 poder\u00e1 triunfar se esta situa\u00e7\u00e3o desvantajosa for compensada por outros fatores&#8221;. Como um grande estrategista, muitas vezes ignorado e taxado como ap\u00eandice de Marx, o que Engels nos mostra s\u00e3o as outras possibilidades de enfrentar o Estado de forma organizada, num movimento \u00fanico, da\u00ed a necessidade da reflex\u00e3o nos tempos atuais de nos organizarmos melhor enquanto classe, superando certas tend\u00eancias espontane\u00edstas que fetichizam a derrota e o massacre por parte do inimigo contra n\u00f3s, como se fosse mais v\u00e1lido um militante m\u00e1rtir do que o militante vivo e que cumpra as tarefas do caminho para a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos cabe aqui debater sobre a legitimidade dos atos de rua, principalmente em tempos de encruzilhada com a pandemia. \u00c9 dever dos revolucion\u00e1rios apoiar e se somar com o conjunto da classe, entretanto, sem cair na submiss\u00e3o plena da vanguarda \u00e0 massa, mas sim apontando os caminhos e formas de superar as adversidades da conjuntura e dar um passo \u00e0 frente na luta contra o capitalismo.<\/p>\n<p>Um ato de rua, na forma cl\u00e1ssica que costumamos fazer, traz problemas que n\u00e3o podem ser resumidos no tratamento manique\u00edsta do debate sobre ir ou n\u00e3o ir para as manifesta\u00e7\u00f5es e criar aglomera\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso recordar a proposta da organiza\u00e7\u00e3o por territ\u00f3rios, a exemplo dos territ\u00f3rios sem medo, da Frente Povo Sem Medo, ou at\u00e9 mesmo com um exemplo nada agrad\u00e1vel, mas que tem muito a nos ensinar: quem mora em Fortaleza, na periferia, deve ter ouvido muitas queimas de fogos nos \u00faltimos dias. O crime organizado usa isso como forma de comunica\u00e7\u00e3o e de expor sua organicidade nos bairros, apontando os espa\u00e7os dominados pelas fac\u00e7\u00f5es. A li\u00e7\u00e3o que podemos ter com isso \u00e9 que, ao inv\u00e9s de mobilizar atos em um \u00fanico espa\u00e7o, prato cheio para a repress\u00e3o, podemos substituir por pequenos atos localizados nos bairros perif\u00e9ricos em que temos atua\u00e7\u00e3o. N\u00e3o adianta fazer protesto nas pra\u00e7as da elite; eles n\u00e3o nos querem l\u00e1 e v\u00e3o fazer de tudo para nos tirar dali. S\u00f3 com o povo organizado nas periferias podemos ousar n\u00e3o somente derrubar as est\u00e1tuas dos traficantes de escravos que ainda est\u00e3o respaldados pela hist\u00f3ria dos vencedores, mas marchar at\u00e9 os bairros nobres, recuperar e rebatizar as pra\u00e7as e ruas com os nomes dos grandes empres\u00e1rios que exploram historicamente nosso povo por nomes que verdadeiramente representam os nossos. Isso ainda s\u00e3o cenas dos pr\u00f3ximos epis\u00f3dios.<\/p>\n<p>Analisando a guerra de guerrilhas em 1906, Lenin \u00e9 enf\u00e1tico sobre aprender as novas formas de luta com a pr\u00e1tica das massas, sem a pretens\u00e3o de ensinar \u00e0s massas, mas entendendo a inevitabilidade dessas novas formas \u201ccom a modifica\u00e7\u00e3o da conjuntura social dada\u201d. \u201c\u00c9 uma tarefa dif\u00edcil, n\u00e3o h\u00e1 que dizer. N\u00e3o se pode resolv\u00ea-la de repente. Tal como todo o povo se reeduca e aprende na luta no decurso da guerra civil, assim tamb\u00e9m as nossas organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam de ser educadas, t\u00eam de ser reconstru\u00eddas, na base dos dados da experi\u00eancia, para cumprir esta tarefa\u201d, conclui o camarada.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, cabe aos revolucion\u00e1rios dialogar com a organiza\u00e7\u00e3o dos atos, sejam as torcidas organizadas, as antifas, etc., para pensar as t\u00e1ticas de combate sabendo dos poss\u00edveis cen\u00e1rios de repress\u00e3o, n\u00e3o como uma forma de recuo, mas como uma forma de atingir os objetivos do ato sem grandes avarias. A t\u00e1tica militar n\u00e3o pode ficar apenas no dom\u00ednio dos inimigos; \u00e9 nosso dever dominar essa arte. Os marxistas n\u00e3o servem para explicar a realidade de formas f\u00e1ceis, mas sim para enxergar as complexidades do real como formas de compreender melhor as possibilidades, sem cair em fatalismos. Do lado contr\u00e1rio da luta de classes, eles tratam cada movimento como num jogo de xadrez, onde preferem perder os pe\u00f5es para manter os reis, at\u00e9 que algu\u00e9m d\u00ea o xeque-mate.<\/p>\n<p>As palavras de Engels s\u00e3o esclarecedoras: &#8220;Compreende agora o leitor por que \u00e9 que os poderes dominantes querem pura e simplesmente levar-nos para l\u00e1 onde a espingarda dispara e o sabre talha? Por que \u00e9 que hoje nos acusam de covardia por n\u00e3o querermos ir sem mais nem menos para a rua onde sabermos de antem\u00e3o que a derrota nos espera? Por que \u00e9 que nos suplicam t\u00e3o insistentemente que sirvamos de carne para canh\u00e3o?&#8221;.<\/p>\n<p>* Jornalista, diretor da Associa\u00e7\u00e3o Cearense de Imprensa e militante do PCB e da Unidade Classista<\/p>\n<p>(Cr\u00e9dito da imagem: @movdifavela)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25691\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[222],"class_list":["post-25691","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Gn","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25691","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25691"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25691\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25691"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25691"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25691"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}