{"id":25693,"date":"2020-06-13T22:17:42","date_gmt":"2020-06-14T01:17:42","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25693"},"modified":"2020-06-13T22:17:42","modified_gmt":"2020-06-14T01:17:42","slug":"o-racismo-vem-no-pacote-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25693","title":{"rendered":"O racismo vem no pacote do capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pmcdeadline2.files.wordpress.com\/2020\/05\/shutterstock_editorial_10662535v.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Um manifestante empunha uma bandeira nacional invertida, um sinal de grande afli\u00e7\u00e3o e pedido de ajuda, perto de um edif\u00edcio em chamas, em Minneapolis, estado do Minnesota, EUA, durante os protestos pela morte de George Floyd. Cr\u00e9ditos: Julio Cortez \/ AP Photo.<\/p>\n<p>Por Jos\u00e9 Goul\u00e3o<\/p>\n<p>ABRIL ABRIL<\/p>\n<p>O assassinato de George Floyd coincide com uma tens\u00e3o social acumulada, e n\u00e3o apenas nos Estados Unidos, devido \u00e0 estrat\u00e9gia de confinamento e de descalabro econ\u00f4mico associada \u00e0 pandemia de COVID-19.<\/p>\n<p>A explos\u00e3o social em curso nos Estados Unidos na sequ\u00eancia da execu\u00e7\u00e3o policial e extrajudicial de George Floyd n\u00e3o \u00e9 nova num pa\u00eds que nasceu do massacre organizado e sistem\u00e1tico dos povos ind\u00edgenas do seu territ\u00f3rio. \u00c9 a revolta de oprimidos, explorados, discriminados e exclu\u00eddos por um sistema que n\u00e3o sabe \u2013 nem pode \u2013 funcionar de outra maneira: com base na viol\u00eancia e na intimida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A circunst\u00e2ncia de o mart\u00edrio de Floyd ter acontecido praticamente ao vivo, tal a velocidade de divulga\u00e7\u00e3o que o v\u00eddeo do crime adquiriu nas redes sociais e na internet em geral, tornou este exemplo de uma arbitrariedade policial que est\u00e1 na g\u00eanese das corpora\u00e7\u00f5es de \u00abseguran\u00e7a\u00bb dos Estados Unidos ainda mais dram\u00e1tico que outros do mesmo g\u00eanero distribu\u00eddos ao longo das d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Acresce que o assassinato de George Floyd coincide com uma tens\u00e3o social acumulada, e n\u00e3o apenas nos Estados Unidos, devido \u00e0 estrat\u00e9gia de confinamento e de descalabro econ\u00f4mico associada \u00e0 pandemia de COVID-19 e cujos m\u00e9ritos e dem\u00e9ritos ainda ter\u00e3o um dia de ser avaliados com distanciamento hist\u00f3rico \u2013 se houver condi\u00e7\u00f5es de liberdade e vontade para isso. A explos\u00e3o social \u00e9 uma consequ\u00eancia da agudiza\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias, adquire talvez uma express\u00e3o quantitativa e de intensidade diretamente proporcional \u00e0 gravidade dos acontecimentos mas, previsivelmente, ir-se-\u00e1 extinguindo n\u00e3o tanto como consequ\u00eancia da barb\u00e1rie da repress\u00e3o inerente ao regime, mas pela pr\u00f3pria falta de organiza\u00e7\u00e3o, da car\u00eancia de objetivos concretos, das infiltra\u00e7\u00f5es policiais violentas e provocat\u00f3rias e do assalto oportunista do aparelho do Partido Democr\u00e1tico ao controle dos movimentos. O mesmo partido\/regime que dias antes aprovara na C\u00e2mara dos Representantes, onde tem a maioria, uma lei autorizando o refor\u00e7o dos poderes policiais.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 ainda certo, apesar da gravidade da situa\u00e7\u00e3o, que assistiremos \u00e0 queda do fascista de plant\u00e3o na cabe\u00e7a do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>O racismo<br \/>\nSeguindo o roteiro habitual, que cataloga as coisas de forma superficial e as formata para f\u00e1cil consumo das grandes audi\u00eancias, a comunica\u00e7\u00e3o social dominante define genericamente os acontecimentos como manifesta\u00e7\u00f5es contra o racismo. Como se o racismo fosse um fen\u00f4meno isolado, sem contexto, e a densidade desta revolta fosse explicada unicamente pelo fato de um policial branco ter esmagado o pesco\u00e7o de um cidad\u00e3o negro \u2013 ali\u00e1s no pa\u00eds onde, como est\u00e1 provado, o regime mandou matar Martin Luther King. Agora \u00absomos todos Floyd\u00bb, como j\u00e1 fomos outras v\u00edtimas e institui\u00e7\u00f5es agredidas, mas improvavelmente a generosidade e a solidariedade ir\u00e3o mais uma vez dar em nada para que tudo continue na mesma e a sociedade em que vivemos permane\u00e7a intrinsecamente racista, xen\u00f3foba, discriminat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Porque \u00e9 de sua natureza; porque essa \u00e9 a ess\u00eancia do capitalismo, sobretudo depois de catapultado para um neoliberalismo selvagem e em estado de crise.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 maneira de combater eficazmente o racismo sem atacar organizadamente o capitalismo; assim como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel lutar pela paz ou atuar eficientemente contra as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas sem agir contra quem faz a guerra ou destr\u00f3i o planeta: o capitalismo.<\/p>\n<p>Racismo, viol\u00eancia policial, xenofobia, homofobia, discrimina\u00e7\u00e3o cultural, colonialismo, terrorismo, guerra, destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente s\u00e3o todos ramos da mesma \u00e1rvore; s\u00e3o inerentes a um sistema que continua no caminho da globaliza\u00e7\u00e3o e no qual as emerg\u00eancias de nacionalismos e fascismos correspondem a necessidades cada vez mais prementes de assegurar a sobreviv\u00eancia do pr\u00f3prio capitalismo.<\/p>\n<p>Entranhado na sociedade<br \/>\nO racismo est\u00e1 entranhado na hist\u00f3ria dos Estados Unidos da Am\u00e9rica e na sociedade capitalista em geral. Por isso, as declara\u00e7\u00f5es de aboli\u00e7\u00e3o ou as proclama\u00e7\u00f5es sobre a erradica\u00e7\u00e3o ficam muito aqu\u00e9m do combate efetivo a uma tal aberra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos a discrimina\u00e7\u00e3o racial foi tecnicamente abolida na segunda metade do s\u00e9culo passado, mas o racismo permanece como pilar essencial da sociedade. As comunidades afro-americana e latina s\u00e3o as principais v\u00edtimas das desigualdades e do desequil\u00edbrio social necess\u00e1rio ao funcionamento do sistema de m\u00e1ximo lucro. Os mecanismos s\u00e3o completos e podem expressar-se at\u00e9 de maneira perversa em termos de cor da pele ou de origens. O presidente Barack Obama, um negro, n\u00e3o contribuiu para aliviar a sociedade norte-americana da sua carga racista e discriminat\u00f3ria. Organizou guerras de \u00edndole colonial e imperial por raz\u00f5es discriminat\u00f3rias ditas civilizacionais para mascarar simplesmente o ato de saquear os mais fracos. Nos seus mandatos a viol\u00eancia policial continuou a assassinar negros como sempre fez em quaisquer administra\u00e7\u00f5es, democr\u00e1ticas ou republicanas.<\/p>\n<p>E temos o caso do famoso senador fascista Marco Rubio, um latino de origem cubana que est\u00e1 sempre na linha da frente entre os carrascos dos povos da Am\u00e9rica Latina \u2013 que o digam os de Cuba e os da Venezuela. O racismo, a xenofobia, a discrimina\u00e7\u00e3o v\u00e3o muito al\u00e9m da cor da pele. Ali\u00e1s, o capitalismo n\u00e3o olha propriamente para a cor da pele dos explorados, desde que o sejam.<\/p>\n<p>O assassinato b\u00e1rbaro de George Floyd foi o principal detonador da tens\u00e3o acumulada pelo inferno social criado por 38 milh\u00f5es de novos desempregados nos Estados Unidos em apenas algumas semanas, pelo fato de a tr\u00e1gica gest\u00e3o da pandemia ter atingido principalmente os mais vulner\u00e1veis e os mais necessitados, o que significa as comunidades minorit\u00e1rias afro-americana e latina. O racismo abriu o caminho de uma revolta social que, no limite, desestabilizaria o pr\u00f3prio sistema se este, na sua vers\u00e3o bipartid\u00e1ria totalit\u00e1ria, n\u00e3o dispusesse de um impressionante manancial de recursos para lhe fazer frente. E passar\u00e1 pela cabe\u00e7a de algu\u00e9m, olhando as encena\u00e7\u00f5es promovidas pelo Partido Democrata em honra de George Floyd, que uma eventual administra\u00e7\u00e3o de Joe Biden em 2021 iria combater o racismo e travar os assassinatos por viol\u00eancia policial?<\/p>\n<p>Vers\u00e3o europeia<br \/>\nDemonstrando as afinidades pr\u00e1ticas, ainda que nem sempre concordantes no plano do discurso, com o comportamento do regime de Washington, as institui\u00e7\u00f5es europeias n\u00e3o tiveram ainda uma palavra sobre a execu\u00e7\u00e3o de George Floyd. N\u00e3o basta declarar-se contra a pena de morte: \u00e9 preciso s\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Confirmando ainda que n\u00e3o existe qualquer sintonia entre os \u00f3rg\u00e3os instalados em Bruxelas e as popula\u00e7\u00f5es europeias, t\u00eam-se multiplicado manifesta\u00e7\u00f5es multifacetadas contra o racismo e de rep\u00fadio pelo assassinato de Floyd.<\/p>\n<p>O fato a real\u00e7ar neste quadro \u00e9 que n\u00e3o seria necess\u00e1rio \u00abimportar\u00bb casos de racismo e de viol\u00eancia dos Estados Unidos para motivar protestos na Europa. Do lado de c\u00e1 do Atl\u00e2ntico h\u00e1 raz\u00f5es de sobra para repudiar racismo, xenofobia, discrimina\u00e7\u00e3o, colonialismo e persegui\u00e7\u00f5es contra minorias sem necessidade de ir buscar inspira\u00e7\u00e3o pontual al\u00e9m-fronteiras.<\/p>\n<p>O tratamento institucional da Uni\u00e3o Europeia em rela\u00e7\u00e3o aos imigrantes, refugiados e os mais desfavorecidos em geral deveria suscitar a\u00e7\u00e3o e revolta constantes. A Europa \u00e9 um continente racista, colonialista, que usa e abusa, com discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia, do eurocentrismo cultural e civilizacional.<\/p>\n<p>Os muros, barreiras e cercas contra refugiados e imigrantes, as vergonhosas discuss\u00f5es entre governos sobre cotas de admiss\u00e3o de pessoas fugindo de guerras, quantas delas provocadas por pa\u00edses e entidades europeias, n\u00e3o suscitam socialmente a revolta que deveriam merecer.<\/p>\n<p>Passam em claro, como parte do velho normal, sucessivos casos de viol\u00eancia policial atrav\u00e9s da Europa contra bairros perif\u00e9ricos de grandes cidades, para onde s\u00e3o empurradas as comunidades marginalizadas pelo aparelho econ\u00f4mico triturador \u2013 uma discrimina\u00e7\u00e3o institucionalizada que nem sempre, mas tamb\u00e9m, se orienta pela cor da pele, a etnia, a nacionalidade da fam\u00edlia de origem.<\/p>\n<p>H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es limite, por\u00e9m, em que a invers\u00e3o de valores \u00e9 total. A participa\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00f5es europeias e de institui\u00e7\u00f5es como a Uni\u00e3o Europeia e a OTAN em guerras de agress\u00e3o contra pa\u00edses em n\u00edveis mais baixos de desenvolvimento, contra povos vulner\u00e1veis, s\u00e3o exemplos maiores de viol\u00eancia discriminat\u00f3ria. No entanto, escassas s\u00e3o as manifesta\u00e7\u00f5es populares massivas de rep\u00fadio e revolta. Pelo contr\u00e1rio, passa bem atrav\u00e9s da generalidade do tecido social a mensagem constru\u00edda pelos poderes, incluindo a comunica\u00e7\u00e3o c\u00famplice, de que se trata de atos humanit\u00e1rios, leg\u00edtimos e de elevado valor civilizacional.<\/p>\n<p>N\u00e3o se poupam, ali\u00e1s, os elogios p\u00fablicos ao envio de tropas europeias para antigas col\u00f4nias de v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es do continente com o objetivo de ir ensinar a esses povos, certamente ainda &#8220;inferiores&#8221;, que n\u00e3o devem guerrear-se entre si, sobretudo quanto mais perturbem o normal fluxo de riquezas naturais extorquidas a esses pa\u00edses e suas popula\u00e7\u00f5es pelos governos que enviam os militares. Eis uma forma de racismo que n\u00e3o \u00e9 racismo por supor que na\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es civilizadas que renegam oficialmente o racismo n\u00e3o pratiquem o racismo.<\/p>\n<p>Praticam, por\u00e9m, o capitalismo na sua vers\u00e3o mais selvagem. Inevitavelmente, a discrimina\u00e7\u00e3o, a xenofobia, o racismo est\u00e3o inclu\u00eddos no pacote de malfeitorias do sistema, por muito que os praticantes apregoem o contr\u00e1rio<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Goul\u00e3o, Exclusivo O Lado Oculto\/AbrilAbril<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25693\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[197],"tags":[219],"class_list":["post-25693","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-saude","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Gp","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25693","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25693"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25693\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25693"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25693"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25693"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}