{"id":25700,"date":"2020-06-16T17:16:00","date_gmt":"2020-06-16T20:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=25700"},"modified":"2020-06-16T17:16:00","modified_gmt":"2020-06-16T20:16:00","slug":"o-papel-do-dirigente-negro-na-luta-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25700","title":{"rendered":"O papel do dirigente negro na luta de classes"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.geledes.org.br\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/imagem_30_2738.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Minervino, de gravata borboleta, ao lado de Oct\u00e1vio Brand\u00e3o, em com\u00edcio do BOC (Bloco Oper\u00e1rio e Campon\u00eas)<\/p>\n<p>Por Matheus Rodrigues*<\/p>\n<p>Em tempos de pandemia, em que somos instados a ocupar as ruas diante do genoc\u00eddio por omiss\u00e3o e a\u00e7\u00e3o de um projeto fascista presidencial, dou in\u00edcio a esse texto homenageando duas figuras negras que est\u00e3o na hist\u00f3ria e deram exemplo para o povo brasileiro na luta pela emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>O primeiro reserva seu lugar indiscut\u00edvel na luta antirracista e pela emancipa\u00e7\u00e3o da sociedade, cujo nome estampa um coletivo, \u00e9 Minervino de Oliveira. Minervino foi militante do PCB, tendo sido eleito vereador no Rio de Janeiro em 1928. No ano seguinte, foi eleito secret\u00e1rio-geral da Confedera\u00e7\u00e3o Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB) e candidato pelo PCB pelo Bloco Oper\u00e1rio Campon\u00eas, coadunando os interesses nacionais e da classe trabalhadora brasileira.<\/p>\n<p>A segunda, coincidente tamb\u00e9m do Rio de Janeiro, \u00e9 a vereadora do PSOL, Marielle Franco, sumariamente assassinada em mar\u00e7o de 2018 por uma mil\u00edcia da capital, por denunciar a atua\u00e7\u00e3o destas fac\u00e7\u00f5es na explora\u00e7\u00e3o de moradores das comunidades e pela sua atua\u00e7\u00e3o orientada pelo socialismo na C\u00e2mara de Vereadores. Marielle, hoje, \u00e9 s\u00edmbolo internacional de luta. Uma mulher negra socialista, convicta dos seus ideais pelos quais lutou e foi executada.<\/p>\n<p>O racismo no Brasil \u00e9 implac\u00e1vel. N\u00f3s, negros, somos as principais v\u00edtimas da viol\u00eancia. N\u00e3o \u00e0 toa, os dados do Atlas da Viol\u00eancia apontam que 71,5% das v\u00edtimas assassinadas em 2018 foram negras. N\u00f3s, negros, representamos 54% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, mas somos os principais alvos de uma viol\u00eancia estrutural, inclusive, bem articulada dentro do Estado, a fim de promover um genoc\u00eddio atrav\u00e9s das suas for\u00e7as repressivas.<\/p>\n<p>No parlamento nacional brasileiro, representamos 17,8%. Nas prefeituras, 70% dos candidatos eleitos no primeiro turno foram brancos, ou seja, 30% do executivo municipal em 2016. Nas universidades brasileiras, somente 30% do quadro de professores s\u00e3o negros. Nas penitenci\u00e1ria, somos a extrema maioria, assim como a maior parte da popula\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel. N\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios muitos dados para visualizar o racismo escancarado no Brasil, ainda que muitos acreditem ser velado.<\/p>\n<p>O racismo desenvolve-se no Brasil numa s\u00edntese capitalista. Ou seja, forjou-se um sistema cuja l\u00f3gica de explora\u00e7\u00e3o baseou-se na for\u00e7a de trabalho inicialmente ind\u00edgena e posteriormente negra. Esse sistema de explora\u00e7\u00e3o denominado escravid\u00e3o perdurou por 388 anos. Hoje, n\u00e3o denominamos escravid\u00e3o, mas compreendemos como uma forma similar, mas que se apresenta atrav\u00e9s de uma superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, lograda por longas jornadas, baixa remunera\u00e7\u00e3o e p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de condi\u00e7\u00e3o de trabalho. Al\u00e9m, claro, de se engendrar atrav\u00e9s de uma economia capitalista orientada para atender os interesses imperialistas (das grandes pot\u00eancias capitalistas), em que o desemprego condicionou um processo intenso de explora\u00e7\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra, a principal atingida pelo desenvolvimento capitalista orientado pela burguesia.<\/p>\n<p>Compreendendo a hist\u00f3ria que nos trouxe at\u00e9 aqui, entendemos os m\u00faltiplos fatores desencadeados nesse processo hist\u00f3rico-econ\u00f4mico e social, bem como as ra\u00edzes do racismo e da marginaliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra, que se evidencia tamb\u00e9m pela falta de representatividade em v\u00e1rios espa\u00e7os sociais.<\/p>\n<p>Nesse sentido, faz-se importante homenagear intelectuais e figuras pol\u00edticas negras que marcaram nome na hist\u00f3ria, assim como \u00e9 preciso forjar-se na luta no intuito de se organizar contra todas as formas de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o que se apresentam articuladas nessa sociedade de classes.<br \/>\nMinervino e Marielle s\u00e3o exemplos de lideran\u00e7as a serem seguidos e que mostraram sua for\u00e7a atrav\u00e9s de uma batalha antirracista que nos atinge diretamente todos os dias. Uma for\u00e7a que apavorou a burguesia e seus grupos escusos, como s\u00e3o as mil\u00edcias hoje no Rio de Janeiro, com forte liga\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia Bolsonaro.<\/p>\n<p>O assassinato de George Floyd por um policial supremacista branco nos EUA reacendeu em plena pandemia a f\u00faria da popula\u00e7\u00e3o negra. Milhares de pessoas sa\u00edram \u00e0s ruas conscientes da viol\u00eancia policial e o genoc\u00eddio em curso por parte do Estado. As manifesta\u00e7\u00f5es antirracistas no centro do imperialismo influenciaram milhares de protestos no restante do planeta, infelizmente chegando ao Brasil ap\u00f3s os recentes assassinatos de duas crian\u00e7as, Jo\u00e3o Pedro no Rio de Janeiro e de Miguel Ot\u00e1vio em Recife.<\/p>\n<p>Nos EUA, a morte de George Floyd foi o estopim para o povo preto, mesmo diante da pandemia e da forte repress\u00e3o estatal norte-americana, o que n\u00e3o impediu o povo de tomar as ruas e exigir justi\u00e7a pela execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O fim do racismo \u00e9 inconceb\u00edvel sem pensarmos o papel do dirigente negro na luta pela emancipa\u00e7\u00e3o da humanidade. Se o racismo \u00e9 inexor\u00e1vel para o desenvolvimento do capitalismo, n\u00e3o podemos tergiversar quanto \u00e0 estrat\u00e9gia para derrot\u00e1-lo: temos de superar essa sociedade de classes, destruindo o sistema capitalista que a sustenta.<\/p>\n<p>Como podemos notar pelo desenvolvimento hist\u00f3rico, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a concilia\u00e7\u00e3o e nem para recortes ou \u201csolu\u00e7\u00f5es\u201d de cunho individualista, a fim de anunciar novas formas de inclus\u00e3o (como o empreendedorismo, \u201cblack Money\u201d etc.) que n\u00e3o passam de subterf\u00fagios para dividir a classe e fraturar uma a\u00e7\u00e3o coletiva e coerente que deve ser mediada por uma teoria revolucion\u00e1ria, alinhada a um movimento internacional e em conjunto com os demais explorados e rejeitados.<\/p>\n<p>Diagnosticada at\u00e9 ent\u00e3o pelo velho barbudo h\u00e1 pelo menos 150 anos, quando j\u00e1 denunciava a escravid\u00e3o nos EUA, em que \u201co trabalho de pele branca n\u00e3o pode se emancipar onde o trabalho de pele negra \u00e9 marcado a ferro\u201d, o racismo mostra suas ra\u00edzes profundas em deslegitimar e eliminar negros e negras que se colocam contra a sua hegemonia e funcionamento. Quando n\u00e3o opera por meio da trucul\u00eancia, coopta, como j\u00e1 mencionamos anteriormente, atrav\u00e9s de mecanismos liberais e individualistas, com falsas solu\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o passam de ideologia.<br \/>\nSer dirigente negro na luta de classes \u00e9, como disse Angela Davis, &#8220;n\u00e3o aceitar mais as coisas que n\u00e3o podemos mudar, mas mudar as coisas que n\u00e3o podemos aceitar&#8221;.<\/p>\n<p>O movimento antirracista deve colocar-se em movimento reivindicando os l\u00edderes, como Malcolm X, Samora Machel, Fred Hampton, assim por diante, que contribu\u00edram para cumprir uma tarefa heroica e necess\u00e1ria contra a nossa explora\u00e7\u00e3o. Promovendo a unicidade entre luta antirracista, as lutas contra as opress\u00f5es e a luta pela revolu\u00e7\u00e3o. O papel do dirigente negro \u00e9 assim organizar a luta antirracista de forma consequente, unificada, atrelando as lutas mais imediatas das comunidades \u00e0s lutas mais gerais pela emancipa\u00e7\u00e3o humana. Sem retroceder nenhum passo, sem naturalizar qualquer tipo de opress\u00e3o nas fileiras do movimento revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Os dias n\u00e3o ser\u00e3o os mesmos daqui em diante. N\u00f3s, negros e negras, de forma organizada e com uma teoria revolucion\u00e1ria, devemos nos colocar diante das tarefas mais urgentes desse pa\u00eds em conformidade com in\u00fameras lutas internacionais, acabar com o racismo e lutar pelo fim do capitalismo na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista.<\/p>\n<p>* Militante do PCB e da Unidade Classista-BA.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25700\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[124],"tags":[224],"class_list":["post-25700","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c137-coletivo-minervino-de-oliveira","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6Gw","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25700","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25700"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25700\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25700"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25700"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25700"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}